• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO II – Esfera Privada e Política Deliberativa

III. Esfera privada e a formação pública da vontade

Como já dito, em face do modelo de circulação do poder político elaborado por Bernhard Peters, importa para Habermas perguntar pelas condições de possibilidade para que a periferia consiga inverter o fluxo oficial do poder e exercer influência sobre o núcleo do sistema político; vale dizer, importa perguntar pelas estruturas sociais capazes de permitir uma formação política da vontade que parta da periferia em direção ao centro. Segundo o autor, essa pergunta nos leva a considerar o funcionamento de esferas públicas e privadas enraizadas no mundo da vida – e nessa nova perspectiva, orientada à análise das esferas sociais que constituem o palco para a gênese informal da vontade política, o funcionamento das esferas pública e privada seria marcado por uma relação

279 FG, p. 382 (DDem, v. II, p. 41).

280 Neste ponto, é também evitada a diferenciação anterior entre direito como “meio” e como “instituição”. Como veremos no próximo capítulo, suas críticas ao Estado social passam a ser direcionadas essencialmente ao caráter “paternalista” das regulações jurídico-estatais, e não à sua “intervenção” em esferas sociais delimitadas previamente.

complementar. A tese da “complementaridade”, pois, defende a relação necessária entre autonomia pública e privada não mais nos termos de sua pressuposição normativo- conceitual (tal como na apresentação anterior da “cooriginaridade”), mas assume que as esferas sociais de interação protegidas pelos direitos que representam essas duas formas de autonomia possibilitam-se reciprocamente; em outras palavras, que a constituição de cada uma dessas esferas sociais depende de contribuições provenientes da outra. Cabe aqui ser investigado o papel cumprido por cada uma delas na gênese informal da vontade política.

“Os núcleos privados do mundo da vida, caracterizados pela intimidade, isto é, protegidos da publicidade, estruturam encontros entre parentes, amigos, conhecidos, etc., entrelaçando histórias de vida nesse âmbito de interações simples. A esfera pública se relaciona de maneira complementar com essa esfera privada, da qual se compõe o público como suporte da esfera pública ”281

Habermas escreve no trecho citado que a esfera privada compõe o público (“Publikum”) que serve de suporte à esfera pública (“Öffentlichkeit”). E ao caracterizar esse público, Habermas assume uma distinção utilizada por Jürgen Gerhards e Friedhelm Neidhardt entre “arena” e “galeria”, vale dizer, entre “atores” da esfera pública e seu “público de espectadores”. O público de espectadores, isto é, o público como “galeria”, é formado pelos destinatários das contribuições lançadas na esfera pública. Em seus papéis de simples leitores, eleitores ou consumidores de bens culturais, o público de espectadores assume uma função “reativa” em relação aos temas, posições e argumentos levados ao debate público; vale dizer, ele se coloca na posição de avaliar os termos de uma esfera pública já constituída. Esse papel reativo, entretanto, não furta os destinatários das informações veiculadas na esfera pública de exercer influência sobre ela: usando as palavras de Gerhards e Neidhardt, Habermas escreve que “o sucesso dos atores da arena é decidido, em última instância, nas galerias”.282 Com efeito, a esfera

281 FG, p. 429 (DDem, v. II, p. 86). Essa relação de complementaridade entre público e privado é reafirmada em diversas outras passagens da obra, nas quais a esfera pública é caracterizada como uma “esfera de pessoas privadas reunidas em público” ou como um “complexo comunicacional composto de pessoas privadas recrutadas da sociedade civil”.

