5 ANÁLISE DOS DADOS POR CATEGORIAS DEFINIDAS A PARTIR DOS DEPOIMENTOS DOS SUJEITOS PARTICIPANTES
5.13 ESCOLA, CRESCIMENTO E PROTAGONISMO JUVENIL
Falando sobre o seu desenvolvimento pessoal, a Professora do município, já mencionada, aborda a sua relação familiar:
Depoimento de Professora Municipal dado na Partilha de 2009
“[...] eu aprendi a lidar melhor com meus filhos. De uma forma de ver os adolescentes e jovem de modo efetivo, de olhar dentro para fora. Vê-los enquanto pessoas. Porque sempre foi comum na escola, as pessoas dizerem assim: “Nossa! Como agüentar os meninos aborrecentes”. Eu não pensava assim e o ETJ só reforçou.”
A prática que se conhece hoje dessa professora, especialista em psicopedagogia, coordenadora de Educação infantil, confirma que, com certeza, ela tem influenciado muito as escolas e a rede de educação municipal, além de ser um ser humano encantador, esta educadora tem contribuído no crescimento das pessoas que estão ao seu redor, a começar pelos seus filhos.
5.13 ESCOLA, CRESCIMENTO E PROTAGONISMO JUVENIL
Depoimento de Professora Municipal dado na Partilha de 2009
“Eu sempre fui muito estudiosa e as experiências que eu vivi nesta convivência multicultural a partir do ETJ só me fizeram ficar cada vez mais estudiosa. Estudar tudo, não só do ponto de vista acadêmico. Estudar mais o que eu sou enquanto pessoa? O que posso melhorar em mim? O que espero das outras pessoas? De que forma eu posso contribuir com o crescimento dessas pessoas?”
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Esta educadora já citada fala sobre a sua relação com a escola enquanto estudante e o seu papel de professora-educadora. Para ela, o estudo tem uma abordagem holística, que considera o ser humano como um ser integral, constituído de dimensões física, emocional, mental e espiritual.
Um ponto importante da relação de adolescentes e jovens envolvidos na Práxis ETJ é o ingresso na universidade, como explicita o Professor Pataxó quanto ao seu investimento em continuar seus estudos:
Depoimento de Professor Pataxó 2 dado na Partilha de 2009
“Eu estudo, só vou me realizar quando terminar meu terceiro grau indígena superior, pois já estou bastante confiante. Vou prestar vestibular para o intercultural, dia 15 agora de março. Então, com certeza esta vaga já é minha. A partir daí, vou me sentir mais realizado com este nível superior.”
Voltando ao depoimento inicial, é muito interessante a diferenciação que a Educadora faz entre Professor e Educador:
Depoimento de Professora Municipal dado na Partilha de 2009
“O maior desafio é que eu estava sempre numa condição de professora até conhecer I.30 Aí eu comecei a fazer ali algumas reflexões sobre o que é na essência ser professor. Qual a grande diferença entre professor e educador. O maior desafio foi perceber qual o meu lugar, nesse lugar que se chama ETJ onde conheci a mobilização social e o protagonismo juvenil.”
O diferencial em ser educador, aquele que dá vida, ocorre quando “o processo educacional, na sua essência, é responsável pela expressão das qualidades, permitindo ao indivíduo crescer na consciência e na responsabilidade de si mesmo e da coletividade.” (RIBEIRO, 2002, p. 76).
No protagonismo juvenil, o educador abre espaço para os adolescentes e jovens serem autores e destinatários, como conta um mobilizador egresso já citado, sobre a sua atuação de jovem protagonista, e xpressando um certo saudosismo:
Depoimento de jovem egresso, dado na Partilha de 2009
“Uma coisa que acho interessante é que nós vivemos momentos tão interessantes, de aprendizado tão grande, que comecei a passar para outras pessoas o que aprendia. Participávamos das oficinas, depois nós passávamos nos colégios, nos bairros em que morávamos. Houve um trabalho bem legal no Baianão. Aí é que nós começamos a ter compromisso com o evento. Eu aprendi muito. Aprendi muito mesmo. Acho e queria que isto retornasse de novo. Eu queria estar presente, estar podendo colocar as minhas pautas e idéias para as pessoas e absorver as idéias dos colegas.”
Retomando a fala da Professora municipal:
Depoimento de Professora Municipal dado na Partilha de 2009
“Do ponto de vista social, quando disse que acreditar nas pessoas sempre vai ser possível, não existe para mim uma forma mais efetiva de demonstrar que todos podemos ter vez e voz.”
Reforçamos a nossa crença por uma educação que objetiva a “libertação do oprimido”, que gera autonomia de Ser Quem Somos Nós, que fornece meios de transformar a realidade social mediante conscientização. (FREIRE, 2007).
Para alcançar uma educação libertadora e multicultural, precisamos observar a coerência das políticas públicas, as leis, os marcos regulatórios com as exigências da realidade, sobretudo, dos segmentos socialmente apartados dos direitos.
