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MACABÉA, UMA ESTRANHA

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE (páginas 127-130)

1. A HORA DA ESTRELA, LIVRO E FILME

3.1 A HORA DE MACABÉA E A PROBLEMÁTICA DO SUJEITO PSICANALÍTICO 94

3.1.2.1 MACABÉA, UMA ESTRANHA

Por meio dos diálogos e caracterização da personagem, analisamos que Macabéa se configura como uma estranha no ambiente onde se encontra inserida, ou seja, a personagem possui peculiaridades que se tornam motivos para exclusão social, preconceitos, falta de oportunidades de ascensão social: Macabéa é vista, por alguns, como feia, desajeitada e enferrujada, tanto que os espelhos se quer refletem seu corpo, mas tais características nascem porque a personagem não se encaixa em padrões pré-estabelecidos socialmente – a cultura capitalista. A protagonista, sendo uma mulher vinda da região nordeste, nas duas narrativas, é considerada uma estranha perante os olhos daqueles que ocupam lugares de poder.

Como o sertão nordestino, por volta das décadas de 1960 e 1970 era abraçado fortemente pela seca, e o acesso à educação formal era limitada apenas a privilegiados socialmente, assim, uma das alternativas promissoras destinadas aos subalternos consistia em migrar para as capitais do sudeste brasileiro. No entanto, a capital é uma cidade que não lhe abraça, ao passo que as ideologias dominantes buscam supervalorizar a burguesia e a segregar as minorias. Por este motivo, a jovem nordestina ocupa um ambiente marginal que, nos dias de hoje,

“denominaríamos o dos ‘excluídos’, de uma miserabilidade movida a ‘cachorro quente’, pensão suja e barata e sonhos de comer os deliciosos cosméticos dos anúncios, tão ‘capitalistamente’

colecionados, em seu consumo de ‘cultura de sucata’” (HOMEM, 2012, p. 130). A personagem é esmagada pela alta burguesia: alienada, “a estrela explicita o silêncio também social que cala sua boca e esmaga seu corpo” (HOMEM, 2012, p. 130).

O livro e o filme A Hora da Estrela nasceram mergulhados no mundo capitalista, um momento civilizatório onde tudo, principalmente os diferentes modos de vida e de conceber o mundo, está se deslocando, porém, “[...] os movimentos parecem aleatórios, dispersos e destituídos de direção bem delineada (primeiramente, e antes de tudo, uma direção cumulativa)”

(BAUMAN, 1998, p. 121). Tais movimentos propiciam o surgimento de diversas unidades de guerrilha com ações e objetivos “destituídos de finalidade global” (BAUMAN, 1998, p. 122), sendo a individualidade, liquidez e egocentrismo predominante e, por conta disso, “ninguém prepara o caminho para os outros, ninguém espera que os outros venham em seguida”

(BAUMAN, 1998, p. 122). Isso acontece porque o necessário é ocupar o “meu” espaço, adquirir sucesso profissional e pessoal, mesmo que seja necessário a criação e demarcação de diferenças – excludentes.

Um dos projetos da humanidade é desprender-se do passado e inovar, assim, busca-se a construção de uma identidade livre em detrimento de uma identidade herdada. No entanto, aqueles que não se encaixam em moldes, principalmente ditados pela civilização capitalista, é considerado estranho e, portanto, banido (colocado à margem na sociedade e até considerados inimigos – como vemos os constantes ataques aos militantes ativistas, aos LGBTs e aos índios) – estratégia antropêmica - ou devorado pelo sistema no intuito da diferença se metamorfosear na semelhança imposta – estratégia antropofágica.

O projeto moderno prometia libertar o indivíduo da identidade herdada. Não tomou, porém, uma firme posição contra a identidade como tal, contra se ter uma identidade, mesmo uma sólida, exuberante e imutável identidade. Só transformou a identidade que era questão de atribuição em realização – fazendo dela, assim, uma tarefa individual e da responsabilidade do indivíduo (BAUMAN, 1998, p. 30).

