4 AS LEMBRANÇAS: ATO DE REMEMORAR EXPERIÊNCIAS MUSICAIS
7.1 Formas de aprender música
7.1.1 Escutar para aprender
A partir das lembranças das idosas, pode-se identificar que ouvem música em casa, com a família, amigos, vizinhos. Esse ouvir música para aprender é um
procedimento bastante utilizado nos vários espaços onde as experiências musicais são vividas.
D. Lara (Entrevista, dia 17/03/2010) conta sua experiência com o escutar para aprender a cantar. Seus irmãos eram músicos, se apresentavam profissionalmente e ela os ajudava com a escolha do repertório. Ela ouvia as músicas que eram tocadas no rádio: “escutava uma vez as músicas de carnaval e já sabia tudo, tudo, tudo” (p. 20). E, então, tinha “a obrigação de escutar e passar para o papel” para depois seus irmãos terem essas músicas na época do carnaval.
Ela escutava essas músicas quando passava roupa com o rádio ligado e “quando aparecia uma novidade do carnaval, pegava o nome da música. O que podia pegar, pegava assim... pra eles já irem sabendo, pois não tinha gravadora pra poder gravar aquilo” (p. 22). D. Lara conta ainda que teve uma semana em que havia machucado o pé e não podia caminhar, e, então, pegou muitas músicas de carnaval para seus irmãos: quase fez “quatro folhas de caderno”. Como a programação do rádio era muito rápida, para dar conta de copiar todas as músicas, enquanto escrevia, tinha de “emendar uma coisa na outra. Só esperava terminar pra tentar cantar e depois escrever o que lembrava da melodia” (p. 21). Mas, então, seus irmãos também faziam o seguinte: “eles tinham seus correspondentes que sempre mandavam pra eles as músicas, eram as rádios mesmo” (Lara, entrevista, dia 17/03/2010, p. 21-22).
O ato de ouvir e repetir eram um procedimento utilizado para se aprender músicas presentes nos vários espaços: na família, na escola, na igreja. D. Anita (Entrevista, dia 02/08/2010) se recorda de como ela aprendia „musiquinhas‟ na escola: “As professoras cantavam e a gente repetia até aprender a cantar junto com ela e não tinha som, viu!? Era só de voz mesmo, era só de voz” (p. 16).
Nas atividades e ensaios do coral realizados na igreja, o ouvir e o repetir para aprender também estava presente. D. Rosalina (Entrevista, dia 28/06/2010) explica que as coordenadoras tocavam, cantavam e passavam a letra e depois “cantavam para que pudéssemos aprender a música” (p. 11). Conta ainda que, às vezes, os participantes do coral “nem articulavam bem a palavra, mas dentro do possível procuravam aprender” (p. 11). Depois que passavam a música para os participantes, as coordenadoras “procuravam os defeitos escutando o que estavam falando” (p. 11).
D. Eleonora (Entrevista, dia 22/07/2010), em uma de suas lembranças, também exemplifica um momento em que estava presente esse procedimento de aprender música, o ouvir e repetir para depois cantar. Fala de uma prática da igreja católica: a reza de terços nas festas de Santos Reis. Conta que o terço que ela aprendeu era cantado, e diz que “aprendeu ouvindo no catecismo”. Explica que “primeiro via os outros cantar, depois fazia [cantava]”. E ainda diz que “quando estava com vontade de aprender vira e mexe estava cantando... Pra aprender, né!?” (p. 23).
Participando de corais D. Lara (Entrevista, dia 17/03/2010) conta que conseguiu “o objetivo de aprender a cantar e conhecer a língua alemã, que era tradicional no Rio Grande do Sul” através do coral da igreja que frequentava (p. 2).
