3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.4 ESCOLHA DOS CASOS
De modo geral, os estudos sobre organizações híbridas mostram resultados relevantes, já citados no referencial teórico, nos mais diversos campos, desde negócios sociais até as organizações envolvidas com universidades. Estes resultados refletem as características das organizações híbridas, permeadas por tensões dissonantes que as definem particulares. Um tipo de organização que integra o ambiente universitário são as empresas juniores, campo escolhido para a realização deste estudo.
Primeiramente, foi escolhido o estudo de casos múltiplos, a fim de mostrar não só a realidade de uma empresa júnior, possibilitando a comparação e o enriquecimento dos dados ao passo que mais de uma realidade é estudada; de esclarecimento das questões associadas à pesquisa e a possibilidade de replicação do estudo, como sugere Yin (2005).
Quanto à escolha pelo campo das empresas juniores, é justificado pelo fato de a Confederação Nacional das Empresas Juniores, Brasil Júnior (BJ), fomentar o compartilhamento de conhecimento sobre as empresas juniores a fim de legitimar
essas empresas frente a comunidade acadêmica, divulgando materiais e documentos em suas redes sociais, contando com um portal da transparência, onde vários documentos se encontram disponíveis. Assim, o acesso aos dados foi facilitado na pesquisa.
Além disso, a inédita utilização deste campo em estudos relacionados a organizações híbridas e respostas estratégicas (as organizações serão caracterizadas no próximo tópico deste estudo); a proporção que o Movimento Empresa Júnior (MEJ) vem tomando, sendo considerado o maior movimento de jovens universitários do Brasil, movimentando milhões de reais na economia nacional e impactando a vida acadêmica de mais de onze mil jovens, segundo dados de documentos mais recentes. (BRASIL JÚNIOR, 2015b).
Também foi considerada a promoção de eventos nacionais e internacionais, com participação de milhares de jovens ligados ao MEJ (mais de três mil e quinhentos jovens participaram do último evento internacional que aconteceu em Florianópolis, no mês de julho de 2016); e o papel do MEJ na formação de lideranças empreendedoras, já que tem na formação empreendedora um de seus pilares de desenvolvimento, a fim de preparar estes jovens para as mais diversas organizações. Sobre os casos escolhidos, optou-se por critérios de: representatividade da empresa júnior (EJ) no cenário nacional; regionalidade dos casos; natureza da instituição de ensino superior (IES) que a empresa júnior é vinculada; e diversidade de cursos que a EJ engloba.
No caso da representatividade da empresa júnior, isto foi mensurado por meio de reconhecimento da Confederação na classificação das empresas juniores em clusters que refletem o nível de crescimento das EJs, do cluster 1 ao 5, onde as EJs cluster 5 possuem as melhores taxas de crescimento nos quatro fatores considerados: número de projetos realizados; faturamento com projetos; tempo médio por projeto e número de membros na EJ, sendo baseados em dados anuais porém atualizados mais de uma vez ao ano, caso a EJ cresça de modo a melhorar sua posição em seu cluster com dados anuais. Para que fossem englobadas não só as empresas juniores de maior crescimento e impacto (cluster 5), também estão presentes na pesquisa empresas juniores de clusters 2 (duas EJs entrevistadas), 3 (duas EJs entrevistadas), 4 (uma EJ entrevistada) e 5 (quatro EJs entrevistadas).
O critério dos clusters foi utilizado a fim de verificar se a resposta estratégica tem relação com o resultado obtido em relação à lógica institucional.
Sobre a regionalidade dos casos, todas as regiões com exceção da região Norte foram contempladas neste estudo, sendo duas delas da região Sudeste, uma da região Sul, duas da região Centro-Oeste e quatro da região Nordeste. A região Nordeste está mais presente devido a participação da pesquisadora em um evento regional, onde foram feitas quatro destas entrevistas com EJs da região Nordeste e duas entrevistas com membros de empresas juniores de outras regiões, que também estavam presentes neste evento regional.
No que se refere a natureza da IES onde a EJ se encontra, das nove EJs entrevistadas, oito pertencem a IES Federais - sendo oito universidades e um instituto federal -, e uma faculdade estadual. Estes números estão proporcionais aos números que a Brasil Júnior fornece em sua última pesquisa divulgada, onde mostram 70,66% das EJs federadas pertencendo a IES Federais, 22,48% em IES Estaduais e somente 6,42% em IES privadas. (BRASIL JÚNIOR, 2015a).
Por fim, a diversidade dos cursos foi outro critério a ser considerado devido a possível diferença de resultados de acordo com o portfólio de serviços ofertados e o hibridismo poder ser identificado por meio de uma lógica institucional relacionada a profissão. A seguir, a Tabela 1 apresenta os dados das empresas juniores as quais os entrevistados fazem parte, sem comprometer a identificação das mesmas.
TABELA 1 - CARACTERÍSTICAS DAS EMPRESAS JUNIORES
(continua) Entre-
vistado Região Cluster
Fatura- mento(R$) Proje- tos Gênero do entrevistado Cursos da EJ
1 Sudeste 5 266 Mil 36 Masculino
Administração, Economia, Ciências Contábeis, Relações Econômicas Internacionais e Controladoria e Finanças da Faculdade de Ciências Econômicas
(conclusão)
Entre-
vistado Região Cluster
Fatura- mento(R$) Proje- tos Gênero do entrevistado Cursos da EJ
2 Nordeste 3 30 Mil 10 Masculino Engenharia Química e de Alimentos
3 Centro-
Oeste 5 447 Mil 49 Masculino Administração
4 Sudeste 5 138 Mil 29 Masculino
Administração, Engenharias, Ciência da Computação, Línguas Estrangeiras Aplicadas às Negociações Internacionais, Gestão Ambiental, Tecnologia em Sistemas para Internet 5 Centro-
Oeste 2 15 Mil 6 a 10 Feminino Ciências Sociais
6 Nordeste 4 101 Mil 24 Masculino Engenharia de
Produção
7 Nordeste 2 20 Mil 4 Feminino Engenharia de
Aquicultura
8 Nordeste 5 138 Mil 45 Feminino Administração
9 Sul 3 70 Mil 27 Feminino
Administração, Ciências Contábeis, Economia e Gestão da Informação
FONTE: A Autora (2017).
A diversidade dos critérios utilizados tendo em vista sua diversidade e representatividade do cenário das EJs no Brasil garante uma maior probabilidade de esclarecimento do problema de pesquisa. (YIN, 2005).
Os casos foram analisados somente em empresas juniores brasileiras, a fim de evitar a exposição a uma heterogeneidade cultural. Meyer e Höllerer (2016) afirmam que diferentes culturas refletem lógicas institucionais de diferentes formas, e isso poderia prejudicar a análise da pesquisa. Por exemplo, o que uma cultura encara
como economia, burocracia e família pode ter conotações diferentes dependendo da cultura. Assim, ainda que se considere o Brasil um país multicultural, as lógicas institucionais são submetidas por um mesmo governo, economia e burocracia, por exemplo.
A fim de esclarecer alguns conceitos e termos utilizados no Movimento Empresa Júnior (MEJ), ele será caracterizado em um tópico separado, na parte de descrição dos dados, na análise dos resultados.