Em 1859, assumiu o 4° Presidente da Província do Paraná, José Francisco Cardoso37. Em sua gestão, foi decidido que na província deveria ser cumprido o regulamento das escolas públicas e privadas. Dever-se-ia assegurar, em especial, a gratuidade da escola de primeiras letras a toda província, gratuidade essa que já estava sancionada pela Constituição do Império, “[...] gratuidade essa estendida às casas de asilo para instrução de indigente,” (OLIVEIRA, 1986, p.53) e a abertura para grupos ou associações criarem escolas privadas, que seriam supervisionadas pelo inspetor da instrução pública. Embora houvesse escassez de professores habilitados na Escola Normal, o mesmo regulamento impedia que o professor se habilitasse no mesmo local em que se situava a escola onde iria trabalhar, “[...] salvo naqueles com deficiência de recursos, autorizando-se importâncias para o sorteio de aluguéis de casas escolares.” (Idem).
O Presidente da Província reconhecia a necessidade de estabelecimento próprio para preparação dos professores à carreira do magistério, não só na província, como também no país, mas considerava que essas escolas tinham que ser consideradas
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José Francisco Cardoso. Nasceu no Rio de Janeiro, em Santa Cruz.Graduou-se na Faculdade de São Paulo, fez o curso jurídico na mesma Universidade, formando-se em Leis. Nomeado para o cargo de Presidente da Província em 28.02.1859.
[...] plantas exóticas; nascem e morrem quase no mesmo dia. Porque será isto? A razão é muito simples. O professorado, entre nós, não está, nem estará tão cedo elevado à altura de uma carreira, que estimúlo as ambições legitimas de quem quer que seja, e muito menos abra a porta a aspirantes distinctos.
Por via de regra só quer ser professor, quem não pode ser outra cousa. O menino, que sabe da escola, não se lembra mais de voltar a ella para, depois de certo tempo, assentar-se na cadeira de seu mestre. Feito o tirocínio escolar, elle passa logo a cursar as aulas secundarias, e depois se superiores, ou então entregar-se a um gênero de vida qualquer, donde possa auferir vantagens immediatas, e que não demande nem grande somma de habilitações, nem grande esforço de vontade.
Corre veloz o tempo, volvem-se os annos, a miséria transpõe o limiar da vida do mancebo, e eil-o então a contemplar cheio de ternura uma cadeira de primeiras letras, quando já passou a idade exigida para admissão nas escolas normaes.
Não importa que lhe falleçam habilitações. O patronato recebe-o em braços, gradua-o na sciencia pedagógica, e converte-o em mestres consummado.
Em uma palavra, não há quem aprenda, e por tanto quem ensine.
O magistério, Senhores, não sei porque, tem cahido em tal descrédito, o titulo honroso e venerando de mestres é olhado com tal indifferença, se não despreso, que os homens bons e illustrados recusam-se a acceital-o com receio da desconsideração, que d’ ahi lhes resultaria. É por isto que o magistério, salvas excepções honrosas, é o apanagio da incapacidade e da ignorancia.
Quantos são neste paiz os que abalançam-se a freqüentar estabelecimentos destinados a formação de educadores da infância? Algumas vocações decididas e raras, que, dominadas por uma idéia fixa, atiram-se no caminho que ella lhes indica, sem pensarem nos cardos e espinhos, que mais de uma vez hão de tolher-lhes os passos. Quanto aos outros, lembrar-se-hão de ser mestres quando a necessidade lhes bater a porta.
Que perpectiva agradável se apresenta ao aspirante ao professorado? O privilegio? Estabelecei-o as cadeiras vagas difficilmente se preencherão. A preferência? Não é engodo bastante, capaz de por si só determinar a vontade, e aguçar a cubiça.
Por todas estas considerações, não inclino-me a adopção de uma escola normal nesta província. Falta aqui o gosto da instrucção, faltam incentivos para os mestres, falta pessoal para escolas desta categoria, e a província é pobre de sua immensa riqueza.(RELATÓRIO,1867, p.30-31).
