ciclos interativos e dialéticos entre esboços e o próprio
3. Entrevistas: objectivos, tipologia e tratamento
O método da recolha de depoimentos teve como objetivo conhecer melhor o trabalho dos entrevistados e daí perceber como o desenho participa nos seus processos criativos e os influencia (ou não) na procura da melhor solução, independentemente do uso do desenho ser tradicional ou digital. As entrevistas são realizadas através de uma tipologia de semi-diretiva. Embora tenha sido dada a oportunidade ao entrevistado de expressar a sua visão sobre o tema, este tipo de entrevista consiste em ter a presença de um guião com questões planeadas e colocadas pela autora mas sem necessariamente seguir a ordem do guião. Por escassez de respostas aos convites, no total foram obtidos quatro depoimentos. Três deles contaram com a presença do entrevistado e, no outro, devido à impossibilidade de ambas as partes se reunirem, a entrevista foi enviada através do correio eletrónico com um guião mais detalhado, para incutir a sensação de uma entrevista presencial e dar à entrevistada liberdade para se expressar, tendo sido posteriormente devolvida com o testemunho. No decorrer das entrevistas iam sendo colocadas algumas questões que suscitassem dúvida e, em alguns casos, nem todas as questões do guião foram colocadas, devido a respostas já dadas que respondiam a essas mesmas questões. Em todas entrevistas presenciais recorreu-se à gravação de áudio com o consentimento dos entrevistados e à recolha de imagens de esboços. Todas as entrevistas depois de transcritas para um documento Word foram devolvidas a cada entrevistado para dar a oportunidade de lerem e
2. Métodos para recolha de dados
confirmarem o texto tomando conhecimento também do que iria constar no documento de dissertação. A todos os entrevistados foi dada a oportunidade de retificar e melhorar o texto à sua medida. A recolha de imagens foi feita através de fotografia, digitalização ou envio pelos entrevistados através do correio eletrónico. Estas imagens foram solicitadas com o objetivo de as analisar, apresentar uma área dentro do design de comunicação e mostrar diferenças entre entrevistados. Mostram também como o uso do esboço —comum a todos — pode ser um meio para alcançar a ideia criativa independentemente da idade, formação ou área que privilegiam dentro do design de comunicação, ou área que lhe está associada, como é o caso da ilustração. A entrevista teve também como objetivo perceber que suportes os entrevistados utilizam e como se articulam com a criatividade. O tema das tecnologias está presente em todas as entrevistas de forma a responder também às questões de investigação. Este tipo de entrevista permitiu- nos perceber as diferenças que existem na utilização do desenho como impulsionador das ideias em matérias como as que estudamos e como as tecnologias, suportes e técnicas podem beneficiar ou não o lado criativo do designer.
Todas as entrevistas estarão completas apenas nos anexos; neste capítulo será apenas realizada uma breve nota biográfica de cada entrevistado e uma síntese da entrevista. Serão também mostrados alguns esboços – como referido acima — e trabalhos finais fruto desses mesmos esboços com o intuito de sustentar a nossa investigação.
3.1. Guião de entrevista pessoal
Como foi referido anteriormente, a entrevista semi-diretiva é caracterizada pelo uso de um guião. O guião utilizado é constituído por oito questões base. As questões nem sempre foram colocadas de forma rígida e à letra. Foi dada a liberdade de resposta ao entrevistado, sem limite de tempo, para se obter mais informações. Todas as questões foram pensadas e cada uma tem a sua justificação e propósito.
O início das entrevistas começa sempre por uma introdução ao tema e uma questão pessoal adaptada a cada entrevistado que os obriga a pensar como se interessaram pelo uso do desenho e se alguém influenciou o seu percurso. Esta primeira pergunta é também de certa forma uma questão que lhes traz nostalgia e os faz discorrer sobre vários assuntos ligados ao desenho, como por exemplo a forma como aprenderam a desenhar. A seguir,
imagens existentes ou tende a investigar o problema primeiro?” para
conseguirmos compreender o percurso que o entrevistado faz a partir do momento em que o problema se encontra exposto. As respostas também irão revelar se as ideias surgem de imediato, sem recurso a um esboço prévio. A terceira pergunta, “Assim que surge a ideia, qual a sua primeira reação?”, tem como intenção saber se o entrevistado começa por esboçar no instante que tem a ideia ou se fica a pensar sobre o assunto. De seguida é perguntado
“Se esboça, em que suportes o faz?”, questão sempre adaptada à resposta
anterior e que, na maioria dos casos, é sucedida pelo inquérito aos suportes, no sentido de se perceber se há algum(ns) que interfira(m) ou facilitem a resposta criativa, se é o papel a deter a exclusividade nesta primeira fase de trabalho e se existem suportes, técnicas ou tecnologias que possam de alguma forma quebrar o fluxo da criatividade pela falta de manuseamento direto e sensorial dos materiais, por exemplo.
