2 SOCIEDADE DOS AMIGOS DE ALBERTO TORRES E SOCIEDADE “LUIZ
3.2 BUTANTAN RURAL E SUBURBANO
3.3.6 Outras atividades
Em 1939, Noêmia Cruz representou o Estado de São Paulo no Congresso do Ensino Rural em Juiz de Fora e, na ocasião, foi convidada para reorganizar o ensino rural da cidade mineira74.
A educadora fez parte da Federação Brasileira dos Clubs Agrícolas Escolares, departamento da SAAT, criado em 15 de março de 1934 (DIÁRIO CARIOCA). A nomeação para compor a Federação ocorreu posteriormente, pois o nome de Noêmia aparece na notícia dedicada à Federação no Diário Carioca de 05 de agosto de 1934. Ela era a única mulher do grupo majoritariamente masculino e ocupava o cargo de Diretora de Avicultura, o qual lhe proporcionou receber o título de Conselheira Honorária da Associação Paulista de Avicultura, onde também era a única representante feminina (CORREIO PAULISTANO, 01 de fevereiro de 1935).
Em 1943, Noêmia Cruz foi nomeada Inspetora do Ensino Rural. Em 1949, foi eleita Diretora do Centro de Professorado Paulista na qualidade de “vogal”75 (VICENTINI, 1997).
“Depois permaneceu um ano na chefia da Assistência Técnica do Ensino Rural, passando em 1952, a prestar serviços na Superintendência da Escola Profissional e Agrícola, posto no qual requereu sua aposentadoria”, em 1953 (DEMARTINI, 2002, p. 856)76.
Noêmia Cruz desempenhava outras atividades fora do campo educacional. Ela pertenceu à Campanha Associativa de Proteção à Natureza (CAAPAN), fundada em 1949 na capital de São Paulo, uma sociedade civil que tinha por objetivo “fomentar e proteger, em âmbito nacional, por todos os meios viáveis, as riquezas naturais notadamente flora e fauna” (CORREIO PAULISTANO, 9 de agosto de 1953). A CAAPAN foi considerada de utilidade pública pela Lei n. 2.687, de 15 de junho de 195477.
A aposentadoria de Noêmia Cruz, em 1953, não significou o fim oficial de sua carreira na educação. Em 1970, um grupo de educadores autointitulado “a velha guarda de professores
74 Procurei por esse evento na Revista do Ensino de Minas Gerais dos anos de 1939 e 1940, que estão
disponíveis na Plataforma Hélio Gravatá do Arquivo Público Mineiro, e não encontrei informações a respeito.
75 Pessoa que tem direito ao voto em assembleia.
76 No Diário Oficial do Estado de São Paulo, de 08 de maio de 1954, consta o nome de Noêmia Cruz na
parte que trata de declaração de proventos de aposentadoria.
77 Em 1957 a Associação fez uma apreciação ao projeto de lei municipal n. 546, que proibia a colagem
de cartazes e afins em árvores sob pena de multa. A lei já existia desde 1950 (n. 3.903, de 16 de junho de 1950), fazendo que o projeto de lei de 1957 fosse arquivado. O documento está disponível em
http://www2.camara.sp.gov.br/projetos/1957/00/00/0A/ZH/00000AZHC.PDF. Acesso em 30 de
paulistas”78 se reuniu para fundar a Academia Paulista de Educação (APE), o qual tinha/tem
por finalidade ser uma associação científica, cultural e educacional, direcionada a:
I - congregar educadores interessados nos problemas educacionais do Estado e do País, proporcionando-lhes condições de livre debates de ideias; II - incentivar e promover pesquisas e estudos no campo da educação bem como divulgar os trabalhos realizados; III - manifestar-se, a título de colaboração, sobre iniciativas e empreendimentos dos poderes públicos relacionados com o ensino; IV - estimular o interesse da comunidade pela obra da educação e cooperar para o fortalecimento do sentimento de respeito à figura do
educador79 (ACADEMIA PAULISTA DE EDUCAÇÃO, s/d).
No grupo que criou a APE consta o nome de Noêmia Saraiva de Mattos Cruz. A educadora ocupou a cadeira de número 8, cujo patrono é Sud Mennucci. Do falecimento da educadora, em 1987 (DEMARTINI, 2002), até 2004, a cadeira ficou vazia, vindo a ser ocupada por Nacim Walter Chieco, que deveria incluir, no seu discurso de posse, a trajetória de Sud Mennucci e de Noêmia Cruz. As referências ao primeiro educador foram mais abundantes, com riqueza de detalhes e tom ufanista, enquanto que sobre a segunda, em poucas linhas o recém- eleito titular da cadeira número 8 relatou que “lamentavelmente, não consegui avançar sobre a vida e obra da professora Noêmia. Prometo fazê-lo em outra oportunidade. Quero, pelo menos, assinalar que ela foi contemporânea e concretizadora de muitas das idéias de Sud sobre o ensino rural”80. Teria Noêmia Cruz sido somente “concretizadora das ideias” de Sud Mennucci? Ou
sua experiência foi se construindo de forma a adensar as reflexões sobre o ensino rural, bem como do estabelecimento de políticas públicas desse âmbito para o Estado de São Paulo?
A experiência da professora esteve atrelada ao “ruralismo” e ao “ruralismo pedagógico” em um momento de disputas em torno da legitimidade do ensino rural em São Paulo e em outros lugares do Brasil. Uma das hipóteses desta tese é que o trabalho de Noêmia Cruz no GERB, com todo conhecimento e experiência adquiridos ao longo dos anos, foi viabilizado porque esteve localizado no Instituto Butantan, por estar equipado pela extensão do terreno e por contar com a Seção Agrícola, que cuidava das plantações que abasteciam a instituição. Tal análise não desconsidera o desempenho da educadora no desenvolvimento de sua proposta, antes permite vê-la como uma estrategista que soube utilizar os conhecimentos e os recursos disponíveis. Nesse sentido, é possível concordar com Sud Mennucci, Noêmia Cruz era “The right woman”.
78 Disponível em http://www.apedu.org.br/home/index.php?option=com_content&view=article
&id=32&Itemid=90. Acesso em 15 de novembro de 2016.
79 Ibidem.
80 Disponível em http://www.apedu.org.br/home/index.php?option=com_content&view=article &id=161:discurso-de-posse-do-academico-nacim-walter-chieco&catid=10:discursos &Itemid=171%
Já São Paulo era realmente “the right place”. Tinha características rurais e era um grande centro urbano no qual estavam instalados setores administrativos, permitindo a “divulgação da experiência” (DEMARTINI, 1997, p. 24).
4 INSTITUTO SERUMTHERÁPICO/BUTANTAN E O ENSINO PRIMÁRIO: