CERRADO?
Esperava-se encontrar uma segregação entre espécies florestais de Euglossina na Mata Ciliar e espécies de áreas abertas no cerrado senso estrito. Isto não ocorreu, entretanto. Apenas uma espécie foi encontrada exclusivamente no ambiente florestal, Eg. violaceifrons, representada por um único indivíduo capturado em M1. O fato desta espécie ter sido representada por apenas um exemplar pode indicar uma fraca associação dela com os compostos aromáticos utilizados, uma vez que nem sempre as substâncias aromáticas selecionadas
para um levantamento são atrativas para todas as espécies em uma dada área (Janzen et al., 1982; Oliveira & Campos, 1995). Sendo assim, a probabilidade de captura dos machos de Eg. violaceifrons seria pequena, mesmo que eles estivessem presentes no cerrado senso estrito (ver Rebêlo & Garófalo, 1997). Entretanto, o único indivíduo desta espécie foi coletado em cineol que foi a isca mais atrativa e este fato reduz tal probabilidade, principalmente se for levado em conta que nos trabalhos onde esta espécie foi coletada, a grande maioria dos indivíduos foi atraída por esta substância. Por outro lado, é possível que esta espécie seja apenas rara na região amostrada e, neste caso, ela pode não ter sido coletada no cerrado senso estrito por mero acaso.
De qualquer forma, a relação entre Eg. violaceifrons e ambientes de mata é discutível. Aparentemente, Eg. violaceifrons é uma espécie com alta plasticidade quanto aos seus locais de ocorrência. Foi registrada em áreas de Floresta Atlântica primária (Bonilla-Gómez, 1999; Nemésio, 2004), em fragmentos de floresta semidecídua no interior de São Paulo (Rebêlo & Moure, 1995; Rebêlo & Garófalo, 1997; Jesus, 2000), em áreas da Amazônia maranhense (Silva & Rebêlo, 1999) e no litoral maranhense (Silva e Rebêlo, 2002). Neste último trabalho em particular, Eg. violaceifrons foi coletada em uma área de capoeira, o que sugere uma alta tolerância a áreas abertas. Na Bahia foi restrita a ambientes de floresta úmida (Neves & Viana, 2003) enquanto em trabalhos em MG e SP pareceu preferir ambientes de borda de mata (Jesus, 2000; Nemésio, 2004).
Os dados obtidos em Brasiländia de Minas sugerem, portanto, que as matas ciliares não sejam imprescindíveis para a conservação de componentes florestais da fauna local de Euglossina, uma vez que não abrigam uma fauna característica deste ambiente. Isto parece contradizer as conclusões de Neves &
Viana (1999), segundo os quais é provável que a mata ciliar funcione como local de nidificação, barreira à intensa radiação solar, proteção contra ventos fortes e oferta de recursos alimentares para Euglossina. O fato de que, em Brejão, várias espécies tenham sido coletadas no cerrado senso estrito mas não na mata de galeria sugere que as espécies presentes na região encontrem, nas áreas abertas, todos os recursos necessários à sua sobrevivência (p. ex. Eg. fimbriata e
Eg. townsendi). Na região do médio Rio São Francisco (Bahia), por outro lado, os
dados de riqueza de espécies obtidos em mata ciliar e a relação de aparente dependência dessas abelhas com áreas florestadas sugerem que as matas ciliares são imprescindíveis para a permanência de Euglossina (Neves & Viana, 1999). Os resultados encontrados contradizem o observado para outros grupos zoológicos como aves (Silva, 1996), mamíferos (Redford & Fonseca, 1986), borboletas (Pinheiro & Ortiz, 1992), vespas (Diniz & Kitayama, 1998), para os quais as matas de galeria funcionou como ambiente que abrigava uma fauna distinta da de cerrado.