As sociedades produzem, por meio dos seus discursos de poder, estranhos e os produzem com suas particularidades. Estes estranhos dizem respeito àqueles que “[...] não se encaixam no mapa cognitivo, moral ou estético do mundo” (BAUMAN, 1998, p. 27) ou em todas estas categorias. A presença dessas pessoas que são colocadas à margem da sociedade e dos discursos de poder provam gotas de incertezas que, por sua vez, suscitam o nascimento do mal-estar por se sentir perdido. Ao mesmo tempo, essa mesma sociedade, por meio dos seus discursos, propagam a ideia da meritocracia, demonstrando o sujeito como o responsável pelo seu sucesso e/ou fracasso.

Nota-se a desordem em toda a conjuntura social, principalmente nos âmbitos governamentais, onde discursos de ódio e de preconceito são aplaudidos, gerando falta de coerência se compararmos com a ideia (utópica?) de uma sociedade mais igualitária pautada

em direitos sociais. Em meio à desordem e livre arbítrio, mergulhados em incertezas, em diferentes oportunidades de direção, acontece a cegueira moral e, por sua vez, nada mais é sólido.

De acordo com Dunker (2018), a realidade sensível a qual estamos inseridos, ilusoriamente, parece ser uma totalidade coerente, bem organizada; no entanto, de perto, possui uma estrutura trágica: violência, desigualdade social, preconceitos, como vemos no livro e filme A Hora da Estrela.

No livro, Rodrigo S.M. conta grande parte das suas aventuras da jovem alagoana na cidade grande, transformando-a em uma grande metáfora, dando a oportunidade de tornar plural e visível a vida dos migrantes que são visibilizados pelos discursos dominantes: “ninguém olhava para ela na rua, ela era café frio” (LISPECTOR, 1998, p. 27), “[...] é tão tola que às vezes sorri para os outros na rua. Ninguém lhe responde ao sorriso porque nem ao menos a olham” (LISPECTOR, 1998, p. 15). Destarte, “nunca pensara em ‘eu sou eu’. Acho que julgava não ter direito, ela era um acaso. Um feto jogado na lata de lixo embrulhado em um jornal”

(LISPECTOR, 1998, p. 36).

Macabéa, por meio do discurso do Outro (Olímpico), no momento do término do seu namoro, no livro e filme, se torna um “cabelo na sopa”, um objeto causador de repulsa e nojo, ao ser um estranho no lugar onde se encontra e, por isso, é preciso manter distância. Conforme Lacan (1953/1998), por meio da fala, o enunciador investe o destinatário do seu enunciado, o tu, em uma nova realidade, influenciando no desenvolvimento da sua subjetividade; nisso reside a capacidade do significante em criar e determinar a realidade subjetiva do sujeito e, por consequência, interfere nas suas ações exteriores. Assim sendo, o valor da fala não consiste propriamente na informação objetiva e manifesta, mas na reverberação, ressalta Lacan, dos discursos daquele que enuncia.

Em meio às incertezas, os estranhos já não são mais definidos, separados e domesticados unicamente pelo estado, agora permanecem em espaços e posições instáveis. Posto isso, as diferenças precisam ser construídas e reconstruídas constantemente, “nos dois lados ao mesmo tempo, nenhum dos lados se gabando de maior durabilidade, ou exatamente da ‘gratuidade’, do que o outro. Os estranhos de hoje são subprodutos, mas também os meios de produção incessante, porque jamais conclusivo, processo de construção da identidade” (BAUMAN, 1998, p. 37). Os estranhos, como Macabéa, Olímpico, Glória, as Marias, a cartomante Carlota

“[...] são fornecedores de prazeres. Sua presença é uma interrupção do tédio. Deve-se agradecer a Deus que eles estejam aqui” (BAUMAN, 1998, p. 41).

Aprisionada na sua condição de ser, no livro e filme, Macabéa é um efeito do significante e vaga pelo campo do simbólico a qual não tem afinidade, é uma ficção metafórica, alegórica, dramática. Macabéa é o resto; sua história é marcada pelas poucas palavras proferidas, por poucas oportunidades de ocupar o lugar de enunciadora nos atos de fala.

Apropria-se da vida ao ser sobrinha, datilógrafa, namorada de Olímpico de Jesus, colega de Glória e é reflexo sintomático quando escrita por Rodrigo S.M..

No documento UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE (páginas 127-130)