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4.3 SEGUNDO ESTUDO: Análise das observações

4.3.2 Análise de passagens observadas em aulas

4.3.2.3 Escola C

1ª Passagem de aula

Pela manhã na entrada dos alunos na sala de aula, eles se reúnem no pátio da escola. Cada turma forma uma fila mista, composta por meninos e meninas. Nesse momento a diretora fala ao microfone uma série de avisos sobre projetos que serão desenvolvidos na escola, como o Momento da leitura, as Olimpíadas de Matemática e ainda sobre a participação de alunos em cursos de desenho promovidos por uma universidade da cidade. Na fala da diretora há

sempre presente as frases: “Isso é uma escola!”, “Só irão participar aqueles alunos que corresponderem aqui na escola!”, “Aqueles que se comportarem e demonstrarem interesse nas aulas.”. Após finalizar os avisos, a diretora pede silêncio e solicita que os alunos retirem os bonés para fazerem a oração, ela lê uma mensagem sobre Deus e juntos fazem a oração do Pai Nosso. Durante a oração, a pedagoga caminha entre os alunos chamando a atenção daqueles que ainda não retiraram o boné ou que não estão em silêncio. Depois disso os alunos são autorizados a se dirigirem para as salas de aula para onde seguem de forma desordenada. Para

Araújo, Puig e Arantes (2007), é muito comum acontecer no âmbito escolar o cruzamento da moral com a religião. Conforme já evidenciado por Lima (2008) a escola pública, embora laica, utiliza a religião como estratégia de educação moral e a entende como uma importante ferramenta na formação geral do aluno. Para a autora, ao fazerem isso as escolas não colaboram para formação da moral autônoma dos alunos.

Essa passagem já foi relatada nas observações gerais das quatro escolas investigadas e será aprofundada a seguir no item 4.3.3 que descreve os momentos com aspectos morais, a partir do qual se pode afirmar que a religião é empregada nas escolas em duas situações distintas - no pátio e na sala de aula - conduzidas pela direção e professores, respectivamente. No entanto, entender que a religião pode substituir ou contribuir para a educação moral consiste em um erro muito grave, pois a escola não é a instância que deve se ocupar de cultivar crenças religiosas, sejam elas quais forem.

2ª Passagem de aula

Na observação número 34, em uma aula de inglês, a professora pede que os alunos se comportem, organiza a sala e solicita que alguns alunos mudem de lugar para realizarem a prova, pois não há mapeamento na sala. Após organizar a sala, a professora fala: “Se olhar para o lado, mexer no celular ou der um sorrisinho, eu tiro a prova”. A professora entrega a prova e inicia a explicação das questões afirmando que está aos poucos adaptando as suas provas às questões que são cobradas nos vestibulares. A professora circula entre os alunos tirando as dúvidas e orientando como devem responder as questões, usando frases do tipo: “Preste atenção senão terei de ser grossa!”, “Moreninho, terminou a prova, vira para frente e fica em silêncio!”, “Vocês têm de aprender a ler. Eu estou ensinando, a partir da próxima prova eu só vou jogar a prova no colo de vocês”. Um dos alunos fala: “Professora, sabia que eu te amo?!”. Nesse momento a professora fica sem graça e responde que também ama o aluno batendo as suas costas. Os alunos estão terminando a prova, e a sala começa a fica agitada, a professora bate na mesa e pede silêncio. Chama atenção dos alunos em relação ao prazo de

entrega de um trabalho: “O último dia para entregar a atividade é na próxima aula!”, “Vou fechar a nota e depois disso não poderão entregar mais!”, “Têm alunos que estão sem nota depois eu só vou dar risada”. A partir dessa passagem percebem-se vários julgamentos da

professora em relação aos alunos. Vale ressaltar que esses julgamentos influenciam a conduta dos alunos. Por vezes, os professores acabam tendo comportamentos distintos em relação aos alunos, elogiando os bons alunos e advertindo aqueles que se mostram indisciplinados. De tal modo, os alunos captam essas imagens e passam a agir como tal. Frases do tipo “Tinha que ser você! Você de novo!” acabam por rotular os alunos (ESTRELA, 2002). Não obstante, vale ressaltar que “qualquer discriminação é imoral e lutar contra ela é um dever” (FREIRE, 1996, p. 60). Novamente, nota-se nessa passagem o professor utilizando ameaças como uma estratégia para manter a turma organizada.

3ª Passagem de aula

Na observação número 35, em uma aula de português, o professor está aplicando prova e ao circular entre as carteiras percebe que um aluno está usando o celular. Ele pede várias vezes para que o aluno lhe entregue o aparelho. Não obtendo êxito, o professor desiste e vira-se para ajudar outra aluna que está com dificuldades. A sala está muito agitada e uma aluna grita: “Calem a boca! Que saco!”. O professor continua ajudando a aluna sem interferir. Outra aluna grita: “Vai se ferrar!”. O professor então interfere gritando: “Chega pessoal!”. Nesse momento a inspetora bate à porta dizendo que precisa de dez alunos. Os alunos ficam muitos agitados, pois todos querem sair da sala, alguns correm até a porta. O professor então alerta a inspetora dizendo que os alunos estão fazendo prova. Depois disso a sala fica muito barulhenta, os alunos andam pela sala, vão até o quadro desenhar, saem na porta, vão até o corredor, fogem da sala. O professor solicita que um aluno saia da sala, gritando: “Para fora!” Os demais alunos cantam: “Estou indo embora...” E o professor ameaça: “Depois vocês vão à secretaria e ficam chorando, vocês não são adultos o suficiente para assumirem os seus atos”. Uma aluna fala em tom de deboche: “Outro dia eu fui à sala da pedagoga e ela não me falou nada”. Verifica-se nessa passagem que, assim como em outras anteriores, muitos

