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editorial. julho 2011 l correio APPOA.1

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Como acontece anualmente, estivemos durante o último final de se- mana de maio em Gramado, reunidos para mais um Relendo Freud, aben- çoados por dias frios e ensolarados com direito a lareira e calor humano no final da tarde e noite. Uma criança é espancada (1919) foi o texto que esco- lhemos desta vez; ensaio que nos trouxe a boa oportunidade de refletir sobre a relação entre punição e amor, bem como sobre o estatuto da fantasia e sua diferença – ou não – para com o fantasma.

O texto, que não deixa de trazer algumas contradições e dificuldades, merece ser lido com outro – O problema econômico do masoquismo (1924), como bem nos lembraram as coordenadoras do cartel de trabalho, Lúcia Mees e Marianne S. Mendes Ribeiro.

A fantasia relatada no texto pelos pacientes com quem Freud trabalha vem numa sequência – sendo que cada fase tem significação distinta, em que tampouco o sexo é indiferente. Na primeira versão, consciente, o fanta- siar comporta a frase: “meu pai bate numa criança que eu odeio”, e apanhar corresponde a uma privação de amor, sem contornos sádicos ou masoquis- tas definidos. Na segunda fase, a fantasia é mais bem descrita como uma construção da análise, já que inconsciente; nela, a criança fantasia ser ela mesma espancada pelo próprio pai, tempo em que sentimento de culpa e

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amor sexual convergem em uma posição masoquista feminina de alto grau de prazer. Na última, consciente como a primeira, quem fantasia olha crianças desconhecidas serem espancadas; que também comporta exci- tação sexual, em geral seguida de masturbação em posição sádica.

Nos parágrafos a seguir, apontamos algumas observações sobre o de- bate dos trabalhos apresentados no Relendo, cujos textos se encontram nesta edição do Correio.

Lúcia Mees nos trouxe preciosidades sobre “Freud e Annas” – Annas, analisandas e a própria filha, cujos relatos fazem pensar que seria esta última uma das narradoras da fantasia que Freud menciona.

A fantasia de apanhar não é indicador de que tenha havido espanca- mento por parte dos educadores. A fixação que dá origem a essa fantasia, diz Freud, é relativa a elementos sexuais que lhe sejam logo antes atrelados.

A ambivalência do gesto punitivo em seu efeito de amor marca a relação erótica dali em diante e nos faz interrogar, entre outras coisas, como uma mulher vive a castração. Tanto efeito como substituto do recalcamento, a fantasia seria perversa ou normal?

“Venho porque desrespeito os outros”, diz uma menina de sete anos à analista em sua primeira consulta. O gosto de machucar com palavrões e afrontar é mais especial, produz mais prazer, se vem seguido da surra do pai, acrescenta. Na leitura do trabalho de Simone Brenner, somos fisgados a pensar na ambivalência do gesto de punição, que ao operar a castração salva e assim tem efeito de amor. Uma punição que engendra, substituindo, a relação erótica aponta o horizonte perverso para onde pode escorregar.

Qual seria o ponto em que um sujeito tem a possibilidade de se subtrair enquanto objeto de gozo? Poderíamos pensar num quarto tempo para a pulsão a partir daí – um tempo de retirada, da possibilidade de não sub- missão ao domínio do Mestre?

Ainda uma pergunta – Será esta uma fantasia fundamental? O fantas- ma? O termo fantasia em si não é o maior problema para uma resposta a essa questão – a tradução do francês ao português poderia ser fantasia,

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Relendo Freud Uma criança é espancada.

embora fantasma tenha maior acolhida e parece-nos mais preciso enquan- to diferenciação do que são fantasias, que nitidamente não são da mesma ordem. Há quem use fantasia fundamental para denominar o fantasma, há quem use apenas fantasia, e para eles parece-lhes suficiente. Maria Cristina Poli aponta uma dificuldade mais relevante na questão, que diz respeito à construção da fantasia de espancamento, na medida em que Freud mostra- se no texto um investigador ativo, que busca a descrição da fantasia em detalhe, o que sabemos poder resultar em se perder a posição do sujeito no significante.

Concluindo, abrimos a leitura sublinhando o enigma da passagem do primeiro ao segundo tempo da fantasia, quando muda a criança, que passa a ser ela mesma que doravante estará implicada como sujeito numa cena masoquista construída durante/pela psicanálise.

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notícias.

Tesouraria

A Associação Psicanalítica de Porto Alegre informa que, a partir do mês de julho, haverá um acréscimo nas mensalidades de Associados e Percursos, em função da inflação acumulada no último ano. Seguem, abaixo, os novos valores:

CATEGORIA VALOR

Membros R$ 220,00

Participantes R$ 170,00

Membros a distância R$ 330,00*

Participantes a distância R$ 255,00*

Percurso de Escola X R$ 260,00

Percurso de Escola XI R$ 330,00

* Semestralidades

Mudança de Endereço

Aidê Deconte informa o novo endereço de seu consultório: Rua João Abbott, 333, sala 505 - Petrópolis - Porto Alegre - RS.

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temática.

Um estudo que deveria ser célebre

Marianne Stolzmann Mendes Ribeiro

Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões, texto publicado em 1919, foi escrito no mesmo ano de O Estra- nho e um pouco antes de Além do princípio do prazer (1920). Nesta época, Freud estava às voltas com a elaboração do conceito de pulsão de morte e profundamente afetado pela sua nova descoberta. Sua abordagem da fan- tasia, podemos dizer, está contaminada por essa nova perspectiva.

A leitura deste texto freudiano de forma linear pode ser inicialmente um exercício bastante difícil. Ao contrário de outros textos, Freud parece não ter tido uma grande preocupação com a clareza. Às vezes nos vemos emaranhados com tantos e importantes conceitos cuja elaboração ainda está por vir. Outra observação diz respeito ao próprio subtítulo – uma contri- buição ao estudo da origem das perversões – título enigmático que, numa primeira leitura, parece não ter muito a ver com o que é abordado. Portanto,

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esse é um texto que, me parece, precisa ser decantado, pois são muitas e diversas as consequências que podem resultar a partir da sua leitura. Este trabalho, então, é fruto de uma discussão de cartel e as questões a seguir foram construídas ao longo dos encontros.

Pretendo apresentar o texto de Freud sublinhando as questões prin- cipais de cada um dos seus seis capítulos para, ao final, destacar aquelas que, a meu ver, são de maior interesse e importância.

Vários são os temas abordados ao longo dos seis capítulos do Bate- se..., mas dentre eles destacam-se a fantasia, o masoquismo, a origem das perversões, a estrutura subjetiva e o sentimento de culpa.

Freud inicia o texto observando, a partir da análise de seus casos clíni- cos, que é espantosa a frequência, na neurose obsessiva e na histeria, da fantasia uma criança é espancada. Esclarece que as primeiras fantasias des- sa natureza foram nutridas pela criança antes da idade escolar. Esta fantasia suscitaria sentimentos com alto grau de prazer e estaria ligada à masturbação.

Logo, a visão de outra criança sendo espancada na escola produzia um sentimento de caráter misto, de prazer e repugnância. Estas fantasias, se- gundo Freud, nascem de causas acidentais e são retidas com o propósito de satisfação autoerótica, sendo consideradas um traço primário de perversão.

No meu entender, uma primeira questão a ser destacada é a autonomia da fantasia em relação à realidade vivida pelo sujeito, pois, sendo o desejo o que coloca em cena a fantasia, não há relação imediata entre o desejo e os acontecimentos concretos vividos pela criança.

O mecanismo seria mais ou menos o seguinte: um dos componentes da pulsão sexual desenvolve-se a frente do resto, torna-se prematuramente independente, sofre uma fixação, sendo por isso afastado dos processos posteriores de desenvolvimento e, desta forma, evidencia-se uma constitui- ção peculiar e anormal no indivíduo. Entretanto, Freud sublinha que uma perversão infantil não subsiste necessariamente por toda a vida do sujeito, podendo ser mais tarde submetida ao recalque (neurose), substituída por

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Relendo Freud Uma criança é espancada.

uma formação reativa ou transformada por meio da sublimação. Logo, a fixação não precisa ter qualquer força traumática.

