9.2 As interações discursivas e o produto argumentativo
9.2.1 Episódio 01 – Existe limite para a velocidade dos corpos?
O episódio se inicia com o professor apresentando aos estudantes a situação- problema, presente no Quadro 22, que foi desenvolvida conforme a Teoria Concorrente de Erduran (2006) e consiste no seguinte: dois alunos apresentaram os gráficos de energia cinética em função da velocidade ao quadrado, para discutir a possibilidade de os corpos em movimento terem ou não um limite para a sua velocidade.
Quadro 22 – Problema abordado no episódio 01, que foi extraído da Atividade X.
Dois alunos realizaram os seguintes esboços para o gráfico de Energia Cinética em função da velocidade ao quadrado (Ec [V2)).
0 0.5 1 0 0.5 1 v2 3x108 EC Aluno A 0 0.5 1 0 0.5 1 v2 3x108 EC Aluno B
a) Quem está correto? Que dados vocês têm para afirmar isto?
b) O que o aluno que está correto poderia fazer para convencer o outro? Fonte: Próprio Autor.
Com o objetivo de solucionar o problema, diversas interações discursivas foram mo- bilizadas pelos professores e estudantes na construção do conhecimento. Ao analisar as falas, diversos elementos que compõem o argumento puderam ser identificados, possibilitando reconstruí-lo.
Depois de expor os objetivos da atividade, o professor, no turno 03, apresentou o problema para a turma. Nos falas seguintes, os professores e os estudantes buscaram solucionar a alínea (a) do problema, resultando no Quadro 23. Nele, são apresentados
o argumento reconstruído, o responsável por tal discurso e o turno em que ele ocorreu. Quando necessário, algumas adaptações foram realizadas nos argumentos reconstruídos para produzir maior clareza na leitura e análise.
Quadro 23 – Instrumento de Análise e o argumento reconstruído no episódio 01.
Turno Interação Discursiva Argumento Reconstruído
4 [Vários] Aluno B (Afirmação)
6 [Estudante 01] O gráfico por ser ao qua-drado, o gráfico é exponencial . . . (Evi- dência 01)
O aluno B é o correto (Afirmação) visto que o gráfico é uma exponencial (Evidência 01)
8 [Estudante 10] . . . porque existe um limitede velocidade. (Evidência 02) O aluno B é o correto (Afirmação)porque existe um limite de velocidade (Evidência 02).
14 [Estudante 10] . . . vai chegar num ponto. . . máximo que não vai aumentar mais
(Evidência 03) O aluno B (Afirmação) porque a velo-cidade vai chegar num ponto . . . má- ximo que não vai aumentar mais (Evi- dência 03) e o limite é a velocidade da luz (Evidência04).
16 [Estudante 16] o limite é a velocidade daluz (Evidência 04) 9 É se olhássemos para o gráfico do aluno A? 10
[Estudante 10] (Porque) não tem limite. O (gráfico) A não tem limite e o (gráfico) B tem um limite. |[Estudante 17] No (gráfico A) vai aumentando, aumentando e nunca vai acabar|
O correto não é o aluno A (Refutação), porque não tem limite (Evidência). No gráfico A não tem limite e o gráfico B tem um limite (Evidência). No grá- fico A vai aumentando, aumentando e nunca vai acabar (Evidência). 11 [Professor] No (gráfico) A não tem limite,então vai aumentando a Energia Cinética,
vai aumentando a velocidade.
Não o aluno A (Refutação), porque no gráfico A não tem limite, então vai aumentando a energia cinética vai aumentando a velocidade (Evidência) Legenda: (complemento do autor) e [Participante].
Fonte: Próprio Autor
Nas falas, presentes no Quadro 23, observamos que de uma interação para outra os elementos que compõem o argumento foram se modificando. Na primeira sustentação para a afirmação, “o correto é o aluno B”, no turno 006, vemos uma evidência obtida do problema, que seria a forma do gráfico. Contudo, o estudante confundiu sua nomenclatura ao afirmar que o gráfico era quadrático e por isso tinha a forma exponencial. No turno 008, é apresentada outra evidência em que a forma do gráfico pode estar relacionada com a existência de limite para velocidade dos corpos. Já nos turnos 014 e 016, as falas contêm duas evidências, a primeira relacionada à forma do gráfico e a segunda, ao limite de velocidade dos corpos.
