4 PROCEDIMENTOS E ANÁLISES
4.5 Entrevistas aos representantes da Sesu e DGES
A Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação localiza-se no Distrito Federal na cidade de Brasília, capital do Brasil, onde entrevistei o diretor de políticas e
programas de ensino superior do ministério da educação. Em Portugal, entramos em contato via internet com a direção geral de ensino superior. No caso de Portugal o sr. Chefe do Gabinete do Secretário nos enviou as atribuições da Direção Geral de Ensino Superior e respondeu-nos, com muito acolhimento, que não era atribuição da DGES, definir currículo e projeto políticos das instituições de ensino superior, pois elas têm autonomia universitária nas diversas estâncias, como a de gestão. Abaixo a resposta que recebemos:
Em Quinta-feira, 10, Setembro 2015 7:20:54, escreveu: Bom dia Flávia,
Como certamente saberá as Universidades e Politécnicos em Portugal gozam de larga autonomia científica e pedagógica. Assim a Secretária de Estado não dispõe de competências específicas em qualquer domínio científico como é o caso da matéria constante da sua tese.
Sem embargo estaremos sempre à sua disposição para o que entender útil, relacionado com as funções políticas de regulação do ensino superior em Portugal.
Fazemos votos de sucesso na conclusão da sua investigação e apresentamos os nossos melhores cumprimentos
Chefe do Gabinete
A entrevista estruturada foi elaborada com o objetivo de compreender o papel das instituições gestoras do ensino superior nos dois países, na promoção da formação para a cidadania. Como estas instituições governamentais são responsáveis pelas diretrizes nacionais do ensino superior, as questões apresentadas foram:
1. Identificar quais as preocupações que a Sesu (DGES) tem com as licenciaturas (Mestrados em Ensino)que são voltadas para a formação pra cidadania.
2. Existe alguma preocupação do Ministério da Educação em priorizar a cidadania nas diretrizes curriculares dos cursos de formação inicial de professores, já que não aparece em documentos legais deste nível de ensino, ao contrário das diretrizes curriculares da Educação Básica?
3. Existem programas ou projetos de formação para a cidadania de âmbito nacional que o Ministério da Educação promove ou incentiva?
A entrevista com Diretor da Secretaria do Ensino Superior do Ministério da Educação foi realizada em Brasília, em 30 de setembro de 2013.
As questões foram apresentadas logo no início, a pedido do próprio professor, alegando o tempo curto e a melhor organização das respostas. Mesmo assim, as respostas transcritas das três questões foram diferentes do que eu imaginava, pois o professor muitas vezes, misturava uma resposta a outra com argumentos que não respondiam diretamente as
questões que eu fazia. Ele apresentava inúmeros dados sobre inclusão, mas não especificava as questões em relação a formação para a cidadania. Deu muita ênfase aos programas que o Ministério da Educação tem com as licenciaturas das universidades públicas, (Pibid e Pró- Docência) e reforçou o discurso da distância entre diretrizes curriculares, licenciaturas e escola, como questão de impasse para formação mais cidadã. Abaixo apresento trechos da fala do diretor:
Questões 1, 2 e 3:
[...] Na política, qual é a preocupação de formação, a preocupação é a mesma que está nas diretrizes curriculares e nacionais pras licenciaturas, então é isso, não tem nada assim especificamente que agente possa dizer, isso aqui vai formar o cidadão, não, o conjunto de coisas que estão previstas nas habilidades e competências e no perfil profissional que já fazem com que o indivíduo tenha uma formação geral pra vida que depois é cobrado no Enade então o pessoal normalmente confunde conhecimentos gerais, não é conhecimentos gerais que elas dizem, estão enganadas é formação geral, essa é a formação pra vida e sociedade, né? Então você poderia dizer que esta é uma formação mais especificamente voltado para a convivência do que propriamente voltada a aquisição de conteúdos, embora pudesse argumentar que a aquisição de conteúdos é fundamental, não tem o lado da formação profissional e sim fica ai a formação mais geral, agora algum programa apresenta esta preocupação .
Mas, qual é a ótica do programa Pibid? Ele tem sentido extremamente importante esse é um programa que está ai com quase 50 programas, quase 100 mil bolsas no valor de 400 reais, busca uma articulação muito forte na pós-graduação, na graduação e especialmente na graduação com a escola, por isso que pela primeira vez tem bolsas de vários tipos, tem a bolsa do professor lá na escola ou seja, tentamos valorizar esse professor agora em termos de formação é a ideia de que o aluno que se forma em licenciatura, se forme pelo menos tendo o conhecimento da realidade da escola, ou seja, não vai descobrir a escola depois que se formar, agora ele pode passar os 4 anos de sua licenciatura atuando na escola como bolsista do PIBID, e ele pode renovar dois anos e mais dois anos, então pode ficar os quatro anos, se for constantemente aprovado, mas eu acho que é um programa que dá uma formação muito maior do que a formação unicamente profissional, isso eu acho que tu poderias colocar no teu rol de questões para a formação da cidadania. Ele vai ser um cidadão professor, professor-cidadão, ai tu vai entender sua realidade.
