Levando em consideração os diferentes tipos de texto com os quais tem contato em seu cotidiano, é possível afirmar que o brasileiro lê, mas não de modo tradicional, e sim realiza uma leitura multivaria-da e multifacetamultivaria-da, ancoramultivaria-da nas características sociais, culturais e históricas da contemporaneidade. Estudiosos têm descrito o leitor contemporâneo como um sujeito mais ativo no processo de leitura, indisciplinado, que não segue linearmente o texto, abandonando fa-cilmente a leitura quando ela não é capaz de entreter, e que reelabora o texto lido, em vez de simplesmente reproduzi-lo. Uma das conclu-sões é que “o brasileiro lê, especialmente quando, como e o que ele quer”. (RIBEIRO, 2009b, p. 599) Portanto, para atender às expectativas desse novo tipo de leitor, é preciso oferecer a ele novas formas de ler.
No entanto, para o leitor fazer suas escolhas de leitura e se apro-priar daquilo que lê, há que se enfrentar os problemas da educação no Brasil. Afinal, “[...] diferenças de desempenho de leitura [parecem estar] mais relacionadas à ausência de determinadas habilidades lei-toras, independentemente de os textos serem apresentados em meio impresso ou digital.” (RIBEIRO, 2009a, p. 92)
Ademais, em relação ao meio impresso, o meio digital pode con-tribuir para reduzir algumas das principais barreiras à leitura, como os limites geográficos, econômicos e fisiológicos. (CARRENHO, 2016, p. 110) No Brasil, em que muitos municípios não dispõem de livrarias ou bibliotecas, a possibilidade de acessar um livro via internet contri-bui para a inclusão de leitores.
Ter o meio digital como aliado e reconhecer as especificidades do leitor contemporâneo não é suficiente: ainda enfrentamos o desafio de engajar esse sujeito numa leitura que não se limite a notícias sobre novos tratamentos médicos “milagrosos” nem sobre os problemas dos hospitais públicos, mas que abarque temas de saúde pública abordados em pesquisas científicas. Esse desafio exige colocar o texto acadêmico em diálogo com leitores indisciplinados, criativos e críticos, inclusive – e especialmente – com aqueles não pertencentes à academia.
Diante desse contexto, optamos por e-books baseados no hi-pertexto, um recurso que não é exclusivamente digital, tampouco puramente on-line. A possibilidade de leitura não linear põe em evi-dência o protagonismo dos leitores. A leitura se converte em “[...]
movimento de acessar uma coisa, depois outra, fazer conexões, jun-tar elementos diferentes, realizando um verdadeiro exercício de bri-colage”. (FREITAS, 2005, p. 94) O hipertexto pode ser definido como [...] um estilo não linear e associativo, em que a no-ção de texto primeiro, segundo, original e referência cai por terra. As informações textuais são combinadas com imagens (animadas ou fixas) e sons, organizadas de forma que se permita uma leitura (ou navegação) não linear, baseada em indexações e associações de ideias e conceitos [...]. (FREITAS, 2005, p. 94)
A tela, muitas vezes, não favorece a concentração e, nesse “exercí-cio de bricolage”, os leitores podem ficar dispersos ou cansados,
aban-donando a leitura do e-book. Para auxiliá-los, o autor/editor divide a totalidade do conteúdo em blocos e os organiza, sugerindo um cami-nho, um “mapa de leitura”. Mas os leitores são livres para aceitar ou não o que lhes é sugerido.
[...] o escritor de um hipertexto produz uma série de previsões para ligações possíveis entre segmentos, que se tornam opções de escolha para os hipernavegado-res. O interessante é que cada leitor faz suas escolhas, realiza interferências e percorre seus caminhos que, no geral, não são similares aos de outro leitor. (FREITAS, 2005, p. 95)
Cada leitor é, assim, um coautor, o que reforça a ideia de autoria coletiva já tão presente na construção de nosso projeto, no qual vários colaboradores participaram da produção e seleção dos conteúdos do e-book, conforme abordaremos na próxima seção.
[...] o hipertexto obscurece os limites entre leitores e escritores já que é construído parcialmente pelos escritores que criam as ligações, e parcialmente pe-los leitores que decidem os caminhos a seguir. Na realidade, com o hipertexto, tem-se a impressão de uma autoria coletiva ou de uma espécie de coau-toria. A leitura torna-se simultaneamente uma es-critura, já que o autor não controla mais o fluxo da informação. O leitor determina não só a ordem da leitura, mas o conteúdo a ser lido. Embora o leitor do hipertexto não escreva o texto no sentido tradicional do termo, ele determina o formato da versão final de seu texto, que pode ser muito diver-sa daquela proposta pelo autor. (FREITAS, 2005, p. 95-96)
Foi o caminho da complementaridade que seguimos em nosso projeto, entendendo que o e-book abre novas oportunidades, mas não exclui o livro convencional, isto é, “sem esquecer que a velha e a nova mídia podem e realmente coexistem, e que diferentes meios de comu-nicação podem competir entre si ou imitar um ao outro, bem como se complementar”. (BRIGGS; BURKE, 2006, p. 31) Hoje, quando se fala em produzir livros digitais, muitas vezes refere-se a um tipo de desen-volvimento limitado à mudança do suporte, sem maiores inovações conceituais. Ou seja, “[...] a produção do conteúdo do livro, a funcio-nalidade e a fifuncio-nalidade do produto em si não são modificadas. O que muda é a forma de apresentação do produto. De impresso, passa a ser virtual”. (MEDEIROS; VIEIRA; NOGAMI, 2014, p. 165)
Partindo do princípio de que “[...] já não basta mais a leitura do texto verbal escrito – é preciso colocá-lo em relação com um conjun-to de signos de outras modalidades de linguagem que o cercam, ou intercalam ou impregnam”, (ROJO, 2007, p. 65) o objetivo do proje-to, então, não era produzir um livro digital que fosse tão somente uma transposição do papel para a tela. O e-book deveria ser entendi-do como algo complementar ao livro convencional e não como uma imitação. Para tanto, na hora de elaborar uma estrutura para os livros digitais interativos, vivenciamos um processo singular de produção – e edição – de conteúdos, almejando um produto final com novas funcionalidades e finalidades em relação ao livro impresso. Os e-books interativos, portanto, deveriam incluir fotografias, vídeos, áudios, hi-perlinks, PDFs, infográficos, etc., que complementam ou até mesmo substituem trechos do texto original.
Procuramos aplicativos e e-books já existentes e que fossem simi-lares à proposta que queríamos desenvolver. Encontramos, contudo, poucos exemplos em acesso aberto e a maior parte voltada para o público infantojuvenil, ou seja, livros não acadêmicos. Sem exemplos
concretos nos quais pudéssemos nos inspirar diretamente, começa-mos a construir nosso e-book assumindo metodologia própria. Essa decisão foi apoiada por autores que defendem “[...] ser a metodologia importante demais para ficar entregue aos metodólogos, sugerindo ao pesquisador social tomar para si a tarefa de traçar a rota de constru-ção de um objeto, do levantamento e da análise de seus dados”. (CA-VALCANTI, 2013, p. 7) Admitimos, pois, que “[...] especialmente em pesquisa qualitativa existe uma dimensão improvisada, intransferível e em grande parte autoconstruída”. (CAVALCANTI, 2013, p. 7)