1. A HORA DA ESTRELA, LIVRO E FILME
1.1 CLARICE LISPECTOR, VIDA E OBRA
1.1.1 A ESCRITA DE CLARICE LISPECTOR
Com uma prosa intimista-introspectiva, possuindo narrativas com sondagem psicológica, Clarice Lispector mergulhou nas palavras literárias e se destacou por penetrar nas entrelinhas da existência humana, com personagens que adentram no mundo da epifania e devaneios.
Seguindo o fluxo de consciência, sua escrita evidencia os conflitos entre o eu e o mundo, a angústia que surge ao se deparar com uma realidade conflituosa e excludente, porém, também
fala da felicidade ao aproximar-se das coisas mais simples, como o cair de uma folha no seu ombro. Isso acontece porque,
Para ela, a palavra era um objeto a ser tateado no escuro. Nunca inventava uma história, para depois 'transcrevê-la'. Não - suas histórias, os 'enredos' de seus contos ou romances brotavam desse mergulho na região onde as palavras, segundo Carlos Drummond de Andrade, se encontram em estado de dicionário, à espera de quem venha desvendar-lhes o segredo (BORELLI, 1981, p. 77).
Seus textos versam sobre a análise psicológica das personagens, possuem raízes latentes em questões sociais - em suas entrelinhas percebemos os efeitos positivos e negativos da civilização na subjetividade do sujeito – e quebram com a narrativa referencial, se concentrando no interior do narrador ou dos personagens, desconstruindo a sequência “começo, meio e fim”
e, por conseguinte, penetra no tempo psicológico. Em vista disso, o forte emprego das figuras de linguagem, a ruptura com a linearidade da narrativa e a presença do intimismo tornam seus escritos profundos e nascem prosas poéticas.
Tanto nas crônicas, quanto nos contos e romances, os vocabulários utilizados são simples, em grande maioria compostos por significantes do cotidiano para falar do próprio cotidiano. Ademais, nos seus escritos, evidencia-se, por meio do fluxo de consciência, discursos introspectivos e metalinguísticos, às vezes com perguntas retóricas inpulsionando o leitor a momentos de reflexão: seus narradores sempre estão a discutir a respeito do ato de escrever, das regras que giram em torno da linguagem literária e sobre a vida psíquica das personagens.
A prosa intimista clariceana deixa a realidade sensível em segundo plano, ao penetrar na psiquê do sujeito e ao realizar análises das impressões psíquicas: as suas histórias se concentram e se desenvolvem por meio de monólogos interiores dos seus personagens, trazendo traços dramáticos para o texto. Entende-se que
Nos romances monocêntricos, o diálogo tem caráter acidental, já que predomina o monólogo. Daí resulta que a conversação é fugidia, padecendo da incomunicabilidade monódica que fecha a consciência dos interlocutores. Estes não se aproximam, e por isso o diálogo é um monólogo a dois e o monólogo é o diálogo da consciência consigo mesma (SÁ, 1979, p. 54).
Pela capacidade de captar o sentido como palavra simbólica, no cultural e no caos (trazendo em si toda a densidade e leveza da linguagem), Clarice resplandece e sobressai na literatura brasileira. A sua maneira de lidar com o literário e o mundo, conforme Gotlib (2012), a aproxima das pessoas que nasceram de Fernando Pessoa, “mediante uma sempre presente
consistência crítica, espectadora do conflito, por vezes trágico, de seres disputando, entre si, o poder das vozes e a primazia na condução do discurso” (p. 183).
A maneira de lidar com a linguagem escrita provoca estranhamento, porque ressalta caraterísticas peculiares do íntimo do sujeito e também não segue restritamente as regras da gramática normativa na composição dos seus textos - a sua pontuação segue passos próprios e
“se tentarmos corrigi-la pela pauta do português corrente, teremos perdido a grande estilista que ela é” (SÁ, 1979, p. 147). Tal característica estilística “[...] é uma das marcas singulares do estilo. Provavelmente, não encontraremos dois escritores que pontuem da mesma forma” (SÁ, 1979, p. 148).
A simplicidade de Clarice, a não busca pela fama e a sua vida de dona-de-casa se tornavam antagônicas à mulher escritora possuidora de palavras penetrantes e cortantes; ao mesmo tempo, percebemos suas ações do cotidiano aproximarem da simplicidade que tanto tentava atingir por meio dos significantes: segundo sua amiga Olga Borelli, “Clarice ‘era uma dona-de-casa que escrevia romances e contos’” (ROSEMBAUM, 2002, p. 10); a mística e tradutora da sensibilidade, “com a máquina de escrever no colo, produzia seus livros com os filhos ao redor, atendendo ao telefone, chamando a empregada e recebendo amigos”
(ROSEMBAUM, 2002, p. 10).
