CAPÍTULO 3 – ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
2. CORRELAÇÕES ENTRE VARIÁVEIS E DISTRIBUIÇÃO DOS NÍVEIS DE RESPONSABILIDADE SOCIAL
2.2. Práticas de respeito dos direitos humanos
2.2.1. Correlação entre as práticas de respeito dos direitos humanos e o número de reclamações recebidas pelas empresas nos últimos três anos
■ H2: O respeito dos direitos humanos atinge níveis de responsabilidade social tanto mais elevados quanto menor for o número de reclamações sobre direitos humanos recebidos pelas empresas nos últimos três anos.
Os indicadores de ‘respeito dos direitos humanos’ foram agregados num único índice (cf. Inquérito por questionário). Na hipótese 2 constata-se que o coeficiente de correlação entre o respeito dos direitos humanos (variável dependente – Vd) e o número de reclamações sobre direitos humanos recebidos pelas empresas nos últimos três anos (variável independente – Vi) apresenta ρ = 0,353 e Sig. = 0,000 para um erro de tipo I de 0,01 (Tabela 25)
Tabela 25. Correlação entre as práticas de respeito dos direitos humanos e o número de reclamações sobre direitos humanos nos últimos três anos nas empresas
Designações Vd Vi
Respeito dos direitos humanos (Vd) Spearman Sig. (2-tailed) 1 0,353** 0,003 Nº reclamações sobre direitos humanos (Vi)
Spearman 0,353** 1
Sig. (2-tailed) 0,003 **. Correlação significativa para α<0.01 (2-tailed).
Constata-se a existência de uma correlação significativa, positiva e fraca, o que permite concluir que a variável respeito dos direitos humanos aumenta à medida que aumenta o
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número de reclamações sobre direitos humanos nos últimos três anos, ao contrário do que seria de esperar, isto é, um Ró de Spearman de sinal negativo.
Na medida em que a variável dependente aumenta à medida que a variável independente também aumenta, não se confirma que os níveis de responsabilidade das práticas de respeito dos direitos humanos sejam tanto mais elevados quanto menor for o número de reclamações sobre direitos humanos recebidos pelas empresas nos últimos três anos. Não obstante, interessa questionar sobre os resultados obtidos, porquanto a correlação evidencia que os níveis de responsabilidade das práticas de respeito dos direitos humanos mostram-se tanto mais elevados quanto maior for o número de reclamações sobre direitos humanos recebidos pelas empresas nos últimos três anos. Ora, aparentemente existe uma contradição, porquanto seria de esperar que quanto maior fosse o respeito dos direitos humanos menor deveria ser o número de reclamações recebidas pelas empresas nos últimos três anos.
Ao não se verificar a confirmação da hipótese pode-se questionar se isso se deve à dimensão da amostra (69 empresas) ou se existe outro fenómeno por detrás de tal resultado. A existir uma explicação alternativa para o resultado inesperado, e admitindo-se que se possa verificar que a variável dependente ‘práticas de respeito dos direitos humanos’ aumente à medida que aumenta o número de reclamações recebidas pelas empresas nos últimos três anos, então poderemos estar perante uma associação entre um ato empresarial de tomada de medidas visando melhorar as práticas de respeito dos direitos humanos e uma maior exigência dos empregados relativamente a essa matéria à medida que se verifica uma maior atenção aos direitos humanos por parte das empresas.
Se tal hipótese vingasse, e tendo em consideração que as práticas de responsabilidade social de respeito dos direitos humanos ainda são incipientes, pode-se admitir que, pelo menos no início da implantação de medidas tendentes a aumentar o respeito dos direitos humanos, haja inclinação para que as pessoas acreditem nessas ações e aumentem o número de reclamações à medida que constatam aumentar o respeito dos direitos humanos.
Em suma, pode-se admitir que a consciência cívica dos empregados aumente em virtude da existência de medidas empresariais tendentes a melhorar o ambiente laboral. Uma tal hipótese alternativa é bastante interessante de exploração em estudos futuros ligados à responsabilidade social das empresas.
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No entanto, verificando-se existir uma relação positiva, embora fraca, entre as variáveis correlacionadas, entendeu-se adequado prosseguir a análise à luz da hipótese alternativa segundo a qual a variável dependente aumenta quando aumenta a variável independente.
A análise mais detalhada aos indicadores que compõem a variável respeito dos direitos humanos permitiu confirmar que as correlações estabelecidas entre cada um desses indicadores e o número de reclamações sobre direitos humanos recebidos pelas empresas nos últimos três anos também são de sinal positivo (Tabela 26).
