Nas discussões sobre o tema, as concepções sobre gênero e sexo estão muito próximas. Conforme Judith Butler (2016, p. 25), “uma divisão se introduz no sujeito feminista por meio da distinção entre sexo e gênero”. Questiona-se, afinal, o que é o sexo. A partir de uma série de interrogações feitas por Butler (2016), constata-se que uma definição simplista, limitando sexo à herança biológica, não é capaz de dar conta das sutilezas discursivas que a sua completa definição deve apresentar.
É ele natural, anatômico, cromossômico ou hormonal [...]? Teria o sexo uma história? Possuiria cada sexo uma história ou histórias diferentes? Haveria uma história de como se estabeleceu a dualidade do sexo, uma genealogia capaz de expor as opções binárias como uma construção variável? Seriam os fatos ostensivamente naturais do sexo produzidos discursivamente por vários discursos científicos a serviço de outros interesses políticos e sociais? (BUTLER, 2016, p. 27).
Considerando, a partir de Butler (2016), a impossibilidade de afirmar o caráter de imutabilidade do sexo, a distinção entre sexo e gênero, para a autora, torna-se nula. Para ela, uma vez que a imutabilidade do sexo é contestável, pode-se concluir que a noção de sexo seja também construída culturalmente, assim como a noção de gênero. Logo, “a distinção entre sexo e gênero revela-se absolutamente nula” (BUTLER, 2016, p. 27).
A lógica de que o sexo está para a natureza, portanto, não prospera, visto que ele também sobre interferências da cultura, assim como o gênero, ou, como afirma Butler (2016), uma noção de sexo natural pode ter sido produzida em um período “pré-cultural”, formando “uma superfície politicamente neutra sobre a qual age a cultura” posteriormente. Para Butler (2016,
p. 28), garantir a noção binária do sexo somente é possível colocando-o num domínio “pré- discursivo”. Ou seja, o sexo como apenas biologicamente definido só foi possível – se é que foi – antes da invenção do discurso, porque “o dizer não é propriedade particular. As palavras não só nossas. Elas significam pela história e pela língua [...]” (ORLANDI, 2003, p. 32). Logo, considerando o discurso como o efeito de sentido entre locutores, entende-se que ele influencia também na definição de sexo, assim como a história.
Segundo Butler (2016, p. 74), a distinção sexo/gênero foi apropriada por algumas teóricas feministas a partir da distinção natureza/cultura criada por Lévi-Strauss, autor da chamada antropologia estruturalista, produzindo “a suposição de haver um feminino natural ou biológico, transformado numa ‘mulher’ socialmente subordinada, com a consequência de que o ‘sexo’ está para [...] a ‘matéria-prima’ assim como o gênero está para o ‘fabricado’”. Nessa visão, o “sexo” vem antes da lei, no sentido de ser cultural e politicamente indeterminado, constituindo, por assim dizer, a “matéria-prima” cultural que só começa a gerar significação por meio de e após sua sujeição às regras de parentesco (BUTLER, 2016).
Como tudo é discurso, a noção de “sexo-como-matéria, do sexo-como-instrumento-de- significação-cultural, é uma formação discursiva que atua como fundação naturalizada da distinção natureza/cultura” (BUTLER, 2016, p. 74), sendo fruto de uma “política sexual”. Manter a divisão binária atrelando apenas critérios biológicos à noção de sexo significa manter uma política sexual totalmente descontextualizada da sociedade atual.
Assim, “se a própria designação do sexo é política, então o ‘sexo’, essa que se supõe ser a designação mais tosca, mostra-se desde sempre ‘fabricado’” (BUTLER, 2016, p. 74). A autora afirma que a clássica diferenciação entre sexo e gênero, a partir dos estudos da antropologia estruturalista de Lévi-Strauss, peca pelo caráter generalista e descontextualizado, visto que o autor busca uma lógica universal para questões que não podem ser tão simplistas.
O caráter total e fechado da linguagem é presumido e contestado no estruturalismo. Embora Saussure entenda como arbitrária a relação entre significante e significado, ele situa essa relação arbitrária no interior de um sistema linguístico necessariamente completo. Todos os termos linguísticos pressupõem uma totalidade linguística de estruturas, cuja integridade é pressuposta e implicitamente evocada para conferir sentido a qualquer termo. Essa opinião [...] em que a linguagem figura como uma totalidade sistemática, suprime efetivamente o momento da diferença entre o significante e o significado, relacionando e unificando esse momento de arbitrariedade dentro de um campo totalizante (BUTLER, 2016, p. 79).
