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Espa¸ cos e Subespa¸ cos Vectoriais

No documento Sebenta Alga (páginas 43-69)

Denote-se por R3 o espa¸co tridimensional. Neste espa¸co ´e poss´ıvel cons- truir uma correspondˆencia entre pontos e vectores, desde que se considere um determinado ponto, O, como sendo a origem. Com efeito, a qualquer ponto P de R3 pode fazer-se corresponder o vectorOP , com origem em O e

extremidade em P . Neste conjunto, ´e poss´ıvel considerar as opera¸c˜oes usuais de adi¸c˜ao entre vectores e multiplica¸c˜ao de um escalar real por um vector. Estas opera¸c˜oes satisfazem as propriedades usuais de associatividade, co- mutatividade, distributividade, existˆencia de oposto, etc. A no¸c˜ao de espa¸co vectorial que se introduz neste cap´ıtulo generaliza este conceito e engloba, por exemplo, espa¸cos vectoriais n-dimensionais, entre outros.

3.1

Defini¸c˜ao e propriedades

Toda a fun¸c˜ao f : A × A → A, onde A ´e um conjunto, n˜ao vazio, designa- se opera¸c˜ao bin´aria em A. Alguns exemplos de opera¸c˜oes bin´arias s˜ao: a adi¸c˜ao usual de dois n´umeros reais, visto que ´e uma opera¸c˜ao que transforma o par de n´umero reais (a, b) no n´umero real a + b, a multiplica¸c˜ao usual de dois n´umeros naturais, porque transforma o par de n´umeros naturais (a, b) no n´umero natural ab, . . ..

Defini¸c˜ao 3.1.1 Seja K um conjunto no qual estejam definidas duas opera¸c˜oes: uma opera¸c˜ao bin´aria, designada por “adi¸c˜ao” e uma opera¸c˜ao “multiplica¸c˜ao

escalar”, representadas pela simbologia usual. Diz-se que K, com essas opera¸c˜oes, constitui um corpo se se verificam as condi¸c˜oes seguintes:

(a) Propriedades da adi¸c˜ao:

(i) K ´e fechado para a adi¸c˜ao 1;

(ii) Propriedade Comutativa: α + β = β + α, α, β ∈ K;

(iii) Propriedade Associativa: (α + β) + γ = α + (β + γ), α, β, γ ∈ K; (iv) Existˆencia de Elemento neutro: ∃0K ∈ K, tal que 0K + α = α,

α ∈ K;

(v) Existˆencia de oposto: ∀α ∈ K, ∃ − α ∈ K, tal que α + (−α) = 0K;

(b) Propriedades da multiplica¸c˜ao:

(i) K ´e fechado para a multiplica¸c˜ao escalar 2; (ii) Propriedade Comutativa: α · β = β · α, α, β ∈ K;

(iii) Propriedade Associativa: (α · β) · γ = α · (β · γ), α, β, γ ∈ K; (iv) Existˆencia de Elemento neutro: ∃1K ∈ K, tal que 1K · α = α,

α ∈ K; (v) Existˆ

1K;

(vi) Propriedade distributiva da multiplica¸c˜ao sobre a adi¸c˜ao (α + β) · γ = α · γ + β · γ

Entre os exemplos mais habituais de corpos contam-se o conjunto dos n´umeros reais, R, com as opera¸c˜oes habituais; o conjunto dos n´umeros raci- onais, Q, com as opera¸c˜oes habituais; o conjunto dos n´umeros complexos, C, com as opera¸c˜oes habituais3.

1Este conceito ser´a definido a seguir 2Este conceito ser´a definido a seguir

3Os n´umeros complexos apareceram como uma extens˜ao dos n´umeros reais, o seu con-

junto representa-se por C e define-se como sendo C = {z = a + i b : a, b ∈ R e i2= −1}.

