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3.6 Procedimentos para a coleta dos dados

3.6.3 Questionário

Optamos pela utilização do questionário como um dos instrumentos para a coleta dos dados por julgarmos que ele seria apropriado para coletar as informações que desejávamos, visto que, além do acesso às verbalizações frente às práticas morais, possibilitava o conhecimento dos conteúdos, dos relatos e dos símbolos utilizados pelos alunos durante as justificativas referentes às suas respostas. O questionário nos possibilitou o acesso ao mundo que se escondia atrás das palavras, um mundo em que os elementos subjetivos e intersubjetivos constituem a essência do fenômeno investigado (GAMBOA, 2008).

Para Marconi e Lakatos (2009), o questionário possui diversas vantagens, como a economia de tempo, a abrangência de um maior número de sujeitos, a maior liberdade nas respostas em razão do anonimato, o menor risco de distorção pela não influência do pesquisador e uma maior uniformidade nos dados, em virtude da natureza impessoal do instrumento. Em contrapartida, há algumas desvantagens, como o reduzido número de questionários devolvidos, o grande número de perguntas sem resposta, a impossibilidade de ajudar o informante em questões mal compreendidas, dentre outras.

Para Ghiglione e Matalon (1993), um questionário tem como propósitos: a) estimar a porcentagem de sujeitos que possuem uma determinada opinião; b) fazer uma avaliação de determinadas tipologias da população estudada; c) descrever as características de uma população ou subpopulação que afirmam ter determinada opinião; d) verificar a validade de

hipóteses a partir do estabelecimento de relações entre duas ou mais variáveis. Assim, segundo os autores, o momento de construção de um questionário e a formulação das questões são cruciais, uma vez que se faz necessário que as questões sejam suficientemente claras, devendo- se atentar para que não haja a necessidade de maiores explicações, para além daquelas que já estão explicitadas nele. Outro ponto a se considerar é a ordem em que as questões são colocadas a fim de que elas não influenciem a resposta das subsequentes. É importante ainda agrupar questões que tratem do mesmo tema garantindo certa coerência no conteúdo e na sucessão dos temas. Não obstante, deve-se levar em consideração que em questionários longos é necessário refletir sobre a variedade das questões, a fim de evitar um questionário monótono.

As questões podem ser classificadas quanto ao seu conteúdo: a) caracterização dos sujeitos por meio de variáveis; b) opiniões, atitudes e preferências, o que pensa e como avalia determinado assunto. E ainda quanto a sua forma: abertas e fechadas. Nas questões abertas os sujeitos respondem como querem, utilizam o seu vocabulário próprio e fornecem comentários acerca daquilo que consideram relevante. Já nas questões fechadas é apresentada uma lista pré- estabelecida de respostas possíveis entre as quais os sujeitos devem indicar a que melhor corresponde à resposta que desejam dar. Nesse caso, é interessante acrescentar no final da lista uma alternativa a fim de que o sujeito possa escrever outras respostas não contempladas na lista (GHIGLIONE; MATALON, 1993).

Depois de elaborado um questionário é importante testá-lo em uma pequena amostra e analisar as respostas de forma sucinta (MARCONI; LAKATOS, 2009; GHIGLIONE; MATALON, 1993). Para tanto, entramos em contato com a direção de uma escola estadual para a aplicação do questionário piloto a fim de validar o instrumento. A testagem, então, foi realizada em uma turma do nono ano, composta por 18 alunos. Verificou-se que durante a aplicação sugiram algumas dúvidas referentes a determinadas questões, e algumas perguntas não foram compreendidas por todos os alunos da mesma forma. Nesse sentido, fez-se um esforço para verificar as inconsistências, as ambiguidades e sanar os problemas do referido questionário.

De acordo com Marconi e Lakatos (2009), o pré-teste nos serviu para averiguar se o questionário tinha três importantes elementos: a) fidedignidade, ou seja, qualquer pessoa que o aplique terá os mesmos resultados; b) validade, que diz respeito à utilidade dos dados coletados à pesquisa; c) operatividade, que se refere à acessibilidade do vocabulário e à clareza das questões.