Esta fala do Presidente da Província é o registro de uma indefinição presente nas décadas anteriores de se investir, ou não, em Escolas Normais. Como não era de interesse político do Presidente da Província do Paraná, a criação da Escola Normal para a formação dos professores, utilizava-se o “sistema austríaco-holandês” um sistema utilizado para formar professores, valendo-se da prática“[...] empregando-se os candidatos nas escolas públicas, primeiro como alumnos-mestres, depois como ajudantes: -é o systema hollandez, muito proconisado em alguns paizes, e adotado com restricções na côrte e nesta província.”( Idem, p.31). Nas escolas holandesas esse sistema era utilizado aproveitando-se os meninos pobres que tinham mais habilidades para ensinar. Eles eram preparados para serem alunos-mestres e deste modo tinha-se um professor sem grandes despesas, pois o aluno recebia a instrução e era
preparado para dar aula em outro horário, sem remuneração, em troca de aprender o ofício pela prática. Caso fossem considerados aptos e aprovados no teste feito na capital da província, ao fim de dois anos de trabalho, passavam para o quadro de professores vitalícios.
Em 1871, a província tinha na presidência Venâncio José de Oliveira Lisboa38. Embora a instrução pública fosse uma das maiores preocupações deste presidente, nesta gestão, ele era contrário à obrigatoriedade, por considerar que, nesta província, o ensino era retrógrado. Apoiado na Lei 290, de 15 de abril de 1871, com a proibição do provimento definitivo das cadeiras primárias de professores não normalistas, o presidente via suas convicções asseguradas pela Lei, não criando as condições para a inauguração de uma Escola Normal no Paraná, como as outras províncias vinham fazendo, para preparar professores.
Embora o presidente Venâncio José de Oliveira Lisboa fosse contrário à criação de escolas normais no Paraná, essa não era a realidade em outras províncias, nas quais havia uma valorização de criação e ampliação das Escolas Normais, dando um estatuto valorativo às escolas de formação de professores.
Isso refletia a transformação que a sociedade passava, com o enfraquecimento das bases conservadoras do país e o avanço das idéias liberais, inclusive com o forte apoio dos movimentos abolicionistas. Neste momento, a discussão do movimento abolicionista saiu às ruas e passou, em seguida, para o parlamento, onde foi proposta a libertação sem indenização dos velhos escravos. A imprensa abolicionista também ganhava terreno na luta em favor da emancipação dos escravos.
[...] Ninguém pode hoje, de boa fé, sustentar a escravidão, como elemento necessário á vida econômica de nossa pátria, porque o facto si interpõe, contrastando flagrantemente os argumentos que possam ser produzidos. Por deliberação espontânea do povo brasileiro o algarismo negro foi diminuindo de dois terço das suas unidades e essa redução em nada diminui a fortuna nacional.” (Jornal,Gazeta da Tarde, de 5.5.1887).
O avanço dos movimentos abolicionistas e as pressões externas ao país fizeram que fosse acelerada a substituição da mão-de-obra escrava pela mão-de-obra assalariada. Com a criação de novos negócios, como a construção de estradas de ferro, o telégrafo, a iluminação
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Estudou no Rio de Janeiro formando-se com o título de bacharel em Letras, logo após formado vai para São Paulo estudar na Faculdade de Direito, formando-se assim como os demais presidentes, em ciências jurídicas e sociais.
pública, a máquina a vapor, passou a sociedade da época a viver novos hábitos e, conseqüentemente, outras necessidades, como o voto das pessoas consideradas escolarizadas e uma maior participação da mulher nos serviços públicos. Com isso também aumentou a necessidade de se investir na educação pública, particularmente com a expansão da cidade e da vida urbana, que exige uma cultura letrada.
Em 1871, o Estado e a Igreja Católica, duas forças de controle da sociedade, entravam em conflito.39 A religião católica, que era oficial no país, tinha um problema constitucional de Estado a resolver, pois a Constituição de 1824 dava ao Estado o direito de proibir os decretos eclesiásticos que fossem contrários à Constituição do país.
Esse impasse entre Estado e Igreja repercutiu em todo o mundo, mas no Brasil, incentivado pela política do Vaticano, os sacerdotes se tornaram mais rígidos com relação às disciplinas religiosas, pois estes tinham o controle do Estado.
