No contexto da sociedade em rede, mediada pelas novas tecnologias e caracterizada pela mundialização das relações, com o surgimento da chamada cibercultura merece destaque o papel da internet, que, no período entre 1980 e 1990, “representava um espaço livre e separado de territórios físicos, inclusive imune à soberania dos Estados organizados” (LEONARDI, 2012, p. 126).
No início foi vista como um espaço sem restrições, mas com o passar do tempo a internet foi ganhando maior importância, chegando a ser considerada por Castells (2003, pp. 7-8) como “o tecido de nossas vidas em razão, principalmente, de ser um meio de comunicação que permite a comunicação de muitos com muitos, num momento escolhido, em escala global”.
Dreyer (2015) estabelece a diferença entre internet e web. A internet foi usada pela primeira vez em 1969 e surgiu como consequência de uma “fusão estratégica militar, grande cooperação científica, iniciativa tecnológica e inovação contracultural” (DREYER, 2015, p. 132). Embora seja uma tecnologia antiga, segundo Castells (2015, p. 36), a verdadeira expansão da internet ocorreu a partir de 1990, “mais recentemente impulsionado pela difusão de novas gerações de comunicação sem fio”4.
A web, por sua vez, “surgiu como um avanço da internet, possibilitando a mais pessoas o acesso a essa tecnologia, considerada como um novo aplicativo, sendo inventada na Europa,
4 Conforme Castells (2015), em 1996 havia menos de 40 milhões de usuários de internet no mundo; em 2013, mais
em 1990, por um grupo de pesquisadores” (DREYER, 2015, p. 132). A partir da distinção entre internet e web, Castells (2015) apresenta a evolução da internet e da web. Segundo o autor, a web 1.0 iniciou com o surgimento da própria www nos anos de 1990, considerada estática, visto que o conteúdo da página é somente para leitura, não permitindo a interatividade do usuário, sendo possível apenas ao programador realizar alterações ou atualizações da página.
A evolução para a chamada web 2.0, surgida em 2004, ocorreu devido à nova possibilidade de interação, proporcionada pelas inúmeras plataformas de comunicação que promovem o diálogo em tempo real. No contexto da web 2.0 verifica-se mais espaço para a comunicação. Com a web 2.0 surgiu um novo público, o chamado público das redes, o indivíduo conectado, o usuário-mídia, representando um compartilhamento do poder da informação, criando o chamado indivíduo “protagonista da comunicação”.
Já a chamada web 3.0, aprimorando as eras anteriores, proporcionou, segundo Dreyer (2015), o refinamento dos dados disponíveis para pesquisa e interação, surgindo a chamada “web semântica”, na qual a informação recebe um melhor significado. Por fim, a web 4.0 permitiu, segundo Lemos (2012), que a relação dos humanos com máquinas e objetos seja potencializada pelas infinitas possibilidades de interação. É a fase da comunicação das coisas, que possibilita o intercâmbio entre o mundo físico e digital.
Para Castells (2005), a sociedade em rede foi capaz de transformar a área da comunicação por incluir os media. Dentre as principais transformações trazidas pelos sistemas de comunicação mediáticos destaca-se o caráter coletivo da recepção da informação, embora produzida individualmente.
Somado a isso, a comunicação na sociedade em rede, aliada à expansão das tecnologias de informação e de comunicação, segundo Castells (2005, p. 24), passa por uma “explosão de redes horizontais de comunicação”. O surgimento de redes sociais, blogs, grupos no whatsapp, dentre outros, permite uma comunicação independente entre as pessoas, sem a tradicional dependência de canais criados pela sociedade.
Ainda merece destaque a interatividade permitida pelo chamado “sistema multimídia especializado e fragmentado (CASTELLS, 2005, p. 24). Graças a esse sistema, há relação maior entre todas as fontes de comunicação no chamado “hipertexto”. Logo, constata-se que a “comunicação digital se tornou menos organizada centralmente” (CASTELLS, 2005, p. 24).
