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Christiane Bittencourt

Nasci em uma família de mulheres, moro com pelo menos cinco delas. Por certo tempo nem sabia que existiam homens e que eu era um deles. A família tem dinheiro de longa data, muito bem conservado por estas mulheres.

Vivemos em uma casa grande, na verdade olhando da rua são duas casas, com muitas janelas, uma delas tipo balcão. A casa é imponente, pertenceu a uma antiga família proprietária de charqueadas, possui fortes portas de madeira e aldravas douradas mantidas reluzentes pelas mãos de Titina, nossa criada.

Na casa da esquerda vivem minha mãe, a criada e eu. Na da direita, minha bisavó, minha avó e duas tias. Todas elas são Maria, o segundo nome sempre santo. Angélica, Teresa, Francisca, Lourdes, Aparecida...Cristina.

correio APPOA l julho 2011

48.

ensaio.

Eu não nasci aqui, mas nunca me disseram onde foi. Aos doze anos soube que sou um predestinado. Ouvi isso como um alerta da boca da Tia Maria Francisca a primeira vez.

Então soube que meu destino já está traçado em letras cor de carmin. Está no sangue.

Venho de uma família de loucos. Homens loucos, todos enlouquece-ram. Mais cedo ou mais tarde acontecerá comigo.

Os que não ficam loucos morrem logo cedo.

Quando soube que um dia ia enlouquecer, elas me fizeram jurar que minha língua jamais repetiria esta história.

Desde então vivo em alerta. Não sei de onde, nem como, mas sei que virá e que o depois será terrível.

Nenhuma delas conta o que aconteceu com eles, meu bisavô, meu avô, tios, primos e meu Pai. Tive dois irmãos, um que morreu logo e outro que alcançou os 15 anos e morreu enforcado na figueira da casa da avó.

Segundo minha mãe as coisas tem andado calmas há muitos anos e quem sabe a sorte está comigo e não enlouquecerei.

De todas, ela é a Maria mais esperançosa.

No passado a família mudou-se muitas vezes, pois quando a loucura aproximava-se a vida ia ficando insuportável e era preciso começar vida nova em uma nova terra.

Quando se mudam apagam tudo, não deixam rastro, não há documen-tos, não há memória a não ser dentro de cada uma dessas mulheres que não abre a boca para contar o que passou.

Não tenho amigos, pois as famílias me acham estranho, assim nunca deixaram seus rebentos se aproximarem de mim.

Gosto mesmo é de ler. Tenho facilidade com línguas, aprendo rápido, entendo logo.

Em casa não temos muitos livros, elas temem que eu possa ser influen-ciado por eles e assim atiçar a loucura.

Relendo Freud Uma criança é espancada.

Frequento o Bar do Bianchetti e a biblioteca municipal. Sou o único na cidade que já leu todos os livros que lá estão. A bibliotecária me avisa sempre que recebe um livro novo ou quando morre alguém de posses que deixou alguma doação. Ela tem uma caderneta onde anota tudo que já li, assim sempre me adverte quando vou pegar algum livro antes lido.

Troco ideias com homens mais velhos vez ou outra. Com o boticário, o dentista e o médico.

Espero a loucura.

Imagino como seja, mas não sinto que me espreite. O que talvez me cause mais angústia são os olhos. Os olhos escuros de cada uma delas.

Cinco pares de olhos escuros de mulher, me olhando por todos os lados, nada escapa.

Passo em revista diariamente.

Ao entardecer quando volto para casa sinto meu corpo gelar inteiro, minhas mãos suam, meus pés esfriam e a garganta prende. Quase não respiro.

Sei que devo emitir um cumprimento, mas tenho medo que digam que a loucura me pegou e não consigo.

Tento, mas não consigo.

Então minha avó, a Maria mais conformada, se aproxima e pergunta: Como foi o dia Mundinho?

Essa é a senha. Meu corpo abre-se, a garganta solta, o sangue volta a correr e consigo responder. São poucos segundos, mas pesam toneladas dentro de mim.

Quando tudo está bem sou Mundinho, quando algo as amedronta sou Edmundo Augusto Vieira de Castro Neto. Assim mesmo repetido com todos os nomes, todas as letras.

Na hora do jantar cada uma delas me interroga. Precisam saber como foi o dia, o que fiz, com quem falei, o que comi na rua, se bebi, se discuti. Tudo.

correio APPOA l julho 2011

50.

ensaio.

Preciso contar tudo, pois é assim que medem minha sanidade. Sempre fiz isso sem problemas, isso não me incomodava, ao contrario, responder suas perguntas me dava uma sensação de estar sob controle.

Com elas me cuidando, podia me soltar e ir vivendo a vida enquanto a loucura não vem.

Mas ultimamente, isso não é mais uma coisa tranquila. Ainda conto, mas não tudo.

Conto, mas não sem tirar o nó da garganta, o que tem me feito gaguejar, engasgar, tossir e comer menos.

Ainda não contei que ando confuso, tenho sonhos, não sei bem quan-do são sonhos e quanquan-do verdade. As vezes ouço coisas, não sei se foram ditas de fora ou de dentro da minha cabeça.

Dia desses pensei em casar e sair daqui, ir para onde a loucura não me encontre.

Onde aqueles olhos escuros não me olhem.

Onde possa contar tudo ou não contar nada, se quiser.

Mas as coisas não são assim tão fáceis, o dinheiro da família é da família, não meu.

Ou melhor, o dinheiro da família, é delas.

Não tenho tido ideias. Estranho. A cabeça parece estar esvaziando. Ponho-me a ler, essa sempre foi uma saída para momentos como este. Não sei o que fazer, penso em procurar o vigário, mas não sei se é a melhor ideia, a presença dele me assusta, a escuridão da igreja, aquelas imagens nuas...

Talvez o Doutor, mas tenho medo, nossa ultima conversa foi sobre um português que andava fazendo experiências com o cérebro vivo. Lobotomia chama-se, interessante, mas assustador.

Posso falar com Titina. Afinal ela é quem melhor me conhece, foi com ela que aprendi quase tudo que sei. Até minha primeira vez foi com ela que fiz.

Relendo Freud Uma criança é espancada.

Ela sabe das coisas da família, sempre ocupa um lugar especial para cada um de nós.

Titina estava já na cama, entrei e fui logo fazendo perguntas.

Só consentiu em me contar o que sabia depois de alguns minutos de sexo, afinal essa era sua moeda nesta casa.

Enquanto abria os botões da minha camisa e mordiscava meu pescoço contava que meu avô ouvia vozes, via pessoas, matava e um dia desapare-ceu, ninguém sabe como.

Um de meus tios, falava com os animais e acabou morrendo perdido em uma floresta. Ela não sabe dizer o que ele sentia, ou como se comporta-va, só ouvira falar.

Dos outros nada sabia, só mistério.

Precisava respirar. Saí à rua, caminhei em largas passadas. Percebi que algo me seguia, diminui o passo e a coisa fez o mesmo, tornei a apressar-me e senti algo batendo como um soco, uma rajada por dentro.

Minha cabeça tornou a encher-se e gritei, gritei muito acordando toda vizinhança.

Foi boa, muito boa, uma sensação maravilhosa. Corri, virei à esquina e voltei à casa.

A porta estava trancada o que não era costume, bati ansiosamente na aldrava reluzente.

Titina veio abrir apressada e logo ao entrar vi as malas das cinco Marias dispostas ao lado do relógio no Hall de entrada.

Era minha vez.

resenha.

Passagem adolescente e o clube do filme

No documento editorial. julho 2011 l correio APPOA.1 (páginas 47-53)

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