Ainda em relação ao Quadro 23, no turno 009, o professor propôs um olhar para o aluno A, resultando em um movimento de contra-afirmação, ao questionar a possibilidade de o outro aluno estar correto. Tal ação fez com que os estudantes e os professores apresentassem diversas evidências para não o escolhê-lo. Essas evidências foram sustentadas por informações presentes no problema e em conhecimentos teóricos, neste caso, explicitados no discurso do professor.
O processo sintetizado anteriormente só foi possível devido às diversas interações dos professores com os estudantes, que, ao realizarem vários questionamentos, orientaram as discussões e resgataram conceitos importantes para a construção do argumento. Nesse processo, o argumento, em construção coletiva, foi absorvendo elementos, neste caso, evidências que foram se tornando mais elaboradas do ponto de vista científico, tendo a seguinte forma:
O aluno B é o correto (Afirmação) porque a velocidade vai chegar a um ponto . . . máximo que não vai aumentar mais (Evidência) e o limite é a velocidade da luz (Evidência). Não o estudante A (Refu- tação), porque no gráfico A não há limite (Evidência), aumentando a energia cinética com o aumento da velocidade (Evidência). O argumento reconstruído foi analisado de acordo com a complexidade do produto argumentativo. A primeira categoria, defendendo a afirmação, aborda os elementos do argumento, que por sua vez é composto por afirmação e evidência, não explicitando como se relacionam por meio de um raciocínio. Isso resulta em um argumento de complexidade intermediária, segundo o qual a afirmação é defendida com evidências.
A segunda categoria, afirmação contrária, avalia a estrutura da refutação. O ar- gumento apresenta uma afirmação contrária. No entanto, não está explícito o raciocínio que sustenta a refutação, o que resulta em afirmações contrárias não sustentadas, gerando uma baixa complexidade.
Com relação à categoria coerência interna, associada com o conteúdo, o argumento está apropriado, pois o conhecimento foi abordado dentro do esperado. Porém, novamente, o argumento não explicita o raciocínio, o que dificulta a avaliação pública e resulta em uma complexidade intermediária.
Com o argumento estabelecido, o professor, dando continuidade à solução do problema, no turno 022, leva para o grande grupo a alínea (b). Para reconstruir o argumento, consideramos que parte da afirmação foi apresentada de forma explícita na
alínea em que aparece “para convencer o aluno A, poderia (. . .)”, ou seja, teve como ponto de partida que era possível convencer o aluno A. No Quadro 24 apresentamos as principais interações que contribuíram na reconstrução do argumento.
Quadro 24 – Apresentação dos turnos, interações discursivas e argumentos reconstruídos relacionados à tentativa de persuasão.
Turno Interação Discursiva Argumento Reconstruído
23 [Estudante 10] Experimentação.
25 [Estudante 06] Construir aquela equaçãodaquela atividade (se referindo a ativi- dade VIc).
Para convencer o aluno A, poderia construir a equação da atividade VI (Afirmação), em que a velocidade nunca chega à velocidade da luz (Evi- dência), que no caso da teoria clás- sica seria VA+VB e na relatividade
seria [VA+VB/ (1+VA.VB/c2)) (Evi-
dência)
.
027
[Estudante 06] Construí aquela equação da atividade que no caso a velocidade nunca chegaria, que no caso da teoria clássica seria VA+VB e na relatividade
seria [VA+VB/ (1+VA.VB/c2)). No caso,
apresentando esta equação ele entenderia que seria daquele jeito.
31 [Estudante 02] Eu acho muito difícil vocêconvencer alguém mostrado uma fórmula. 32 [Estudante 14] Ainda mais que estas fór-mulas dão o mesmo resultado.
33
[Estudante 10] É . . . Eu penso que só com experimentação mesmo, porque mos- trado a fórmula, ele vai quer saber de onde chegou aquela fórmula. Entendeu, e para chegar naquela fórmula foi necessário . . . fazer um experimento.
Eu penso que só com a experimenta- ção (Afirmação), porque mostrando a fórmula ele vai querer saber de onde veio aquela fórmula (Evidência). En- tendeu, e para chegar naquela fór- mula, foi necessário . . . fazer um ex- perimento (Raciocínio).
41
[Estudante 05] É exatamente isso (se refe- rindo a fala do professor que faz referência ao turno 033), fazer um experimento que a gente viu em exercício da bolinha dentro da caixa (se referindo a situação abordada na discussão realizada na atividade Vd,
que abordava os postulados). Mostrando que a velocidade da luz ela é, ela é cons- tante, você não consegue ultrapassar ela.