Orlandi (2003, p. 16) reforça a incompletude da linguagem. Daí a sua preferência em estudar o discurso, que “é um objeto sócio-histórico [...]”. Assim, não há discurso sem sujeito e não há sujeito sem ideologia: o indivíduo é interpelado enquanto sujeito pela ideologia.
A linguagem, na concepção de Saussure (2002), a partir de estruturas universais, equivoca-se ao considerar o sistema linguístico necessariamente completo. Nas questões de gênero, a linguagem pode ser vista como simplista demais e consequentemente excludente. Emerge, pois, a necessidade de ruptura com o estruturalismo no período chamado pós- estruturalismo, o qual teve como propósito refutar as ideias de totalidade e universalidade.
Sobre a linguagem, para Warat (2010), ela se faz corpo, assim como as normas e os discursos jurídicos, pois também são linguagem. “Nossa identidade não é corporal, se faz linguagem, minha identidade é uma ordem simbólica, uma textualidade em devir temporal e submetida a uma dinâmica cartográfica” (WARAT, 2010, p. 73). O autor ainda reforça a arbitrariedade do signo linguístico, pois “Lacan nos mostra que em toda leitura simbólica existe uma mensagem que escapa do significado-significante” (WARAT, 2010, p. 73).
Foucault (1999, p. 10) afirma que o “estudo do sexo é cansativo”. Questiona ele sobre o porquê de inventar mais outro discurso para acrescentar à multiplicidade que já existe, reforçando que “o interessante é a emergência de um mecanismo da sexualidade, uma administração positiva do corpo e do prazer”. Ao trazer a necessidade de criação de uma administração positiva do corpo e do prazer, Foucault (1999, p. 11) refuta a ligação do sexo com a “busca da verdade”, muito recorrente nas sociedades cristãs. O autor questiona a produção de “discursos verdadeiros”, pois esses discursos resultam na formação de poderes específicos e, consequentemente, na repressão sexual.
Feitas essas considerações sobre sexo, especialmente a partir dos pressupostos críticos apresentados por Butler (2016), apresenta-se reflexões teóricas sobre gênero. Importa deixar claro que, assim como não foi uma tarefa consensual definir sexo, também não o é definir gênero. Para Pires (1999, p. 121, grifo nosso), “a categoria gênero, longe de tornar-se um consenso, continuou a orientar polêmicas em ambos os lados do Atlântico, a começar pelos significantes – diferenças de sexo e diferenças de gênero – que não se identificam”.
Butler (2016), na busca por um conceito de gênero, toma como partida uma série de questionamentos, assim como o fez para apresentar a sua definição de sexo, os quais, mais do que apresentar respostas fechadas, buscam levar o leitor a reflexões a fim de romper com definições prontas sobre o assunto.
Haverá “um” gênero que as pessoas possuem, conforme se diz, ou é o gênero um atributo essencial do que se diz que a pessoa é, como implica a pergunta “Qual é o seu gênero?” [...] Em algumas explicações, a ideia de que o gênero é construído sugere certo determinismo de significados do gênero, inscritos em corpos anatomicamente diferenciados, sendo esses corpos compreendidos como recipientes passivos de uma lei cultural inexorável (BUTLER, 2016, p. 28).
Sobre cultura, considerando a sua clara influência sobre as possíveis definições de gênero, entende Bauman (2012, p. 279) que, num primeiro momento, esta era entendida como algo pronto, anterior à ação, sendo chamada de “condensado da história”. Numa visão mais moderna, “a cultura é singularmente humana no sentido de que só o homem, entre todas as criaturas vivas, é capaz de desafiar sua realidade e reivindicar um significado mais profundo, a justiça, a liberdade e o bem – seja ele individual ou coletivo” (BAUMAN, 2012, p. 302).
Segundo Butler (2016, p. 29), ao se pensar gênero “nos termos dessa lei ou conjunto de leis, tem-se a impressão de que o gênero é tão determinado e tão fixo quanto na formulação de que a biologia é o destino”, resumindo-o à noção biológica de sexo severamente criticada pela autora, conforme já demonstrado anteriormente.
