CAPÍTULO 1 – DENTRO DA ESCOLA E COM AS PESSOAS
1.6 Entrevistas
Quase todas as entrevistas aconteceram em uma sala pequena considerada biblioteca da escola, a qual acomoda muitos livros, mesas, bancos e materiais de papelaria que ficam à disposição para uso das professoras. O local foi indicado pela coordenadora como um espaço de pouco acesso na escola e, de fato, as crianças não frequentam aquele espaço, apenas os adultos acessam aquela sala para pegar algum livro ou material, o que aconteceu durante algumas entrevistas. Fora esse espaço, as entrevistas com a estagiária e com uma das agentes escolares, assim como uma parte da entrevista com uma das professoras, aconteceram em alguma sala de aula que não estava sendo ocupada nas ocasiões.
As entrevistas com as mães das crianças envolvidas em conflito, com a coordenadora, com a estagiária e com uma das agentes escolares aconteceram em uma única etapa. Em geral, há o seguinte cenário: (1) a entrevista com as crianças aconteceu em duas etapas, considerando o tempo de concentração e demonstração de interesse das mesmas; (2) a entrevista com uma das agentes escolares aconteceu em duas etapas devido à emoção da entrevistada31; (3) a entrevista com as professoras ocorreu em três, quatro e seis etapas. Nos
dois primeiros casos, justifica-se pela falta de tempo, e, no terceiro caso, pelo detalhamento, exemplificações e relações que a entrevistada fazia em cada questão.
Ao início de cada entrevista, a pesquisadora retomava que a intenção da pesquisa era investigar a representação dos sujeitos sobre conflito e justiça a fim de verificar o que se aprende na escola sobre relações de poder e justiça por meio da maneira que a escola faz a mediação e busca a resolução de conflitos. Após explicar que a entrevista era um espaço seguro e respeitoso, no qual a pessoa podia ficar à vontade inclusive para recusar-se a responder ou conversar sobre alguma questão, foi solicitada a autorização para gravar a conversa explicando que essa ação era importante para o momento de transcrição e análise das entrevistas.
Ademais, foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ou Termo de Assentimento Livre e Esclarecido. Todas as entrevistadas concordaram e, em duas ocasiões, duas professoras pediram para parar de gravar a fim de que elas pudessem exemplificar o que estavam dizendo. Isso porque elas relataram situações em que havia nomes de forma negativa.
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Durante as questões relacionadas à trajetória pessoal e familiar a entrevistada, que trazia profundidade e riqueza de detalhes nas suas recordações e respostas, emocionou-se e foi preciso interromper os questionamentos para acolher a emoção e dilemas que a entrevistada começou a expor. Essa parte não foi transcrita, pois, por mais que trouxesse elementos significativos para a análise das suas representações, tratava-se de questões íntimas que foram preservadas em respeito à entrevistada.
Nessas duas ocasiões, as pessoas mencionadas eram hierarquicamente superiores às professoras.
Outro aspecto interessante da entrevista é que a pesquisadora, inicialmente, também esclarecia sobre a importância do anonimato da escola e das pessoas, além disso solicitava que a própria entrevistada dissesse por qual apelido gostaria de ser identificada. Algumas já diziam logo de cara e outras pensavam para dizer seus apelidos ao longo ou após o fim da entrevista. O que chama a atenção é o quanto esse processo favoreceu também a participação das entrevistadas e a relação com a pesquisadora, pois à medida que indicavam seu nome, apresentavam aspectos mais subjetivos da sua identidade, dialogando sobre o porquê da escolha daquele apelido bem como o sentido que aquilo fazia para elas.
Os motivos podiam ser dos mais singelos como os da estagiária Heloísa. Ela disse ser um nome que ela sempre gostou e queria ter. Madá escolheu esse apelido para homenagear alguém. Fernanda disse que era o nome que a mãe queria lhe dar e o pai trocou na hora de registrar. Durante essas explicações, a pesquisadora aproximou-se e compartilhou histórias de vida com as entrevistadas, fato que ajudava no estabelecimento da empatia e de relações mais estreitas, deixando o ambiente agradável e leve.
O compartilhamento de histórias, no início da entrevista, foi uma ação intencional da pesquisadora, dada sua contiguidade com a realização de círculos de construção de paz, bastante usado nas práticas de Justiça Restaurativa. Isso porque as histórias, que são elementos chave nos círculos restaurativos, possibilitam o reconhecimento da humanidade do outro, estabelecem conexões e identificações que transpõem as barreiras de proteção e distanciamento daquele que “eu” não conheço, além de levar a uma compreensão maior entre as pessoas (PRANIS, 2010, p. 56).
Algumas entrevistadas revelaram elementos mais subjetivos na escolha de seus nomes. Carla, por exemplo, gosta muito de uma música com esse nome e sente-se emocionalmente muito tocada quando a escuta. Sonhadora disse insistir em manter seus sonhos sobre a educação e a vida apesar de tantas adversidades da realidade. Já Vitória foi mais objetiva, dizendo que a sala de aula é uma luta árdua e será uma vitória que ela e as crianças da sua turma sobrevivam à essa luta.
As crianças também revelaram elementos do seu contexto ao escolherem seus apelidos. Álysha e Bibi escolheram nomes de youtubers que seguem e relataram os aspectos pelos quais admiram essas pessoas bem como os conteúdos dos seus vídeos.
Com Frozen, a pesquisadora precisou conter a emoção e não conseguiu avançar na história da escolha do seu apelido. A breve justificativa da menina revela que ela é alvo de
chacotas racistas. Ela queria ser chamada de Frozen, uma vez que a personagem “tem uma mão muito branquinha e no seu cabelo dá para fazer tranças”.
