2.2 O que é experiência?
2.2.3 O conceito de experiência em E P.Thompson
Um autor considerado importante para se pensar o conceito de experiência nesse trabalho é E. P. Thompson (1924-1993). Historiador inglês, cuja obra desejava “estabelecer uma interação mais flexível entre aprendizes e mestres, subvertendo assim as metodologias desenvolvidas nas escolas convencionais”
26 No original: A especial virtue of music is to convey feelings - feelings that we often cannot identify or
(SANTANA, 2010, p. 1). Thompson acreditava “no potencial do aluno como o principal meio de aprendizado, assim, destacava o talento e a vivência de cada um como elementos essenciais na elaboração de uma didática melhor” (SANTANA, 2010, p. 1).
O conceito de experiência em Thompson (1981) surge de alguns de seus questionamentos e de suas reflexões sobre como os filósofos argumentam sobre um determinado tema. Ele expõe que “nos velhos tempos quando o filósofo, trabalhando à luz da lâmpada em seu estúdio chegava à sua argumentação, pousava a pena e olhava em volta, à procura de um objeto do mundo real para interrogar” (p. 14). O objeto que, geralmente, estava mais à mão, era a mesa em que estava escrevendo. Segundo Thompson (1981), o filósofo começava um diálogo com essa mesa fazendo perguntas: “Mesa [diz o filósofo] como posso saber que existes e, se existes como sei que meu conceito, mesa, representa a tua existência real?” (p. 15). Thompson (1981) explica que era “uma conversa difícil e, dependendo de quem saísse vitorioso do confronto [mesa x filósofo] seria classificado como idealista ou materialista” (p. 14). Completa dizendo que outros filósofos, em vez de questionar a matéria, “interrogam palavras: um artefato linguístico que já encontra pronto, com uma gênese social imprecisa e com uma história” (THOMPSON, 1981, p. 15).
Retomando o exemplo que Thompson (1981) dá acerca de uma discussão entre filósofo e mesa, de acordo com Martins (2006) “o fato de o objeto real ser epistemologicamente inerte não impede que seja uma parte determinante na relação sujeito-objeto” (p. 120). Thompson (1981) exemplifica novamente, utilizando o exemplo da mesa:
Não se conhece nenhum pedaço de madeira que se tivesse jamais transformado a si mesmo numa mesa; nem se conhece qualquer marceneiro que tenha feito uma mesa de ar ou de serragem. O marceneiro se apropria da madeira e, ao transformá-la numa mesa, é governado tanto pela sua habilidade (prática teórica, nascida de uma
história, ou “experiência”, de fazer mesas, bem como uma história da evolução das ferramentas adequadas) como pelas qualidades (tamanho, grão, amadurecimento) da própria prancha. A madeira impõe suas propriedades e sua “lógica” ao marceneiro, tal como este impõe suas ferramentas, suas habilidades e sua concepção ideal de mesas à madeira (THOMPSON, 1981, p. 26).
Ao contrário dos filósofos que buscam seu objeto de investigação na matéria ou em “palavras inertes”, Thompson (1981) o busca dentro do ser social. Para ele,
não basta questionar o objeto e este ser inerte. O objeto deve propor inquietações, curiosidades e isso só acontece quando essas múltiplas evidências, cuja inter- relação está no objeto de investigação. Acredita que mesmo se “isolar a evidência singular para um exame à parte, ela não permanece submissa, como a mesa no interrogatório: agita-se nesse meio tempo, ante nossos olhos” (THOMPSON, 1981, p. 15). Essa agitação, esses acontecimentos, se estão dentro do “„ser social‟, com frequência, parece chocar-se, lançar-se sobre, romper-se contra a consciência social existente” (THOMPSON, 1981, p.15).
Então, diante desse objeto de investigação que se encontra dentro do “ser social”, Thompson (1981) propõe a ideia de experiência
uma categoria que por mais imperfeita que seja, é indispensável ao historiador, já que compreende a resposta mental e emocional, seja de um indivíduo ou de um grupo social, a muitos acontecimentos inter-relacionados ou a muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento (THOMPSON, 1981, p.15).
A noção de experiência em Thompson (1981) “implica, necessariamente, o reconhecimento dos sujeitos como reflexivos que, em suas ações, repõem continuamente o movimento da sua história” (FARIA FILHO; BERTUCCI, 2009, p. 13). Para Thompson (1981)
os homens e as mulheres retornam como sujeitos, dentro deste termo [experiência] – não como sujeitos autônomos, „indivíduos livres‟, mas como pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos, e em seguida „tratam‟essa experiência em sua
consciência e sua cultura [...] das mais complexas maneiras (sim,
„relativamente autônomas‟) e em seguida agem, por sua vez, sobre sua situação determinada (THOMPSON, 1981, p.182) (Grifos no original).
