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4.3 As Inovações do Novo Código de Processo Civil: Aspectos Constitucionais

4.3.5 O dever de apreciar todos os argumentos aduzidos no processo

4.3.5.1 O que é um argumento?

O dispositivo determina que não será considerada devidamente fundamentada a decisão que não enfrentar todos os “argumentos” trazidos pela parte.

Argumento pode ser definido, segundo Sacconi, como “razão ou série de razões apresentadas numa questão; prova que serve para negar ou afirmar um fato; arrazoado”138.

Filosoficamente falando, argumento é “qualquer razão, prova, demonstração, indício, motivo capaz de captar o assentimento e de induzir à persuasão ou à convicção”139.

137 Documento elaborado pela Cúpula Judicial Ibero-Americana como modelo a ser seguido pelas legislações dos Estados que a compõem. Disponível em: <http://www.enamat.jus.br/wp-content/uploads/2009/08/codigo_ibero_americano.pdf>. Acesso em 15 de outubro de 2015.

138 SACCONI, Luiz Antonio. Grande Dicionário Sacconi. 1. ed.; São Paulo: Nova Geração, 2010, p.

173.

Desta forma, tem-se que “argumento” é conceito extremamente amplo, abrangendo não somente arrazoados jurídicos, mas de qualquer outro ramo do conhecimento humano, científico ou não.

Impõe-se, assim, a necessidade de esclarecer a abrangência dessa expressão contida no dispositivo, a fim de evitar abusos e irracionalidades no processo.

Quando o legislador impõe o dever de o magistrado enfrentar todos os

“argumentos”, corre-se o risco de criar uma disfuncionalidade no processo, além de dar azo ao comportamento protelatório ou obstrutivo das partes.

Embora seja dado às partes invocarem quaisquer razões que entendam pertinentes na causa de pedir de suas pretensões ou em sede de defesa, não é possível extrair do texto que qualquer argumento, indiscriminadamente, será exaustivamente analisado pelo magistrado.

Há uma larga diferença entre argumento e fundamento, sendo que o primeiro pode se tratar de algo totalmente desconexo com a ciência jurídica. O autor pode justificar sua pretensão com um argumento teológico, por exemplo, dizendo que determinado imóvel “foi-lhe concedido por Deus”; ou, ainda, pedir que o réu seja condenado a pagar determinada quantia em dinheiro, a título de indenização,

“porque sua conduta é moralmente inadmissível".

São dois exemplos, totalmente plausíveis de se verificarem, que ilustram a necessidade de cindir “argumento” e “fundamento”.

Caso se admita que o juiz deva se manifestar, ao decidir, sobre tudo aquilo que foi veiculado pelas partes, certamente está-se diante de uma regra que praticamente fulmina a efetividade e celeridade processuais.

Se qualquer arrazoado pode ser considerado um argumento, por mais estapafúrdio que seja, o contrário se pode dizer sobre o fundamento.

Faz-se necessário então, fazer uma ligação entre “fundamento” e juridicidade, no sentido de que só serão relevantes para o julgador os argumentos revestidos de relevância jurídica, ou que adentram a esfera da Ciência Jurídica.

Notadamente, isso não impede as partes de invocarem argumentos não-jurídicos em suas razões a fim de robustecer a causa de pedir, a fim de

139 ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. Tradução de Alfedo Bosi. São Paulo: Martins Fontes, 2003, p. 79.

influenciar a decisão do magistrado. Contudo, tais argumentos não precisam, necessariamente, ser exaustivamente debatidos pelo magistrado.

No exemplo dado, é absurdo se pensar que o julgador deverá discorrer a respeito da existência de Deus em sua decisão, adentrando minúcias teológicas e filosóficas absolutamente desconexas com a causa.

Rogério de Vidal Cunha140, Juiz de Direito do Estado do Paraná, pensa desta forma:

A fundamentação se dá por meio da análise dos fatos, as questões processuais trazidas pelas partes, não de seus argumentos; a leitura literal do dispositivo em comento acaba transformando a decisão em verdadeiro questionário, quando é indiscutível que os argumentos não vinculam o julgamento.