A quinta questão, “Considera que o desenho tenha um papel importante na
fase inicial de um projeto?” é realizada com o objetivo de ouvir a opinião de
cada entrevistado sobre a utilização do desenho em projetos de design, mais concretamente na fase inicial, nomeadamente quando recebe um briefing de um cliente.
A pergunta seguinte, “Como concilia o desenho tradicional com as
tecnologias informáticas no seu processo de trabalho?”, pretende explorar
o processo de trabalho de cada um, face às tecnologias que atualmente permeiam no nosso dia-a-dia, como por exemplo mesas de luz ou mesas gráficas, e compreender de que forma cada um as utiliza na geração da ideia. A sétima questão elaborada foi “Como define o seu processo digital em
termos de desenho? É desenho? É menos desenho que aquele que faz sobre papel? Como os relaciona em termos plásticos, expressivos e até lúdicos?” e procurou obter respostas concretas sobre o que é de facto
o desenho digital e analógico e se existem diferenças entre os tipos de desenho. Inicialmente esta questão era dirigida apenas aos entrevistados que utilizassem primordialmente o digital, mas conseguiu-se adaptar a todos os entrevistados pois todos utilizam algum tipo de tecnologia. A última questão planeada, “Quando falamos em encontrar soluções
criativas, considera o papel do desenho importante nessa procura?”, nem
sempre se colocou, pois os entrevistados ao longo das perguntas foram respondendo a esta questão, mas procurava finalizar a entrevista sem deixar margem para a ausência de resposta a esta questão crucial.A ordem das questões foi planeada, mas nem sempre seguida à risca pois conforme o decorrer das conversas a autora decidiu adaptar as questões aos temas que
3.2. Escolha dos entrevistados
O objetivo das entrevistas, o de perceber como o desenho pode estar ligado ao design de comunicação na altura de solucionar um problema, com ou sem tecnologias, regulou os três critérios de seleção dos entrevistados:
A idade, com o fim de procurar várias visões sobre o tema, de diferentes
gerações, e com isso obter mais e melhor informação sobre como é utilizado o desenho no processo criativo de cada um;
A área de atuação, pois importa aqui entender como nas áreas distintas do
design de comunicação o desenho pode ou não servir como ferramenta auxiliar do pensamento criativo;
A utilização dos meios digitais, de forma a entender se os entrevistados
se apoiam nestes meios na geração da primeira ideia ou se consideram que a entrada destas tecnologias no seu primo pinsiero interfere ou não com a criatividade.
Embora se tenha conseguido quatro depoimentos, realizados no tempo útil desta dissertação, considerou-se um número relevante face ao tempo disponível e à qualidade das respostas obtidas.
Os profissionais da área que nos cederam gentilmente o seu tempo para a obtenção de informações foram: João Catarino, Mariana Baldaia, Pedro Gonçalves e Cristina Sampaio. A sua escolha prende-se com os critérios mencionados acima: as diferenças geracionais, resultantes da distribuição temporal das datas de nascimento dos entrevistados pelos anos 60, 70 e 80 do séc. XX (Baldaia, a mais nova, nasceu no ano em que Sampaio se licenciou); as distinções relativas às áreas de atuação, com cada um dos entrevistados a dedicar-se com predominância à ilustração ou ao cartoon, ao ensino do design, à animação, à multimédia ou ao design de cartazes; a utilização dos meios digitais, cuja utilização foi preponderante nos convites a Cristina Sampaio e Pedro Gonçalves, enquanto nos casos de Mariana Baldaia e João Catarino os resultados finais são dominados pelo prolongamento dos processos ditos ‘analógicos’. Ver como cada um concilia a primeira ideia e o primeiro esboço com as tecnologias subsequentes e como o desenho é utilizado em todo o seu processo criativo foi também um objetivo.
Entendeu-se que para complementar as entrevistas seria útil fazer um questionário não-anónimo de resposta rápida via Web (analisado adiante) para obter mais informações e procurar estabelecer algumas comparações que contribuíssem para responder a todas as questões de investigação e suportar a hipótese.