3. O TEMPO DOS ANTIGOS
3.1. Escravidão em Cima da Serra
Duas localidades se destacam nesta geografia histórica: São Francisco de Paula de Cima da Serra (ora referida como Cima da Serra, ora como São Francisco) e Roça da Estância. A articulação entre essas duas localidades constitui um reflexo geográfico da conjuntura econômica e social da época. São Francisco desponta como lugar do domínio senhorial e da violência do passado escravista. Roça da Estância, por outro lado, figura ao mesmo tempo como indicadora da extensão deste domínio e da profundidade dos laços envolvidos na escravatura, como também da sua fragilidade e inevitável declínio.
O século XIX nos apresenta a região de Cima da Serra com uma população significativa de negros, com um crescente número destes na condição de livres na medida em que se desenrola. Embora a região apresente um passado escravista bastante forte, este se configurou de uma forma muito diferente das grandes monoculturas da região sudeste. Em São Francisco temos o relato de fazendas menores, com um número reduzido de escravos que, na sua grande maioria, eram nascidos em território brasileiro. Assim, ao contrário do modelo clássico da casa grande-senzala, muitos destes escravos nasciam e eram criados no ambiente da casa de seus senhores. Por estes motivos, o regime escravista desponta na região neste século fundamentalmente na sua face paternalista. Os documentos históricos trazem, por exemplo, registros de senhores pagando pela defesa judicial de seus escravos envolvidos em acusações. Esta realidade transparece na concepção da comunidade acerca de sua constituição como refúgio de escravos, não como instância de oposição
SANTA CATARINA RIO GRANDE DO SUL
São Francisco de Paula de Cima da
Serra Roça da
Estância
Comunidade São Roque
imediata ao regime escravista, mas essencialmente como reação aos maus tratos e más condições de trabalho impostos por senhores especificamente reconhecidos como maus.
“Pois é eles contavam queee, que por exemplo a, a vida era boa. É quando o senhor era um senhor bom, que eles tinham boa vida e quando o senhor era mau eles sofriam muito era muito sofrido né?
Judiavam muito, surravam. É, a senhora sabe que, aquele senhor que tinha, de dez nego acima, ele tinha o, o tronco de laço. De dez nego abaixo, abaixo era o tronco de laço. E de dez nego acima era o pingolim. Pingolim por exemplo é um palancão vamos dizer que nem essa vara assim fincado, e daí por exemplo aquele palanque, eles furam assim e a pessoa abraçado assim amarrava uma maneia, e ali o laço, pegava né, nas cadeira. E o tal tronco de laço, é um, é um tronco assim tipo tronquear boi. E daí bota a pessoa amarra com os pé assim pra cima, e daí fica com as paleta no chão assim, e o laço por baixo. Né? Isso eles cansaram de me contar. Ê! Que era coisa séria. E tinha outras pessoa que eram bom... Não, não agrediam as pessoas né. Mas tinha uns que eram muito, muito, muito malvado, né?”
(Afonso)
A qualidade de vida, como podemos ver nesta fala de Afonso, estava mais diretamente relacionada à índole do senhor do que às condições econômicas implícitas na relação de escravidão. As falas que mais se aproximam do caráter de narrativa como performance, bem como as poucas que assim se configuram de fato (como a que será analisada neste capítulo), se desenvolvem sobre esta temática das práticas hediondas de senhores, ou senhoras, particularmente maldosos. Na fala de Afonso citada acima, ele faz uma abordagem mais genérica das condições que envolviam o trabalho escravo, e chega mesmo a fazer um uso performático da figuração corporal ao descrever
estas formas mais gerais de castigo. Não intensifica, no entanto, a experiência da mesma forma como fará ao descrever formas particulares de violência impressas a pessoas ou situações específicas. Embora descreva os instrumentos de castigo como características generalizadas da conjuntura (associadas ao número de escravos em uma propriedade), o uso destes é submetido ao caráter do senhor, e a satisfação ou insatisfação dos escravos com sua condição parece estar mais diretamente relacionada a este fato que à sua condição de escravos per se.
Mais do que as relações de trabalho, as relações sociais e familiares se confundiam e apresentavam uma fluidez considerável. Há relatos de relações, consensuais e forçadas entre escravos, tanto sob o domínio do mesmo senhor quanto de senhores diferentes, e mesmo entre escravos e senhores. Nas relações entre escravos, há registros de casamentos e formação consensual de famílias, como também da geração de descendências a partir de um escravo conhecido como Paquê, que tinha a função de escravo reprodutor.
“O nome da minha avó era Maria... e meu bisavô chamavam Paquê, que depois mais tarde eu descobri que era o nome de Adão. Tinha o nome de Adão. Mas, o apelido dele era Paquê. Então ele era aquele escravo, como se dizia que antigamente que hoje assim se fala que era um reprodutor né. Ele era escravo pra isso aí. Então, tinha filhos com várias... várias mulheres... Aonde deu, casamento de, um tio o, o Jacinto Fogaça... que mais tarde a gente vai descobrindo que ele era casado com a irmã, por parte de pai, porque, o pai era um só... Por causa dessa história de... de ter vários filhos com, várias mulheres né.”
(Maria)
Nas relações entre escravos e senhores havia não apenas as relações de violência sexual, envolvendo senhores obrigando suas escravas a manterem relações com eles, como também indícios e memória de uniões consensuais.
Estas relações, assim como as de casamento entre escravos de diferentes senhores, apontam para uma relativa mobilidade dos escravos, e para um certo poder de negociação com seus senhores.
“(...) só sei que essa área que nós temo lá, e depois por cima, aonde é o Rio Grande do Sul também aqui novamente em cima da serra, era do Vitorino Nunes no causo. Ele era, ele era o senhor da minha bisavó. Daí o meu bisavô que é o, o meu avô que é o Osvaldino, Nunes, ele, no causo, é o filho, do Osório, Nunes, que é filho do Vitorino Nunes, que o Vitorino Nunes é que, que era, a minha bisavó era escrava dele, no causo. E daí de certo por uma brincadeirinha lá ela facilitou no causo ela, gostava, um pouquinho da coisa, aí engravidou, ganhou o meu avô, do Osório Nunes.”
(Dirceu Nunes)
Dirceu não apenas reconhece um senhor como seu antepassado, como atesta a colocação de seus ascendentes no local onde ainda hoje mora como tendo permissão explícita da família Nunes da qual eram ao mesmo tempo escravo e familiares. Mas para entenderemos melhor essa dinâmica espacial que se desdobra desse escravismo paternalista é necessário que entendamos como se davam as relações entre o topo da serra e as regiões litorâneas.