Nas discussões sobre gênero, Simone de Beauvoir traz importantes noções conceituais sobre o tema. Pires (1999) considera a obra de Beauvoir uma importante referência teórica para a história do pensamento feminista contemporâneo. Para Roudinesco (1986), é a primeira obra coerente sobre a sexualidade feminina, além de ser considerada como a primeira grande obra no debate envolvendo emancipação e questão sexual.
Beauvoir (2009, p. 361) afirma que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade”. Assim, é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre “o macho e o castrado”, que qualificam de feminino. A partir das palavras da autora, verifica-se que, para se tornarem mulheres, elas percorrem um longo e não linear caminho no decorrer de toda a sua trajetória de vida, caminho este de aprendizagem, assimilação, negociação, construção/desconstrução, não se limitando à marca do sexo (aqui claramente entendido de forma biológica), mas sendo atravessadas por diferentes aspectos sociais, como idade, classe social, contexto cultural, sexualidade, entre outros (NASCIMENTO, 2011).
Em outras palavras, “seu destino não é imposto por sua natureza biológica, mas determinado pelos aspectos socioculturais e pela educação que reforçam aquele aspecto”. Desse modo, “presa ao essencialismo de sua condição biológica, a mulher foi relegada a um mero papel de reprodução” (PIRES, 1999, p. 114). Sobre a submissão do gênero mulher, ao tratar sobre o papel de procriação conferido a ela, reforça Roudinesco (2003, p. 24) que “a ordem da procriação deve respeitar a ordem do mundo. Penetrada pelo homem deitado sobre ela, a mulher ocupa seu verdadeiro lugar. Porém, se a posição se inverter, a ordem do mundo se verá pervertida”.
A respeito das ideias defendidas por Beauvoir, ratifica Pires (1999) que o feminino é construído a partir do masculino, configurando-se no Outro, ou seja, no segundo sexo, já que o
primeiro é o masculino. O Segundo Sexo, portanto, “é acima de tudo uma construção social, uma metáfora da alteridade, ou seja, o conceito ‘mulher’ é construído culturalmente como o outro baseado em um paradigma masculino”5 (PIRES, 1999, p. 115).
Para Beauvoir (2009), a mulher não é capaz de se definir pelos seus hormônios nem pelos seus instintos, mas pela relação do seu corpo com o mundo, constituindo-se como um produto elaborado pela civilização. Butler (2016, p. 29), em seu tempo, aponta críticas à afirmação feita por Beauvoir de que ninguém nasce mulher, mas se torna mulher, e afirma que “para Beauvoir, o gênero é “construído”, mas há um agente implicado em sua formulação, um cogito que de algum modo assume ou se apropria desse gênero, podendo, em princípio, assumir algum outro”. E segue questionando: “É o gênero tão variável e volitivo quanto parece sugerir a explicação de Beauvoir? Pode, nesse caso, a noção de “construção” reduzir-se a uma forma de escolha? Beauvoir diz claramente que alguém “se torna” mulher, mas sempre sob uma compulsão cultural a fazê-lo. E tal compulsão claramente não vem do “sexo”’ (BUTLER, 2016, p. 29).
Para Butler (2016, p. 29), ao afirmar que “o corpo é uma situação”, a ideia de Beauvoir apresenta uma redução de gênero a livre-arbítrio ou determinismo, faltando entrar em discussão, nesse contexto, também o corpo. Afinal, a partir das ideias de Beauvoir, ele parece ser “um meio passivo sobre o qual se inscrevem significados culturais, ou então como o instrumento pelo qual uma vontade de apropriação ou interpretação determina o significado cultural por si mesma” (BUTLER, 2016, pp. 29-30). Ao contrário, o corpo também tem poder condicionante nas questões de gênero.
O próprio corpo, para Butler (2016), pode determinar o gênero, não sendo possível o livre arbítrio conforme a vontade da pessoa, como parece defender Beauvoir. Nesse contexto, compreende-se o conflito vivido por algumas identidades em relação ao seu próprio corpo. No documentário “Laerte-se”, lançado por Eliane Brum e Lygia Barbosa da Silva (2017), a personagem Laerte Coutinho6 afirma que “o corpo é parte de uma negociação complicada”, não sendo possível aceitar a biologia como a única determinação da identidade de gênero. Para ela, por exemplo, é possível sentir-se mulher mesmo com a genitália masculina.