Para convencer o aluno A, poderia fa- zer o experimento que a gente viu no exercício da bolinha dentro da caixa (Afirmação) mostrando que a veloci- dade da luz é constante e você não con- segue ultrapassá-la (Evidência). As- sim, o gráfico não é linear e sim um gráfico exponencial. (Raciocínio). 45 [Estudante 10] É, um experimento men-tal.
continua para próxima página
c Na atividade é abordado a “adição de velocidades” de acordo com a TRR e os estudantes
manipulam equações para solucionar problemas.
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48
[Estudante 05] Ai você mostra que a velo- cidade tem um limite. Que é a velocidade da luz. Mas ela não é linear, um gráfico linear. É de um gráfico exponencial.
Legenda: (complemento do autor) e [Participante]. Fonte: Próprio Autor
No Quadro 24 temos duas afirmações, nos turnos 023 e 025, uma relacionada ao uso da experimentação e a outra, à comprovação matemática como possibilidade para convencer o aluno A. Com os turnos 025 e 027 foi construído um argumento que defende o uso de uma equação matemática. Contudo, nos turnos 031, 032 e 033, os estudantes começaram a refutar o argumento estabelecido e, com a fala presente no turno 032, diversas interações foram estabelecidas para elucidar que as equações não apresentam os mesmos resultados. Com as interações discursivas realizadas entre os turnos 025 e 033, foi possível reconstruir o seguinte argumento, que será intitulado como argumento 01:
Para convencer o aluno A, poderia construir a equação da atividade
VI (Afirmação) em que a velocidade nunca chega à velocidade da luz (Evidência), que no caso da teoria clássica seria VA+VB e na
relatividade seria [VA+VB/ (1+VA.VB/c2)) (Evidência). Acredito
que só com experimentação mesmo (Refutação), porque, mostrando a fórmula, ele vai querer saber de onde ela veio (Evidência). En- tendeu, e, para chegar àquela fórmula, foi necessário . . . fazer um experimento (Raciocínio).
No argumento 01, é proposta a utilização da equação do movimento relativo relativístico para persuadir o aluno A, porém ela foi refutada, uma vez que para explicá- la seria necessário um experimento, conforme estudante 10. Esse estudante retoma a proposição da experimentação, que resultou em um argumento que parte de um experimento mental sustentado em conhecimento teórico, conforme os turnos 041, 045 e 048. Esse argumento é apresentado a seguir e foi intitulado de argumento 02:
Para convencer o aluno A, poderia fazer o experimento que a gente
viu no exercício da bolinha dentro da caixa, que é um experimento mental (Afirmação), mostrando que a velocidade da luz é constante e você não consegue ultrapassá-la (Evidência).
Em relação à complexidade do primeiro argumento, ele foi sustentado apenas por evidência, não expondo como ela e a afirmação se relacionam por meio do raciocínio. A
evidência é pautada em conhecimento teórico, que utiliza elementos da teoria para sustentar a afirmação. No argumento, há um movimento de afirmação contrária, sendo sustentada em evidência e raciocínio. Em relação aos componentes do argumento, a primeira categoria e a segunda categoria têm complexidades intermediárias, dado que a afirmação é defendida
com evidência e a afirmação é refutada com raciocínio, respectivamente. Por fim, em
relação ao conteúdo, a terceira categoria, o argumento é considerado como apropriado, porém é insuficiente, visto que não explicita o raciocínio, o que dificulta a avaliação pública, com a complexidade intermediária.
Quanto à análise da complexidade do segundo argumento, ele foi sustentado apenas por evidência pautada em conhecimento teórico, sem a existência de um movimento de refutação, o que resulta em uma complexidade sobre a categoria, defendendo afirmação, de grau intermediário, dado que a afirmação é defendida com evidências. Quanto ao conteúdo, ele pode ser considerado como apropriado ao utilizar elementos que foram estudados para sustentar a afirmação, porém é insuficiente, pois não passaria no processo de avaliação pública, tendo complexidade intermediária.
Com o intuito de questionar a validade dos argumentos apresentados no processo de persuasão do aluno A, o professor, no turno 052, realizou a seguinte fala:
“Alguns propuseram o experimento da caixa (Argumento 02) o outro . . . tinha colocado é descrever . . . mostrar matematicamente o que poderia acontecer (Argumento 01). Será que mesmo assim, fazendo isso tudo, eu convenceria o aluno A?”
