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CAPÍTULO 1 – REVISÃO DE LITERATURA E REFERENCIAL DE ESTUDO

1. A TEORIA BASEADA NOS RECURSOS

1.4. A escola austríaca

Entretanto, surgiram novas contribuições sobre a vantagem competitiva com a ênfase colocada na articulação entre dinâmica da empresa, mercados e concorrência. Esta perspetiva pretende realçar os processos de mudança e de inovação em lugar de atribuir um privilégio excessivo às estruturas ou à estabilidade de recursos interdependentes entre si.

Esse movimento da RBV também se deveu aos contributos da escola austríaca de economia, cuja produção teórica se centrou em quatro temas principais: os processos de mercado; o papel do empresário / gestores; a heterogeneidade das empresas; fatores não observáveis.

As contribuições sobre a vantagem competitiva colocam maior ênfase na articulação entre dinâmica da empresa, mercados e concorrência. Esta perspetiva pretende realçar os processos de mudança e de inovação compensando o privilégio excessivo que as teorias davam às estruturas ou à estabilidade de recursos interdependentes entre si.

O papel do mercado, na literatura neoclássica, assume-se como um mecanismo de redução das diferenças de performance das atividades económicas mediante o mecanismo de preços, o qual corrige todos os fenómenos de desequilíbrio que se verifiquem. No entanto, alguns autores, tendo verificado que as discrepâncias do mercado são muito comuns relativamente a diversos aspetos (inovação, mudança, etc.), realçam o modelo que gera essas diferenças e que as preserva ao longo do tempo. Para Kirzner (1989) o mercado não é caracterizado pelo equilíbrio, mas pela influência de conhecimentos diversos e de informações assimétricas que implicam que, face a novas oportunidades surgidas na envolvente externa, as empresas construam diferentes níveis de competitividade, designadamente através da mobilização dos seus recursos específicos e da inovação que engendram performances desiguais e, consequentemente, desequilíbrios nos mercados.

Portanto, o papel do empresário / gestor é buscar novas oportunidades, explorar novos conhecimentos e novas informações e mobilizar os recursos da empresa (Mintzberg, 1973) numa interatividade que permita obter recursos únicos e inimitáveis com vista a resultados que alcancem performances acima da média (Kirzner, 1989).

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Nestas circunstâncias, a heterogeneidade das empresas é uma consequência de comportamentos empresariais que geram e mantêm desequilíbrios permanentes no mercado. À medida que as empresas procuram imitar as inovações da concorrência e, simultaneamente, geram novos desequilíbrios, o fenómeno das diferenças de performance acentua-se e os desequilíbrios deixam de ser transitórios para passarem a desequilíbrios permanentes.

Kirzner considera, ainda, que os processos de mercado são mantidos não pela ‘concorrência perfeita’ mas justamente pela ‘competição’, porquanto as empresas procuram sempre inovar nos seus produtos e nos seus serviços, desequilibrando a concorrência com o objetivo de obtenção de maiores lucros. A condição para que a competição se mantenha depende da liberdade dos fluxos de capital e da supressão de barreiras no que respeita às entradas de novas empresas no setor de atividade.

Neste quadro, os empreendedores procuram obter novas informações (preços, recursos, etc.), gerar novos conhecimentos e aumentar a capacidade de inovação no sentido de aproveitarem as oportunidades da envolvente que assegurem a continuidade da competição.

Em consequência, o aumento de lucros depende da capacidade produtiva das empresas e das combinações únicas dos seus recursos. A noção de lucro deixa de ser associada ao designado ‘custo de oportunidade do capital’ e passa a depender da emergência de ações que permitam aumentar a produtividade e obter situações vantajosas no mercado. Na perspetiva da escola austríaca, e segundo Rumelt (1987), os preços correspondem ao valor relativo daquilo que a empresa conseguir inovar, gerando oportunidades de lucro muito acima da média e estabelecendo novos ‘ganhos de empreendedorismo’.

A noção de empreendedor / empresário e de empreendedorismo alcança o seu maior significado com as pesquisas de Schumpeter (1966), segundo o qual são as inovações introduzidas pelo empreendedor / empresário que geram o desequilíbrio das forças competitivas presentes no mercado. À renovação permanente de produtos, de processos e de modelos organizacionais, Schumpeter designou por ‘destruição criadora’ – que ao destruir os fatores que prevaleciam cria novos horizontes e impede que as posições de equilíbrio no mercado se mantenham.

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As novas oportunidades de produção baseiam-se na utilização de métodos científicos e na mobilização de conhecimentos explícitos, bem como no aproveitamento dos conhecimentos tácitos associados ao contexto local, que permitem aumentar a eficiência produtiva e gerarem novos produtos e serviços mais eficazes para o mercado. Na busca dos seus objetivos, os empreendedores / empresários procuram compatibilizar dois aspetos:

■ Inovações baseadas nas melhores práticas mundiais (benchmarking) e ajustamento dessas práticas à realidade para onde são transferidas.

■ Inovações radicais associadas ao processo de ‘destruição criadora’ de modo a tornar as inovações incrementais e radicais muito difíceis de imitar.

Ambas as estratégias de inovação, uma fundada no ajustamento e outra na rutura, são importantes, especialmente se forem combinadas com o historial e as características sui generis de cada empresa, dificultando significativamente a concorrência no que respeita à sua capacidade de imitação. Tais estratégias tornam a replicação mais difícil e protegem a empresa da concorrência, facilitando a obtenção de performances acima do normal.

Porém, ainda segundo a escola austríaca, para se alcançarem tais objetivos é necessário que seja introduzida a noção de ‘fatores inobserváveis’, que são fatores subjetivos que a concorrência não consegue identificar (Jacobson, 1992). Efetivamente, apesar da concorrência se esforçar por imitar empresas com alta performance no que concerne, entre outros fatores, às suas estratégias, produtos e processos, as diferenças de performance persistem no tempo. Tais diferenças de performance baseiam-se nos fatores ‘inobserváveis’ e subjetivos que servem de suporte aos fatores objetivos dos processos de produção da empresa inovadora.

Na ótica de Hill & Deeds (1996) a competição entre empresas não depende da estrutura industrial porque essa é uma característica do sistema capitalista, contrariando, assim, a premissa fundamental da teoria da organização industrial, o que significa que as diferenças de performance não são o resultado da organização industrial, mas o resultado de determinantes internas da empresa geradoras de importantes diferenças de performance ao longo do tempo.

Em suma, os autores da escola austríaca, comparativamente aos defensores da teoria da organização industrial, assumem claramente que o objetivo estratégico não deve girar em torno do estabelecimento de obstruções às forças competitivas, mas em torno de ações de

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inovação empreendedora, que provoca desequilíbrios no mercado, que privilegia a construção de altas performances assentes sobretudo na diversidade e que os fatores de sucesso não são as ‘fatores observáveis’, mas os ‘fatores inobserváveis’, ou invisíveis.

A adoção dos ‘fatores invisíveis’ é mais um elemento de afastamento da escola austríaca em relação à ‘teoria da organização industrial’, aproximando-se mais da visão baseada nos recursos, e complementando-a, ao reconhecer que é a combinação dos recursos ‘históricos’ e das características sui generis de uma empresa, que permitem dificultar significativamente a concorrência no que respeita à sua capacidade de imitação.