nome da Escola? Muitas conversas entre as crianças geraram várias idéias e, para definirmos o nome, realizamos uma assembléia com as crianças na qual foi eleito o nome: “Escola Comunitária Brilho do Cristal” (uma curiosidade é que a criança que sugeriu o nome da escola, hoje, é nossa professora da educação infantil). Nossa próxima tarefa era ter um mantenedor e, então, partimos para a fundação da Associação de Pais Mestres e Amigos da Escola Comunitária Brilho do Cristal: convocar reuniões, fazer o estatuto, constituir a diretoria e o quadro de sócios. Com a associação registrada partimos para o registro da Escola na DIREC – Diretoria Regional de Educação. Mais uma vez, percebe-se o quanto a construção da Escola possibilitou crescimento para o grupo, através do exercício de auto-organização, de autogestão e, conseqüentemente, de emancipação humana.
No entanto, os limites também foram muitos, especialmente no que se refere à educação política. A maioria do grupo queria apenas resolver o problema imediato - construir uma escola para seus filhos. Pouquíssimos eram os que pensavam o compromisso da educação na sua relação social e que tinham a consciência de que fazer concretamente uma escola diferente inegavelmente é um ato político subversivo, pois uma escola diferente necessariamente propõe o rompimento com a escola tradicional que, segundo Tonet,
(...) é um poderoso instrumento ideológico de controle do capital sobre a reprodução social, não apenas na escola, mas também fora dela, é preciso ter claro que é de uma luta que se trata e não de uma simples questão técnica. Trata-se de uma luta entre duas perspectivas radicalmente diferentes para a humanidade. (2007; p. 82-83).
Era preciso perceber que fazer uma escola diferente envolve um compromisso com a transformação social, ou seja, que a construção da nova escola não se restringia à construção do novo prédio, nem a sua operacionalização pedagógica. Era preciso refletir sobre todas as dificuldades encontradas na realização do projeto da Escola para formar uma consciência sobre a nossa condição de classe de um grupo revolucionário capaz de contribuir com a transformação social.
Nessa direção, o marxismo defende a formação da consciência de classes como tarefa fundamental nos processos educativos emancipatórios. De acordo com Ponce:
A classe em si, apenas com existência econômica, se define pelo papel que desempenha no processo da produção, a classe para si, com existência econômica e psicológica, se define como uma classe que já adquiriu consciência do papel histórico que desempenha, isto é, como uma classe que sabe a que aspira. Para que a classe em si se converta em classe para si, é necessário, portanto, um longo processo de esclarecimento, em que os
teóricos e as próprias peripécias da luta desempenham uma amplíssima função. (2000, p. 36).
A tarefa política da Escola era desafiadora, mas naquele momento não tínhamos idéia de sua dimensão. Além disso, não tínhamos conhecimento das tramas da sociedade capitalista. Era preciso perceber que a ignorância é a arma da burguesia e por isso sempre lutou para que a massa continuasse ignorante, e silenciosa. Justamente por causa desta ignorância, o grupo da Escola muitas vezes foi ingênuo e passivo diante do descaso com que foi tratado pelo poder público. Porém foi a prática de fazer uma escola que fez o grupo acordar, desacomodar, dizer não à pedagogia a palmatória, não à ditadura política, não à falta de espaço adequado e não ao abandono escolar. Apesar de o grupo ter pouca ou quase nenhuma experiência com a luta de classe organizada, conseguia dar seus primeiros passos em busca de sua identidade pedagógica e de maneira autônoma, iniciar o que podemos caracterizar como um processo de formação continuada.
No contexto da Brilho do Cristal, a prática pedagógica foi e tem sido a grande mestre da Escola, pois é dela que o grupo de professoras tem aprendido a extrair teoria, acrescentar teoria e opor teoria, num movimento dialético. A importância do método dialético nos processos pedagógicos é refletido por Suchodolski:
O método dialético consiste em considerar as coisas e os fenômenos como processos. Ensina a ver as coisas como atividade humana. Nestas condições, a prática não é só uma aplicação da teoria, mas um elemento da realidade na qual se unificam conhecimento e atividade. O método dialético depende não apenas do praticismo, que deprecia a importância do conhecimento de verdade, mas também por uma teorização que tal por ignorância da prática conduz a erros especulativos. O método dialético ensina a vincular corretamente a teoria e a prática (...).(1976, p. 101).
A Escola tornou-se um espaço vivo de aprendizado e de formação continuada para todos os educadores, proporcionando exercícios de superação, autonomia, ousadia e criatividade, constituindo um laboratório pedagógico, onde todas as vivências, como a construção da Escola, a fundação de associação, a construção de horta, a confecção de cadernos, a limpeza da Escola, a reciclagem de lixo e tantas outras atividades transformavam- se em aprendizado refletido teoricamente.
Os trabalhos pedagógicos fluíam coletivamente e o grupo de educadores mostrava um forte compromisso com a formação continuada. No entanto, encontrava-se muitas dificuldades na articulação das demais dimensões da Escola, principalmente nos campos administrativo e econômico. Como sustentar uma escola sem dinheiro em uma sociedade capitalista? Seria possível? A Escola tinha um prédio escolar, mas não tinha nenhuma fonte financeira que garantisse seus custos de manutenção.
Na busca de soluções, verificamos que a Lei de Diretrizes e Bases - LDB, a Lei 9394/1996, agrupa as escolas em duas categorias: públicas e privadas. As escolas públicas são as mantidas e administradas pelo poder público e as privadas são as particulares, confessionais, filantrópicas e comunitárias. No inciso II de seu Art. 20, a Lei 9394/1996 definia as escolas “comunitárias, assim entendidas as que são instituídas por grupos de pessoas físicas ou por uma ou mais pessoas jurídicas, inclusive cooperativas de professores e alunos que incluam na sua entidade mantenedora representantes da comunidade”. Assim sendo, a Escola Comunitária Brilho do Cristal, sendo uma escola comunitária, enquadrada como escola privada, não tinha, como não tem, o poder público como mantenedor direto. Por outro lado, também não tínhamos nenhum mantenedor privado de expressão. Assim, o grupo da Escola ficou na condição de indigente, sem condições econômicas para manter o básico da Escola, que era o salário dos educadores, material didático e a merenda das crianças.
Foto 3.9: Crianças construindo o boneco de lata com o lixo catado no Vale do Capão.