5 ANOTAR NA ERA DIGITAL
5.2 LEITURA E ESCRITA NA TELA
5.2.2 Escrever e teclar
A tela do computador é um espaço de escrita que possui grande impacto na prática de escrever, com letramentos diversos que emergem do uso deste espaço e isto é inevitável, pois “todas as formas de escrita são espaciais, todas exigem um lugar em que a escrita se inscreva/escreva, mas a cada tecnologia corresponde um espaço de escrita diferente” (SOARES, 2002, p. 149). A tela, portanto, se instaurou inaugurando um novo espaço de escrita, que requer do produtor de textos habilidades múltiplas.
Soares (2002) faz um resgate histórico vinculando o espaço de escrita ao sistema de escrita adotado em cada um deles. Nos suportes em argila, havia o sistema cuneiforme de escrita; a pedra trouxe os hieróglifos egípcios; o papiro trouxe uma escrita mais cursiva... ou seja, o espaço de escrita condiciona o
sistema de escrita que vamos adotar. A escrita na tela parece, então, favorecer um mecanismo muito particular de executar a escrita em ambiente digital: o teclar27.
A ideia de teclar, de acordo com David Crystal (2008), surge em meados dos anos 80, com o desenvolvimento do Sistema Móvel de Comunicação Global (GSM). Porém, somente nos anos 90 as companhias telefônicas utilizaram este sistema para fins comerciais. Os pagers são exemplos disto. O crescimento do uso de textos via GSM demorou a se popularizar. Crystal (2008) documenta que em 1995, o uso de mensagens via GSM eram 0,4 por mês e, no ano de 2000 não passava de 35. Este começo lento tem relação direta com a tecnologia que as operadoras de telefone dispunham à época. Porém, em 2001, com o desenvolvimento dos serviços, o uso de mensagens de texto cresceu, assim como seu valor comercial paras as companhias, chegando a contabilizar, em 2005, o valor de 70 bilhões de dólares. Além disso, o crescimento se deve, sobretudo, ao uso de telefones celulares.
O espaço comunicativo de que dispunham as mensagens em SMS influenciaram diretamente a escrita nesse ambiente, já que cada mensagem deveria ser curta e leve, com até 160 caracteres. Isto nos põe diante de textos curtos e abreviados. De acordo com Crystal (2008, p. 7), “a crença popular é a de que teclar evoluiu como um fenômeno do século XXI, com um estilo gráfico distinto, com abreviações e informalidade na linguagem, usada por uma geração jovem que não liga para padrões”. Isto culminou numa reação negativa, de que as mensagens de texto estariam destruindo a linguagem. Como vemos ainda hoje, “temos agora uma crença popular que diz que o que quer que teclar seja, deve ser uma coisa ruim”. (CRYSTAL, 2008, p. 8).
Esta imagem negativa da escrita na tela foi frequente entre os entrevistados neste trabalho. Embora se tratasse de jovens entre 16 e 18 anos, muitos associaram as características da escrita na tela como “escrever errado” e a escrita em papel como “escrever corretamente”, como percebemos no Fragmento 03.
FRAGMENTO 03:
Pesquisadora: O que é que a anotação no papel te oferece que a anotação no aplicativo não te oferece?
27 O termo “teclar” é uma tradução nossa para o termo “texting” no texto original de David Crystal (2008).
Informante 10: Saber a... Aprender realmente a escrever determinada palavra. Ter a ortografia em si correta. Porque muitas vezes no aplicativo do celular, dependendo do aplicativo ou do celular, tem o corretor ortográfico automático.
Pesquisadora: Hum... entendi. Aí você escreve errado mas aí na hora que v ocê tá escrevendo ele automaticamente muda...
Informante 10: Ele automaticamente muda... Pesquisadora: Certo...
Informante 10: Aí eu não vou saber se eu tava escrevendo certo, se eu tava escrevendo errado... Se eu usei dos meios corretos da gramática.