O questionário aplicado aos alunos (ANEXO 5) foi composto por 24 questões, sendo algumas abertas e outras fechadas. As diversas formas de questões foram pensadas para permitir

e garantir a liberdade de expressão dos participantes. A primeira questão, preparada com o objetivo de identificar as RS dos alunos acerca das regras da sua escola, foi elaborada utilizando a técnica de associação livre de palavras (ALP), a qual, além de ser bastante difundida entre as pesquisas que utilizam o aporte teórico das RS, é a mais indicada quando se trata da coleta dos elementos que constituem uma RS (SÁ, 1996).

Essa questão teve como base um termo indutor que permite demonstrar os universos semânticos pertinentes ao objeto em questão. De acordo com Abric (1994, p. 66), ela permite “coletar os elementos constitutivos do conteúdo de uma representação social de forma espontânea”. Para tanto, foi solicitado aos alunos que escrevessem cinco palavras ou expressões que melhor lembra “o que pensa a respeito das regras da sua escola”. Após listar as palavras, eles deveriam enumerá-las segundo o grau de importância e justificar a expressão indicada em primeiro lugar. Esses dados foram analisados com o apoio do software EVOC (Ensemble de

programmespermettantl’analyse dês evocations) que combina a frequência com que cada

palavra foi evocada com a sua ordem média de evocação, buscando estabelecer o grau de saliência dos elementos da representação e identificando os prováveis elementos que compõem o NC (VERGÉS, 2005). As justificativas dadas à palavra indicada em primeiro lugar foram analisadas com o auxílio do software ALCESTE.

A segunda questão teve o intuito de verificar ao que os alunos comparam as regras da sua escola. A terceira e a quarta questão pediam aos alunos que comentassem sobre a relação que têm com os colegas e professores, respectivamente. As nove questões seguintes eram compostas por variáveis e tinham o escopo de identificar os alunos a partir dos seguintes critérios: a) sexo; b) data de nascimento; c) crença religiosa; d) mora com quem; e) tem irmãos; f) já reprovou; g) estuda em casa; h) qual material mais utiliza para estudar; i) a sua autoavaliação em relação ao cotidiano escolar.

A décima quarta pergunta questionava se já havia brigado com algum colega e, em caso de resposta afirmativa, qual havia sido o motivo. Em seguida, questionava-se sobre os problemas mais frequentes entre os alunos. Após, solicitava-se o esclarecimento sobre se já havia sido encaminhado para a pedagoga ou direção e, em caso de resposta positiva, pedia-se que apontasse o motivo.

A décima sétima questão foi elaborada com o escopo de identificar as medidas que são adotadas pela escola quando há algum problema grave entre os alunos. Portanto, agruparam-se sete alternativas distintas que se referiam a: a) acionar a patrulha escolar, b) suspender o aluno; c) chamar os pais na escola; d) repreender verbalmente o aluno; e) repreender por meio da assinatura de ata; f) realizar uma negociação entre os envolvidos; g) nada é feito. Ainda havia

um espaço caso os alunos quisessem escrever outra resolução que não havia sido contemplada pelas alternativas anteriores. Nesta questão os alunos poderiam assinalar quantas alternativas julgassem necessárias.

A décima oitava questão foi composta de passagens nas quais os alunos deveriam assinalar as seguintes alternativas: em todas as aulas; na maioria das aulas; em algumas aulas; nunca ou quase nunca, em frases referentes às relações estabelecidas na escola, às regras e à forma como o professor organiza a sala e elabora as atividades.

As questões 19 e 20 solicitavam, respectivamente, a opinião dos alunos se as regras da escola ajudam no seu aprendizado e a se tornar uma pessoa melhor. Na questão 21 eles deveriam completar a frase: “A minha escola é igual a...”. Na questão 22 e 23 eles deveriam escrever, respectivamente, o que gostam e o que não gostam na escola. E, por fim, a questão 24 solicitava aos alunos que completassem a seguinte frase: “A escola dos meus sonhos é aquela onde...”

No final do questionário havia um campo destinado aos alunos assinalarem se autorizavam ou não a divulgação das informações, desde que preservada a sua identidade. Para a análise dos dados foram utilizados somente aqueles questionários que tiveram essa autorização por escrito.