Pode-se perceber, também, que as matas ciliares não serviram como refúgio para espécies de abelhas Euglossina no presente caso. Era de se esperar maior abundância e diversidade nas áreas de mata se isto fosse verdadeiro, mas, definitivamente, resultados que suportassem esta idéia não foram encontrados. Ao contrário do que ocorre para Euglossina, as matas ciliares funcionam como refúgio para algumas espécies de plantas (Kellman et al., 1998), aves (Silva, 1995), mamíferos (Redford & Fonseca, 1986; Mares & Ernst, 1995; Lacher Jr. & Alho, 2001), borboletas (Pinheiro & Ortiz, 1992) e vespas (Diniz & Kitayama, 1998), insetos em geral (Araújo et al., 2004: maior abundância nas matas de galeria).
A ser discutido, também, é o papel das matas ciliares como corredores para a penetração das faunas Amazônica e Atlântica no cerrado. Neste caso, esperar-se-ia encontrar espécies típicas daqueles domínios nas e somente nas matas ciliares. Esta hipótese também não encontra suporte nos dados encontrados. Embora seja fato que as espécies coletadas sejam também encontradas na Floresta Atlântica, estas aparentemente sobrevivem em áreas abertas e, por isto, não precisariam das florestas de galeria para avançar no cerrado. Mais uma vez, os resultados foram contraditórios com os encontrados para outros grupos, principalmente aves (Silva, 1996) e mamíferos (Redford & Fonseca, 1986) que discutiram a importância destas formações para a penetração de elementos amazônicos e atlânticos no cerrado.
A conclusão, portanto, seria, supondo que as Euglossina tenham efetivamente se originado em ambientes florestais (p. ex. Dressler, 1982a), que espécies adaptadas às bordas de matas, no domínio da Floresta Atlântica, teriam colonizado o cerrado e sua dispersão neste ambiente não seria dependente das matas ciliares.
Uma das explicações mais plausíveis para esse fato é que as áreas de mata ciliar no Cerrado não funcionariam, efetivamente, como ambientes florestais para abelhas Euglossina. Em geral, a mata ciliar é relativamente estreita em ambas as margens, dificilmente ultrapassando 100 m de largura em cada uma delas (Ribeiro & Walter, 1998). Isto faria com que todos os ambientes nessas matas estivessem sujeitos à ação dos efeitos de borda (ver Begon et al., 1990). Aparentemente, a composição da fauna de Euglossina está relacionada à distância da borda e aos seus efeitos (ver Nemésio, 2004). A diferença de tolerância das espécies ao tipo de ambiente e as conseqüentes mudanças nas suas freqüências relativas levam a uma mudança na composição da fauna de
Euglossina ao longo do gradiente borda-interior de mata (Nemésio, 2004). A distribuição das espécies de mata aparentemente é influenciada pelas suas diferentes tolerâncias à luminosidade, temperatura, umidade e insolação (Morato, 1994). Apesar de tolerantes à borda, algumas espécies de Euglossina de Floresta Atlântica apresentam forte preferência por ambientes de interior de mata (p. ex. Eg. analis, Eg. sapphirina – Nemésio, 2004). Nemésio (2004) salientou, ainda, que a 50 m da borda, a comunidade de Euglossina ainda estaria sob forte influência dos efeitos de borda. Em se tratando de uma área linear e com largura de no máximo 100 m, a mata ciliar não seria nada mais que uma grande borda para estas abelhas. Dessa forma, as várias espécies de Euglossina intolerantes à borda (Morato, 1994), não seriam capazes de sobreviver nas matas de galeria no Cerrado.
Analisando a similaridade florística entre as florestas de galeria do Brasil Central, Oliveira-Filho & Ratter apud Ivanauskas (2002) constataram a presença de dois grupos: o primeiro, e mais coeso, é o da parte central e sul da Província do Cerrado (DF, GO e MG) e que aparece mais fortemente associado à Floresta Estacional Semidecidual paranaense. O segundo, e mais espalhado, é o do norte e oeste da Província do Cerrado (MT e TO) e que aparece misturado a cerradões distróficos e florestas da borda sul da Província Amazônica. Sendo assim, amostragens em matas de galeria de diferentes regiões poderiam mostrar padrões distintos, mostrando, inclusive, a presença de elementos amazônicos nas matas de galeria no cerrado.
Outra consideração a ser feita, é que as áreas amostradas em Brejão podem se tratar de matas de galeria alteradas antropicamente e que, assim, não refletiriam o que ocorreria naturalmente.