A escrita na tela, portanto, começa sua trajetória com uma imagem negativa como um desserviço à norma padrão, que induz os estudantes ao “erro” ortográfico. O estudante do fragmento 03 reproduz esta crença popular quando sugere que a escrita na tela, por corrigir automaticamente palavras com desvios ortográficos, não encoraja o aluno ao aprendizado da grafia correta das palavras.
Contrariando este pensamento, Crystal (2008, p. 9) acrescenta: “as mensagens de texto adicionaram uma nova dimensão ao uso da língua, mas seu impacto às variedades linguísticas já existentes, a longo prazo, é insignificante. Não é uma coisa ruim”, pois, “embora muitos textos novos gostem de ser diferentes e de quebrar regras, eles sabem que precisam ser entendidos” (CRYSTAL, 2008, p. 17).
Crystal (2008) discorre sobre as características que seriam mais marcantes quando utilizamos a tela para espaço de escrita: pictogramas e logogramas, siglas, omissão de letras, palavras fora do padrão ortográfico (de forma proposital), encurtamentos (seria um tipo de abreviação) e novidades espontâneas28. Embora essas categorias tenham sido elencadas a partir da escrita de outro idioma, no caso, o Inglês, podemos transpor estas categorias para o Português sem prejuízos.
Os pictogramas ou logogramas seriam o uso de letras, números e símbolos tipográficos para representar palavras, partes de palavras e sons. O que é relevante nos logogramas são os sons e não a organização visual, diferentemente dos emoticons, cujo formato interfere diretamente no significado. Quando esses formatos são utilizados para representar conceitos ou objetos, são denominados pictogramas. Os emoticons são um exemplo de um tipo de pictograma. (CRYSTAL, 2008).
28
As siglas são uma das características fundamentais da escrita na tela, especialmente a escrita de urgência e são definidas com Crystal (2008) como a redução de palavras às suas letras iniciais. Nesse tipo de recurso, todas as letras são subtraídas, com exceção da primeira.
Na omissão de letras, as palavras são encurtadas pela supressão de consoantes e vogais do meio da palavra. Normalmente, as vogais são suprimidas. É o caso, por exemplo, do encurtamento de “risos” para “RS” ou “por favor” para “PFVR”. (CRYSTAL, 2008).
As palavras fora do padrão ortográfico seriam aquelas em que vemos a troca de dígrafos pelos sons que representam, a fim de tornar a escrita mais curta e rápida. É o caso de “fechar” sendo escrito “fexar”, ou “bicho” sendo escrito como “bixo”. (CRYSTAL, 2008).
Os encurtamentos são um tipo de abreviação em que uma palavra é encurtada pela omissão de elementos significativos, normalmente do final da palavra, como “porfa” em vez de “por favor” ou “mara” em vez de “maravilhoso(a)”. (CRYSTAL, 2008).
Já as novidades espontâneas, de acordo com Crystal (2008), surgem a partir da interação online, como e-mails e chats, e derivam dos processos listados anteriormente. Elas são criadas a partir de um contexto específico e passam a serem utilizadas em outros, se espalhando pelas práticas de linguagem dos indivíduos, como expressões “virais”. Atualmente, as hashtags se encaixam na definição das novidades espontâneas.
A partir destas categorias, Crystal (2008) sinaliza uma maneira de entendermos como o escrever na tela favoreceu alguns destes processos. No plano das anotações na tela, essas formas de construção textual se fazem presentes, como veremos na seção a seguir. Entretanto, a modificação nas formas de ler e escrever perpassa, também, um momento de reflexão sobre a profundidade do que se produz.
Nas seções seguintes, discorreremos sobre como a experiência de anotar utilizando o suporte em tela é concebida pelos estudantes entrevistados. Discutiremos, também, como a anotação na tela se caracteriza, se organiza e se
faz presente no cotidiano dos estudantes, especificamente como o suporte na tela modifica a relação deles com as estratégias composicionais deste gênero.