[...]

Não se pode deixar de lado que a parte pode tecer os mais variados argumentos, inclusive de ordem não jurídica, de ordem filosófica ou moral, não havendo qualquer ilicitude, por exemplo, que a parte argumente que tem direito a determinado vem da vida por força divina, que, afinal é um argumento.

De fato, somente está fundamentada a sentença quando o juiz analisa todas as questões trazidas pelas partes, todos os pedidos, preliminares ou prejudiciais, toda a matéria necessária ao julgamento; todavia, interpretar-se a expressão “argumentos” em sua literalidade é transformar o processo em peça inútil. (grifou-se)

Parece razoável esse raciocínio. É de se dizer, então, que tudo aquilo que embasar juridicamente os pedidos das partes deverão ser objeto de análise detida pelo magistrado.

Deve-se frisar a necessidade de argumentação jurídica, tendo em vista que o operador do Direito trabalha a partir do ordenamento jurídico posto. O Direito, com as suas variantes (lei, jurisprudência e doutrina), é o ponto de partida de qualquer advogado ou magistrado.

As questões morais e filosóficas são, no processo, quase sempre irrelevantes, não devendo, assim, serem objeto de maior atenção no processo jurisdicional. São questões a serem discutidas na academia, em organizações eclesiásticas ou em qualquer outro lugar adequado, mas não no processo.

140 CUNHA, Rogério de Vidal. O Dever de Fundamentação no NCPC: Há mesmo o dever de responder todos os argumentos das partes? Breve análise do art. 489, §1º, IV do NCPC. In: O Dever de Fundamentação no Novo CPC. Coord.: ALBERTO, Tiago Gagliano Pinto;

VASCONCELLOS, Fernando Andreoni. Rio de janeiro: Lumen Juris, 2015, p. 299.

Marinoni e Mitidiero141 partilham da mesma visão e distinguem fundamentos de argumentos:

Argumentos, todavia, não se confundem com fundamentos. Os fundamentos constituem os pontos levantados pelas partes dos quais decorrem, por si só, a procedência ou improcedência do pedido formulado. Os argumentos, de seu turno, são simples reforços que as partes realizam em torno dos fundamentos. O direito fundamental ao contraditório implica dever de fundamentação completa das sentenças e acórdãos, o que requer análise série e detida dos fundamentos arguidos nos arrazoados das partes. (grifou-se)

Fazer essa distinção entre argumento e fundamento (argumento jurídico), traz uma implicação interessante: na medida em que o juiz não estaria constrangido a debater argumentos não jurídicos, ainda assim haveria a necessidade de afastar a incidência da norma em relação ao que não se irá analisar.

No exemplo dado (do direito divino à determinada pretensão), o juiz não está obrigado a enfrentar “o mérito” da questão ao decidir, mas está, entretanto, obrigado a justificar – ainda que brevemente - a razão pela qual não se debruçará sobre ela, qual seja, se tratar de mero argumento e não fundamento do pedido.

Haveria, dessa forma, uma espécie de “dever de fundamentação atômico”, se é que se pode chamar assim, numa analogia à Kompetenzkompetenz142, ou competência atômica, que é a competência, inerente a qualquer magistrado, de afirmar a própria incompetência.

O julgador possui, destarte, o dever mínimo de fundamentar sua decisão acerta dos argumentos trazidos pela parte, mesmo que seja para somente afastá-los do debate central. Por mais que ele esteja desincumbido de enfrentar determinada questão, por se tratar de mero argumento desprovido de juridicidade, haverá a necessidade de justificar, via fundamentação, o seu afastamento propriamente dito.

Como dito por Vidal Cunha, a decisão jurisdicional não pode transformar-se em questionário, tampouco dar ensejo à atuação de má-fé das

141 MARINONI, Luiz Guilherme; MITIDIERO, Daniel. Código de Processo Civil: Comentado artigo por artigo. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2008, p.420/421.