Neste estudo, que deveria ser célebre, nas palavras de Lacan, “existe aí, o resumo de uma massa considerável de experiências e a tentativa de organizá-las” (Lacan, 1957/1995, p. 116). Freud enfatiza a importância das primeiras experiências infantis, sendo que as fantasias de espancamento ocorrem mais para o final deste período ou após seu término.

A segunda questão a ser destacada, então, é a da fantasia como um traço primário da perversão.

É no capítulo III que, finalmente, Freud introduz o que ele vai chamar das três fases da fantasia de espancamento, pontuando que elas têm um desenvolvimento histórico modificado em muitos aspectos: na relação com o autor da fantasia, quanto ao seu objeto, conteúdo e significado.

Interessante sublinhar que Freud faz suas considerações a partir do estudo de casos femininos (ao todo quatro) e é assim que pretende, ao longo do texto, apresentar os tempos (fases) de construção dessa fantasia.

A primeira fase pertence a um período muito primitivo da infância e é caracterizada por apresentar aspectos indefinidos, como uma lembrança imprecisa: a criança em que estão batendo não é a que cria a fantasia, não há relação entre o sexo da criança que cria a fantasia e o daquela que está sendo espancada. A fantasia, diz Freud nesse momento da sua elaboração, não é nem masoquista nem sádica, e quem bate não é uma criança, mas um adulto. O enunciado que melhor traduz esta fantasia seria: “o meu pai está batendo na criança (irmão) que eu odeio”.

Interessante assinalar, com Lacan (1957/1995), que a situação fantasística tem essa complexidade manifesta por comportar três personagens: o agente da punição, aquele que se submete a ela e o sujeito. Neste sentido, estamos diante de uma estrutura intersubjetiva plena, como refere Lacan. Ou seja,

“o importante não é que a coisa tenha sido falada, mas que a situação ternária

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instaurada na fantasia primitiva porte em si mesma a marca da estrutura intersubjetiva que constitui toda a palavra consumada” (p. 118).

Na passagem da primeira para a segunda fase, ocorrem profundas trans- formações na fantasia. A segunda fase, segundo Freud, é a mais importante e mais significativa, mas esta fase jamais teve existência real e nunca é lembrada (tornada consciente). É uma construção na análise, ou melhor, dito, uma necessidade. Ele também marca a importância desta fase, pois tem um caráter de endereçamento ao analista. Em comparação à primeira, temos uma situação reduzida a dois personagens. A frase que melhor re- presenta esta fase da fantasia é estou sendo espancada pelo meu pai, logo possui um caráter inequivocamente masoquista. O eu está nessa ocasião fortemente acentuado. Aqui a fantasia se tornou masoquista e Freud ressal- ta que o sentimento de culpa é sempre o responsável pela transformação do sadismo em masoquismo, pois o fato ser batido satisfaz a culpa edípica e permite, ao mesmo tempo, a obtenção de uma prazer de modo regressivo.

E, a terceira fase, finalmente, assemelha-se à primeira. A pessoa que bate nunca é o pai, mas um substituto dele; a figura da criança que cria a fantasia não aparece (provavelmente estou olhando) e são várias crianças que estão sendo espancadas (provavelmente meninos). Logo, neste terceiro tempo da fantasia, o sujeito está nas duas posições: daquele que goza assis- tindo a cena e daquele que é espancado, numa posição identificatória. Ou seja, para Freud, a fantasia, na terceira fase, é sádica apenas na forma, pois a satisfação é masoquista. Mas a característica essencial dessa fase é que a fantasia liga-se, agora, a uma excitação sexual, com vistas à masturbação.

Neste terceiro capítulo, sublinho a questão, apontada por Lacan, da situação dessubjetivada que fica evidenciada nesta fase da fantasia.

No capítulo IV, Freud chama atenção para a particularidade do período em que ocorrem as fantasias: o período do Complexo de Édipo, quando sentimentos de inveja dos irmãos, raiva, humilhação são a tônica do dia.

Logo, poderíamos traduzir que, na primeira fase, o conteúdo e significado

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Relendo Freud Uma criança é espancada.

da fantasia de espancamento seriam: o meu pai não ama essa outra criança, ama apenas a mim, pois está batendo nela.

Neste sentido, Marco Antonio Coutinho Jorge (2010) no seu livro Fun- damentos da Psicanálise salienta que, neste ensaio sobre o masoquismo, é notável perceber a presença de “uma articulação entre o amor e o gozo, inerente a toda fantasia de desejo” (p.97).

Como a vida sexual da criança já atingiu o estado da organização genital, o desejo da criança em ter um filho com a mãe (no caso dos meninos) e de obter um filho do pai (nos casos das meninas) já anuncia a participação dos genitais neste processo. Freud enfatiza que nenhum desses amores edipianos pode evitar o destino do recalque. Ao mesmo tempo em que ocorre esse processo de recalque, surge um sentimento de culpa, que tem sua origem ligada, então, aos desejos incestuosos e sua persistência no inconsciente.

A fantasia da segunda fase – a de ser espancada pelo pai – é uma expressão do sentimento de culpa da menina. Logo, a fantasia tornou-se masoquista.

Neste momento de sua elaboração teórica, Freud afirma que o senti- mento de culpa é o fator que converte o sadismo em masoquismo. Voltare- mos posteriormente a esta questão.

Pois bem, é na segunda fase que Freud vai localizar o que ele denomina de essência do masoquismo, conceitualização que ele modificará posterior- mente no seu importante texto O problema econômico do masoquismo (1924).

Na terceira fase, enfim, todas as crianças que estão sendo espancadas, nada mais são do que substitutos da própria criança, remetendo a uma satisfação masoquista. Trata-se, no fundo, então, de uma fantasia maso- quista. No meu entender a questão a ser destacada neste capítulo é que, nesta terceira fase, temos a essência do masoquismo.

No capítulo V, Freud finalmente esclarece o objetivo deste artigo, situan- do-nos que o estudo dos casos nos ajuda para o esclarecimento da gênese das perversões em geral e do masoquismo em particular, e para avaliar o papel desempenhado pela diferença de sexo na dinâmica da neurose.

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Segundo Freud, a perversão está entre os processos típicos, normais do desenvolvimento sexual da criança e assinala que uma perversão na infância pode levar a uma perversão que consuma toda a vida sexual do sujeito, mas também pode ser interrompida e permanecer ao fundo do de- senvolvimento sexual normal.

Neste texto de 1919, Freud antecipa o que aprofundaria no artigo A Dissolução do Complexo de Édipo (1924), ou seja, que o Complexo de Édipo é o verdadeiro núcleo das neuroses e a sexualidade infantil que culmina neste complexo é que determina realmente as neuroses. Logo, o que resta do Complexo de Édipo no inconsciente representa a inclinação para o pos- terior desenvolvimento de neuroses nos adultos.

A fantasia de espancamento e outras fixações perversas análogas tam- bém seriam resíduos do Complexo de Édipo, cicatrizes deixadas pelo pro- cesso que terminou, tal qual o sentimento de inferioridade. Neste artigo, aponta que a origem do sentimento de culpa está no superego.

Freud retoma, neste capítulo, a sua concepção do masoquismo como originário do sadismo que foi voltado contra o eu e que, a transformação do sadismo em masoquismo, parece dever-se à influência do sentimento de culpa que participa do ato de recalcamento. Logo, o recalcamento opera de três modos: primeiro, torna inconscientes as consequências da organização genital; segundo, obriga essa organização a regredir ao estágio anterior sádi- co anal e, terceiro, transforma o sadismo desse estágio em masoquismo, que é passivo e novamente, num certo sentido narcísico.