D. Ana Lima (Entrevista, dia 23/07/2010) diz que sabe muitas músicas e que não entende como aprendeu algumas. Diz que nem um rádio ela tinha em casa. Por isso, diz que: “Tem muitas coisas que eu nem sei como que eu aprendi. Não lembro nem como eu aprendi?! [risos]” (D. Ana Lima, entrevista dia 23/07/2010, p. 3). Acha que algumas músicas ela pode ter aprendido escutando rádio quando ia para a casa da vizinha e, então, ela descreve essa situação: “Chegava lá [na casa da vizinha] e, ficava um pouquinho conversando com ela e escutando [rádio] [...] mas, tem umas músicas que assim... eu não lembro mais onde eu aprendi. Talvez essas músicas eu devo ter aprendido lá [na casa da vizinha] (p. 7). Dona Ana Lima disse ainda que
naquele tempo a gente tinha a cabeça boa né, e as coisas daquele tempo ficam mais gravadas na cabeça da gente do que as coisas que agora aconteceu, né!? Recente... parece. Porque a maioria das músicas que eu aprendi naquela época eu sei ainda até hoje, às vezes uma que passou a pouco tempo a gente às vezes esquece, né!? (D. Ana Lima, entrevista dia 23/07/2010, p. 10).
Essa experiência de ouvir música na casa da vizinha foi significativa para D. Ana Lima. Ela não compreende como aprendeu, mas aquelas experiências com a música que ficaram na lembrança, as músicas que aprendeu, ela sabe até hoje. Muitas vezes, as pessoas têm aprendizagens espontâneas e não tomam consciência de que houve aprendizado, apenas quando se lembram e refletem sobre o fato acontecido é que podem tomar consciência de que a experiência vivida foi significativa para o aprendizado de música.
Esses hábitos e práticas musicais “quando focalizados, mais de perto, revelam, por meio dos relatos dos entrevistados, maneiras diretas, e algumas vezes „difusa‟ ou silenciosa‟ de aprender música” (GOMES, 2009, p. 129).
D. Nádia (Entrevista, dia 19/03/2010) se lembra que, quando criança, não cantava com seu irmão, mas com um rapaz que conheceu nas festas da igreja. Mas com esse rapaz era diferente, pois eles não ensaiavam. Então, pergunto como eles faziam:
J – Como que vocês combinavam assim... para cantar?
N – Ah... Ele gostava de tocar as músicas da Celi, e eu também gostava de cantar, né!? Então, aí já ia. Saía espontâneo.
J – Mas vocês se olhavam, tinha alguma coisa assim pra... [pausa] D. Nádia – Ahh! Acho que sim, né!? Na hora... hahahaha... na hora que eu, que ele começava tocar e olhava né, aí começava a cantar (D. Nádia, entrevista dia 19/03/2010, p. 11).
Em um determinado momento da entrevista, D. Anita (Entrevista, dia 02/08/2010) me mostrou algumas gravações feitas por ela de Folia de Reis, pois queria mostrar a diferença que tem de uma folia pra outra. Ela anda com um gravador de voz. Ela leva o gravador para alguns lugares “pra gravar coisas. De curiosidade!” (p. 27). Conta que quando vai pra Romaria-MG, e um grupo de Folia de Reis que ela gosta sobe ao palanque, os integrantes do grupo a chamam pra cantar junto com eles. Ela se sente “meio atrevida, por gostar muito de cantar” (p. 27). Como não é integrante do grupo, pergunto, então, como ela sabe quais músicas eles vão cantar, e ela responde:
porque eu já conheço. Pela batida eu conheço. Então, é o seguinte: tem o primeiro e o segundo chefe. O primeiro faz o primeiro verso aí depois entra a turma do segundo chefe dando a resposta. Então, é muito fácil da gente aprender, sem escrita, sem nada. Depende de prestar atenção. Então, pelo que o primeiro falou eu sei o quê que a segunda vai responder. Aí eu entro na turma do segundo, aí canto junto com eles (D. Anita, entrevista dia 02/08/2010, p. 28).
Vê-se que são várias as formas com que elas vivenciaram e aprenderam música, mas a repetição é um recurso intensamente utilizado, o escutar e depois reproduzir, seja cantando sozinha, ou em grupo. É importante colocar que o jeito que essas idosas escutavam música também pode ter contribuído para essa valorização delas ao ato de escutar música. A escuta era menos móvel, os aparelhos eram
maiores em tamanho e de difícil locomoção, fazendo com que, geralmente, as pessoas tivessem de parar para poder escutar. Outro ponto a ser destacado é que, para aprender a letra, geralmente, essas idosas tinham de esperar a música tocar no rádio, esperar para que, quando a música tocasse, tentassem escrever o que conseguiam da letra. Se não conseguissem escrever toda a música, tinham de esperar, mais uma vez, o momento que a música fosse tocada novamente. Nessa espera para ouvir a música, a escuta é atenciosa, focada na letra e na melodia da música.