4.3 As Inovações do Novo Código de Processo Civil: Aspectos Constitucionais
4.3.1 Espécies decisórias abrangidas pela norma
Assim está redigido o parágrafo primeiro do artigo 489:
§ 1o Não se considera fundamentada qualquer decisão judicial, seja ela interlocutória, sentença ou acórdão, que:
Em primeiro lugar, é importante destacar que a lei processual abrange todas as espécies de pronunciamento judicial que causem, ou tenham a potencialidade de causar, prejuízo à parte.
Assim, o legislador incluiu na abrangência da norma as decisões interlocutórias, as sentenças e os acórdãos.
Basicamente, sob a ótica ainda do Código de Processo Civil de 1973, a doutrina define sentença como o pronunciamento judicial de caráter decisório, com ou sem conteúdo de mérito (artigos 267 e 269 do CPC-73), que põe fim a uma fase do procedimento em primeira instância.
Cândido Rangel Dinamarco, em seu clássico Instituições de Direito Processual Civil, assim definiu sentença97:
Nesse quadro de atenções voltadas aos efeitos projetados sobre o objeto do processo e não sobre o processo em si mesmo, sentença é o ato com o qual o juiz define a causa com ou sem julgamento do mérito. Definir a causa é emitir a solução final referente ao litígio posto em juízo, dissolvendo seu objeto porque a respeito deste é então dada toda a resposta que naquele grau de jurisdição poderia ser dada. O juiz que decide o mérito ou declara inadmissível esse julgamento está a emitir o último julgamento possível em primeiro grau jurisdicional sobre a causa.
97 DINAMARCO, Candido Rangel. Instituições de Direito Processual Civil. Vol II. 6 ed.; São Paulo:
Malheiros, 2009, p.508.
A definição de sentença foi objeto de prolongado debate doutrinário e jurisprudencial, que aqui não será exposto por sua desnecessidade, culminando na pacificação da definição dada acima, definição essa, inclusive, adotada pelo NCPC, que dispõe, ipsis literis, em seu artigo 203, §1º: “Ressalvadas as disposições expressas dos procedimentos especiais, sentença é o pronunciamento por meio do qual o juiz, com fundamento nos arts. 485 e 487, põe fim à fase cognitiva do procedimento comum, bem como extingue a execução”.
Todas as sentenças emanadas pelos juízos em primeiro grau, desta forma, estão abrangidas pela norma, sejam cíveis ou trabalhistas, já que o CPC é usado subsidiária e complementarmente na Justiça do Trabalho.
Já as decisões interlocutórias são pacificamente definidas como os atos judiciais pelos quais “o juiz, no curso do processo, resolve questão incidente”, segundo o CPC-73 (art. 162, §2º). Essa definição do Código de Processo Civil vigente foi alvo de diversas críticas da doutrina, tendo em vista que, por vezes, determinadas questões incidentes, quando suscitadas, geram a prolação de sentença, e não uma decisão interlocutória.
O NCPC, por sua vez, as define como “todo pronunciamento judicial de natureza decisória que não se enquadre no §1º” (artigo 203, §2º), adotando, preponderantemente, um critério de exclusão.
Ainda Cândido Rangel Dinamarco98:
Dizem-se decisões interlocutórias os provimentos com que o juiz, no curso do processo e sem definir a causa, decide sobre matéria de interesse do processo e sobre certos pedidos e requerimentos das partes. O adjetivo interlocutório vem do latim inter locutus, que significa pronunciado no meio.
No meio do processo, ou seja, depois de proposta a demanda inicial e antes da sentença que define o destino da causa, o juiz profere decisões dessa ordem.
O despacho, ato judicial desprovido de qualquer conteúdo decisório e, por isso, impossibilitado de causar prejuízo às partes, é definido por exclusão, sendo tudo aquilo que não se classificar como sentença ou decisão interlocutória. Tendo em vista sua irrelevância para o objeto de estudo deste trabalho, não será analisado pormenorizadamente.
98 Ibidem, p. 509.
Corroborando o que foi dito acima, o professor Cândido Rangel Dinamarco, ao definir despacho99:
Em toda ordem processual, o juiz tem o poder de comandar e controlar inquisitivamente o andamento do processo e sua regularidade, impulsionando-o em direção ao provimento final a ser proferido, evitando irregularidades e sanando vícios. Ele o faz mediante providências de rotina, como ao mandar que se juntem petições ou documentos aos autos, ao chamar as partes a se manifestar sobre documentos ou especificar provas, ao designar data para audiência etc. Daí receberem o nome de despachos de mero expediente, ou simplesmente despachos. Eles são manifestações da vontade do Estado-juiz, mas destituídas de qualquer conteúdo decisório.