Na gestão da presidência de Frederico José Venâncio de Araújo Abranches foi sancionada a Lei 290, de 15 de abril de 1871, pela qual assegurava-se parte do que este governo vinha defendendo: a necessidade de maior rigor nas disciplinas de moral, religião, leitura e caligrafia, de elementos da língua nacional, e aritmética, nas escolas públicas de ensino primário, uma vez que estas disciplinas eram consideradas a base para a formação da sociedade.
O ensino religioso, considerado parte fundamental da instrução primária, centrava a formação do aluno nas orações do cristão, no catecismo, na história santa e até no estudo do antigo e do novo testamento. Enquanto o governo mantinha o ensino sob a tutela da Igreja Católica, as diferenças religiosas acentuavam-se, do que resultou a ação das forças sociais contrárias, lideradas pelos liberais da época, que defendiam que o Estado deveria isentar-se de todo compromisso com a religião, garantindo, todavia, a liberdade religiosa para todos os credos. Esta reinvidicação provinha do fato de que era de condição obrigatória ter idade mínima de dezoito anos, ter boa conduta moral, professar a religião do Estado, a religião Católica40, e a comprovação de aprovação no exame, para estar habilitado a exercer a função
39 “O conflito teve origem nas novas diretrizes do Vaticano, a partir de 1848, no pontificado de Pio IX. O
pontífice condenou as liberdades modernas da Igreja no mundo. Em 1870, o poder do papa foi reforçado quando um Concílio Vaticano proclamou o dogma de sua infalibilidade.” (FAUSTO, 2001, p.128).
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Ver o documento no anexo 2 onde encontra-se um ofício do diretor da Escola Normal para o Presidente da Província, no item três, que trata da obrigatoriedade de seguir o catolicismo como requisito para o preenchimento
de aluno-mestre ou professor adjunto.
A idéia de que o Estado deveria eximir-se de todo credo, não era nova, pois os jesuítas foram combatidos pelo dogmatismo da religião jesuítica, propondo-se, então, uma educação laica e pública. Com a Revolução Francesa, o ideal de uma educação laica e pública tomou maior força como ideal de democratização do acesso à educação pública, de forma a atender a maioria da população e desvinculando-se dos interesses aristocráticos.
A Lei de Nº. 290, de 15 de abril de 1871, representou um pequeno avanço para a época, ao classificar as aulas por categorias e incluir as freguesias e povoados, pois até então os professores eram contratados sem seguridade alguma com relação à efetividade no magistério.
Na Europa, ao final do século XVIII e início do século XIX, uma nova ordem social foi estabelecida provocada pela produção capitalista, fortalecendo o poder burguês. Neste novo contexto, a formação do professor passou por uma grande transformação, já que o Estado, que defendia a escola pública e laica, deveria agora preparar os professores para compor essa nova ordem. A formação desses profissionais fez-se pelas Escolas Normais.
1.5. Os alunos-mestres na Província do Paraná
A função dos alunos-mestres, de acordo com a Lei 290, de 15 de abril de 1871, era apenas a de repetidores ou monitores dos professores nas escolas de 1° ordem, para as quais eram designados apenas os que pudessem provar uma certa “preparação” suficiente para repetir o que aprendeu na sala de aula do professor. Os meninos deveriam ser maior de 13 anos, e serem nomeados por título passando pelo inspetor geral (Art. 27-Cap. II).
Os alunos-mestres, durante o desenvolvimento de suas funções, passavam por três avaliações e, no caso de serem reprovados, perdiam esse título, sendo-lhes cassado o direito de trabalhar no magistério em toda a província. Já aqueles que correspondiam, eram aprovados para o exercício das funções. Após três anos de comprovada atividade, era conferido o título de professor adjunto. De acordo a Lei 290, em seu artigo 33, os alunos mestres:
“§ 1°. Auxiliarão os professores nas escolas que forem freqüentados por mais de 50 meninos. §2°. Substituirão os professores nas suas faltas e impedimentos. §3°. Serão