Nas interações discursivas seguintes (Quadro 25), os estudantes apresentavam diversas condições necessárias para que se pudesse convencer o aluno A. O estudante 10, no turno 055, relata que o processo de convencimento está relacionado às crenças do aluno. O estudante 12, por sua vez, no turno 058, vai além, passando a relacionar as crenças ao conhecimento básico. E o estudante 18, no turno 059, destaca a necessidade de um processo, afirmando que para convencê-lo seria necessário que o aluno compreendesse o novo conceito. Ao término, o professor, no turno 090, destaca elementos que diferem a Mecânica Newtoniana da Teoria da Relatividade Restrita. Em suma, conforme a literatura, para participar do processo de persuasão, é necessário ter conhecimento do mesmo paradigma, e partes dessa preocupação são expressas nas interações nos turnos 058 e 059 e destacadas pelo professor no turno 090.
Quadro 25 – Interações discursivas relativos ao processo de convencimento do Episódio 01
Turno Interação Discursiva
055 [Estudante 10] Depende da crença dele na verdade. Se ele pensar (. . . ) eu estoucrente que estou correto. Ele vai pensar daquela forma eternamente. 058
[Estudante 12] Bom, se o aluno não tem conhecimento que objeto não pode chegar na velocidade da luz. Igual ele falou, ele vai crer que está correto porque pensa assim, não? Se pode ultrapassar a velocidade da luz então meu objeto |gráfico| vai ser uma função afim e não vai ser uma função quadrática (fazendo referência ao gráfico). Eu acho que vai muito do conhecimento básico dele.
059
[Estudante 18] Qual? Primeiro vamos supor que ele não sabe, então a gente tem que explicar que a velocidade da luz tem um limite, que não passa. Para depois explicar essa teoria que geral está falando. Porque se você pega um aluno do ensino médio, que não tem muita base. Sabe (. . .) que não tem esse conhecimento, ele não vai entender, assim. Só do jeito que vocês estão falando. Agora se você pegar do jeito que a gente está estudando isso, a gente vai saber, vai entender.
090
[Professor] Então vai está também associado a concepção que ele tem frente (. . .) esta percepção do universo ou de como vai acontecer (. . .) como se dá a construção das próprias leis físicas. Então, são alguns parâmetros e isso implica até mesmo aceitar a equação que ele coloca. Porque esta concepção aqui do aluno A, era uma discussão (. . .) que se tinha antes da Teoria da Relatividade. Não existia nada anteriormente que impunha este limite. Mas a partir do momento que existe (. . .) começasse (. . .) que é apresentado a Teoria da Relatividade, ela traz consigo algumas implicações e uma destas implicações (. . .) é a minha velocidade tem um limite. Para que minha velocidade tenha um limite. Se a minha velocidade tem um limite, a tendência é que esse gráfico aqui (apontando para o gráfico do aluno A) não é um gráfico válido. Porque ele não obedece este limite da velocidade. Mas isso (. . .) indica esta mudança na percepção de mundo. Aqui, eu teria a discussão que tivemos na atividade V. Que é uma visão da mecânica newtoniana e agora com as discussões da própria relatividade. Mas o ato de convencer o colega não está associado (. . .) só associado a mostrar um experimento, está associado a entregar para ele um óculos de como ele vai olhar para aquele experimento. Porque, como que eu vou olhar para o experimento e o entender, basicamente, vai está associado a concepção que eu tenho.
Fonte: Próprio Autor
Nesse episódio, foram reconstruídos três argumentos: o primeiro sustenta a escolha pelo aluno B, relativo à alínea (a) do problema; os outros dois estão relacionados ao convencimento do aluno A, alínea (b). Além disso, os seguintes pontos são destacados: (i) os professores tiveram ações fundamentais nos argumentos reconstruídos, pois em diversas situações fizeram uso dos discursos para guiarem os estudantes no processo de construção do conhecimento; (ii) em nenhum dos três argumentos, analisados de acordo com o produto argumentativo, foram explicitados os raciocínios, ou seja, nem os estudantes nem os professores explicitaram como as afirmações e as evidências se relacionavam; (iii) as evidências estavam relacionadas às informações do problema ou ao conhecimento teórico; (iv) o movimento de refutação aconteceu em dois momentos. No primeiro, devido ao
questionamento do professor; e, no segundo, por um estudante, ao questionar a afirmação de um colega; [V) os estudantes encaram a ciência como pronta e o que os cientistas fazem é demonstrar, que seus conhecimentos são verdadeiros por meio de experimentos.