142 DIDIER JUNIOR, Fredie. Curso de Direito Processual Civil. 9. ed.; Salvador: Editora JusPodivm, 2014, p. 145.

partes, asfixiando as decisões com dezenas de teses e argumentos desconexos ou impertinentes à causa.

Vem a calhar a lição de Chiovenda a respeito da atividade dos juízes que, segundo ele, “dirige-se, necessariamente, a dois distintos objetos: exame da norma como vontade abstrata de lei (questão de direito), exame dos fatos que transformam em concreta a vontade da lei (questão de fato) ”143.

Isso significa que toda a atividade judicial orbita em torno de questões jurídicas e não outras, alheias à Ciência do Direito. O juiz deve, mais especificamente, concentrar seus esforços argumentativos em torno das questões, entendidas estas em sua acepção jurídica.

Pode-se dizer que cada afirmação feita pelo autor no processo corresponde a um ponto. O réu, ao resistir juridicamente à pretensão do autor, delimita um contraponto.

Formam-se, assim, as “questões” do processo civil, que é toda afirmação sobre a qual recaia uma crise de certeza. Carnelutti, citado por Antonio Scarance Fernandes144, leciona:

Questão pode se definir em um ponto duvidoso, de fato ou de direito, e a sua noção é correlata àquela de afirmação.

O ponto é o fundamento de uma afirmação referente ao mérito, ao processo ou à ação. Essa afirmação pode ser feita por qualquer um dos sujeitos da relação processual civil: juiz, autor e réu.

O julgador deve ater-se, com maior cuidado, aos fundamentos jurídicos que se inserem nas questões do processo, de modo que os argumentos não jurídicos terão uma importância secundária no desfecho da lide. Repise-se, contudo, que, ao menos de maneira breve, deverá o juiz, ainda assim, afastar, na decisão, aquilo que considera como mero argumento levantado pelas partes.

Athos Gusmão Carneiro145 também acolhe essa diferenciação entre argumento e fundamento:

143 CHIOVENDA, Giuseppe. Instituições de direito processual civil. 3.ed. Campinas: Bookseller, 2002, p.41.

144 FERNANDES, Antonio Scarance. Prejudicialidade: conceito, natureza jurídica, espécies judiciais.

São Paulo: RT, 1998, p. 56.

145 CARNEIRO, Athos Gusmão. Sentença Mal Fundamentada e Sentença não Fundamentada conceitos – nulidade. In: Revista Jurídica, nº 216, outubro de 1995, Porto Alegre: Editora Síntese, p.

05.

O Juiz, por certo, não está adstrito a responder, um a um, os argumentos das partes; tem o dever, contudo, de examinar as questões (=pontos controvertidos), todas elas, que possam servir de fundamento essencial à acolhida, total ou parcial, ou à rejeição, no todo ou em parte, do pedido formulado pelo demandante. Sejam preliminares ou prejudiciais, processuais ou de mérito, o Juiz tem de examinar e julgar todas as questões da lide trazidas à sua apreciação. Se não o fizer, a sentença estará incompleta. (grifou-se)

Há, ainda, a necessidade de se ressaltar que, determinadas teses jurídicas, quando acolhidas pelo magistrado na decisão, prejudicam a análise de outras teses.

Em uma ação anulatória, por exemplo, em que o autor pede o desfazimento de um contrato por dolo e, subsidiariamente, o reconhecimento de cláusula abusiva; o acolhimento, pelo juiz, do pedido de anulação prejudica a análise da cláusula supostamente abusiva.

Deve, contudo, o magistrado justificar a não apreciação da tese subsidiária, demonstrando que seria ilógico e irracional debruçar-se sobre questões fulminadas pela tese principal acolhida.

Esse, além disso, é mais um exemplo de aplicação da fundamentação mínima, defendida alhures: ainda que para não fundamentar, o juiz deverá fazê-lo.

Não há como o juiz se desincumbir do seu ônus argumentativo.

