5. Operadores teóricos
5.1. Ergonomia da Atividade
A Ergonomia é uma disciplina de caráter antropocêntrico e interdisciplinar, que ao longo dos anos vem se desenvolvendo e sendo solicitada para atuar com diferentes demandas, como: melhoria das condições materiais e instrumentais de trabalho, identificação de agentes
62 nocivos à saúde dos trabalhadores, aprimoramento da competência profissional, impacto do uso de novas tecnologias, etc. (Ferreira, 2012; Ferreira & Torres, 2015).
O termo “ergonomia” foi utilizado pela primeira vez em 1857, no texto “An outline of ergonomics, or the science of work based upon the truths drawn from the science of nature” (Ensaios de ergonomia ou a ciência do trabalho baseada nas verdades da ciência da natureza), cuja autoria é do polonês Wojciech Jastrzebowski (Ferreira, Almeida & Guimarães, 2013). Anos depois, na década de 1940, em meio aos conflitos da Segunda Guerra Mundial, a intensa pressão posta aos britânicos pela batalha da Inglaterra foi necessária para unir cientistas de diferentes áreas e fazer com que eles trabalhassem juntos (Wisner, 2004).
Foi a necessidade de elaborar projetos mais complexos e multidisciplinares, com maior segurança para os usuários e eficácia na ação que a ergonomia ganhou destaque. O estudo que marca os primórdios da ergonomia foi realizado nesse contexto, pelo britânico Murrel, como fruto da união de diversas disciplinas como a fisiologia do trabalho, a antropometria, a psicologia e a biomecânica (Laville, 1977; Wisner, 2004).
No pós-Segunda Guerra Mundial a atuação da ergonomia era voltada para indústrias, num contexto de escassez de trabalhadores qualificados e matéria-prima, atrelados a necessidade de aumento da produção. As principais questões trabalhadas eram: insalubridade, condições de trabalho, dimensionamento dos homens e equipamentos, adaptação de ferramentas e instrumentos de trabalho e organização do trabalho (Ferreira, 2011a; Abrahão, et al, 2009).
Com a evolução dos movimentos sociais nas décadas de 1960 e 70, em especial dos sindicatos de trabalhadores, muitas demandas em ergonomia buscaram respostas para os problemas ligados às más condições de trabalho, à organização dos tempos e a rejeição da fragmentação de tarefas. Na década de 1980 o enfoque passou a ser nos sistemas automáticos e informatizados, com ênfase na natureza cognitiva do trabalho (Abrahão et al., 2009).
63 De lá pra cá, com a evolução das tecnologias e dos sistemas de informação, os ergonomistas vêm atuando, cada vez mais, na concepção de sistemas de trabalho que favoreçam o desenvolvimento das competências e que assegurem a saúde dos trabalhadores e a segurança operacional (Abrahão et al., 2009). O que se pode perceber disso é que a ergonomia se desenvolve e se reinventa junto à evolução do trabalho, acompanhando as transformações no universo laboral e no contexto socioeconômico.
Desde os seus primórdios, a ergonomia se constituiu contra a corrente de pensamento majoritária de adaptação do homem à sua profissão. Na Inglaterra, por exemplo, o objetivo da ergonomia era adaptar a máquina ao homem, enquanto na França era adaptar o trabalho ao homem. Para tanto, as disciplinas que serviram de suporte para a ergonomia nascente foram a fisiologia do trabalho, a antropometria, a psicologia científica e a biomecânica (Wisner, 2004). Para Abrahão et al (2009), a ergonomia pode ser entendida como uma disciplina que visa transformar o trabalho, adaptando-o às características e aos limites do ser humano. Nessa perspectiva, a ergonomia busca projetar e/ou adaptar situações de trabalho compatíveis com as capacidades humanas e respeitando os limites do trabalhador, ou seja, conceber o trabalho a partir de uma noção de variabilidade.
Para Wisner (1987), a ergonomia é um conjunto de conhecimentos científicos que são fundamentais para conceber ferramentas, máquinas e dispositivos a serem utilizados com o máximo possível de conforto, segurança e eficácia. A questão posta é que o interesse da ergonomia é considerar que o homem não é a principal variável de ajuste do sistema sociotécnico, pois o instrumento deve ser concebido de acordo com os potenciais de desenvolvimento de quem for usá-lo, e não o inverso (Wisner, 2004).
Em linhas gerais, a Ergonomia está dividida em duas grandes correntes de pensamento: a ergonomia anglo-saxã, forte no cenário norte-americano, e mais ligada a parâmetros métricos, anatomia, antropometria, biomecânica e fisiologia; e a ergonomia franco-belga – Ergonomia da
64 Atividade –, com um viés de compreensão do trabalho voltado para as ciências humanas e da saúde, permitindo maior participação das áreas de psicologia, sociologia e direito (Ferreira, 2012; Ferreira et al, 2013). Essas abordagens são complementares, e não contraditórias, apesar das diferenças (Ferreira, 2012; Ferreira et al, 2013). A ergonomia que fundamenta a proposta contra-hegemônica de QVT utilizada nesse estudo é proveniente da escola franco-belga, a Ergonomia da Atividade.
A obra fundadora da Ergonomia da Atividade foi o trabalho de André Ombredane e Jean-Marie Favèrge, intitulado L’analys du Travail (1955), que enfatiza a importância do contato com os trabalhos e com as situações reais de trabalho como imperativo metodológico central da análise do trabalho (Ferreira & Torres, 2015). Além disso, a ergonomia da atividade esteve articulada desde o início com o movimento operário, com o intuito de atentar às demandas sindicais, promover melhorias nas condições de trabalho e garantir a saúde dos trabalhadores (Ferreira, 2008).