Antes da criação da internet, os indivíduos eram meros receptores passivos de informações, porém, com a internet houve uma mudança nessa lógica, pois, segundo Barreto Júnior (2013, p. 114), “cria-se, no cidadão usuário da rede, um poderoso polo ativo na produção e disseminação de informações e de conteúdos, em escala planetária”. Esses teores são
relacionados aos mais diversos assuntos, desde cultura, religião e lazer, até mesmo em relação à política, cidadania e agendas globais, tal como a luta pela disseminação da democracia, educação ambiental e liberdade de disseminação de informações.
Reforça Leonardi (2005, p. 1) que a internet “é hoje um meio de comunicação que possibilita o intercâmbio de informações de toda natureza, em escala global, com um nível de interatividade jamais visto anteriormente”. Conforme Castells (1999, p. 19), a internet surgiu na metade da década de 1990 como um sistema de comunicação flexível e descentralizado. Para o autor, graças a essa flexibilidade e descentralização é que a internet conseguiu se desenvolver da forma como se desenvolveu.
Segundo Bauman (2013b, p. 2), ao sair de casa não é possível evitar o contato e a contaminação, estando “exposto à necessidade de confrontar a complexidade do mundo. Esta própria complexidade não é uma experiência prazerosa e obriga a um esforço”. Nesse contexto, para Bauman (2013b, p. 2), a internet cria zonas de conforto, pois “pesquisas sociais mostram que a maior parte das pessoas usa a internet não para abrir a própria visão, mas para fechar-se dentro de cercados”. Nela, as pessoas “vivem num tipo mundo imaginário, sem controvérsias, sem conflitos, sem se expor às diferenças”. Entende-se, nesse cenário, que a internet é apenas um veículo. Reitera Bauman (2013b, p. 3):
As pessoas compartilham reações emotivas nas redes sociais e organizam-se, a partir dali para ir às ruas e protestar. Gritam os mesmos slogans, mas têm interesses e expectativas difusas. Depois, voltam para casa contentes pela fraternidade que se criou, mas é uma “solidariedade carnaval”, porque lembra eventos nos quais, por quatro ou cinco dias, coloca-se a máscara, canta-se e dança-se junto, fugindo por um tempo limitado da ordem das coisas. Estes protestos permitem a explosão coletiva de problemas diversos, e de demandas individuais, por um lapso breve de tempo, como no carnaval – mas a raiva não se transforma em mudança compartilhada.
No contexto da internet, surgem os sites das redes sociais. Para Recuero (2009, p. 17), o estudo das redes sociais não é recente. Segundo a autora, “[...] o estudo da sociedade, a partir do conceito de rede, representa um dos focos de mudança que permeia a ciência durante todo o século XX”. Recuero (2009, p. 24) destaca que o surgimento da internet modificou a sociedade, e a mais significativa “[...] é a possibilidade de expressão e sociabilização através de ferramentas de comunicação mediada pelo computador”. Por Rede Social, entende-se “um conjunto de dois elementos: atores (pessoas, instituições ou grupos; os nós da rede) e suas conexões (interações ou laços sociais)”. Uma rede, assim, é uma metáfora para observar os padrões de conexão de um grupo social, a partir das conexões estabelecidas entre os diversos atores. A abordagem de rede tem, assim, seu foco na estrutura social, onde não é possível isolar os atores sociais e nem suas conexões (RECUERO, 2009).
Segundo Recuero (2009), Mark Zuckberg criou o Facebook (originalmente, the facebook) quando ainda era estudante de Harvard. Seu lançamento ocorreu no ano de 2004, sendo hoje um dos sistemas com maior base de usuários do mundo. O propósito inicial do Facebook era “criar uma rede de contatos em um momento crucial da vida de um jovem universitário: quando este sai da escola e vai para a universidade, o que, nos Estados Unidos, quase sempre representa uma mudança de cidade e de um espectro novo de relações sociais” (RECUERO, 2009, p. 172).