282 FG, p. 453 (DDem, v. II, p. 108). Cf. GERHARDS, J., NEIDHARDT, F. Strukturen und Funhtionen

pública comportaria uma disputa pela “prioridade” e “permanência” de determinados temas e opiniões, sendo que em tais processos constantes de reprodução da agenda, aqueles que assumem o papel circunstancial de ator têm de conquistar a atenção e o convencimento de uma parcela significativa do público de destinatários.283 Dessa forma, Gerhards e Neidhardt defendem que a “força” ou “influência” de temas e posições firmadas no debate democrático relaciona-se a sua capacidade de convencer o público de destinatários. As reações dos destinatários à pluralidade de estímulos que compõem a esfera pública, expressadas nas decisões sobre o que lêem e escutam, sobre os comícios e debates nos quais se fazem presentes ou sobre os programas políticos que endossam por meio de seus votos, constituiriam grandezas numéricas levadas em consideração pelos atores e instituições da arena, sendo capazes de exercer, em meio a outras variáveis, um “controle indireto” dos fluxos da agenda.284 Assim, em suas decisões em princípio passivas, o público de destinatários participaria também da decisão sobre o que entra e o que sai do debate público. Habermas endossa os termos gerais dessa tese ao escrever: “Os papéis de ator, que se multiplicam e se profissionalizam cada vez mais através da complexidade organizacional e do alcance da mídia, têm diferentes chances de influência. Porém, a influência política que os atores obtêm sobre a comunicação pública tem de se apoiar, em última instância, na ressonância, ou mais precisamente, no assentimento de um público de leigos que possui os mesmos direitos. O público dos sujeitos privados tem que ser convencido através de contribuições compreenssíveis e interessantes sobre temas que eles sentem como relevantes. O público possui esta autoridade, uma vez que é constitutivo para a estrutura interna da esfera pública, na qual os atores podem aparecer.”285

Tanto para Gerhads e Neidhardt, quanto para Habermas, o funcionamento da esfera pública encontra-se estruturalmente vinculada ao convencimento do público que lhe serve de suporte. E, para todos eles, a reação da galeria apenas pode ser considerada uma grandeza representativa do convencimento dos destinatários caso estes estejam suficientemente protegidos em seus âmbitos de privacidade. Tais concordâncias de fundo, entretanto, escondem diferenças significativas entre os modelos explicativos

283 GERHARDS, J., NEIDHARDT, F., op. cit., pp. 49, 58, 76. 284 GERHARDS, J., NEIDHARDT, F., op. cit., pp. 62 e ss. 285 FG, p. 440 (DDem, v. II, p. 96).

apresentados por esses autores. No texto de Gerhards e Neidhardt aqui comentado, os processos comunicativos de convencimento relevantes à formação política da vontade se desenrolam exclusivamente no âmbito da esfera pública. E entre os três diferentes âmbitos da esfera pública apresentados, o chamado “sistema de interação simples” é aquele mais diretamente ligado aos diálogos da galeria. Eles constituem âmbitos de comunicação não mediados pelas “organizações públicas” (partidos políticos, movimentos sociais, associações civis, etc.) ou pelos “meios de comunicação de massa”. Trata-se de “encontros casuais, episódicos e de baixa capacidade organizacional” travados diretamente entre os destinatários da esfera pública. Embora tais âmbitos de comunicação sejam caracterizados como “semi-públicos” – já que suas contribuições são trocadas entre um número reduzido de participantes diretos, ainda que não possuam restrições formais ao público em geral – eles assumiriam a função de “base” para o funcionamento da esfera pública: em suas inúmeras ocorrências cotidianas, os destinatários têm a chance de reduzir as limitações de acesso individual aos temas e opiniões apresentados, ampliando significativamente o leque de informações e argumentos relevantes ao convencimento pessoal. Em esferas públicas complexas, nas quais os atores são selecionados segundo um alto grau de especialização temática, profissional e organizatória, os sistemas de interação simples representam âmbitos comunicativos nos quais os destinatários podem abandonar a reflexão solitária e se enredar em debates acerca dos temas que habitam a esfera pública política.

A privacidade não é apontada aqui entre os âmbitos da “infra-estrutura social” nos quais se desenrolam processos comunicativos relevantes à formação política da vontade, mas aparece no texto estritamente como um limite à esfera pública: “A esfera pública não é mantida de maneira inteiramente ilimitada. As limitações são erguidas em primeira medida com os âmbitos do privado. O direito define essa fronteira com a garantia de um grande número de proteções à personalidade e à residência (Scholler: 1968), ainda que os atores com freqüência as violem com o fim de atrair a atenção.”286 Entretanto, ao estabelecer seus limites, a privacidade assumiria um papel fundamental na manutenção da autonomia funcional da esfera pública. Ela constituiria “garantias de incolumidade” das decisões individuais, sem as quais a esfera pública perderia seu