Em relação à masturbação, Freud aponta que o sentimento de culpa está relacionado com a masturbação da primitiva infância; e não se deve ligá-lo com o ato de masturbação, mas com a fantasia inconsciente que tem sua raiz no Complexo de Édipo.

Por fim, sublinha que a segunda fase da fantasia de espancamento, fase inconsciente e masoquista, é a mais importante e produz efeitos significa- tivos sobre o caráter: pessoas que abrigam uma fantasia dessa espécie

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Relendo Freud Uma criança é espancada.

desenvolvem uma irritabilidade e uma sensibilidade especial contra quem incluir na categoria de pai.

Neste quinto capítulo a questão a ser destacada é que o sentimento de culpa tem sua origem no Complexo de Édipo (superego).

No capítulo VI, temos uma agradável e bem vinda revisão sobre as três fases da fantasia de espancamento na menina – pois neste momento do texto já nos encontramos bastante confusos! Retomando então: a primeira e a terceira são lembradas conscientemente, a do meio permanece incons- ciente. As duas fases conscientes parecem ser sádicas (e aqui temos uma contradição), enquanto que a segunda, a inconsciente, é de natureza ma- soquista e seu conteúdo consiste em ser a criança espancada pelo pai, e faz- se acompanhar de uma carga libidinal e de um sentimento de culpa.

Neste último capítulo, Freud faz uma importante exposição sobre a ocorrência dessas fantasias na perversão propriamente dita, ilustrando com masoquistas do sexo masculino, “autênticos perversos” (p. 244). Nestes casos, em suas fantasias masoquistas se transferem para o papel de uma mulher, sendo que a atitude masoquista coincide com uma atitude femini- na. As pessoas que aplicam os castigos são sempre mulheres. E Freud enu- mera três tipos principais: aqueles que obtêm satisfação sexual exclusiva- mente na masturbação; os que combinam masoquismo e atividade genital;

e os mais raros, os que são perturbados por ideias obsessivas.

Freud relata que não se confirma a ideia de uma analogia entre as fan- tasias de espancamento dos meninos e das meninas. Na fantasia masculi- na, o ser espancado também significa ser amado (num sentido genital), embora rebaixado a um nível inferior, por causa da regressão. A forma ori- ginal da fantasia masculina é sou amado pelo pai (inconsciente) e estou sendo espancado pela minha mãe (consciente). Para Freud, a fantasia de espancamento do menino é passiva desde o começo e deriva de uma atitu- de feminina em relação ao pai; corresponde ao Complexo de Édipo tal como a fantasia feminina. No entanto, em ambos os casos, a fantasia tem sua origem numa relação incestuosa com o pai.

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Poderíamos, então, assim definir as principais diferenças nas fanta- sias de espancamento entre meninos e meninas:

1º. Na menina, a fantasia masoquista inconsciente parte da atitude edipiana normal; no menino, parte da atitude invertida.

2º. Na menina, a fantasia tem um caráter preliminar (a primeira fase), no qual o espancamento não tem significado especial e é feito sobre al- guém visto com rancor ciumento; no menino, ambos esses aspectos estão ausentes.

3º. Na transição para a terceira fase (consciente), que toma lugar da fantasia inconsciente, a menina mantém a figura do pai, conservando inalterado o sexo da pessoa que está batendo, mas muda o sexo da pessoa que está sendo espancada (meninos); o menino modifica a figura e o sexo de quem bate (mãe no lugar do pai), mas mantém a sua própria figura, logo a pessoa que está batendo e a pessoa que está apanhando são de sexos diferentes.

4º. Na menina, o que era originalmente uma situação masoquista (passiva), transforma-se em sádica, por meio do recalque, e sua qualidade sexual é quase apagada. Freud salienta que, dessa forma, a menina escapa quase inteiramente às exigências do lado erótico de sua vida. No menino, a situação permanece masoquista e mostra uma semelhança maior com a fantasia original, com seu significado genital (diferentes sexos). Com isso, segundo Freud, o menino burla o seu homossexualismo.

Nessa comparação entre os dois sexos, Freud acentua que o mais im- portante é que, para o menino, o ser espancado é equivalente a ser amado, ao passo que, para a menina, ser espancada significa não ser amada.

Por fim, encerra o artigo, mais uma vez sublinhando que a psicanálise sustenta o ponto de vista de que as forças motivadoras do recalcamento não devem ser sexualizadas e que a sexualidade infantil, que é mantida sob recalque, atua como a principal força motivadora na formação de sintomas, sendo que a parte essencial do seu conteúdo, o Complexo de Édipo, é o complexo nuclear das neuroses.

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Relendo Freud Uma criança é espancada.

Referências bibliográficas

FREUD, Sigmund. Uma criança é espancada: uma contribuição ao estudo da origem das perversões (1919). In: Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro : Imago,1974.

______. O Estranho (1919). In: Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro : Imago, 1974.

______. Além do princípio do prazer (1920). In: Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro : Imago, 129-164, 1974.

______. O problema econômico do masoquismo (1924). In: Ed. Standard Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro : Imago, 1974.

______. A Dissolução do Complexo de Édipo (1924). In: Ed. Standart Brasileira das Obras Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1974.

JORGE, Marco A. C. Fundamentos da Psicanálise de Freud a Lacan: a clínica da fantasia. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

LACAN, Jacques. Seminário As relações de objeto. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editores, 1957/1995.

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Freud e Annas

Lúcia A. Mees

Levo o braço para trás e depois trago-o de volta para frente, com a palma aberta, e acerto em cheio a bunda da Alex (...) Eu nunca tive uma fantasia dessas. Como foi que essa mulher descobriu a fantasia escondida na minha cabeça, apenas à espera de alguém que a descobrisse? (David Lodge, Surdo mundo).

O texto de 1919, consagrado enquanto tradução como “Bate-se numa criança”, é envolto na atmosfera do pós Primeira Grande Guerra e a indaga- ção sobre o que move a destrutividade da humanidade. O texto faz parte ainda dos efeitos da escuta clínica de Freud a partir de casos – 4 mulheres e 2 homens – que possuem em comum a fantasia de espancamento. Essas duas linhas de abordagem permitem entrever aquilo com que Freud se in- dagava nesta e em outra época de sua produção.

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Na linha que chamarei de “guerra e morte”, temos o trabalho de Freud desta época determinado pelas restrições à existência, ligados a questões como agressividade, sadismo, masoquismo, morte e na imbricação parado- xal do prazer consciente e o gozo secreto (Ruhs, 2010).

Nessa época, vemos Freud às voltas com a formulação da pulsão de morte, ao que se dedica ao abordar as neuroses de guerra no mesmo ano de 1919 e, um ano mais tarde, numa conclusão e avanço teórico, a elaboração do texto “Mais além do princípio do prazer”. O masoquismo que lhe ocupa no texto do “Bate-se” se transformará a partir da noção de pulsão de morte, este “desprazer estranho à pulsão”.

Embora seja um ano mais tarde que o conceito de pulsão de morte ganha sua formatação final – a qual acompanhará as convicções de Freud até o final no texto sobre as fantasias de espancamento encontramos os em- briões dessa noção. Em 1919, o sadismo ainda precede o masoquismo e este é fruto da sexualização posterior, quer dizer, capaz de ligar dor com excitação sexual. O masoquismo é oriundo da transformação da atividade em passividade, com retorno sobre a própria pessoa do impulso antes diri- gido ao exterior. No texto “O problema econômico do masoquismo”, de 1924, Freud retoma a temática do masoquismo, agora transformado pela concepção da pulsão de morte. O masoquismo não se reduz mais a um dos tempos da fantasia e ganha destaque e subdivisões: o masoquismo eróge- no, o feminino e o moral. Freud explicita melhor neste texto o que aparece indistinto no texto “Bate-se”. Uma das manifestações da pulsão de morte é o impulso à destrutividade que caracteriza o par sadismo-masoquismo. Em um momento mítico, as pulsões de vida e morte não se diferenciariam no sujeito, mas – num tempo posterior – a pulsão de vida expulsa para fora parte da destrutividade através da musculatura. A parte restante no interior constituirá o masoquismo originário. Os conceitos de fusão e desfusão ex- plicam o masoquismo primeiro, pois neste o que se verifica é a fusão da pulsão destrutiva com a pulsão sexual. A desfusão indica o que mais tarde constituirá o funcionamento quase separado dos dois tipos de pulsão.

