2. Dialogismo - o ponto de partida
2.2 Limites: palavra/oração, enunciado/gênero do discurso, gênero de texto
2.2.2 Enunciado/Gênero discursivo – unidade do discurso
Na teoria bakhtiniana, de forma mais evidente, no capítulo “Os gêneros do discurso”, conforme já antecipei, as expressões “enunciado” e “gênero do discurso”
fazem referência ao mesmo objeto, isto é, são expressões sinônimas que dizem respeito ao que o próprio Bakhtin chama de “tipos relativamente estáveis”
(BAKHTIN, [1952-1953], p. 262) e/ou “real unidade da comunicação discursiva.”.
(BAKHTIN, [1952-1953] 2011, p. 274).
A primeira expressão, “tipos relativamente estáveis”, é cunhada logo no início do referido capítulo, quando o autor afirma que são os enunciados/gêneros do discurso responsáveis pela nossa vida em sociedade, pois é através deles que nos comunicamos, portanto, é por intermédio deles que organizamos nossas atividades.
E como são incontáveis as atividades humanas que requerem manifestações de linguagem, também são incalculáveis os tipos de enunciados/gêneros do discurso.
Portanto, cada tipo de enunciado/gênero do discurso apresenta características de dada situação real de comunicação que, segundo o autor, ficam evidentes pelo conjunto de três elementos: o tema, o estilo e construção composicional. Conforme é possível observar na citação que segue:
Esses enunciados refletem as condições específicas e as finalidades de cada referido campo não só por seu conteúdo (temático) e pelo estilo da linguagem, ou seja, pela seleção dos recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais da língua mas, acima de tudo, por sua construção
composicional. Todos esses três elementos – o conteúdo temático, o estilo, a construção composicional – estão indissoluvelmente ligados no todo do enunciado e são igualmente determinados pela especificidade de um determinado campo da comunicação. (BAKHTIN, [1952-1953] 2011, p. 261-262).
O uso da segunda expressão, “real unidade da comunicação discursiva”, é mais recorrente no restante do capítulo. Acredito que isso se deve à necessidade de estabelecer limites que diferenciem os conceitos, isto é, não havendo a necessidade inicial de enfatizar o caráter social, faz-se necessário apenas distinguir as unidades da gramática (palavra e oração) da unidade do discurso (enunciado/gênero discursivo).
Ainda na primeira parte, denominada de “O problema e sua definição”, Bakhtin apresenta o conceito de gêneros primários e secundários. Estes de caráter mais complexos, fruto da reelaboração dos gêneros primários, ligados a situações mais formais de comunicação; aqueles, por seu turno, de natureza simples, originados nas situações mais corriqueiras de comunicação. Na citação que segue, além de postular uma classificação para os enunciados/gêneros do discurso, Bakhtin ([1940] 2011) também apresenta exemplos:
Os gêneros discursivos secundários (complexos – romance, dramas, pesquisas científicas de toda espécie, os grandes gêneros publicitários, etc.) surgem nas condições de um convívio cultural mais complexo e relativamente muito desenvolvido e organizado (predominantemente o escrito) – artístico, científico, sociopolítico, etc. No processo de sua formação eles incorporam e reelaboram diversos gêneros primários), que se formaram nas condições da comunicação discursiva imediata. (BAKHTIN, [1940], 2011, p. 263).
No entanto, é na segunda parte, “O enunciado como unidade da comunicação discursiva. Diferença entre essa unidade e as unidades da língua (palavras e orações)”, que a discussão acerca do conceito de enunciado/gênero do discurso ganha corpo. Como o próprio nome da seção indica, serão problematizadas peculiaridades constitutivas da palavra e da oração (unidades da língua) para, por comparação, definir as características constitutiva do enunciado/gênero do discurso (unidade do discurso).
Para estabelecer tal distinção, o autor enumera três peculiaridades constitutivas do enunciado/gênero do discurso: alternância dos sujeitos do discurso, conclusibilidade e formas estáveis de gênero do enunciado.
A primeira peculiaridade, segundo o autor, é responsável pelo estabelecimento dos limites para o enunciado/gênero discursivo, ou seja, é a troca de papéis discursivos efetuada entre os sujeitos em um dado processo comunicativo que determinaria os limites para uma unidade discursiva. O fim ou a completude, por assim dizer, do enunciado/gênero discursivo se concretizaria a partir do momento que os sujeitos alternam seus papéis no jogo discursivo.21 Sobre isso, Bakhtin afirma claramente que “Os limites de cada enunciado concreto como unidade da comunicação discursiva são definidos pela alternância dos sujeitos do discurso, ou seja, pela alternância dos falantes. (BAKHTIN, [1952-1953] 2011, p. 275).