5 Recente pesquisa realizada pelo Instituto Locomotiva na região sul do Brasil, divulgada pela Revista Donna no
jornal Zero Hora de 03 e 04 de junho de 2017, aponta que 67% dos homens da região concordaram que “as mulheres são melhores donas de casa do que os homens”, porém não veem sexismo na afirmação. Ou seja, embora se possa pensar que o discurso sobre igualdade de gênero tenha avançado, as atitudes na prática pouco mudaram, já que os atributos do lar parecem predestinados às mulheres.
6 Laerte Coutinho é a personagem principal do documentário “Laerte-se”, dirigido por Eliane Brum e Lygia
Para Butler (2016), infelizmente, se as pessoas desobedecerem às regras de gênero sofrerão uma punição física e podem até morrer. É o poder coercitivo do gênero como forma de policiá-las. A autora ainda explica a forma como as regras de gênero são performáticas e não passam de fenômenos repetidos para simular uma ideia de naturalidade. Ao definir gênero, Butler (2016, p. 242) afirma que “o gênero não deve ser construído como uma identidade estável ou um locus de ação do qual decorrem vários atos; em vez disso, o gênero é uma identidade tenuemente constituída no tempo”. Segundo ela, essa formulação tira a concepção do gênero do solo de um modelo substancial da identidade, deslocando-a para um outro que requer concebê-lo como uma “temporalidade social constituída” (BUTLER, 2016, p. 242, grifo nosso).
Sobre identidade, embora sendo um conceito complexo e “em crise”, Hall (2015) a define como uma “celebração móvel, formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpretados nos sistemas culturais que nos rodeiam”. Ao se definir identidade historicamente, e não biologicamente, os sujeitos assumem identidades diferentes em diferentes momentos, “não sendo as identidades unificadas ao redor de um ‘eu’ corrente”. Assim, a noção de gênero, se considerada social e temporalmente constituída, deveria seguir as mudanças sofridas pela noção de identidade, o que, infelizmente, não ocorre.
Para Butler (2016), vive-se numa ordem compulsória que exige coerência total entre sexo, gênero e desejo sexual, que são obrigatoriamente heterossexuais. A autora sugere, então, a contestação das expressões de gênero, já que a identidade é formada com base na repetição de atos performativos, ou seja, atitudes e gestos que constroem o que é feminino e o que é masculino. A personagem Laerte Coutinho (BRUM; SILVA, 2017) ratifica que o mundo é dos homens – leia-se heterossexuais –, e as mulheres precisam ter cuidado.
Segundo Scott (1999, p. 2), apenas mais recentemente as feministas passaram a utilizar a palavra gênero para se referir à “organização social da relação entre os sexos”. Prossegue a autora fazendo sua análise a partir dos estudos gramaticais:
A relação com a gramática é ao mesmo tempo explícita e cheia de possibilidades inexploradas. Explícita, porque o uso gramatical implica em regras formais que decorrem da designação de masculino ou feminino; cheia de possibilidades inexploradas, porque em vários idiomas indoeuropeus existe uma terceira categoria – o sexo indefinido ou neutro. Na gramática, gênero é compreendido como um meio de classificar fenômenos, um sistema de distinções socialmente acordado mais do que uma descrição objetiva de traços inerentes. Além disso, as classificações sugerem uma relação entre categorias que permite distinções ou agrupamentos separados (SCOTT, 1999, p. 3).
A gramática limita tanto a definição de gênero, a ponto de considerar apenas a desinência de gênero “a” como marca de feminino e a desinência de gênero “o” como marca de masculino7. Constata-se, assim, a exclusão de qualquer outra identidade de gênero que não se enquadre nos padrões de masculino e feminino. Verifica-se, também, a recomendação da gramática no que se refere às regras de concordância nominal8: embora presente um elemento masculino e vários femininos, deve-se realizar a concordância no masculino, que, segundo a gramática, é o gênero predominante.
A literatura, por sua vez, também aponta discriminação de gênero. A título de exemplo, cita-se Cecília Meireles, a qual solicitava que a chamassem de “poeta”, e não “poetiza”, por entender que o feminino era “coisa menor”. Não menos importante e mais contemporaneamente, cita-se a polêmica criada pela ex-presidente Dilma Roussef, ao exigir que a chamassem de Presidenta.
Para delimitação desta pesquisa, optou-se por filiação à definição de gênero proposta por Scott (1999, p. 21), para quem a noção de gênero tem duas partes e várias subpartes: “O gênero é um elemento constitutivo das relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder”.
