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Oriundo do fenômeno da pauperização e das desigualdades sociais vivenciadas, verifica-se no município de Blumenau, o crescente processo de favelização e de segregação urbana. Informações disponibilizadas no Plano de Habitação Municipal de Interesse Social – PHMIS notificam a identificação de 55 áreas como assentamentos precários, onde vivem 11.337 famílias. Nessas áreas nenhum domicílio tem sistema de esgoto e apenas 13 das 55, ou seja, 23,6% apresentam fossas sépticas. Destas 55 áreas, 17 são consideradas favelas32 - Zonas de Interesse Social, que abrigam cerca de 23.000 pessoas (PHMIS, 2011, p. 9-15).

Assim, a pobreza e riqueza como fenômenos indissociáveis e produzidos socialmente na lógica da acumulação de capital, explicitam a relação histórica entre trabalho e questão social é substancial e oferece os elementos analíticos da realidade e dos processos de exploração que estão sujeitos os trabalhadores. Estudo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, divulgado no Jornal Notícia do Dia33, apontam que Blumenau e Florianópolis são as cidades com mais favelas no estado de Santa Catarina, conforme ilustra imagem abaixo:

32 Localizada nos loteamentos Cidade Jardim I, Cidade Jardim II, Coripós, Morro da Figueira, Morro da Laguna, Morro do Valério, Morro Dona Edith, Rua Araranguá, Rua Benjamin Franklin, Rua Gervásio João Sena, Rua Gustavo Zeck, Rua Pedro Krauss Sênior, Toca da Onça, Vale do Selke, Vila Bromberg, Vila Jensen e Vila União.

33 Disponpivel em http://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/cerca-de-4-da-populacao- da-de-florianopolis-vive-em-submoradias. Acesso em 23/01/2017

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Figura 2 - As favelas em Santa Catarina

Fonte: Site Notícias do Dia

O panorama acima apresentado diverge da imagem de cidade ordeira e próspera veiculada nos meios de comunicação, mostrando que Blumenau encobre as desigualdades sociais nas periferias dos bairros e que os trabalhadores, boa parte dos quarterizados, estão localizados em regiões afastadas do centro urbano e locais de turismo.

Por meio das entrevistas e considerando os locais e condições de moradia das famílias visitadas, pode-se afirmar que as formas de precarização estão concatenadas aos processos de flexibilização e de informalização e que os trabalhadores nas condições mais degradantes de trabalho se encontram escondidos nos morros ao arredor da cidade. Pode- se afirmar que a concentração dos trabalhadores quarterizados nas periferias dos bairros é uma forma eficiente de mascarar as desigualdades sociais e escapar dos processos de fiscalização do trabalho.

As narrativas a seguir apresentadas reiteram que a exploração da força de trabalho permanece a base de sustentação da sociedade capitalista, mesmo com o avanço científico e incremento tecnológico disponível ao aprimoramento da extração da mais valia relativa. No século XXI, presencia-se uma redefinição no modus operandi no sistema fabril, no qual a retomada de estruturas que se assemelham às manufaturas no século XIX, como por exemplo, as facções em espaço domiciliar, “reaparece” como uma importante estratégia de subsunção real do trabalho ao capital no processo de acumulação flexível.

O estudo em tela capta que os modos de produção não são resultantes simétricos e estáticos do desenvolvimento sócio-histórico, ainda que perdurem por séculos, mas como formas, modos de existência do ser social que funcionam e operam efetivamente na vida em sociedade, independente do conhecimento que os homens tenham a seu respeito e do entendimento da sua dinâmica social.

Nesta pesquisa, o trabalho quarterizado nas facções e as formas pretéritas de produção associadas a ideologia do empreendedorismo permitem ao capitalista explorar trabalhadores domiciliares ditos “independentes”, de maneira interdependente, mantendo-os sob seu comando e seu controle oportunizadas pela automação. Para identificar como essa dinâmica se efetiva e atinge os trabalhadores no setor demonstra-se-á como esses constituem as facções, quais as motivações e incentivos colaboraram para essa condição e como se estalecem e presenciam essas relações sociais.

4.3.2 Sobre as facções

O faccionismo não é uma nova prática imposta pelo estágio atual de acumulação do capital e nem que esta propensa a desaparecer, com a superação das formas pretéritas de trabalho. A perspectiva aqui analisada se coaduna com a assertiva de Colli, quando afirma que “ao contrário, torna-se parte essencial da estratégia de acumulação do capitalismo contemporâneo, em que, por meio do faccionismo, entende-se concretamente a dialética da reorganização das bases do processo de acumulação flexível de trabalho” (COLLI, 2000, p.14).

Das 09 (nove) pessoas entrevistadas, 07 (sete) relatam que as facções as quais se vinculam foram criadas nos últimos dois anos (2014- 2015)34, com ressalva de uma facção que foi constituída há 13 anos e a outra há 05 (cinco) anos. Referente ao grupo de entrevistadas que

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possuem a facção a menos de dois anos constatou-se que duas trabalhadoras iniciaram as atividades de costura recentemente, no ano de 2015 e as outras já abriram e fecharam as facções domiciliares por várias vezes. Os fatores que justificam o fechamento das facções foram: as oscilações na demanda produtiva – “períodos com pouca produção ou não repasse de serviços”, instabilidade salarial; desgaste com o processo de trabalho (exaustão ocasionada por extensão da carga horária e aumento ritmo do trabalho) ou por serem enganadas pelos contratantes, ou seja, vítimas de “calote”35.

No que diz respeito a essa oscilação, Rosa36 expõe que iniciou com a primeira facção em 1999, quando os filhos nasceram. Conforme a entrevistada

Na verdade comecei quando nasceu meu filho, que tem uma deficiência. [...] Mas como a rotina era muito pesada e tinha momentos que tinha muita produção, eu sempre acabava desistindo. Eu desistia porque a gente não conseguia ninguém para ajudar. Já tive cinco facções. Eu já tive outras, mas a gente teve uma crise e eu tive que vender (as máquinas). Só que deu um problema na empresa e o serviço fracassou (referindo-se à experiência com a facção anterior). Fiquei sem serviço naquela época e não cheguei a falir (pois) comecei a fornecer para outra empresa. Essa é quinta facção e atualmente possuo cinco máquinas locadas. O relato de Rosa demonstra as dificuldades da prestação de serviço no ramo de confecção, o qual ocorrre momentos de muita produção que expõem a necessidade ampliar o número de trabalhadores envolvidos nas atividades de costura, entretanto, nem sempre localiza pessoas interessadas ou consegue contratá-los em tempo hábil de efetuar o contrato firmado. Nesse caso, para realização do pedido excede a jornada de trabalho e intensifica ainda mais o ritmo da produção, envolvendo inclusive outras pessoas da família na ação. Essa condição de trabalho quarteirizado gera extrema pressão, fonte causadora de angústia e estresse.

Em outros momentos, totalmente diferente dessa circunstância, quando não existe o repasse de peças para costurar, a família encontra