sentido próprio, encontrado na promoção de uma “concorrência entre temas e posições”. Sem a proteção da escolha individual acerca das posições e programas defendidos politicamente, a esfera pública política assumiria a função de mero instrumento para a justificação das decisões tomadas por um sistema político estanque, das quais os cidadãos têm de ser “convencidos” sem lhes caber “opção de escolha”. Dessa maneira, a esfera privada protegeria a “reação” do público de destinatários não por meio da estruturação de condições comunicativas relevantes à formação política da vontade, mas por meio de garantias à incolumidade de suas decisões últimas, resguardando, contra a publicidade, as preferências individuais relativas ao material produzido publicamente: “As preferências de voto formam-se no âmbito da esfera pública. O ato do voto, em si mesmo, é um ato individual e não público.”

Entre as sensíveis diferenças encontradas face ao modelo explicativo de formação política da vontade elaborado por Gerhards e Neidhardt, cabe aqui ressaltarmos aquelas que se referem mais especificamente ao papel atribuído à esfera privada. Para Habermas, a esfera privada é vista ela mesma como um âmbito possível de comunicação. Tal como a esfera pública, ela também se mostra como uma esfera social que comporta processos comunicativos de entendimento. O que a modifica, como vimos, é seu acesso, resguardado por direitos subjetivos que garantem a “intimidade” num sentido que não se confunde com um total solipsismo, mas que protegem a decisão de quando e com quem se comunicar. Dessa forma, eles estruturam interações entre falantes que compartilham espontaneamente os mesmos núcleos privados do mundo da vida. Como já destacado anteriormente, “os núcleos privados do mundo da vida (...) estruturam encontros entre parentes, amigos, conhecidos, etc., entrelaçando histórias de vida nesse âmbito de interações simples”. Neste ponto, cabe ressaltar que nessa compreensão discursiva da privacidade, parte dos processos comunicativos denominados como “interações simples” – os quais, segundo Gerhards e Neidhart, acomodariam a “comunicação política” dos destinatários – passam a se dar não propriamente na esfera pública, mas no interior dos núcleos privados do mundo da vida. Com isso, Habermas não opera somente uma troca de rótulos, mas expande o papel cumprido pela esfera privada em sua compreensão dos processos comunicativos de formação política da vontade.

Segundo Habermas, a esfera privada exerce um papel fundamental de assegurar processos autônomos de formação do juízo e da consciência: “A proteção da privacidade através de direitos fundamentais serve à incolumidade dos domínios vitais privados, (...) caracterizando uma zona inviolável da formação do juízo e da consciência autônoma.”287 Por sua vez, os processos de formação do juízo e da consciência transcorridos em seu interior, os quais incluem a tomada de posição dos destinatários acerca do material produzido publicamente, não são tratados nos termos de uma reflexão solitária e egocêntrica; ao contrário, a proteção dos âmbitos privados do mundo da vida é vinculada justamente à manutenção dos processos de integração social mediados pelo entendimento comunicativo. Para o autor, a supervisão constante do aparato burocrático-estatal sobre o mundo da vida é capaz de desintegrar suas estruturas comunicativas e seus laços de solidariedade espontâneos, produzindo uma massa de cidadãos isolados e facilmente manipuláveis pelos imperativos do sistema político: “Quanto mais se prejudica a força socializadora do agir comunicativo, sufocando a fagulha da liberdade comunicativa nos domínios da vida privada, tanto mais fácil se torna formar uma massa de atores isolados e alienados entre si, fiscalizáveis e mobilizáveis plebiscitariamente.”288 Nesse sentido, os processos públicos de formação da vontade tanto mais poderão ser considerados autônomos – isto é, tanto mais “refletirão um processo de convencimento entre seus participantes ao invés de imposições de poder mais ou menos camufladas” – quanto mais estiverem fundadas numa esfera privada intacta, a qual “qualifica o público de pessoas privadas para seu papel de cidadãos”.