Um outro exemplo seria o caso de o julgador declarar, em sede de controle difuso, a inconstitucionalidade do dispositivo que fundamenta o pedido da parte; o que, de certa forma, não deixa de ser uma fundamentação adequada para rejeição do pedido. Mesmo que para fins de declaração de inconstitucionalidade, a decisão satisfará os requisitos do novo Código.

O Superior Tribunal de Justiça já firmou entendimento neste sentido:

Ementa: ADMINISTRATIVO E PROCESSO CIVIL. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO NO AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL.

AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. LEIS

COMPLEMENTARES 10.727/1996 E 10.795/1996 DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL. TETO REMUNERATÓRIO. SUPERVENIENTE FALTA DE INTERESSE PROCESSUAL EM RAZÃO DA REVOGAÇÃO E ALTERAÇÃO DE DISPOSITIVOS DA LEGISLAÇÃO ESTADUAL OBJETO DA AÇÃO. MATÉRIA REFERENTE AO ART. 17 DO ADCT. QUESTÕES NÃO ENFRENTADAS PELO TRIBUNAL DE ORIGEM. OCORRÊNCIA DE OMISSÃO. EFEITOS INFRINGENTES. EMBARGOS DE DECLARAÇÃO ACOLHIDOS PARA CONHECER DO RECURSO ESPECIAL E LHE DAR PARCIAL PROVIMENTO. (...) 2. A teor do 458 do CPC, sentenças e

acórdãos, sob pena de nulidade, devem observar determinados requisitos, destacando-se a fundamentação, é dizer, a percuciente análise das questões fáticas e jurídicas suscitadas pelas partes e relevantes ao deslinde da controvérsia. 3. A falta de apreciação de argumentos efetivamente capazes de determinar o julgamento da causa em certo sentido, desafia o recurso de Embargos de Declaração que, indevidamente rejeitado, implica a recalcitrância da omissão, caracterizando violação ao art. 535, II do CPC. Verificada tal infringência, ter-se-á, em consequência, por ausente o prequestionamento da matéria, inviabilizando o seu conhecimento pelas instâncias extraordinárias, tolhendo, pois, o direito da parte à utilização das vias excepcionais. 4. Não se ignora que o Magistrado, ao motivar suas decisões, não precisa se manifestar exaustivamente sobre todos os pontos arguidos pelas partes, muitas vezes impertinentes ou irrelevantes à formação de sua convicção, admitindo-se, portanto, a fundamentação sucinta, desde que suficiente à segura resolução da lide. Contudo, diante da existência de argumentos diversos e capazes, cada qual, de imprimir determinada solução à demanda, não há que se considerar suficiente a motivação que, assentada em um deles, silencie acerca dos demais, reputando-os automaticamente excluídos. (...) (grifou-se)

(STJ, Relator: Ministro NAPOLEÃO NUNES MAIA FILHO, Data de Julgamento: 21/09/2010, T5 - QUINTA TURMA)

Não se está, aqui, a ratificar acriticamente a posição da jurisprudência.

Contudo, converge-se com seu entendimento por ser racional interpretar o dispositivo analisado desta forma.

Despiciendo dizer que, em se tratando de fundamentos, ou seja, todas as teses quem sustentam as questões do processo, a eles o juiz está absolutamente vinculado, devendo manifestar-se exaustivamente a seu respeito na fundamentação.

O parágrafo 3º do artigo 489 dispõe que “ a decisão judicial deve ser interpretada a partir da conjugação de todos os seus elementos e em conformidade com o princípio da boa-fé”.

Isso significa que o Código, ao mesmo tempo em que procura assegurar o fiel cumprimento do artigo 93, inciso IX da Constituição, combate o comportamento temerário no processo, a fim de tumultuá-lo.

Dessa forma, o juiz tem autonomia para, mediante justificação, deixar de apreciar com verticalidade determinada tese levantada pela parte, observados os parâmetros aqui apresentados.

4.3.5.2 Abrangência da norma: uma mitigação do dever de enfrentar todas as