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Relendo Freud Uma criança é espancada.

Pode-se dizer que o instinto [pulsão] de morte operante no organis- mo – sadismo primário – é idêntico ao masoquismo. Após sua parte principal ter sido transposta para fora, para os objetos, dentro resta como um resíduo seu masoquismo erógeno propriamente dito que, por um lado, se tornou componente da libido e, por outro, ainda tem o eu como objeto. [...] Em certas circunstâncias, o sadismo, ou ins- tinto [pulsão] de destruição, antes dirigido para fora, projetado, pode ser mais uma vez introjetado, voltado para dentro, regredindo as- sim à sua situação anterior. Se tal acontece, produz-se um maso- quismo secundário, que é acrescentado ao masoquismo original (Freud, 1924/1976, p. 205).

Pode-se supor que o contexto histórico convocava Freud a se questio- nar sobre o “impulso pelo fim” revelado pela guerra:

Em 1917,

depois da crença de que a guerra seria facilmente vencida pela Alemanha, rapidamente se percebeu que as perspectivas de paz se afastavam cada vez mais a cada dia. Neste ano, só faltava a decisão do presidente Wilson, que faria os americanos entrarem em cena.

No ano anterior, a Áustria-Hungria perdera seu imperador, Franz- Joseph, e o próprio império estava exangue. As repercussões eram dolorosamente sentidas na vida cotidiana. Cada vez mais faltavam alimentos, e a prática de Freud se reduzia progressivamente a nada.

Sua família só conseguira sobreviver graças a ajudas generosas, den- tre as quais a de Ely Bernays, o irmão de Marta, que Freud ajudara a estabelecer-se na América. A retomada de sua clientela só aconte- cerá com a vinda de pacientes da Inglaterra ou dos Estados Unidos”

(Major & Talagrand, 2007, p. 182).

A guerra atinge também o movimento psicanalítico em vias de expan- são e o círculo restrito dos discípulos de Freud: Eitingon, Otto Rank, Abraham e Ferenczi servirão na guerra.

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Escreve Freud a Jones sobre esse tempo:

Não me iludo sobre o fato de que o tempo de florescimento de nossa ciência foi bruscamente interrompido, que teremos dias difíceis a viver, e que a única coisa a fazer é manter uma pequena chama em nossos lares, até o momento em que o vento mais favorável permita reanimá-la (Jones, 1961, p. 190).

Não bastasse o contexto de privações e isolamento, Freud se preocupa durante a guerra com o destino de seus filhos que poderiam ser convoca- dos ao alistamento:

O desconhecido mais imediato para Freud, que o deixava alternadamente inquieto e taciturno, era o futuro de seus três filhos em idade de mobilização; como não partilhava de nenhum entu- siasmo nacionalista e a Inglaterra – pela qual sempre sentira uma atração e até uma vontade de ali se estabelecer como haviam feito membros de sua família – tornara-se oficialmente o inimigo, ao declarar finalmente a guerra à Alemanha em 1914, Freud se en- contrava num dilema em relação aos filhos, que não deixavam de demonstrar certo patriotismo, mesmo que o orgulho deles fosse no mínimo angustiado. Em julho de 1914, ele não escondia a satis- fação de que as autoridades austríacas tivessem reformado dois deles e recusado o terceiro. Mas seria uma breve trégua. Martin, o mais velho, não resiste e alista-se a partir do mês de agosto, achan- do intolerável não se unir a todos que partiam. Ele inclusive se regozijava com a idéia de ultrapassar a fronteira russa sem a auto- rização exigida pelo império dos czares, especialmente para os judeus. Oliver, o segundo filho, recusado até 1916, é finalmente incorporado à Engenharia e fica, portanto, menos exposto que seus irmãos. O mais novo, Ernst, engajado em outubro, serviria no front italiano quando a Itália finalmente declara guerra à Áustria- Hungria, em maio de 1915. Na França, o marido de Sophie, Max Halberstadt, genro querido de Freud, será ferido em 1916 e depois

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Relendo Freud Uma criança é espancada.

reformado. Somente o sobrinho de Freud, Hermann Graf, o único filho de sua irmã Rosa, perecerá em combate (Major & Talagrand, 2007, p. 176).

Depois da guerra, com os filhos são e salvos, advém um tempo de alívio para Freud, até que um novo golpe se coloque.

Em março de 1919, Marta Freud foi acometida de uma grave pneumonia gripal, da qual ela só se recuperou depois de muitos meses. Em seguida, nos primeiros dias do ano seguinte, Freud sofreu o golpe mais duro que a existência tinha lhe reservado até agora: a morte de sua segunda filha, Sophie, da mesma doença (Jones, 1969, p. 9).

Apesar do contexto dificílimo, Freud não deixa de produzir e nos anos do pós-guerra, ele, além da já lembrada reestruturação da teoria das pulsões, formula a nova tópica do Id, ego e superego, diferindo da pri- meira do inconsciente, pré-consciente e consciente.

Não deixa também de conduzir análises: a de sua filha Anna Freud, a qual esteve no divã do pai por duas vezes, entre 1918 e 1920 e depois entre 1922 e 1924. E ainda de Anna G. paciente de Freud entre abril e julho de 1921. Aqui se abre outro eixo interpretativo do texto sobre as fantasias de fustigação: a análise do feminino.

A identidade feminina, o masoquismo feminino e a questão da ho- mossexualidade feminina [a jovem homossexual é analisada por Freud entre outubro de 1918 e a primavera de 1919] são os assuntos principais na atividade clínica e a reflexão de Freud durante os anos de 1919 (Ruhs, 2010).

Anna Freud, tudo leva a crer (Young-Bruel apud Ruhs, 2010), é um dos quatro casos femininos citados por Freud no texto do “Bate-se”. Ela mesma que faz saber, quando em 1922 apresenta em um congresso o escrito

“Fantasias de espancamento e devaneios”, veladamente autobiográfico. Esta

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apresentação permite sua aceitação como membro da Sociedade Psicana- lítica de Viena e conta a análise de uma moça de quinze anos, assinalando

“o desenvolvimento da vida de fantasia desta devaneadora” (Freud, 1922).

Conta ela que aos 5 ou 6 anos formou uma fantasia de espancamento des- crita por Freud. No começo era “um menino está sendo espancado por um adulto” (Freud, 1922) e um pouco mais adiante mudou para “muitos meni- nos estão sendo espancados por muitos adultos” (Freud, 1922). Relata ain- da ela, que em razão da culpa sentida pelo prazer auto-erótico, a menina tentava reter o prazer da fantasia, mas ansiava por interromper a masturbação que a acompanhava. “Na tentativa de gozar o prazer permitido por todo tempo possível e de adiar a conclusão proibida indefinidamente, ela acres- centava todo tipo de detalhes acessórios [...] mas copiosamente descritos”

(Freud, 1922). Porém, a proibição acabou por se estender para a fantasia, com perda do prazer e ocorria cada vez com menos frequência.

Entre seus 8 e 10 anos, entretanto, a menina iniciou uma nova espécie de atividade fantasiosa, as quais ela mesma chamava “histórias bonitas, em contraste com a feia fantasia de espancamento” (Freud, 1922). As histórias bonitas pareciam à primeira vista descrever apenas cenas agradáveis, reche- adas de comportamentos afetuosos. O final de cada episódio era acompa- nhado de forte sentimento de felicidade, livre de qualquer vestígio de culpa e sem qualquer atividade auto-erótica. Diz ainda Anna Freud: “Tinha-se a impressão de que ela nunca se cansava em falar e que, ao fazer isso, ela experimentava um prazer semelhante, ou mesmo maior, do que nos deva- neios” (Freud, 1922).