Já o outro programa Pró-Docência tem o sentido um pouco diferente, ele não é propriamente um programa de formação direta, ele é um programa de formação mais indireto, indireto em que sentido? Porque, a gente descobre muitas vezes nos currículos especialmente das Universidades Federais, mas de outras também falo mais das federais porque já observei isso com mais atenção nas federais e que frequentemente, nós temos currículos que não se adaptaram as diretrizes curriculares nacionais, né? As diretrizes já têm uma boa história e não se adaptaram, então olhando as diretrizes curriculares nacionais, projetos pedagógicos e Enade.
Fato é que você tem um grande descompasso, então a primeira coisa é isso, só que nós não queremos que seja só esse triangulo, queremos também que entre diretrizes curriculares, projeto pedagógico e Enade há uma coisa chamada escola que é a mais importante para assegurar uma adaptação, buscando se adequar a realidade que você efetivamente ensina.
E, em seguida, cita a importância da Política Nacional de Formação dos Profissionais do Magistério da Educação Básica:
[...] Essa política que é a de janeiro de 2009, (Decreto, 6.755, 29 jan. 2009), eu acho que ela é uma política importante embora eu tenho a clareza que ela por si
só é extremamente ineficaz porquê? Por que assim como o próprio Parfor, que é o Plano Nacional de Formação dos Professores, todos são bons programas, mas pra garantir a formação dos professores iriam precisar de algumas coisas mais agressivas, pois o piso salarial está criado, programa de valorização, o Parfor tá criado com valorização da educação continuada, mesmo com esta possibilidade de valorizar o professor atuante na rede e aí quando tu olha os números do senso da educação se vê que as licenciaturas estabilizaram, elas não crescem e alguns casos até diminuindo. Então...Olha o que se tem, Um número de candidatos e um número de matriculas; matriculas efetivas e de concluintes irrisório.
Nos últimos três anos, houve uma pequena queda no número depois de uma pequena retomada e daí estabilizou de novo, mas não chegou nem no patamar do que era a cinco ou seis anos atrás. Por causa da crise sistêmica que nós tivemos no país, ou seja, não adiantou estabelecer uma lei federal se quem contrata, quem nomeia, quem abre concurso, quem cuida dos professores são os Estados e Municípios, então você tem esse impasse, enquanto essa crise no sistema não estiver resolvida, se não tiver uma valorização efetiva da carreira dos docentes e não é só salário, mas eu acho que salário é a questão principal, mas precisa de mais, precisa de uma carreira que o sujeito sinta que se ele continuar naquela carreira ele tem uma perspectiva boa de futuro que vai chegar ao fim da carreira né!
Valorizado, ou seja, não estabiliza no primeiro ano sua carreira que desmotiva se não houver oportunidade de crescimento, todo mundo fica desmotivado, então tem que ter uma carreira que talvez o pecado da lei do piso é que talvez ela não veio acompanhado de diretrizes de carreira, que cada estado e cad a município tem a sua e então você acabou escrevendo um texto sobre textos existentes, né? E eu acho que é meio rabiscado então, é.
Agora com PNE eu acho que nós temos a grande possibilidade de dá a virada, qual é a possibilidade? A meta é de, por exemplo, criar escolas em tempo integral, né? 50% das escolas devem estar em tempo integral, até 2020, ter equivalência salarial do professor com profissionais com os mesmos anos de formação com a média de [inaldível...] e a perspectiva é que vai ter dinheiro, né? Com 10% do PIB ancorado no pré-sal e coisa e tal, então estas conquistas mais recentes agora o PNE já tá saindo até fevereiro ele vai estar certamente aprovado, então eu acho que as perspectivas são muito boas pras licenciaturas daqui uns anos.
A entrevista foi interessante do ponto de vista das políticas que o ministério implantou durante o último mandato do Presidente Lula, com programas de incentivo a docência nos cursos de Licenciaturas nas instituições públicas. O entrevistado deixou claro que não existe nenhuma preocupação com a formação para a cidadania especificamente, além das apresentadas nas Diretrizes Nacionais. Todavia, percebe-se que o próprio diretor da Secretaria do Ensino Superior reconhece a necessidade de programas e planos de valorização mais eficazes, entretanto, sabe da discrepância existente entre as políticas nacionais e as instâncias menores como a gestão educacional feita pelos Estados e pelos Municípios. Outra característica que o Diretor defende do governo vigente é a defesa da participação dos lucros do pré-sal na educação Brasileira. Já que este promete ser o grande projeto de enriquecimento e auto gestão energética Brasileira. E consequentemente compromete todas as expectativas do Plano Nacional de Educação ser realmente implementado.
O entrevistado, em muitas situações, concluiu as respostas com a experiência vivênciada como reitor universitário e professor de licenciatura, entretanto por também ocupar um cargo de confiança do governo, não apresentou a questão da formação cidadã como preceito fundamental da formação inicial, ou mesmo da didática do ensino superior. O que chamou atenção, já que o cargo comissionado se pronunciava com maior tônica do que o perfil formativo e carreira acadêmica como formador de professores.
CAPÍTULO 5