Tabela 26. Correlações entre os indicadores das práticas de respeito dos direitos humanos e o número de reclamações sobre direitos humanos nos últimos três anos nas empresas
Designações Vd Vi
Significado de igualdade de oportunidades(Vd) Spearman Sig. (2-tailed) 1 0,142 0,248 Nº reclamações sobre direitos humanos (Vi)
Spearman 0,142 1
Sig. (2-tailed) 0,248
Plano para a igualdade de oportunidades(Vd) Spearman 1 0,352**
Sig. (2-tailed) 0,003
Nº reclamações sobre direitos humanos (Vi)
Spearman 0,352** 1
Sig. (2-tailed) 0,003
Plano para a conciliação do trabalho e da vida
profissional e familiar(Vd) Spearman Sig. (2-tailed) 1 0,419** 0,000 Nº reclamações sobre direitos humanos (Vi) Spearman Sig. (2-tailed) 0,419** 0,000 1 Direitos humanos adotados por
parceiros/fornecedores(Vd)
Spearman 1 0,343**
Sig. (2-tailed) 0,004
Nº reclamações sobre direitos humanos (Vi) Spearman Sig. (2-tailed) 0,343** 0,004 1 Impacte da empresa nos direitos humanos (Vd) Spearman 1 0,616**
Sig. (2-tailed) 0,000
Nº reclamações sobre direitos humanos (Vi) Spearman Sig. (2-tailed) 0,616** 0,000 1
**. Correlação significativa para α<0.01 (2-tailed).
A tabela evidencia que, à exceção do indicador ‘significado de igualdade de oportunidades’, o qual não apresenta significância estatística, as correlações estabelecidas
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entre cada um dos demais indicadores de respeito dos direitos humanos e o número de reclamações sobre direitos humanos nas empresas nos últimos três anos apresentam valores entre ρ = 0,343 e ρ = 0,616 e significância estatística, sendo de realçar que a correlação mais consistente (ρ = 0,616) refere-se exatamente ao impacte da empresa nos direitos humanos.
Assim, verifica-se que os indicadores de responsabilidade social das práticas de respeito dos direitos humanos apresentam correlações significativas, positivas e fracas a moderadas com o número de reclamações sobre direitos humanos nas empresas nos últimos três anos, tal como se verificou aquando da infirmação da hipótese segundo a qual o aumento das práticas de respeito dos direitos humanos levaria à diminuição das reclamações.
2.2.2. Correlações entre a dimensão das empresas e as variáveis práticas de respeito dos direitos humanos e número de reclamações sobre direitos humanos nos últimos três anos nas empresas
Ainda assim, procedeu-se à introdução da variável moderadora ‘dimensão da empresa’ segundo o seu número de empregados, testando-se a correlação que esta variável possui com as variáveis dependente e independente (Tabela 27).
Tabela 27. Correlações entre a dimensão das empresas e as práticas de respeito dos direitos humanos e número de reclamações sobre direitos humanos nos últimos três anos nas empresas
Designação Vd Vi
Dimensão da empresa (Vm)
Spearman 0,118 0,160
Sig. (2-tailed) 0,333 0,194 *. Correlação significativa para α<0.05 (2-tailed).
Legenda: Vd – Respeito dos direitos humanos; Vi – Nº reclamações sobre direitos humanos.
A agregação dos indicadores da variável dependente num único índice permitiu verificar que o coeficiente de correlação entre a variável moderadora e a variável dependente não possui significância estatística (ρ = 0,118 e Sig. 0,333 para um erro de tipo I de 0,05). O mesmo ocorre com o coeficiente de correlação entre a variável moderadora e a variável independente, não possuindo significância estatística (ρ = 0,160 e Sig. 0,194 para um erro de tipo I de 0,05)
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Em consequência, verifica-se que a variável moderadora ‘dimensão da empresa’ não evidencia influência sobre as práticas de respeito dos direitos humanos e sobre o número de reclamações relativos a direitos humanos.
2.2.3. Distribuição dos níveis de responsabilidade social das práticas de respeito dos direitos humanos por dimensão das empresas e setor de atividade
Neste ponto apresenta-se os resultados relativos à variação dos níveis de responsabilidade social das práticas de respeito dos direitos humanos em relação à dimensão das empresas e aos setores de atividade, segundo os critérios anteriormente enunciados.
2.2.3.1. Distribuição dos níveis de responsabilidade social das práticas de respeito dos direitos humanos por dimensão das empresas
Avaliou-se se as práticas de respeito pelos direitos humanos, no que se refere à responsabilidade social, diferiam segundo a dimensão da empresa, optando-se pelo teste não paramétrico de U-Mann-Whitney devido à violação do pressuposto da normalidade e por estarmos perante uma variável de nível ordinal (Gageiro & Pestana, 2003).
Verificou-se que não existem evidências estatísticas que permitam afirmar que os níveis de responsabilidade social de respeito pelos direitos humanos sejam diferentes segundo a dimensão das empresas. Em consequência, a dimensão da empresa não influencia o nível de respeito pelos direitos humanos no que se refere à responsabilidade social (Mann-Whitney U = 339,000; z = -0,0975; p-value = 0,329).
2.2.3.2. Distribuição dos níveis de responsabilidade social das práticas de respeito dos direitos humanos por setor de atividade
Avaliou-se se as práticas de respeito dos direitos humanos, no que se refere à responsabilidade social, diferiam segundo os setores de atividade (agricultura, comércio, indústria e serviços), optando-se pelo teste não paramétrico de Kruskal-Wallis porque é o teste indicado a esta escala de medida.
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Os resultados apontam no sentido de não existirem evidências estatísticas para se afirmar que os níveis de responsabilidade social das práticas de respeito dos direitos humanos sejam significativamente diferente em pelo menos um dos setores de atividade (Kruskal-Wallis(2) =
1,647; p-value = 0,439).