Quando a moça completou 14 ou 15 anos, depois de ter constituí- do muitas histórias alegres, ela deparou-se com um livro de histórias sobre um garoto, as quais se passavam na Idade Média. Sua imaginação foi capturada pelos vários protagonistas, a ponto de tecer um novo conto, como se ele fosse produto espontâneo de sua própria fantasia. O material era o seguinte:

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Um cavaleiro medieval foi envolvido numa trama de hostilidades com vários nobres que estavam coligados contra ele. No decurso de uma batalha, um jovem nobre de quinze anos (isto é, a idade da devaneadora) é capturado por um ajudante do cavaleiro. Ele é leva- do ao castelo do cavaleiro, onde é mantido prisioneiro por um longo tempo. Finalmente, ele é solto (Freud, 1922).

A cada sessão de análise, de acordo com o humor da analisante, ela podia voltar a uma fase inicial do conto, ou interpor uma nova situação entre duas outras, entretanto, havia dois protagonistas principais e todos os outros podiam ser desconsiderados. Uma dessas personagens é o jovem nobre a quem a devaneadora dotou de todas as características boas e atraen- tes possíveis e a outra é o cavaleiro do castelo, que é pintado como sinistro e violento. Todo o cenário é o de um antagonismo aparentemente irrecon- ciliável entre o que é forte e poderoso e o outro que é fraco e sob o poder do primeiro.

Uma grande cena introdutória descreve seu primeiro encontro, durante o qual o cavaleiro ameaça pôr o prisioneiro sob tortura para forçá-lo a revelar seus segredos” [entretanto] na última hora desiste, ou o trata e devolve-lhe a saúde, etc [...].

Tudo isso se passa com cenas vividamente animadas e dramati- camente comoventes. Em cada uma, a devaneadora experimenta a completa excitação da ansiedade e fortaleza do jovem ameaçado.

No momento em que a ira e a raiva do torturador são transformadas em piedade e benevolência – isto é, no clímax de cada cena – a excitação é resolvida por um sentimento de felicidade (Freud, 1922).

O que a devaneadora não suspeitava era a similaridade das histórias boas e a fantasia de espancamento. Conforme escreve Anna Freud, na fan- tasia de espancamento os protagonistas também são pessoas fortes e fracas, tais como adultos e crianças. Há também a má ação, embora nas histórias ela seja pouco esclarecida. Há ainda um período de crescente medo e ten-

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são. A decisiva diferença estava na solução: na fantasia é o espancamento, e no devaneio é o perdão e reconciliação.

A evidência de tais associações chegou à análise da moça quando admitiu que em períodos difíceis, quer dizer, “de crescentes demandas externas ou de capacidades internas diminuídas, as histórias não tinham mais êxito em preencher sua tarefa” (Freud, 1922).

Pondera Anna Freud que as histórias boas poderiam parecer um avan- ço da fantasia de espancamento, mas que se tratava de um retorno à fase anterior, pois elas voltavam a ganhar o significado latente da fantasia: a situação amorosa escondida nela, sem a distorção da repressão e regressão à fase anal-sádica. Apesar disso, as histórias boas também dão expressão ao amor incestuoso pelo pai, mudando-o.

A repressão do complexo de Édipo forçou a criança a reconciliar a maior parte de seus alvos sexuais infantis [...] [Eles] foram rele- gados ao inconsciente. Que eles emerjam na fantasia de espanca- mento indica uma falência parcial da repressão tentada.

Enquanto a fantasia de espancamento representa, desta forma, um retorno do reprimido, as histórias boas, por outro lado, representam sua sublimação. Na fantasia de espancamento, os impulsos sexuais diretos são satisfeitos, enquanto que, nas histórias boas, os impulsos inibidos do alvo, como Freud os chama, encontram gratificação. [...]

A função da fantasia de espancamento é a representação disfarçada de uma situação de amor sensual nunca mutável, que expressa, na linguagem da organização anal-sádica, como um ato de espanca- mento. A função das histórias boas, por outro lado, é a representa- ção de vários arrebatamentos ternos e afetuosos (Freud, 1922).

No final do texto, Anna Freud conta sobre o destino do devaneio: a analisante se torna escritora. Muitos anos depois da história do cavaleiro ter surgido, a moça escreveu um envolvente conto sobre ele. Enquanto a história escrita retinha o tema do devaneio, o método foi alterado: não havia mais a repetição entre o forte e o fraco e a ação se desenvolvia num

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período continuado de tempo. O clímax deixou de existir e a união har- mônica entre os antagonistas é apenas sugerida, sem ser descrita. O inte- resse se dividia entre todas as situações e personagens. Tais mudanças, segundo Anna F., correspondem a uma mudança no mecanismo de obter prazer, este não é mais direto, não há excitação. A fantasia privada transfor- mou-se numa comunicação dirigida a outros.

Ela conclui assim:

Renunciando ao seu prazer particular em favor de causar uma im- pressão sobre os outros, a autora realizou um importante passo de desenvolvimento: a transformação de um autista numa atividade social. Poderíamos dizer: ela encontrou a estrada que leva a sua vida de fantasia de volta à realidade (Freud, 1922).

Teria Anna Freud escrito mesmo um conto ou o texto do qual se trata é este apresentado no Congresso? A mudança dos personagens não seria relativa ao deslocamento de contar histórias para o pai/analista, para relatar sua análise aos discípulos dele, o que ela passava também a ser enquanto psicanalista? O privado para o público não diria também da transferência amorosa – criadora de um “forte” e amado – e deslocada para a transferência de trabalho para os que se tornariam seus colegas? O dito prazer autista, ou auto-erótico, teria se elaborado, sublimado como ela diz, a partir do estabele- cimento de outra relação com o falo-forte? Haveria sublimação da pulsão ou a autora e devaneadora seguiram buscando maneiras de recalcar o sexual?

Sejam lá quais forem as afirmações às irrespondíveis questões, a análi- se de Anna F. permite destacar, dentre vários aspectos, os elementos da fantasia: uma cena, alguns personagens, uma ação – um verbo principal1 – envolta num afeto e uma parte definida do corpo que acompanha a cena.

1 “O verbo da frase que designa a ação fantasística materializa o significante que já identificamos como sendo a borda dos orifícios erógenos, assim como o traçado do corte da dupla demanda. O verbo da frase da fantasia representa o corte entre o sujeito e o objeto, é o significante separador e reunidor do sujeito e do objeto” (Nasio, 2007, p. 35). “Freud se empenhou em acompanhar, através das etapas do complexo de Édipo, as transformações da economia da fantasia ‘bate-se em uma criança’, e começou a articular o que depois viria a se desenvolver (...) [como a] importância do jogo do significante nessa economia”

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Passemos a outra Anna, a Guggenbühl, mais recente relato de análise com Freud, a partir da descoberta de seu diário pela família, após sua mor- te. Na idade de 27 anos, em 1º de abril de 1921, esta jovem psiquiatra formada em Zurique se dirige a Viena para seguir uma análise com Freud.

Noiva há sete anos de um colega, Richard, e tendo tido numerosas aventu- ras amorosas, Anna duvida de seu desejo de se casar. Ela quer saber dos motivos inconscientes de sua indecisão e, para tal, deixa seus pais e seu trabalho na Suíça e vai ao encontro de Freud na Áustria.

O primeiro trecho de seu diário relata:

Quando eu tinha 4 anos, em Estrasburgo, eu tinha uma priminha, um bebê. Eu a beliscava e a atormentava sempre que estávamos sozinhas, até que ela começasse a chorar.

Um dia, eu arranquei da sacada todas as pequenas plantas que eu achei que eram ervas daninhas. Foi por acaso então que eu descobri a masturbação me pressionando contra os balaústres (da sacada).

Ao que Freud intervém: Uma lembrança excelente. Você também atormentava seu irmão menor?