Para esclarecer seu conceito de experiência, Thompson (1981) faz uma distinção entre experiência vivida e experiência percebida. De acordo com Martins (2006), “a experiência percebida seria a consciência social”. Já a experiência vivida seria aquela “resultante das experiências vivenciadas na realidade concreta e que se chocam com a experiência percebida” (p. 118). Segundo Martins (2006), “a vivência da experiência pode levar a rever práticas, valores e normas e, ao mesmo tempo,
pode ajudar a constituir identidades de classe, de gênero, de geração, de etnias” (p. 118). Isso porque, para Thompson (1981)
a experiência surge espontaneamente no ser social, mas não surge sem pensamento. Surge porque homens e mulheres (e não apenas filósofos) são racionais, e refletem sobre o que acontece a eles e ao seu mundo [...]. O que queremos dizer é que ocorrem mudanças no ser social que dão origem à experiência modificada; e essa experiência é determinante, no sentido de que exerce pressões sobre a consciência social existente, propõe novas questões e proporciona grande parte do material sobre o qual se desenvolvem os exercícios intelectuais mais elaborados [...]. Assim como o ser é pensado, também o pensamento é vivido (THOMPSON, 1981, p. 17) (Grifos no original).
Então, para Thompson (1984) “a experiência é exatamente o que constitui a articulação entre o cultural e o não cultural, uma metade dentro do ser social, a outra metade dentro da consciência social” (THOMPSON, 1984, p. 314)27. Thompson
(1981) introduz a categoria experiência e a articula com a cultura. Ao entender “a cultura como componente não passivo de análise histórico-social reconhece-se que a experiência vivida, além de pensada é também sentida pelos sujeitos” (MARTINS, 2006, p. 117). Para ele, “as pessoas não experimentam sua própria experiência apenas como ideias, no âmbito do pensamento e de seus procedimentos” (MARTINS, 2006, p. 117). Elas “experimentam sua experiência como sentimento e lidam com esses sentimentos na cultura, como normas, obrigações familiares e de parentesco, e reciprocidade, como valores ou (através de formas mais elaboradas) na arte ou nas convicções religiosas” (THOMPSON, 1981, p.189).
De acordo com Faria Filho e Bertucci (2009) “o estudo da experiência permite relacionar estrutura e processo na história” (p. 14) e, em seu estudo, Thompson (1981) foi levado a
reexaminar todos esses sistemas densos, complexos e elaborados pelos quais a vida familiar e social é estruturada e a consciência social encontra realização e expressão [...]: parentesco, costumes, regras visíveis e invisíveis da regulação social, hegemonia e deferência, formas simbólicas de dominação e de resistência, fé religiosa e impulsos milenaristas, maneiras, leis, instituições e ideologias – tudo o que, em sua totalidade, compreende a „genética‟ de todo o processo histórico, sistemas que se reúnem todos, num
27No original: “la experiencia es exatamente lo que constituye el empalme entre cultura y no cultura,
certo ponto, na experiência humana comum, que exerce ela própria (como experiência de classe peculiares) sua pressão sobre o conjunto (THOMPSON, 1981, p.189).
Para Martins (2006), analisar os fenômenos culturais e sociais “por meio das evidências, significa investigar suas particularidades e, ao mesmo tempo, perceber como se expressam em condições materiais constituídas historicamente” (p. 118). Dessa forma, segundo a autora, “os próprios valores de uma sociedade são percebidos fazendo parte desse nexo relacional e principalmente como resultado das experiências humanas” (MARTINS, 2006, p. 118). Além disso,
os valores não são “pensados”, nem “chamados”; são vividos, e surgem dentro do mesmo vínculo com a vida material e as relações materiais em que surgem nossas ideias. São as normas, regras, expectativas etc. necessárias e aprendidas (e “aprendidas” no sentimento) no “habitus” de viver; e aprendidas, em primeiro lugar, na família, no trabalho e na comunidade imediata. Sem esse aprendizado a vida social não poderia ser mantida e toda produção cessaria (THOMPSON, 1981, p. 194).
Ainda, segundo Martins (2006), Thompson propõe a utilização da categoria experiência para a análise da realidade histórico-social. Para Thompson (1981), por meio dessa categoria,
pode-se perceber o diálogo entre ser social e consciência social. Através da experiência existe a possibilidade de perceber um determinado objeto a ser estudado em seu movimento e não como algo inerte, passivo, esperando para ser desbravado por alguma teoria. Da mesma forma, as categorias são revistas, reformuladas quando se colocam em diálogo com as evidências. A categoria experiência permite ainda, perceber o entrelaçamento de fatores econômicos, sociais e culturais, desviando-se, portanto, de uma análise determinista e mecânica (THOMPSON, 1981, p. 42).