A segunda peculiaridade constitutiva, a conclusibilidade, se caracteriza pelo fato de o sujeito expor (através da fala ou da escrita) tudo o que desejava em uma dada situação real de comunicação. Tal especificidade do enunciado/gênero do discurso implica uma consequência, viabiliza ao outro sujeito participante daquela situação comunicativa a possibilidade de responder – responsividade.
Essa completude que garante a responsividade é, de acordo com Bakhtin ([1952-1953] 2011), determinada por três elementos: o primeiro é a exaurabilidade do objeto e do sentido, o segundo diz respeito ao projeto de discurso ou vontade de discurso do falantes, e, por último, as formas típicas composicionais e de gênero do acabamento.
A exaurabilidade, no entanto, é extremamente relativa, pois concluir um determinado assunto, em algumas áreas, é mais fácil do que em outras, aquelas ligadas a aspectos factuais (pedidos, ordens) têm limites mais visíveis do que os de natureza científica, por exemplo. A exaurabilidade só se torna possível quando o assunto em questão (objeto) se torna tema do enunciado, isto é, ele adquire limites específicos em uma certa situação de comunicação, sob determinadas condições.
Chega-se, dessa forma, ao tema que, juntamente com o estilo e a composição, formam a tríade de elementos indissolúveis que compõem o enunciado/gênero do discurso.
21 A alternância entre os sujeitos, como características constitutiva da unidade discursiva, para mim, é a marca
mais evidente de que gênero do discurso e gênero de texto fazem referência a objetos diferentes. Em uma manifestação de linguagem qualquer, a mesma frase, por exemplo, poderia ser repetida por sujeitos diferentes assumindo significados distintos, exclusivamente, por causa dos sujeitos que as “pronunciam”; por outro lado, um texto apresentado por sujeitos diferentes não deixa de ter a estrutura apresentada inicialmente. O discurso estaria ligado, portanto, à esfera ideológica, enquanto o texto estaria ligado às maneiras de apresentação dos discursos.
O projeto de discurso ou vontade de discurso do falante também assegura a conclusibilidade, ou seja, delimita fronteiras temáticas, uma vez que através da intenção discursiva pode-se imaginar o todo, “Imaginamos o que o falante quer dizer, e com essa ideia verbalizada, essa vontade verbalizada (como a entendo) é que medimos a conclusibilidade do enunciado.”. (BAKHTIN, [1952-1953] 2011, p.
281).
Da mesma forma, nesse processo, é o projeto discursivo aliado aos limites do temático que determinam o terceiro elemento: formas composicionais do acabamento.
Os três elementos que asseguram a conclusibilidade estão diretamente associados ao tema, ou seja, uma intenção discursiva (projeto do falante) projeta um recorte na realidade comunicativa (exaurabilidade) que se efetiva em uma forma de dizer (formas composicionais do gênero). Tudo isso associado ao tema: o projeto do falante vai determinar o tema, a exaurabilidade estabelece limites para o tema e, simultaneamente, considerando os dois primeiros aspectos e o tema, será configurada uma forma de gênero.
A terceira e última peculiaridade, formas estáveis de gênero do enunciado, é determinada, sobretudo, pelos aspectos expressivos do sujeito. A relação que o sujeito estabelece com objeto de seu discurso é que vai determinar os aspectos estilístico e composicionais
... cada enunciado se caracteriza, antes de tudo, por um determinado conteúdo semântico-objetal. A escolha dos meios linguísticos e dos gêneros de discurso é determinada, antes de tudo, pelas tarefas (pela ideia) do sujeito do discurso (ou autor) centradas no objeto e no sentido. É o primeiro momento do enunciado que determina as suas peculiaridades estilístico-composicionais.
O segundo elemento do enunciado, que lhe determina a composição, é o elemento expressivo, isto é, a relação subjetiva emocionalmente valorativa do falante com o conteúdo do objeto e do sentido do seu enunciado. (...) A relação valorativa do falante com o objeto de seu discurso (seja qual for esse objeto) também determina a escolha dos recursos lexicais, gramaticais, e composicionais do enunciado. O estio individual do enunciado é determinado principalmente pelo seu aspecto expressivo.22 (BAKHTIN, [152-1953] 2011, p. 289).