– ”Eu o deitava, por exemplo, de costas para que ele não conseguisse se levantar”

Freud: “Você começou a masturbação no momento em que se sentiu só. Não a amavam mais como quando era só você. Por isso que você se vingou na criancinha e no seu símbolo, as plantas pequenas.

Anna: “Quando meu irmão Walter nasceu, eu perguntei quando o vi: por que ele não grita?”

Freud: “Então você preferiria vê-lo gritando como sua prima! Vemos três níveis distintos em sua vida: Estágio superior é o seu conflito com Richard, etc. Estágio intermediário concerne sua relação com seu irmão. Estágio inferior, que tem relação com seus pais, é ainda totalmente inconsciente para você e é o mais importante. Ele deriva da sua relação com seu irmão”.

Anna: “Mais tarde. Eu conto que quando estava no colégio, eu me dizia que desejava me apaixonar por um rapaz infinitamente triste

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e que, graças a mim, a vida adviria possível para ele e ele seria feliz também.

Freud: “Logo, um pouco como seu irmão”.

Anna: “Mais tarde eu me disse que gostaria de ter 7 filhos, mas eu não imaginava o pai”.

Freud: “7 homens, 7?”

Anna: “Adão teve 7 filhos. Tapedone enforca seus 7 filhos.

Hungerueli Isegrind (do conto suíço) devora suas sete crianças. Eu acho que os gatos selvagens devoram seus filhotes”.

Freud: “Você roça tão perto do segredo do estágio inferior que eu posso revelá-lo. Você amou seu pai e não o perdoou jamais de sua traição com sua mãe. Você queria ser mãe e você desejou a morte de sua mãe que lhe tomou o amante. Pouco a pouco você trouxe as provas, e o enigma – porque você não consegue se desligar de seu irmão – será resolvido”. E Freud continua: “Distingue-se claramen- te 3 estratos na sua vida: o estrato atual, o que concerne a seus irmãos e o mais profundo, enfim, que é a relação com seus pais. O que é patológico, esta sua longa valsa de hesitação para decidir se casa ou não com Richard, o fato que esta decisão só prova que, em última instância, como você se deu conta por você mesma, está relacionada com seus irmãos e seus pais” (p. 47).

Anna: “Em Paris eu amei Walter, que me parecia ser, a princípio, o ideal, mais ainda Adolf” (irmãos de Anna).

Freud: “Você desliza de um para outro como com seus amantes.

Teus amantes são os substitutos de teus irmãos, por isso é que eles têm todos a mesma idade, sendo na verdade, menos maduros”.

Mais adiante no diário, Anna escreve: “É uma varinha de condão (o pequeno galho de flor do sonho precedente). Uma varinha como aquelas dos feiticeiros”.

Freud: “Você não se lembra que, uma vez, enquanto você se mastur- bava, você se imaginou uma criança que era batida?”

Anna: “Eu imaginava que era batida por este homem imaginário.

Uma vez, mas uma vez só, enquanto papai ameaçou Adolf de lhe bater quando voltássemos para casa, eu experimentei um senti- mento de horror associado com um pouco de interesse, mas este não

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foi mais o caso quando esta ameaça foi executada. Esta foi a única ameaça”.

Freud: “É o desejo de ser batida pelo teu pai, por que isso significa para uma moça (criança) ser amada sexualmente. Desejo proveni- ente do amor mais consciência pesada. Mais tarde isso toma a for- ma da vontade de ser repreendida. Na análise, quando chegam as resistências, você se comporta de modo similar, já que eu represen- to o pai. Por exemplo, a idéia que a cura não serve para nada, etc. (...) O temor de que você viesse a ter um outro casamento ainda mais besta, ou ainda pior, visto que não podes estar totalmente enganada, pois é precisamente o objetivo da cura que tu aprendas a controlar esta pulsão e que você possa se casar livremente, por escolha, e não por medo da pulsão (...)”.

Mais adiante no diário de Anna G, ela relata um sonho:

“Eu estou numa conferência sobre os autochistes. Combinação de masoquismo, autismo e possivelmente auto-erotismo.

Hoje, eu dancei diante do espelho, como quando eu era criança, visto que eu estou de novo sozinha.”

Freud: “Você tinha pena de seu irmão que foi batido por seu pai (logo, estritamente falando, o desejo de estar em seu lugar). Todos esses objetos, estes mutilados, são em parte substitutos. Agora que você retirou sua libido de Fr., esta pena se volta sobre você mesma (automasoquismo). Originalmente, sua imensa pena se dirigia a você mesma. E, a pena desmesurada dos outros passará a ser contro- lada, por que, no fundo, ela provém do ego (moi). Você era a desfavorecida. Foi sua mãe que teve uma criança, ao invés de você.

Em seguida, você quis ser como seu irmão. Ser uma mulher e ter uma criança, ser um homem dotado de pênis. No estrato mais pro- fundo, o que é pequeno e belo é a mesma coisa: criança e pênis.

Você foi encurtada, no sentido literal e figurado, de onde advém a pena dos mutilados, particularmente, os castrados, quer dizer, por exemplo, os cegos como Fr., a deusa que não tem um braço (a Vênus de Milo, no Louvre, que Anna visitava com frequência). O enorme desejo de ser um homem, ou seja, de possuir um pênis se manifesta nessa obsessão de estar apaixonada” (p.77).

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Ao final da análise, Anna G. decide cancelar o casamento com Richard.

Ela muda-se para Paris e passa a trabalhar numa clínica psiquiátrica. Anna reencontra, apaixona-se e casa, em 1923, com Arnold, um famoso escultor de Brienz. Eles vivem em Paris, com seus quatro filhos até o início da guerra, em 1939, quando retornam para Zurique. Permanecem casados du- rante 60 anos, quando Anna falece.

Colhemos através das interpretações de Freud o privilégio que ele dá ao longo desta análise para a fantasia enquanto expressão do desejo inces- tuoso pelo pai (ou irmão, enquanto substituto). A fantasia nessa acepção negocia com o recalque e pode se expressar através do vel da fase anal- sádica. Se a fantasia se expressasse a partir do fálico, seria desejo de ser copulada ou de dar à luz. No registro anal, a fantasia mascara o desejo pelo pai e permite a cena como se tratasse de punição, ou mesmo que a punição presente é a marca do recalque que a fantasia anuncia à proibição do gozo.

‘O meu pai me ama’ queria expressar um sentido genital; devido à regressão, converte-se em ‘O meu pai está me batendo’ [...]. Esse ‘ser espancado’ é agora uma convergência do sentimento de culpa e do amor sexual. Não é apenas o castigo pela relação genital proibida, mas também o substituto regressivo daquela relação [...] e que encontra escoamento em atos masturbatórios (Freud, 1919/1976, p. 237).

Esta é uma das duas principais formulações freudianas sobre a fanta- sia: a de ter por função substituir uma satisfação impossível por uma satis- fação fantasiada possível. O desejo, assim, é parcialmente saciado pela fan- tasia, criando no inconsciente uma “realidade”, razão pela qual Freud cha- mou a fantasia de “realidade psíquica”.

Além dessa concepção, a outra fundamental formulação freudiana so- bre as fantasias – a das fantasias originárias – permite ainda mais interpre- tações. Embora a fantasia de espancamento não seja explicitamente apre- sentada por Freud como uma das protofantasias, pode-se pensar à luz des-

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ta formulação. Se as fantasias originárias são aquelas que permitem organi- zar uma versão sobre a origem, de qual originário se trataria na fantasia de espancamento?

A fase inconsciente da fantasia permite entrever sobre o originário da relação com o Outro e a inclusão do corpo batido-sexuado nesta relação.

Quer dizer, poder-se-ia associar com a fantasia original que fornece uma versão sobre a diferença entre os sexos, tais como as fantasias de castração2. Diz-nos Freud que meninos e meninas constroem de modos diferentes a fantasia de espancamento, ou seja, que a sexuação conta. Ou ainda, que mais que contar, a fantasia encena a definição da posição sexuada do sujei- to, sendo a posição feminina aquela que se associa ao assujeitamento do espancamento, com a inclusão do corpo na cena.