Neste sentido, temos no nosso grupo de educadores da Práxis ETJ, uma arte-educadora, professora aposentada depois de vinte anos de ensino em escolas públicas e de ter participado do processo de implantação da lei 10. 639/2003, na rede municipal de Salvador, que disse:
Depoimento de Arte-Educadora dado na Partilha de 2009
“Quando se faz a comparação com outros trabalhos no mundo afora vemos que estamos no caminho da verdade, coisas boas, o caminho da cultura. Vemos que as pessoas estão caminhando e que cada uma poderá contribuir e ajudar, cada vez mais, a construir um mundo melhor. A gente fala, mas as ações é que dizem, esse grupo sempre foi de ir a campo, todo mundo tem voz e vez.”
As mudanças na forma de se relacionar com a escola, oportunizadas pela Práxis também foram conflituosas, como lembra a nossa Educadora Professora municipal, acerca de desafios vivenciados, por conta das desconfianças, das
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vaidades sociais e ciúmes gerados pelo engajamento dela nos projetos sociais dos ETJs, aparentemente, fora da escola:
Depoimento de Professora Municipal dado na Partilha de 2009
“Eu era uma forasteira, estava chegando no colégio municipal e fui a pessoa que foi olhada de frente. Este foi um grande conflito de lidar com as vaidades pessoais. Eu tinha de dar explicações, mas as pessoas não entendiam e achavam que eu estava fugindo da raia, não sabendo eles que o trabalho era muito mais intenso, era muito mais forte, muito maior.”
Esta Educadora fala do seu crescimento da sua confiança, sua capacidade de hoje enfrentar conflitos, no cotidiano do trabalho, se colocando no lugar do outro, ao lado de uma busca de empatia em relação às pessoas no trabalho educativo e comunitário da sua cidade:
Depoimento de Professora Municipal dado na Partilha de 2009
“Mais uma vez eu acreditava e fui fortalecendo em mim uma certa confiança de que eu me sentia a partir dali uma educadora; e continuava vendo meus colegas apenas professores. Então, eu fui buscando ajudá-los a se reconhecerem como educadores. De verem a grande diferença entre ser educador e ser professor.”
No que diz respeito a dois adolescentes envolvidos na Práxis ETJ, a mudança na sua relação com a escola passa por outra área, a comportamental:
Depoimento de Educadora
Comunitária dado na Partilha de 2009
“Eu era uma menina tremendamente rebelde... Como eu era tão insuportável, ninguém me queria dentro de casa. Na época, eu tinha sido expulsa de dois colégios, minha mãe já não sabia mais o que fazer comigo, nem aonde eu ia estudar.”
A Educadora comunitária se lembra de quando era adolescente, em 1997. Hoje, como Educadora comunitária e graduanda em Serviço Social, ela apresenta a idéia de que:
Depoimento de Educadora
Comunitária dado na Partilha de 2009
“O professor é assim, você chega na sala de aula e os alunos estão ali esperando o que você tem de melhor para passar para eles.”
Esta fala caracteriza o papel do educador de “criar as condições para que, em seu contexto, o educando atualize suas potencialidades, capacitando-se para
manifestar quem ele é.” (LUCKESI, 2005, p. 118); como a educadora comunitária faz no seu cotidiano de trabalho com crianças na escolhinha de Circo.
Outro caso de mudança comportamental na relação com a escola ve m do AIS, que também é músico e comandou com a sua banda de pagode, em cima do carro de som, a caminhada Todos pela Luta Contra a Aids, numa ação de mobilização social relativa ao Projeto Território de Proteção executado pelo ITJ, na Aldeia Pataxó de Coroa Vermelha:
Depoimento de AIS dado na Partilha de 2009
“Aprendi a ser um melhor aluno, porque eu era terrível (sorri). Terrível, não (pausa) Eu era horrível, de chegar e dar cadeirada em professor. [...] A sala que eu estudava não podia ser a menos bagunçada, tinha que ser a mais, toda série.”
Antes de encerrar este item relativo à escola, vale relembrar as falas de dois Professores da Escola Indígena Bilíngüe e diferenciada, do ponto de vista pedagógico, como o seu processo de fortalecimento da identidade étnica-cultural contribuiu na sua relação com a escola. Eles foram pioneiros no trabalho de pesquisa da cultura Pataxó junto aos mais velhos, integrantes de um grupo liderado por jovens da Reserva da Jaqueira. Este movimento gerou reconhecimento da escola, que contratou os dois como professores de cultura, para ensinar as crianças da aldeia a sua língua, o que significa um forte avanço no processo de afirmação cultural.
Outro exemplo de reconhecimento pela comunidade indígena Pataxó, que passa pela relação com a escola, foi o da Liderança Pataxó, Educador Ambiental, que sempre se destaca pela sua visão crítica e postura diferenciada:
Depoimento de Liderança Pataxó, Educador Ambiental, dado na Partilha de 2009
“Faço críticas mesmo na escola, pois a crítica faz parte de melhorar a situação. Passei a ser professor, pegava os meninos para escrever; aqueles que não sabiam, eu colocava para desenhar o que era o meio ambiente.”
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