Segundo Habermas, entretanto, o papel da esfera privada vai muito além de proteger as estruturas comunicativas necessárias ao convencimento do público de destinatários em relação a esferas públicas já constituídas. Para o autor, a esfera privada se encontra situada na “periferia” dos processos comunicativos de formação da consciência e da vontade em seu ponto mais distante dos “centros da política”, o que atribui a ela uma posição germinal na percepção e identificação dos novos problemas sociais: “As estruturas comunicativas da esfera pública estão conectadas aos domínios da vida privada, de maneira a permitir que a periferia dos processos políticos, enraizada na

287 FG, p. 445 (DDem, v. II, p. 101). 288 FG, p. 446 (DDem, v. II, p. 102).

sociedade civil, possua uma maior sensibilidade para perceber e identificar os novos problemas antes que os centros da política.”289 Assim, muito além de assumir um papel meramente reativo, Habermas atribui à esfera privada uma função constitutiva dos fluxos comunicativos que atingem a esfera pública de maneira inovadora: “A esfera pública obtém seus impulsos da elaboração privada de problemas sociais que ressoam nas histórias de vida individuais.” Nesse mesmo sentido: “O complexo comunicacional de uma esfera pública, composta de pessoas privadas recrutadas da sociedade civil, depende das contribuições espontâneas de um mundo da vida cujos núcleos privados permanecem intactos.”290

Para Habermas, antes de serem tematizados pela esfera pública, os novos problemas sociais encontrariam suas primeiras repercussões nos sofrimentos gerados pelas experiências de insucesso verificadas nos projetos de vida individuais, entre as quais são ressaltadas as conseqüências externalizadas da auto-programação dos sistemas político e econômico. Ao estruturar formas de comunicação de acesso reservado, a esfera privada mostrar-se-ia como um dos principais palcos para um tipo de “linguagem existencial” segundo a qual tais experiências são narradas pelos próprios concernidos – seja por não ganharem imediatamente a atenção e o interesse do público mais amplo, seja por conterem em si mesmas o descontentamento e a crítica a normas e instituições sociais vigentes, os quais podem gerar conseqüências indesejadas aos falantes quando levadas a público de maneira particularizada. Em comunicações protegidas contra a publicidade, as pessoas podem escolher livremente seus interlocutores de maneira a superar inibições ou o medo de represálias, encontrando contextos favoráveis às primeiras elaborações de seus descontentamentos pessoais, à expressão de suas preferências e ao teste de opiniões e argumentos. Dessa forma, a esfera privada é apresentada um “contexto de descoberta”, vale dizer, como um âmbito comunicativo capaz de dar vazão às primeiras percepções dos novos problemas sociais segundo as contribuições díspares e variadas, veiculadas numa linguagem auto-biográfica e não especializada, de seus concernidos diretos. Dela depende a esfera pública em sua função de captar e tematizar os problemas da sociedade como um todo:

289 FG, pp. 460-461 (DDem, v. II, p. 115). 290 FG, p. 503 (DDem, v. II, p. 157).

“A esfera pública apenas pode cumprir livremente sua função de captar e tematizar os problemas da sociedade como um todo na medida em que se constitui a partir dos contextos comunicativos das pessoas potencialmente atingidas. O público que lhe serve de suporte é composto do conjunto das pessoas privadas. Em suas vozes díspares e variadas, ecoam as experiências provocadas nas histórias de vida pelos custos externalizados (e pelas moléstias internas) dos sistemas de ação funcionalmente especializados – provocadas também pelo próprio aparato estatal, de cuja regulação dependem os sistemas de função sociais complexos e insuficientemente coordenados. Sobrecargas desse tipo acumulam-se no mundo da vida. Este dispõe, entretanto, de antenas apropriadas, já que em seu horizonte se entrelaçam as histórias de vida privadas dos ‘clientes’ dos sistemas de prestação que eventualmente fracassam. (...) Fora a religião, a arte e a literatura, apenas as esferas da vida ‘privada’ dispõem de uma linguagem existencial segundo a qual é possível fazer um balanço das repercussões provocadas pelos problemas sociais nas histórias de vida particulares. Os problemas tematizados na esfera pública política transparecem inicialmente na pressão social exercida pelo sofrimento que se reflete no espelho de experiências pessoais de vida.”291