Os diferentes tipos de masoquismo apresentados por Freud no texto sobre “O problema econômico...” (1924/1976) permitem que se associe o masoquismo moral ao modo masculino de se pôr diante do Outro, e isolar a fantasia de espancamento descrita no texto do “Bate-se” como especi- ficamente feminina. Com o masculino, o corpo e o amor ficam em segun- do plano em relação à humilhação e auto-recriminação, as quais substi- tuem as batidas físicas pelas morais. Porém, da mesma forma, ao se sub- meter ao Outro, o que está em causa é a castração e, consequentemente, a sexuação.

O masoquismo moral é notável por haver afrouxado sua vinculação com aquilo que identificamos como sexualidade. No masoquismo moral [...] o próprio sofrimento é o que importa: ser ele decretado

2 Em 1915 Freud cunha o termo urphantasien para tratar das fantasias originárias, sendo elas a da cena originária, na qual se trataria da origem do sujeito; fantasias de sedução sobre a origem da sexualidade, e as fantasias de castração, nas quais a origem da diferença entre os sexos estaria em causa. “Chamo tais fantasias – da observação do ato sexual dos pais, da sedução, da castração e outras – de ‘fantasias primevas’” (Freud, 1915;1974, p. 303). Ou ainda, pouco adiante em sua obra: “as fantasias – sedução de crianças, surgimento da excitação sexual por observar o coito dos pais, ameaça de castração (ou, então, a própria castração) (...) preenchem os claros de verdade individual com a verdade pré-histórica” (Freud, 1916-17;1976, p. 433).

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por alguém que é amado ou por alguém que é indiferente não tem importância (...). Devemos chamar também de masoquistas esses ofensores de si próprios (Freud, 1924/1976, p. 207).

A fantasia de espancamento, feminina enquanto lugar diante do Outro, situa o sujeito enquanto batido, castrado, sexualizado e amado, ao mesmo tempo. Quer dizer, posiciona o feminino diante da castração enquanto aquela que a vive como um misto de dor, gozo e amor diante do pai. A fantasia de espancamento diz da divisão feminina diante daquele que é agente da cas- tração: amado enquanto salvador do engolfamento materno, descortinador da castração da mãe, e violento pela separação e restrição que impõe. As- sim, o pai que separa faz indagar se ele castra por amor ou ódio, se trata-se de abandono ou dádiva.

A fantasia de espancamento encena ainda a inclusão do corpo enquan- to instância de gozo, interditando o gozo total, incestuoso, mas recortando- o em parcialidades erógenas3. Também marca o corpo enquanto suporte da dor que difere do prazer, pois, se o prazer supõe a diminuição da tensão do psiquismo, a dor e o gozo acompanham o seu mais além.

Referências bibliográficas

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______. Um caso de paranóia que contraria a teoria psicanalítica da doença (1915) In: Obras completas, v. 14. Rio de Janeiro:

Imago,1974

3 “Com relação às bordas erógenas dos objetos destacados, os relativos ao olhar são as pálpebras e os relativos à dor são sobretudo a pele (nádegas) e os músculos da mãos e do braço que espanca” (Nasio, 2007, p. 49) “As nádegas são a parte do corpo que recebe preferência erógena na fase anal-sádica, tal como o seio na fase oral e o pênis na genital” (Freud, 1924/1976, p. 206).

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G., Anna. Mon analyse avec le professeur Freud. Paris: Aubier, 2010

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Uma construção da análise

Maria Cristina Poli

Há alguns anos fiz um trabalho em torno do texto de Freud Bate-se em uma criança, em que propus sua leitura a partir da diferença terminológica, operativa para alguns lacanianos, entre fantasia e fantasma. Interessava-me, naquele momento, assinalar que o termo fantasma poderia ser tomado como um erro de tradução da psicanálise brasileira, na medida em que a palavra empregada por Lacan em francês – fantasme – é perfeitamente traduzível por fantasia e não tem nada a ver com o que em português chamamos cor- riqueiramente de fantasma (fantôme, em francês). Esse suposto erro, no entanto, vingou, e não por acaso: através desta distinção que passamos (alguns lacanianos) a fazer entre fantasia e fantasma, introduzimos no vo- cabulário psicanalítico a especificidade da proposição de Lacan relativa à constituição do sujeito na relação com o objeto da pulsão, objeto pequeno a (fórmula do fantasma: $ punção de a).

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Neste sentido, nesse texto em que fiz essa leitura, indicava que talvez fosse interessante pensar nos desdobramentos clínicos das duas expres- sões – constituição do fantasma e construção da fantasia – e o fundamento de cada termo na sua base conceitual lacaniana e freudiana, respectivamen- te. Chamava a atenção também, o fato que, tanto Freud quanto Lacan fala- ram em fantasia e em ambos encontramos esse significante percorrendo uma série de significações bastante diversas. Entendo que seria de todo interesse para a psicanálise manter essa polissemia sem recorrer ao fantas- ma lacaniano, em todos os sentidos. Digo isso porque penso que, em al- guns momentos e contextos, falar em fantasma serve como schibboleth do lacanismo. Essa série de significações presentes na referência à fantasia passa por aquilo que Freud denomina como devaneios, as lembranças encobridoras, e também as fantasias originárias, mais próximas da acepção lacaniana da fantasia fundamental.

No texto sobre o Bate-se, Freud inclui ainda uma outra variante nessa série. São as fantasias que são construções da análise. É interessante acom- panhar o movimento de Freud no texto. Ele começa trazendo dados de sua clínica de uma forma que, a mim, parece particularmente curiosa. Ele está muito preocupado em comprovar o valor empírico de suas descobertas atra- vés da correspondência das cenas evocadas com algo da realidade, num movimento semelhante ao expresso no caso do homem dos lobos. Freud descreve o caso de dois homens e quatro mulheres que tinham, nessa fan- tasia de fustigação, um importante elemento erótico, masturbatório. Ele se detém a descrever o teor dessas fantasias, e podemos imaginá-lo nas ses- sões pedindo aos pacientes que detalhassem as cenas minuciosamente. Uma atitude que pode parecer curiosa – essa busca de precisar os elementos presentes na fantasia: quem, quando, onde, como –, mas que corresponde ao que Freud já descrevera em sua pesquisa sobre os sonhos. O que parece curioso é que, ao atentar demais a essa descrição, o jogo significante, assim como a posição enunciativa do sujeito, podem muito bem passar ao largo na análise.

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Como em um passe de mágica, no entanto, nos deparamos com um parágrafo que muda completamente o sentido do texto. Depois de referir que, na primeira fase da fantasia há sempre uma figura paterna que bate em uma criança desconhecida, chegamos ao seguinte parágrafo:

Entre essa fase e a seguinte, ocorrem profundas transformações.

É certo que a pessoa que bate continua a ser a mesma (isto é, o pai);

mas a criança em que está batendo transformou-se em outra e torna-se, invariavelmente, aquela que produz a fantasia. A fanta- sia é acompanhada por um alto grau de prazer e adquire, então, um conteúdo significativo, a cuja origem nos dedicaremos depois.

Agora, portanto, as palavras seriam: ‘Estou sendo espancada pelo meu pai.’ O que é de um caráter inequivocamente masoquista.

Essa segunda fase é a mais importante e a mais significativa de todas. Pode-se dizer, porém, que, num certo sentido, jamais teve existência real. Nunca é lembrada, jamais conseguiu tornar-se consciente. É uma construção da análise, mas nem por isso é me- nos uma necessidade.

Temos, portanto, uma mudança do referente: não mais a realidade (nem a factual, nem a psíquica). É uma fantasia produzida, construída em análi- se. Interessante, pois é como se Freud propusesse um terceiro princípio:

nem o da realidade, nem o do prazer, mas uma espécie de princípio da transferência (correlativo do além do princípio do prazer). Algo se constrói ali, tem um caráter inequivocamente masoquista e é a mais importante e significativa de todas as etapas da fantasia. Que esta forma seja justamente aquela na qual o sujeito se inclui na fantasia (“estou sendo espancada pelo meu pai”) é um elemento expressivo dessa consideração de Freud.