conflitos são desconsiderados pelo professor, e, por vezes, a condução verbal é utilizada até que a situação fica incontrolável. Neste momento o professor retira o aluno da sala, assim como a maioria dos professores em caso de conflito ou mau comportamento dos alunos. Contudo, “parece que essas ações não funcionam, ao contrário, para alguns a retirada da sala é vista como um prêmio” (PEDRO-SILVA, 2010, p.56). Em alguns casos, nota-se que os alunos preferem ficar na sala da pedagoga e/ou diretora a permanecer em sala.

4ª Passagem de aula

Na observação número 36, em uma aula de educação física, a professora faz uma dinâmica de grupo com os alunos para que eles interajam entre si. A dinâmica envolve a cooperação e só dá certo se houver a colaboração de todos. Os alunos fazem a dinâmica com entusiasmo seguindo as orientações da professora. Uma aluna se nega a participar e fica sentada ao lado da quadra utilizando o celular. A dinâmica envolvia um emaranhado dos alunos sendo que para desatarem os nós eles deveriam conversar entre si. Muitos se desentendem, há muita agitação, pois tentam fazer em grupo. A professora ressalta a todo o momento que eles devem ter atenção e que para conseguirem se soltar precisam cooperar com os colegas. Aos poucos os alunos vão conseguindo desatar os nós. Os alunos interagem entre si, tentam ajudar os colegas e demonstram estarem gostando da atividade. A professora ressalta a importância da cooperação e do espírito coletivo entre os colegas e também do respeito para com o outro, pois somente a partir desses três princípios irão obter êxito na atividade. Destacamos essa dinâmica em grupo como uma oportunidade para exercitar a

cooperação entre os alunos. A desorganização e a agitação são encaradas pela professora como positivas e necessárias para a resolução da dinâmica, mesmo que sejam desgastantes sob o ponto de vista organizacional. Percebe-se que a ênfase da professora não está na resolução da dinâmica em si, mas sim no processo, auxiliando os alunos a reconhecerem os diferentes pontos de vista e a buscarem soluções aceitáveis para todos os envolvidos (TOGNETTA; VINHA, 2009).

5ª Passagem de aula

Na observação número 39, em uma aula de português, os alunos estão fazendo uma atividade que envolve o estatuto do idoso, na qual deveriam recortar imagens de revistas e jornais. Os alunos à procura das imagens conversam entre si: “Aqui tem um velho! Quem quer um velho? Eu tenho um aqui”. Parece que os alunos não compreendem o princípio da atividade que estão realizando a qual envolve o respeito ao idoso. No meio da aula dois alunos discutem e se agridem fisicamente em sala. O professor separa a briga e encaminha os dois alunos para a sala da pedagoga. O restante dos colegas demonstra estar acostumado com esse tipo de situação, riem e debocham dos colegas. Ao retornar para a sala o professor orienta os alunos para que tenham cuidado com o que falam aos colegas. O professor solicita para que uma aluna troque de lugar e ela questiona: “Por que eu não posso ficar aqui?”, “Eu sento aqui todas as manhãs e hoje o senhor acha que eu não posso!”, “Eu não vou fazer!”, “O professor

acha que eu vou passar a resposta para os meus colegas daqui?”. O professor responde que sim e entrega a avaliação para os alunos, e ela permanece sentada no lugar em que estava utilizando o celular.

Parrat-Dayan (2009) alerta que os docentes podem se sentir atacados pelas condutas indisciplinadas dos alunos. É importante destacar que, por vezes, não são eles que estão sendo atacados, mas sim a norma que eles representam. Se a aluna não faz a atividade e continua utilizando o celular é porque ela está rejeitando esse conhecimento e a regra, respectivamente. Portanto, é preciso que o professor adote uma postura reflexiva, se interrogue a respeito da origem do problema, compreenda quem é o sujeito e qual é o contexto histórico-social em que ele está inserido.

Para Araújo (1996), ao se pensar a indisciplina em sala de aula, logo se focaliza o desrespeito às regras escolares. “Apesar de a moralidade estar relacionada às regras, nem todas às regras têm vínculos com a moralidade” (p. 110). Para tanto, deve-se verificar o princípio subjacente às regras, pois se ele não for justo a regra é imoral, e a indisciplina pode ser um sinal de autonomia. Outro aspecto a ser observado é como a regra do celular foi construída: se foi imposta de forma coercitiva ou estabelecida a partir de princípios democráticos. Se ela foi construída de forma autoritária, os alunos podem não se sentir obrigados a cumpri-la, e a indisciplina e a afronta ao professor nessa passagem podem ser um sinal de protesto em relação à autoridade.