2. REVISÃO DE LITERATURA
2.6. Espaço Temporal e Vulnerabilidades Agrossocioeconômicas
Nos últimos anos o uso desordenado do solo vem causando mudanças ambientais em dimensões cada vez maiores, com grandes impactos sobre a biosfera. Entre estas ações, as mudanças no uso e cobertura da terra podem ser citadas como as mais significativas. A implantação de projetos hidroagrícolas sem o manejo e monitoramento das características do solo e preservação das áreas de reserva legal tem sido um dos grandes responsáveis pelas maiores alterações na vegetação da caatinga, degradação e salinização dos solos no Nordeste. A tão desejada expansão das “fronteiras agrícolas” está entre estas mudanças, e se apresenta como vetor que impulsiona a devastação da caatinga com o desaparecimento de espécies desse bioma, e assim, paulatinamente as áreas são transformadas em espaço de cultivo agrícola e pecuário. Costa et al. (2009) constataram que a pressão antrópica, pretérita e atual, mostra-se como causa potencial do processo de degradação do bioma caatinga na região semiárida a exemplo do Seridó.
Nesse contexto, tem-se que admitir que, a expansão das “fronteiras agrícolas” é um processo marcante, que se reflete na conversão de florestas em cultivos e pastagens, porém as políticas públicas e programas destinados à região são, ainda, insuficientes e muitas vezes inconsistentes, diante da complexidade da relação pessoas/ambiente. Por outro lado, estas mudanças são necessárias para o desenvolvimento da sociedade, embora a elas, estejam vinculadas consequências tanto negativas quanto positivas. Nestas relações de causa e feito, surge o interesse pelo seu estudo e a busca por informações cartográficas confiáveis, visando a subsidiar a implantação de políticas socioambientais eficientes, no que concerne a minimizar os impactos causados pelo desenvolvimento econômico e social. O monitoramento do uso do solo, de fragmentos de caatinga ainda existentes e da reserva legal é uma tarefa essencial para o conhecimento da realidade ambiental e sustentabilidade do projeto contribuindo na busca de soluções de problemas que possam apresentar-se num futuro próximo. Para tanto, deve-se entender que estas análises precisam considerar uma postura científica multidisciplinar, que permita integrar processos físicos, naturais e sociais.
Esse conhecimento viabiliza compreender os padrões de organização espacial, com os quais se podem diagnosticar e, até mesmo, prognosticar as mudanças da paisagem e mostrar a distribuição espacial real das diferentes formas de uso dos recursos naturais cada vez mais alterados pelas ações do homem. As geotecnologias, representadas em especial pelo Sistema de Informação Geográfica (SIG), Sensoriamento Remoto e Sistema de Posicionamento Global (GPS), apresentam uma série de facilidades na geração e produção de dados e informações
para o estudo de fenômenos geográficos, como os desastres naturais. Utilizando estas ferramentas podem-se produzir informações em pouco tempo e com baixo custo, combinando informações de dados espaciais multifontes a fim de analisar as interações existentes entre as variáveis, elaborar modelos preventivos e dar suporte as tomadas de decisões (SAUSEN et al., 2007; MARCELINO, 2008). O conhecimento dos padrões de uso e cobertura da terra auxilia no planejamento das regiões, tendo em vista que, através da identificação de diferentes paisagens e características e uso do solo é possível prognosticar o incremento de áreas agrícolas, bem como os seus problemas e as soluções, determinando as prioridades para o uso e manejo agropecuário.
Quando não se priorizam as medidas preventivas, há um aumento significativo de gastos destinados à resposta aos desastres. O grande volume de recursos consumido ao atendimento da população atingida é muitas vezes superior ao que seria necessário para a prevenção. Além disso, esses recursos poderiam ser destinados à implementação de projetos de grande impacto social, como geração de emprego e renda. Assim, o uso do geoprocessamento nos estudos da degradação ambiental e dos riscos a desastre resultante da interação ambiente entre semiárido e sociedade permite uma maior dinâmica do processo de geração de informações em tempo quase real, e identificação de áreas onde devam ser priorizadas as estratégias de mitigação ou que áreas devam ser estudadas em detalhe, conforme relatado por BARBOSA et al. (1999), CUTTER (2003), BRECHT (2008) e LACRUZ et al. (2009).
As condições de vida da população, muitas vezes são agravadas pelos desastres que contribuem para aumentar a dívida social e intensificar as desigualdades inter e intrarregionais, afetando o desenvolvimento sustentável do País. Grande número de desastres é agravado pelas migrações internas, que levam à formação de bolsões e cinturões de extrema pobreza nos centros urbanos provenientes do êxodo rural resultantes das vulnerabilidades ambientais peculiares a região semiárida como secas prolongadas, degradação dos solos decorrentes de projetos de irrigação mal conduzidos, inundações, deslizamentos de encostas, incêndios, dentre outros. A falta de planejamento da ocupação e/ou utilização do espaço geográfico, desconsiderando os riscos, somada à deficiência da fiscalização local e orientações técnicas, tem contribuído para aumentar a vulnerabilidade das comunidades urbanas e rurais, com um número crescente de áreas degradadas, pobreza, exclusão social e até de perdas de vidas humanas com vultosos prejuízos econômicos e sociais (MOREIRA, 2001).
O Município de Sousa possui uma população de 65.807 habitantes, dos quais apenas 21% residem na zona rural, possui um Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 0,658, considerado como médio pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - PNUD, seu produto interno bruto - PIB está na faixa de R$ 531.249,00 mil com uma renda
per capita de R$ 8.057,00, o que assinala uma razoável atividade econômica no município
(IBGE, 2010). Entretanto, as condições climáticas adversas na região, restringem as condições de vida das populações rurais, sendo necessária a aplicação de políticas públicas que diminuam as vulnerabilidades aos riscos permanentes e promovam nichos de explorações agrícolas para a fixação do homem ao campo, melhoria da qualidade de vida, garantias na redução da pobreza e da fome, universalização do acesso à educação primária e promoção da sustentabilidade ambiental.
Nas condições de semiáridez a produção agrícola é de alto risco e baixo rendimento sem a irrigação. Assim, sem a utilização da água como insumo agrícola, só é possível a obtenção de uma safra por ano, significando uma substancial subutilização de investimentos realizados em infraestrutura física e de apoio à produção, assim como em maquinaria agrícola, expondo os agricultores à vulnerabilidade de uma série de riscos como perda de emprego, marginalização social, recessão econômica, subnutrição e doenças. As incertezas quanto ao início e término da seca, bem como a sua severidade associados baixa capacidade de infiltração dos solos e rios assoreados são outros fatores que dificultam as explorações agrícolas aumentando a probabilidade da área aos riscos. O crescimento da agroindústria é igualmente reprimido, haja vista a disponibilidade, apenas sazonal, de matéria-prima (KHAN et al., 2001).
Parte expressiva da população não consegue ter diariamente, acesso a uma alimentação digna, razão pela qual a implantação de projetos hidroagrícolas apresenta-se como importante estratégia para região contribuindo para a redução dos riscos e das vulnerabilidades socioeconômica, tecnológica e ambiental a que as populações do semiárido nordestino estão expostas.
Do exposto, diante as dificuldades de manejo o objetivo do estudo é identificar os indicadores físicos, químicos e biológicos dos Vertissolos existentes no Projeto de Irrigação Várzeas de Sousa, assim como as suas implicações econômicas, sociais e ambientais na região.