O Facebook se organiza a partir de perfis e comunidades. Segundo Recuero (2009), há uma maior privacidade nessa rede social, pois somente quem faz parte do Facebook pode ver o perfil de outros usuários. Por ser uma das redes sociais mais populares, conforme Bauman (2012, p. 221), ele “é o principal site de rede social [...]”. E o seu uso, dentre outros motivos, deve-se porque seus usuários “deviam sentir-se dolorosamente desprezados, ignorados e de alguma forma postos de lado, exilados e excluídos, porém, uma vez mais consideravam difícil [...] erguer-se acima de seu odioso anonimato com os meios de que tinham em mãos” (BAUMAN, 2012, p. 223).
Não se pode deixar de destacar que as redes sociais facilitam a interação entre as pessoas. E a capacidade de o ser humano interagir pela comunicação com o seu semelhante constitui-se em necessidade vital. Por conseguinte, após as discussões apresentadas ao longo deste capítulo, centrando-se no direito humano à comunicação, verifica-se o importante papel que as redes sociais, especialmente o Facebook, possuem para a efetivação desse direito. A partir dos mecanismos de comentar e compartilhar, por exemplo, os usuários da rede social podem produzir novos discursos objetivando não só a efetivação do direito humano à comunicação, mas de outros direitos, pois esse direito humano é fundador de outros direitos.
Por delimitação da pesquisa, defende-se que o direito humano à comunicação é um dos responsáveis pela efetivação do direito à igualdade entre os gêneros, especificamente o gênero mulher, através da produção de novos discursos, pelo Facebook, por exemplo, para fins de refutar discursos preconceituosos de gênero, bem como para produzir um novo discurso de igualdade de gênero.
Sobre questões de gênero, passa-se a discorrer no segundo capítulo desta pesquisa, a seguir apresentado.
2 OS DIREITOS HUMANOS E A MULHER: UM ESTUDO A PARTIR DAS PRINCIPAIS TEORIAS DE GÊNERO
Figura 2. Meu corpo não está aberto ao debate
Fonte: Site Oficial da Cartunista Laerte Coutinho (2017).
“Meu corpo, minhas regras”. Esse discurso, que está seguidamente presente na atual sociedade em rede, nem sempre foi assim, especialmente no que se refere ao gênero mulher. O histórico da sociedade sempre renegou a mulher à “outra”, incluindo o seu corpo. Hoje, como escreveu Laerte Coutinho na sua tira, a sociedade parece evoluir no sentido de, ao menos, ter o direito de produzir discursos que reafirmam a ideia de que “meu corpo não está aberto para debate”, ou seja, compete a cada um, inclusive às mulheres, tomar os rumos que bem entenderem a respeito da sua identidade de gênero e do seu corpo.
A partir do estudo realizado no capítulo anterior sobre o direito humano à comunicação na sociedade em rede, a pesquisa prossegue fazendo uma revisão sobre a identidade de gênero no contexto dos direitos humanos para, posteriormente, nessa mesma perspectiva, realizar uma análise dos discursos produzidos sobre as mulheres e pelas próprias mulheres nas mídias sociais.
Sobre as discussões envolvendo o tema, para Tiburi (2016), “o caminho que devemos seguir quando se trata de pensar em gênero é aquele que reúne o esforço da crítica, da pesquisa, do esclarecimento, o esforço de quem se dedica à educação e à ciência, com o esforço da escuta”.
O objetivo deste capítulo, por conseguinte, é apresentar uma discussão teórica sobre o gênero mulher na sociedade em rede, desprovida de ideologias, pois, conforme prossegue Tiburi (2016), “as teorias servem para nos fazer pensar no que não estamos acostumados. Enquanto as ideologias servem para impedir o pensamento”.
Este capítulo inicia apresentando as principais discussões sobre sexo e gênero, partindo das ideias de Butler (2016), Beauvoir (2009), Pires (1999) e Scott (1999). Em seguida, aborda a questão da proteção jurídica às mulheres, considerando a violência sofrida por elas ao longo da história, com ênfase na Lei Maria da Penha, principal mecanismo jurídico de proteção à violência contra a mulher no Brasil hoje. Por fim, realiza um breve estudo sobre a Lei Carolina Dieckmann e o Marco Civil da Internet.