1.6.1 - Perfil das entrevistadas
Com o intuito de sistematização do perfil das entrevistadas, foram elaborados quadros com as informações objetivas, sendo que as subjetividades e particularidades de cada uma das entrevistadas reveladas durante a entrevista constam nas análises dos capítulos seguintes.
Os Apêndices H, I, J e K apresentam os quadros resumos das entrevistas com a caracterização sobre as entrevistadas e sobre o conteúdo das entrevistas. Eles foram preenchidos a partir das informações coletadas durante as entrevistas, expressas nas falas, bem como de forma indireta, tais como aspectos indicados nos quadros de caracterização como “indícios”.
Exemplificando, Frozen não disse diretamente que os conflitos são mais recorrentes em sala de aula, mas as situações de conflito trazidas para explanação a essa questão aconteceram na sala de aula. Portanto, no quadro, há a expressão “indícios de que os conflitos acontecem na sala de aula”.
Por outro lado, as informações que não foram coletadas de forma direta ou indireta, como no exemplo retro, constam como “sem informações” ou “infere-se”, sendo que, neste último caso, foi possível à pesquisadora inferir o que se apresentou a partir da interpretação da linguagem corporal ou da observação e contato com a entrevistada durante a entrevista ou em outras situações fora da entrevista.
É interessante observar que algumas características e traços da personalidade das entrevistadas, bem como a relação estabelecida com a pesquisadora, também influenciaram o preenchimento dos quadros de caracterização. Bibi, que se mostrava tímida e ao mesmo tempo segura, ofereceu respostas curtas e objetivas estritamente ao que foi questionado, fazendo com que sua coluna no quadro tenha a maior parte de expressões literais apresentadas pela entrevistada.
Frozen mostrou-se mais descontraída e expressou-se através de histórias que ilustravam as indagações da pesquisadora. Dessa maneira, sua coluna, no quadro de caracterização, apresenta-se com muitos “indícios”.
Com Vitória, a relação da pesquisadora foi mais próxima, pelo acompanhamento sistemático da sua turma, conjuntura que possibilitou à pesquisadora realizar mais inferências e o que, por sua vez, revelou-se importante à proporção que Vitória contou longas histórias e fez diversas relações, algumas vezes distanciando-se e até mesmo esquecendo a questão que
foi apresentada. Sua entrevista foi a mais longa, tendo sido realizada em seis encontros totalizando 5h18min de áudio gravado.
Certas falas são bastante ilustrativas ou resumem a questão posta, e, por esse motivo, algumas são transcritas, aparecendo entre aspas e em itálico. Por exemplo, no caso de Carla, consta “parece que sou minha mãe” na linha em que é indicada a disiciplinarização na família de origem e na família atual. Carla tinha um pai que ficava agressivo pelo consumo abusivo de álcool e sua mãe a educava ameaçando envolver ou direcionar ao pai as coisas que queria limitar ou que não queria permitir aos filhos. Atualmente Carla é casada com um militar de postura incisiva e reproduz a mesma estratégia de disciplinarização da sua mãe com a sua filha, envolvendo, ameaçando envolver ou direcionando ao marido quando sente a necessidade de um controle mais rígido em relação à conduta da filha.
A seguir, é apresentado um quadro sobre o perfil das entrevistadas com o propósito de que o leitor possa compreender a posição de cada uma e as motivações que as conduziram a ser sujeitos da pesquisa.
Quadro 02 – Perfil das entrevistadas
ENTREVISTADA POSIÇÃO IDADE MOTIVO DA ENTREVISTA
C
R
IAN
Ç
AS Álysha Educanda 08 anos
Considerada vítima na situação de conflito mediada pela coordenadora Bibi Educanda 08 anos Considerada vítima na situação de conflito
mediada pela coordenadora
Frozen Educanda 08 anos Considerada agressora na situação de conflito mediada pela coordenadora
M
ÃE
S Fernanda Pais /
responsáveis 33 anos
Mãe de Bibi, educanda do 3º ano envolvida em situação de conflito e considerada vítima Valenttina Pais /
responsáveis 34 anos
Mãe de Álysha, educanda do 3º ano envolvida em situação de conflito e considerada vítima
E QU IP E E S C OL AR Carla Professora Coordenadora Pedagógica
37 anos Mediadora do conflito entre as educandas / idealizadora do projeto de disciplinarização Heloísa Estagiária 20 anos Acompanha as crianças com deficiências
inclusas na classe da professora Vitória Madá Professora 33 anos Professora da classe de 1º ano com práticas
diferenciadas
Sara Agente Escolar 61 anos Funcionária responsável por cuidar das crianças nos espaços fora da sala de aula Sonhadora Professora 54 anos Professora da classe de 2º ano em que o projeto
foi implementado
Vera Agente Escolar 26 anos Funcionária responsável por cuidar das crianças nos espaços fora da sala de aula Vitória Professora 58 anos
Idealizadora do projeto de disciplinarização / professora da classe de 1º ano em que o projeto
O quadro 2 sintetiza o perfil das entrevistadas e, como dito anteriormente, nos Apêndices H, I, J e K, encontram-se outros quadros com alguns indicativos que facilitam a análise e comparação das respostas obtidas com a realização das entrevistas.
A análise das manifestações será expressa nos capítulos seguintes, apresentando o que foi coletado através (1) das entrevistas, (2) da observação e (3) da análise dos registros de ocorrências. Pretende-se não apenas relacionar os dados e informações entre si, mas também mobilizar os conceitos e as discussões à luz do referencial que embasa a pesquisa.
CAPÍTULO 2. EDUCAÇÃO: CAMPO DE LUTAS POR SENTIDOS E PROJETOS DE