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4 INSTITUTO SERUMTHERÁPICO/BUTANTAN E O ENSINO PRIMÁRIO:

4.4 A ESCOLA ISOLADA MISTA SE TRANSFORMA EM GRUPO ESCOLAR

No ano de 1918 não foi possível saber quem exerceu a docência na escola. Vital Brazil deixou o Instituto Serumtherápico em 1919 por divergências com o governador do Estado e, portanto, se Eunice Caldas ainda estava trabalhando na Escola Mista, pode ter saído juntamente com seu irmão. A professora vigorou como a que mais tempo atuou na escola no espaço de 10 anos.

Em decorrência da saída de Eunice Caldas, os funcionários do Instituto solicitaram uma nova professora e a vaga foi assumida por Dinorah Cirio Chacon (BRAZIL, 1996), esposa de Julião Joaquim de Freitas, administrador do Instituto Serumtherápico. Dinorah Chacon permaneceu na escola até sua aposentadoria em 1935 (DIÁRIO OFFICIAL DO ESTADO DE SÃO PAULO, 25 de setembro de 1935).

No mesmo ano em que Dinorah Chacon assumiu a Escola Isolada Mista do Butantan, foi promulgada a Lei n. 1.710 organizando o ensino. A norma tratava das escolas isoladas do Estado de São Paulo, prevendo que poderiam funcionar em dois turnos, com exceção das noturnas, que teriam seu funcionamento das 19 às 21 horas, com um dia de folga na semana a

partir do interesse dos alunos. A maleabilidade de funcionamento em outros turnos era um sinal da expansão do ensino, tendo em vista as estatísticas oficiais e seu número expressivo de pessoas analfabetas.

Pela lei de 1919, se a sala de aula excedesse 30 alunos, teria que se desdobrar, sendo que cada turno funcionaria com 2 horas e trinta minutos e 15 minutos de recreio em cada um deles. Como a Escola Isolada Mista do Butantan oferecia curso noturno, possivelmente não possuía classes desdobradas.

No início da década de 1920, as escolas isoladas funcionavam de segunda-feira a sábado, das 11 às 16 horas, com 30 minutos de recreio, ou seja, 5 horas de carga horária obrigatória. Para os grupos escolares e escolas reunidas, o período de 4 horas, com recreio de 25 minutos. Nas escolas com classes desdobradas, o funcionamento seria de 3 horas por dia, sem recreio. O tempo de cada disciplina era dividido por 15, 20, 25 ou 30 minutos, dependendo de sua especificidade. As disciplinas eram parecidas nos três tipos de escolas, mas não encontrei elementos para comparar os conteúdos prescritos. Nas escolas isoladas, os alunos estudavam aritmética, leitura, linguagem escrita, caligrafia, história, geometria, trabalhos manuais, educação cívica, ciências, música, desenho, higiene e ginástica (SÃO PAULO. AEESP, 1922). Angélica Oriani (2015, p. 133), em sua tese, organizou um quadro no qual mostrou os conteúdos dos programas de ensino das escolas correspondentes às legislações no período de 1905 a 1933, e constatou o apelo “prático e funcional” (ORIANI, 2015, p. 135) das disciplinas das escolas isoladas rurais e distritais em comparação aos grupos escolares. Deve-se considerar que a prescrição nem sempre condizia com as práticas escolares, pois demandavam material e mobiliário específico para concretização dos programas.

Lael Vital Brazil (1996), filho de Vital Brazil, afirmou que a Escola Isolada Mista do Butantan passou a Escola Reunida por ter, ao longo dos anos, recebido muitos alunos. Segundo Souza (1998b), as escolas reunidas eram aquelas que tinham uma organização mais simples que a de um grupo escolar, além de abarcarem várias escolas em um mesmo prédio com distintas variações salariais. No AEESP de 1923 aparecem discriminadas escolas reunidas do Butantan e de Pinheiros sem endereço, mas não foi possível afirmar se diz respeito à escola que funcionava dentro do Instituto Serumptherápico.

Cabe destacar que a partir de 1922 houve um decréscimo das escolas isoladas na Capital e, ao mesmo tempo, um aumento de grupos escolares, e principalmente de escolas reunidas. Em função de tal expansão, a estatística da Capital, que fazia parte da 1ª Região Escolar no Estado de São Paulo (juntamente com os municípios de Cotia, Jundiaí, entre outros), passou a

ser feita de forma única sem discriminação das escolas e seus respectivos nomes ou números, impossibilitando a percepção das particularidades da Escola Mista do Butantan.

Com a ampliação dos grupos escolares, a Escola Isolada Mista do Instituto Serumtherápico passou a Grupo Escolar de Butantan. O Instituto também mudou de nome em 1925, e em 1926 a escola apareceu no AEESP como um novo tipo. Como não existem os Anuários de 1924 e 1925, não consegui localizar a mudança de escola isolada para grupo escolar, nem nas leis e nem nos decretos disponibilizados pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo. Possivelmente, a modificação de nome do Instituto, de Serumtherápico para Butantan, ocorreu concomitantemente à transformação de escola isolada mista em grupo escolar. As alterações podem ser um indício da interação entre as duas instituições.

No AEESP de 1926 (p. 13) há uma fotografia de meninos fazendo ginástica, todos vestindo roupa branca - um conjunto de calça até os joelhos e camisa de botões, e abaixo a legenda “Grupo Escolar de Butantan. Uma aula de gymnastica”, confirmando a mudança do tipo escolar.

Imagem 17 - “Grupo Escolar de Butantan. Uma aula de gymnastica”

Fonte: SÃO PAULO.Anuário do Ensino do Estado de São Paulo, 1926, p. 13.

Se nos anos anteriores houve uma diminuição de escolas isoladas, no Anuário de 192695

percebe-se uma inversão dos números. A justificativa apresentada relacionava-se à meta de alcançar a população em “idade escolar” em lugares onde não houvesse escola. A Lei n. 2.182-

95 O Anuário de 1926 foi elaborado de uma forma diferente dos outros, no qual constava, em sua maioria,

estatísticas, mapas e fotografias e menos texto descritivo das atividades anuais da Diretoria de Ensino do Estado de São Paulo.

B, de 29 de dezembro de 1926, dava autonomia para a Diretoria Geral do Ensino criar 250 escolas, 200 rurais e 50 urbanas. No ano seguinte, foram estabelecidas 112 rurais e 43 urbanas. Após a lei, o número de alunos matriculados nas escolas isoladas do Estado foi ampliado para 66.041, do qual 38.645 eram filhos de brasileiros e 27.396, de estrangeiros. O Grupo Escolar do Butantan tinha 16 classes e a frequência média de 460 alunos.

Sobre o Grupo Escolar de Butantan encontrei poucas informações antes de 1933. Procedendo a uma busca na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, localizei duas menções à escola no Diário Nacional, em 1931 e em 1932.

A primeira abordava a “Festa dos Animaes”, que teria sido realizada no dia 23 de abril de 1931 em todos os estabelecimentos de ensino. O Diário Nacional recebeu programas de alguns grupos escolares e dentre eles estava o do Butantan. A comemoração dessa escola teria sido feita no horário do recreio, com palestras sobre animais, cantos corais, jogos e ginásticas. A segunda notícia relatava o episódio dos lanches doados pelas crianças aos soldados da Revolução Constitucionalista, comentada no capítulo anterior.