22 Embora, em grande parte do texto, Bakhtin se refira ao “falante”, todos os conceitos e reflexões se estendem
à escrita também.
A meu ver, portanto, a participação do sujeito através de dada relação expressiva com o objeto de seu discurso é a responsável pela naturalidade com que os enunciados/gêneros do discurso chegam ao sujeito, o que é muito diferente da normatização da gramática (palavra e oração). O sujeito tem acesso ao enunciado/gênero do discurso, assim como tem acesso à língua materna, reitero, porque, ao interagir, tem a possibilidade de fazer adaptações que a situação comunicativa exigir.
Sendo assim, retomo uma ideia já apresentada, os enunciados/gêneros do discurso são variados porque são inúmeras as situações de comunicação. Ora, o sujeito terá sucesso em seu projeto discursivo se conhecer o enunciado/gênero que media aquela situação discursiva, portanto, quanto melhor conhecer os enunciados/gêneros do discurso, mais plenamente o sujeito participa. É o que o próprio Bakhtin ([1952-1953] 2011) diz nesse trecho que, a mim, soa poético:
Quanto melhor dominamos os gêneros tanto mais livremente os empregamos, tanto mais plena e nitidamente descobrimos neles a nossa individualidade (onde isso é possível e necessário), refletimos de modo mais flexível e sutil a situação singular da comunicação; em suma, realizamos de modo mais acabado o nosso livre projeto de discurso.
(BAKHTIN, [1952-1953] 2011, p. 285).
Além desses três elementos constitutivos (tema, estilo, composição) e os desdobramentos nas três peculiaridades (alternância dos sujeitos discursivos, conclusibilidade e formas estáveis de gênero), o autor apresenta, como traços constitutivos, a entonação e o direcionamento/endereçamento.
A entonação pela capacidade de atribuir a uma oração um dado sentido que a transforma em enunciado, ou seja, não se trata mais de uma oração isolada, mas de uma realidade concreta de uso da linguagem; o direcionamento/endereçamento, por motivo muito semelhante, isto é, por apresentar a capacidade uma unidade da gramática, isolada, sem referente exato, em uma manifestação específica e concreta de linguagem.
Para facilitar a compreensão e a relação ente os conceitos que problematizei, apresento, abaixo, um fluxograma que, embora possa despertar tal sentido, não corresponde a uma possível hierarquia que os elementos
composicionais devem respeitar para constituir o enunciado/gênero do discurso. Ao contrário, trata-se de uma maneira pessoal de organização dos conceitos e, consequentemente, do estabelecimento de um efeito de leitura viabilizado por uma força didática.
Ou seja, não estou afirmando que a escolha do conteúdo temático, por exemplo, só se concretiza depois de verificados os três passos (exaurabilidade, projeto discursivo e as formas composicionais), pois, em uma dada situação real de comunicação tais fenômenos ocorrem simultaneamente e um está diretamente ligado ao outro, não há, portanto, como isolá-los. Da mesma forma, não estou afirmando que o estilo e a composição são os últimos elementos a se efetivarem nesse processo comunicativo. A categorização, nesse caso específico, deve-se à influência direta da individualidade que se marca diretamente no estilo e na forma composicional, não tão diretamente na escolha do tema, o que justifica a locação em categorias diferentes. Fica registrado, dessa forma, o caráter apenas didático do fluxograma.
Quadro 2 - síntese dos elementos constitutivos do enunciado/gênero discursivo
Assumo, para esta pesquisa, balizado pela teoria bakhtiniana, o enunciado/gênero discurso como uma unidade real da comunicação discursiva,
Peculiaridades constitutivas do enunciado/gênero do discurso
alternância dos sujeitos
do discurso conclusibilidade
responsividade
I. exaurabilidade do objeto e do sentido;
II. projeto de discurso ou vontade de discurso do falante;
III. formas típicas composicionais e de gênero do acabamento;
TEMA
formas estáveis de gênero do enunciado
aspecto individual do enunciado
ESTILO E COMPOSIÇÃO
constituído por três elementos: tema, estilo e forma composicional, que se concretiza em uma dada situação de comunicação, sob coerções sociais.