Assim, as estruturas comunicativas da esfera privada complementam a esfera pública não apenas por protegerem o convencimento do público de cidadãos a respeito do material nela veiculado, mas também por resguardarem a livre produção desse mesmo material em suas fazes mais iniciais. Após fixar tais funções da esfera privada nos processos comunicativos de formação da consciência e da vontade, Habermas pretende demonstrar esse vínculo fazendo referência ao desenvolvimento de sociedades totalitárias, nas quais as estruturas comunicativas da esfera privada seriam intencionalmente destruídas por intervenções artificiais do poder político.

“A conexão íntima entre cidadania autônoma e esfera privada intacta mostra-se evidente à contraluz de sociedades totalitárias, tais como as que abrigavam o socialismo de Estado. Nelas, um Estado panóptico não apenas controla de forma direta uma esfera pública burocraticamente esterilizada, como também solapa suas bases privadas. Intervenções administrativas e supervisões constantes decompõem a estrutura comunicativa das interações cotidianas na família e na escola, na comuna e na vizinhança. A destruição de relações de vida solidárias e a paralisação das iniciativas e da independência em domínios marcados ao mesmo tempo pela super-regulação e pela insegurança jurídica implicam no aniquilamento de redes, associações e

grupos sociais, na doutrinação e dissolução de identidades sociais e no sufoco da comunicação pública espontânea.”

Nesta passagem, Habermas pretende demonstrar o papel exercido pela esfera privada na constituição de esferas públicas autônomas fazendo referência às conseqüências geradas com sua supressão. Em sua concepção foucaultiana, o “panóptico” denota um mecanismo de controle disciplinar total exercido por meio da supervisão constante e inverificável, vale dizer, por meio da “vigilância permanente, exaustiva, onipresente, capaz de tornar tudo visível, mas com a condição de ser ela mesma invisível”292. Quando o controle disciplinar assume a possibilidade de tudo ver sem ser visto, ele passa a não precisar mais ser exercido de fato para ser efetivo293, já que “quem está submetido a seu campo de visibilidade, e sabe disso, introjeta por sua conta as constrições do poder; fá-las funcionar espontaneamente sobre si mesmo; inscreve em si a relação de poder na qual ele desempenha simultaneamente os dois papéis; torna-se o princípio de sua própria sujeição.”294 A noção de Estado panóptico é trazida aqui para caracterizar uma condição de controle totalitário marcado pela destruição das bases privadas do mundo da vida. Segundo Habermas, o Estado totalitário seria instalado não apenas com o controle burocrático da esfera pública. Com a domesticação administrativa da esfera pública ainda podem restar formas de reação não públicas ao poder burocrático, focos de resistência que fazem uso da privacidade não apenas para veicular os ecos de insubordinação política, como também manter vivos laços de solidariedade, formas de vida e identidades culturais, os quais, em si mesmos, já representam limites à dominação total. O totalitarismo, pois, só seria alcançado quando os últimos germens de resistência à intromissão do poder burocrático e de condução independente das vidas individuais são

292 FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. São Paulo: Editora Vozes, 2004, p. 176.

293 “Daí o efeito mais importante do Panóptico: induzir no detento um estado consciente e permanente de visibilidade que assegura o funcionamento automático do poder. Fazer com que a vigilância seja permanente em seus efeitos, mesmo se é descontínua em sua ação; que a perfeição do poder tenda a tornar inútil a atualidade de seu exercício; que esse aparelho arquitetural seja uma máquina de criar e sustentar uma relação de poder independente daquele que o exerce; enfim, que os detentos se encontrem presos numa situação de poder de que eles mesmos são os portadores. Para isso, é ao mesmo tempo excessivo e muito pouco que o prisioneiro seja observado sem cessar por um vigia: muito pouco, pois o essencial é que ele se saiba vigiado; excessivo, porque ele não tem necessidade de sê-lo efetivamente. Por isso Bentham colocou o princípio de que o poder devia ser visível e inverificável. Visível: sem cessar o detento terá diante dos

Documentos relacionados