Scott (1999) ainda destaca que, além das relações de parentesco possuírem um papel importante na definição de gênero, ele também se define nas relações políticas, econômicas e sociais. E conclui dizendo que “o gênero é, portanto, um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre diversas formas de interação humana” (SCOTT, 1999, p. 23).
Para a personagem Laerte Coutinho (BRUM; SILVA, 2017), “não existem homens e mulheres. Somos seres humanos. E existem essas exposições, essas linguagens”. Pelas palavras da personagem, há uma flexibilidade envolvendo as questões de gênero, comparativamente à linguagem, que não é única. A história, porém, parece não reconhecer essa pluralidade. Verifica-se que, conforme Scott (1999), quando os(as) historiadores(as) procuram encontrar as maneiras como o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais, eles/elas começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e das formas particulares, situadas em contextos específicos.
7 Desinências são elementos mórficos que se opõem ao radical para assinalar as flexões da palavra em gênero,
número, modo, tempo e pessoa (BECHARA, 2014).
8 A concordância nominal se baseia na relação entre um substantivo (ou pronome, ou numeral substantivo) e as
palavras que a ele se ligam para caracterizá-lo (artigos, adjetivos, pronomes adjetivos, numerais adjetivos e particípios). Basicamente, ocupa-se da relação entre nomes (Disponível em: http://www.soportugues.com.br/ secoes/sint/sint59.php. Acesso em: 05 de junho de 2017).
Colling e Tedeschi (2015, p. 305), analisando comparativamente as ideias de Scott (1999) e Butler (2016), destacam que “enquanto para Scott o gênero seria um primeiro modo de dar significado às relações de poder, dentro de uma disputa que é política, para Butler ele seria um meio discursivo, um conjunto de atos reiterados no sentido de regular a sexualidade”. Bourdieu (2012) reitera a ideia de que os papéis atribuídos a homens e mulheres são construções sociais, pautadas nas diferenças biológicas. Para o autor, “a diferença biológica entre os sexos [...], especificamente, a diferença anatômica entre os órgãos sexuais, pode assim ser vista como justificativa natural da diferença socialmente construída entre os gêneros [...]” (BORDIEU, 2012, p. 20).
A preocupação de Bordieu (2012) é com a permanência da ordem das coisas pois mesmo com todas as suas injustiças, “perpetue-se tão facilmente, e [...] condições de existência das mais intoleráveis possam permanentemente ser vistas como aceitáveis ou até mesmo como naturais”. Dentre tantas “injustiças”, destaca-se a dominação do masculino sobre o feminino, que o autor chama de “violência simbólica, violência suave, insensível, invisível a suas próprias vítimas, que se exerce essencialmente pelas vias puramente simbólicas da comunicação e do conhecimento [...]” (BOURDIEU, 2012, p. 8).
A personagem Laerte Coutinho (BRUM; SILVA, 2017) reforça que a questão de gênero deve ser tratada como uma questão cultural, levando em conta as variações que a cultura também apresenta: “Por não se tratar de uma criação por Deus, é possível rever tudo”.
A partir das ideias de Virginia Wolf, Bourdieu (2012) também associa a segregação das mulheres a atitudes de uma sociedade arcaica. “Inevitavelmente, nós consideramos a sociedade um lugar de conspiração, que engole o irmão que muitas de nós temos razões de respeitar na vida privada, e impõe em seu lugar um macho monstruoso [...]” afirma Wolf no que ela chama de “poder hipnótico de dominação” (BOURDIEU, 2012, p. 8).
Considerando, então, a distinção – histórica – que transforma uma diferença (de sexo biológico) em desigualdade social (entre homens e mulheres) que a categoria de gênero vai ser apropriada à análise das relações entre os sujeitos. Logo, as desigualdades de gênero precisam ser compreendidas especialmente a partir das condições de acesso aos recursos da sociedade. Isso significa que o conceito de gênero deixa de ser visto a partir de um ideal totalizante e universal (estruturalista) e passa a ser tratado com um forte apelo relacional, pois é no “âmbito das relações sociais que se constroem os gêneros” (LOURO, 2003, p. 22).
A autora, porém, expõe o caráter simplista dessa definição do tema, porquanto “discutir a aprendizagem de papéis masculinos e femininos parece remeter a análise para os indivíduos
e para as relações interpessoais. As desigualdades entre os sujeitos tenderiam a ser consideradas no âmbito das interações face a face” (LOURO, 2003, p. 24).