Por último, a lei processual inclui o acórdão no rol dos pronunciamentos judiciais que deverão se submeter à nova regra. Os acórdãos estão para as instâncias superiores assim como a sentença está para os juízes monocráticos de primeiro grau.
O sistema recursal brasileiro, calcado no princípio do duplo grau de jurisdição, busca efetivar o direito à ampla defesa e reduzir as probabilidades de um erro judiciário ficar acobertado pela autoridade da coisa julgada material.
Por isso, criou a Constituição Federal os Tribunais de segunda instância, que se dividem em Turmas ou Câmaras julgadoras, sendo estes órgãos colegiados que prolatam as decisões por maioria de votos, e não monocraticamente.
Procura-se dar maior segurança ao sistema recursal e legitimidade aos pronunciamentos judiciais.
Dessa forma, é possível definir o acórdão como decisão judicial proferida nos órgãos julgadores colegiados de instância superior. Estes também devem observar as regras trazidas pelo Novo Código.
Em suma, sobre qualquer pronunciamento judicial substancial - ou seja, aquele que possua carga decisória - incidirá a incidência desta norma.
4.3.1.1 Da incidência do art. 489 no âmbito das decisões administrativas
Vale ressaltar, ainda, que, embora não seja o objeto de estudo deste trabalho, o inciso sob análise também incide nas instâncias administrativas e em
99 Ibidem, p. 511.
todos os órgãos diversos do Poder Judiciário, cuja função última não é a prestação jurisdicional.
Isso porque, consoante o princípio democrático e as bases do Estado de Direito, qualquer interferência na vida do cidadão deverá ser calcada no instituto do processo e nas garantias a ele inerentes. Qualquer processo administrativo, assim, submete-se ao novo “modelo decisório” trazido pelo Código de Processo Civil de 2015, de modo que decisões administrativas não considerar-se-ão fundamentadas se incidirem em algum (ns) dos incisos do parágrafo 1º do artigo 489.
A legitimidade de um despacho em um processo administrativo fiscal, por exemplo, que determina a inscrição do débito de um contribuinte em dívida ativa deve especificar todo arcabouço legal que enseja a cobrança do tributo, pois eventual execução fiscal possibilita abrupta interferência do Fisco na esfera de direitos patrimoniais do executado.
Os princípios constitucionais do processo irradiam na atuação do legislador ordinário (como é possível verificar no texto do novo Código), na atividade jurisdicional dos Tribunais e, com certeza, no âmbito da Administração Pública.
Se é certo que, ao menos subsidiariamente, a Administração se utiliza da lei processual civil brasileira; também é correto afirmar que, a partir da vigência do CPC de 2015, toda ela estará subordinada aos comandos concernentes à fundamentação das decisões.
Confira-se, por oportunas, as palavras de Tiago Alberto e Sabrina Alberto100:
A primeira observação que se pode tecer é a de que, embora o §1º faça alusão a “decisões judiciais”, deve ser aplicado também às decisões administrativas que se utilizem do Código de Processo Civil como legislação subsidiária. Assim é que decisões colegiadas no âmbito administrativo, por exemplo, oriundas de Juntas de Recursos, Conselho de Contribuintes, Comissões de Licitações, Comissões Disciplinares, Tribunais de Contas etc, deverão atender aos requisitos exigidos no §1º do artigo 489, para fins de validade, em relação aos seus provimentos decisórios, desde que, evidentemente, tenham o Código de Processo Civil enquanto legislação subsidiária.
100 ALBERTO, Tiago Gagliano Pinto; ALBERTO, Sabrina Santana Figueiredo Pinto. Conceitos Jurídicos Indeterminados e Fundamentação – Existirá o céu dos conceitos?. In: O Dever de Fundamentação no Novo CPC. Coord.: ALBERTO, Tiago Gagliano Pinto; VASCONCELLOS, Fernando Andreoni. Rio de janeiro: Lumen Juris, 2015, p. 241.
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Dessa forma, a menção no dispositivo a “decisões judiciais” e a exemplificação com decisões interlocutórias, sentenças ou acórdãos deve ser interpretado de maneira extensiva, o que igualmente decorre da exigência constitucional da fundamentação igualmente verificada no âmbito administrativo.
Isto posto, é de se sublinhar, mais uma vez, o caráter inovador do novo Código na seara das decisões. O ordenamento jurídico ganha, assim, poderoso instrumento de democratização das atividades estatais.