Sua escrita ultrapassa a simplicidade do cotidiano, transcendendo-o e elevando-o ao seu caráter universal, e revela um sujeito inquietante, turbulento, inadaptável, que não se enquadra às expectativas e regras sociais, revelando as infâmias do sujeito e da sociedade, desmascarando-os. Isso acontece também porque, em seus textos, Clarice Lispector direciona o nosso olhar de leitor, convidando-nos “[...] a adentrar, a olhar, ainda que de relance por meio dos seus personagens, para a vida em sua forma mais corriqueira e banal sem, com isso, perder de vista o caráter arrebatador dos acontecimentos simples. A desorientação reordena”
(BEZERRA, 2017, p. 1512).
Borelli ressalta que Clarice “só trabalhava com o inesperado, o que podia acontecer até mesmo quando estava no cinema. Escrevinhava então, nas costas de um talão de cheques, em lenços de papel ou em envelopes vazios, frases ou textos inteiros” (BORELLI, 1981, p. 82).
Assim, percebe-se a existência de uma linguagem lúdica, como ressalta Benedito Nunes: “entre existir e falar se arma um conflito insolúvel: a linguagem cria, em cima da existência, uma casca feita de aparência, um ser da expressão que jamais coincide com o ser real” (SÁ, 1979, p. 52).
As lacunas e pausas, presentes nos seus escritos, refletiam os seus suspiros e os silêncios advindos de uma vida angustiante. Na busca pela palavra, aquela que, aparentemente, seja capaz de nomear determinada sensação, “as lacunas do discurso acabam também sendo expressivas,
pois constituem respiros da palavra em que pulsa a inquietação silenciada” (ROSEMBAUM, 2002, p. 29).
Experimentando a linguagem em toda a sua potência de representação, ou de tentativa de representação, Lispector denuncia o homem por meio da descrição do seu interior:
mergulhando no psiquismo dos seus personagens, sua escrita escancara os sentimentos ambivalentes constituintes do sujeito. Conforme Rosembaum (2002), no tocante ao engajamento social, o estilo clariceano se contrapõe às fórmulas utilizadas pelos modernistas, adentrando na subjetividade e tornando universal o que, até então, era regional e permanecia latente.
Em Clarice Lispector: uma poética do olhar (2001), Regina Pontieri ressalta a maneira peculiar que Clarice problematiza o sujeito e a sua inserção na civilização:
Clarice tematiza em sua Obra muitas das formas que o outro – como inferior e excluído – tem tomado em nossa cultura. A mulher, o animal, o pobre, o louco, o primitivo, o intuitivo. Pequena-Flor, a anã africana: mulher, negra, europeia, não-civilizada, vivendo próxima da animalidade. A louca Laura: não-inteligente, retornando de e voltando para a experiência de mergulho na alteridade do inconsciente. A outra Laura, a galinha de A vida íntima de Laura que, no plano da animalidade, retoma de sua xará mulher a marca da estupidez de tantas outras fêmeas clariceanas. E, no fim do percurso, Macabéa – a nordestina pobre: branca, não-inteligente, não detentora de linguagem (PONTIERI, 2001, p. 28, grifo da autora).
Com uma escrita centrada na realidade e problemas psicológicos das suas personagens, ressaltando a existência de um cotidiano repleto de discursos alienantes, Clarice se distancia do
“comodismo literário”, expandindo o caráter estético da linguagem literária e, ao mesmo tempo, encontrando na escrita a palavra capaz de se abeirar à coisa - aquele signo linguístico detentor de uma magia (in)consciente e que tenta nomear as experiências sensoriais (HOMEM, 2011).
Ler Clarice Lispector, portanto, é penetrar numa experiência indecifrável, é vagar entre o “limite” das coisas, das palavras e do mundo, por isso, seus textos provocam fascínio principalmente aos pesquisadores. Aclamada e rejeitada, considerada mística, bruxa e porta voz do mundo sensível e inteligível, “a mulher e escritora Clarice Lispector resiste a todas as tentativas de enquadramentos, classificações ou definições” (ROSEMBAUM, 2002, p. 09).