Vou trazer um recorte da clínica que me fez refletir sobre isso: Carlos se queixa de episódios reiterados de impotência com a namorada. Sabe que seu excesso de exigência em termos de desempenho atrapalha e fica ainda pior quando é ela que o procura para o sexo. Lembra que o pai, já falecido,

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era muito voraz com as mulheres apesar de não aceitar, nunca, ser traído.

Neste contexto – e evidentemente a partir de uma série de outros elementos que não vem ao caso mencionar agora – digo a ele: quer dizer que se você gozasse estaria traindo seu pai?, ao que ele responde: não, é o contrário: se eu não gozo é que estou lhe traindo. O caráter erótico de sua relação ao pai aparece aí, disfarçada na exigência do desempenho sexual.

Esse tema da submissão ao pai, tão extensamente trabalhada por Freud no caso do homem dos lobos a propósito da neurose obsessiva, aparece aqui também como uma variante da fantasia de espancamento. O pai, sujei- to da cena, goza da submissão do filho que se oferece como objeto; ou melhor, o filho goza de modo masoquista, de sua impotência diante do pai.

Em que sentido poderíamos acompanhar Freud e dizer que essa cena é uma construção da análise?

No texto de 1937, Construções em análise, Freud refere que elas fazem parte do trabalho preliminar à análise propriamente dita. É a produção da implicação na transferência, contemporânea ao endereçamento da deman- da. A construção do bate-se tem, no entanto, sua especificidade dada pelo caráter masoquista, o que denota também a sua ambivalência: por um lado, pedido de salvação de um gozo alheio (“o pai me bate – o pai goza – logo me odeia – me trai”); por outro, expressão deste mesmo gozo como próprio (“sou amado pelo pai, pois ele me bate – me deixa impotente”). Esta segun- da fase da fantasia, como destaca Freud, é decorrente da culpa produzida pelo gozo sádico presente no primeiro enunciado (“o pai bate – goza – numa criança – numa mulher – odiada por mim”).

No terceiro tempo descrito por Freud, temos o retorno à indeterminação inicial, com o sujeito gozando sadicamente enquanto espectador da cena.

Nota-se que essa terceira fase corresponderia aquilo que Freud indica como o tempo da perversão (cuja origem ele está pesquisando como consta no título do artigo). Não é, portanto, o terceiro tempo, no sentido da direção da análise, do tempo de concluir. É o tempo da estabilização, se podemos

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chamar assim, de uma estrutura de gozo. O que pode, de fato, ser resultan- te de um trabalho de análise. Mas não necessariamente.

Para concluir, gostaria de salientar o quanto esse texto de Freud pro- duz um desassossego nos leitores e releitores de sua obra. Assim como ele propõe o tempo da construção da fantasia como uma mudança de referente do trabalho com o sujeito, como vimos, a abordagem dessa fantasia ma- soquista muda o referente da própria psicanálise. É o complemento clínico necessário (mesmo que anterior) do texto sobre o Além do princípio do prazer. Freud expressa ali toda sua hesitação em torno do tema das iden- tidades/diferenças sexuais. Afinal, não é a fantasia de castração nem a inveja do pênis que estão em causa. Lacan salienta o chicote como sig- nificante do bate-se... Pode ser. Mas acho também interessante considerar que há algo ali que não concerne ao gozo fálico. Há um gozo Outro que me faz lembrar o que Allouch, no livro Sexo do mestre, trabalha como sendo uma cena originária, recalcada, segundo ele, pela própria psicanálise: o katapugon ou a sodomia. Para Allouch, esse interdito é anterior ao do incesto, e mais fundamental. Por algum motivo, a psicanálise o teria recalcado (denuncia constantemente feita pelos autores da chamada teoria queer), o que implica que ele faça retorno constante em sua história....

Enfim, um tema que, no âmbito das relações intra e interinstitucionais, merece pelo menos alguma reflexão.

Referências bibliográficas

ALLOUCH, J. O sexo do mestre: o erotismo segundo Lacan. Rio de Janeiro: Cia de Freud, 2010.

FREUD, S. (1919) Uma criança é espancada. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1973.

_______. (1937) Construções em análise. In: Obras completas. Rio de Janeiro: Imago, 1973.

LACAN, J. O seminário, livro 5 – As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

POLI, M. C. Construção da fantasia, constituição do fantasma. In: BACKES, C. A clínica psicanalítica na contemporaneidade.

Porto Alegre: Ed. UFRGS, 2008, p. 43-50.

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temática.

Bate-se numa criança e Circuito Pulsional:

declarações de amor

Simone Mädke Brenner

Quando me pus a trabalhar sobre o texto Bate-se numa Criança, fiz uma associação que compreendia três pontos: as fantasia infantis, descritas neste texto, o caso de uma paciente e o texto de Freud sobre as pulsões e seus destinos. Inicio com o caso que trata de uma menina de sete anos de idade que vou chamar de A.

A. chega contando sobre as coisas que vinham acontecendo as quais denominava como “desrespeito” aos olhos dos outros. Isto é, ela conta suas afrontas, suas transgressões, porém, demonstrando muito prazer quan- do isso podia lhe resultar em surras e espancamentos principalmente por parte do seu pai. Fala claramente da sua intenção de “machucar” a avó materna com palavras chulas. Quando a indago sobre o que será que a faz ter que funcionar assim, ela diz: “Tu não sabe o que o marido dela diz e faz!” (referindo-se a mãe que se encontrava dentro da mesma sala lendo

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correio APPOA l julho 2011

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uma revista, fazendo de conta que nada lhe chegava). Pergunto: “O marido dela é teu pai?”; e ela responde: “É, parece... deveria ser...”

Enquanto me contava isso, pede para desenhar com canetinhas e, logo depois, afirma: “Já sei que tu vai me xingar. Não pode pintar com canetinhas e eu pintei!”. Respondo: “Podes sim pintar! Se não pudesses eu não teria deixado, teria te falado que não podias!” Ela parece admirada com minha resposta e depois me fala: “Quando alguém me diz não, faço uma cara muito feia!” (Faz uma cara ameaçadora). Afirmo que não tenho medo de cara feia, e quando for preciso direi os nãos necessários a ela. Ela logo olha para sua mãe e diz: “Preciso muito vir aqui, muitas vezes!”

Essa menina consegue rapidamente estabelecer um laço transferen- cial importante e a partir deste descobriu-se que ela era abusada sexual- mente pelo pai. O sintoma que explode como primeira denúncia reconhe- cível pela mãe foi as “convulsões noturnas”, as quais foram filmadas pelo pai com objetivo de mostrar para a neuropediatra. Porém são filmagens reveladoras de momentos de extremo desespero e prazer desta criança diante da cena incestuosa.

Ao longo das entrevistas iniciais ela muitas vezes falava que seu pai a chamava de puta, que este vivia lhe espiando e que ela, às vezes, não gos- tava. Repetia a frase: “Meu santo Onofre das calças curtas furadas no fiofó”.

Contava sobre muitos sonhos (pesadelos), dizendo que o pai havia atirado com a arma dele e que a matou. Referindo a este sonho, acrescenta que quando tiver um bebê fará o seu marido fazer o mesmo com o seu bebê, o mesmo que seu pai fazia consigo: bater muito na sua bunda.

Sobre um outro sonho lembra de ter ficado assustada. Nele um homem arrancou as pétalas de uma flor e depois a matou. Ela afirma que esse ho- mem era o seu pai. Ela interpretava que ele queria matá-la, queria arrancar suas pétalas, bater na sua bunda e nas suas pernas.

Ser despetalada é repetido muitas vezes em seus desenhos, sonhos e histórias. Sempre o final destas histórias é a morte da mulher, da flor.

Também desenha meninas com vestidos de prostitutas, homens com o pê-

Referências

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