A ergonomia da atividade pode ser definida como uma disciplina antropocêntrica e interdisciplinar calcada em conhecimentos das ciências humanas e da saúde que visa à compatibilização dos produtos e das tecnologias com as características e necessidades dos usuários, na mesma medida em que pretende humanizar o contexto sociotécnico de trabalho (Ferreira, 2012; Ferreira & Torres, 2015; Torres et. al., 2017).
Trata-se de uma abordagem científica responsável por investigar a relação entre os indivíduos e o contexto de produção de bens e serviços. A proposta é investigar para compreender, e assim ser capaz de propor soluções para as problemáticas a fim de harmonizar bem-estar, eficiência e eficácia (Ferreira & Torres, 2015). Essa análise do trabalho tenta perceber também quais são as contradições do meio e as estratégias operatórias individuais e coletivas de mediação que respondem à diversidade de exigências existentes nas situações de trabalho (Ferreira & Mendes, 2003).
65 A ergonomia entende que o trabalho trata-se de uma atividade em que os trabalhadores ou os coletivos de trabalho elaboram estratégias próprias para atuar no contexto de produção e cumprir o que é solicitado (Ferreira & Mendes, 2003). É uma atividade mediadora entre o sujeito e o contexto, num processo que ao mesmo tempo em que o sujeito age sobre o meio através da atividade de trabalho, ele é transformado em função dos efeitos e resultados de sua ação. A ergonomia tem como principal finalidade, portanto, transformar o trabalho, considerando os trabalhadores como protagonistas desse processo (Ferreira & Mendes, 2003).
O estudo do trabalho se desdobra por meio da investigação da tarefa, a qual representa o que é colocado ao trabalhador ou que é esperado dele – o trabalho prescrito. A tarefa não é o efetivamente ocorre, mas autoriza o que pode ser feito e define as atribuições do trabalhador (Guérin, Daniellou, Duraffourg & Kerguelen, 2004).
Dessa forma, distingue-se tarefa e atividade: a tarefa diz respeito ao que é prescrito formalmente ou informalmente pela organização aos trabalhadores com caráter impositivo que determina e limita o fazer, sendo a base para o seu trabalhar; e a atividade – trabalho real – refere-se à reação ao que é determinado, como uma modalidade de regulação humana através da qual o sujeito interage e estabelece estratégias para se adaptar as situações de trabalho (Guérin et al., 2001).
Diante dessa breve contextualização sobre a ergonomia da atividade e descrição de alguns conceitos, fica claro que, apesar de tradicionalmente a ergonomia não ser uma perspectiva teórica que trata especificamente o escopo da QVT, há coerência em aponta-la como uma possibilidade para fundamentar a estruturação de estratégias nesse campo.
Partindo dos pressupostos centrais da ergonomia, podem ser apontadas algumas zonas de proximidade que justificam a interação proposta. Os pressupostos centrais da ergonomia, segundo Abrahão et al (2009) são: a) o caráter interdisciplinar da ergonomia, b) a análise das situações reais, e c) a participação dos sujeitos.
66 A interdisciplinaridade é o aspecto em que se fundamenta a ergonomia como área do conhecimento, e resulta da importância de analisar o fenômeno do trabalho humano de diferentes perspectivas. Ferreira (2008) aponta este elemento como uma das características da ergonomia da atividade que habilita o olhar para as problemáticas do campo da QVT, num contexto que compreende a interdisciplinaridade como mais do que um diálogo entre as disciplinas, mas que consiste num processo contínuo de desenvolvimento e de reconstrução do conhecimento das diversas áreas envolvidas (Abrahão et al., 2009).
A compreensão e transformação das situações reais de trabalho proposta pela ergonomia é outro ponto de convergência, haja vista que também é objeto de estudo da QVT, pois é na interação com o real que o conteúdo vai se transformando, na medida em que, conforme o trabalho avança, novas questões emergem e devem ser tratadas (Abrahão et al., 2009; Ferreira, 2012).
Outro ponto é o envolvimento dos sujeitos, que é a base para qualquer ação ergonômica, e que no caso da abordagem contra-hegemônica de QVT é central, pois ela considera que o modo mais apropriado para construir uma concepção de QVT com base na realidade das organizações contemporâneas é perguntar aos próprios trabalhadores sobre o que eles pensam sobre QVT, além de manter ativa a voz de todos durante o processo (Ferreira, 2012).
Para a ergonomia e para a QVT contra-hegemônica, a seguinte reflexão é fundamental: se por um lado o especialista possui ferramentas teórico-metodológicas para analisar a situação de trabalho, por outro é o indivíduo quem detém as competências sobre sua prática profissional e possibilita a compreensão da atividade em profundidade e amplitude (Abrahão et al., 2009).
Outros elementos de convergência entre ergonomia e QVT são: o foco no bem-estar dos trabalhadores e na eficácia dos processos; a adaptação dos contextos de trabalho aos trabalhadores, em contraposição à noção de ajustamento do ser humano ao trabalho; e a
67 transformação dos ambientes de trabalho, buscando conforto e prevenção de agravos à saúde dos trabalhadores (Ferreira, 2008). Portanto, nessa interface entre a Ergonomia e QVT, é considerado o interesse pelo estudo das interações entre os seres humanos no contexto laboral, em que o trabalhador é o protagonista do processo.
5.2. Ergonomia da Atividade Aplicada à Qualidade de Vida no Trabalho