Dados os n´umeros complexos z = a + b i e z0 = a0+ i b0 define-se a adi¸c˜ao como sendo o complexo z + z0 = (a + a0) + i (b + b0) e a multiplica¸c˜ao de um n´umero complexo z = a + i b por outro n´umero complexo α = α1+ i α2, como α · z = (α1a − α2b) + (α1b + α2a)i.

Defini¸c˜ao 3.1.2 Seja K o corpo dos n´umeros reais ou dos n´umeros comple- xos. Um espa¸co vectorial ´e um conjunto V, n˜ao vazio, satisfazendo certas pro- priedades (descritas abaixo), e onde est˜ao definidas duas opera¸c˜oes: “adi¸c˜ao” e “multiplica¸c˜ao escalar”, representadas pela simbologia usual e definidas do modo seguinte: + : V × V −→ V (u, v) ,→ u + v (3.1) e · : K × V −→ V (α, v) ,→ α · v . (3.2)

Diz-se que V ´e fechado para a adi¸c˜ao e fechado para a multiplica¸c˜ao escalar se satisfizer (3.1) e (3.2), respectivamente. Assim, (V, +, ·) ´e um espa¸co vectorial sobre o corpo K se forem v´alidas as seguintes propriedades:

(a) Propriedades da adi¸c˜ao:

(i) V ´e fechado para a adi¸c˜ao;

(ii) Propriedade comutativa: u + v = v + u, u, v ∈ V ;

(iii) Propriedade associativa: (u + v) + w = u + (v + w), u, v, w ∈ V ; (iv) Existˆencia de elemento neutro, ∃0V ∈ V , tal que u + 0V = u,

u ∈ V .

(v) Existˆencia de oposto: ∀u ∈ V , ∃ − u ∈ V , tal que u + (−u) = 0V;

(b) Propriedades da multiplica¸c˜ao:

(i) V ´e fechado para a multiplica¸c˜ao escalar; (ii) α · (u + v) = α · u + α · v, α ∈ K e u, v ∈ V ; (iii) (α + β) · u = α · u + β · u; α, β ∈ K e u ∈ V ;

(iv) (α · β) · u = α · (β · u), α, β ∈ K e u ∈ V ;

(v) 1K · u = u, u ∈ V , onde 1K ´e o elemento neutro para a multi-

plica¸c˜ao em K.

Os elementos de K s˜ao designados escalares e os elementos de V vecto- res. Se K = R ou K = C, ent˜ao V diz-se um espa¸co vectorial real ou um espa¸co vectorial complexo, respectivamente. Quando as opera¸c˜oes “adi¸c˜ao”

e “multiplica¸c˜ao escalar” estiverem subentendidas, para simplificar a lingua- gem, dir-se-´a ”seja V um espa¸co vectorial sobre K“ em vez de ”seja V um espa¸co vectorial definido por (V, +, ·)“.

Doravante, representa-se por 0V e 0 o elemento neutro para a adi¸c˜ao no

espa¸co vectorial V e o elemento neutro para a adi¸c˜ao em K, respectivamente. As demonstra¸c˜oes dos pr´oximos exemplos deixam-se a cargo do leitor. Exemplo. 1. Seja n ∈ N. Mostra-se que (Kn, +, ·) ´e um espa¸co vectorial sobre K, onde Kn representa o conjunto dos n-´uplos com elementos em K,

i.e.,

Kn= {(x1, x2, . . . , xn) : x1, x2, . . . , xn ∈ K}.

As opera¸c˜oes usuais s˜ao definidas por

(x1, x2, . . . , xn) + (y1, y2, . . . , yn) = (x1 + y1, x2+ y2, . . . , xn+ yn)

e

α · (x1, x2, . . . , xn) = (αx1, αx2. . . , αxn).

2. Seja n ∈ N. Mostra-se que (Rn[x], +, ·) ´e um espa¸co vectorial sobre

K, onde Rn[x] representa o conjunto dos polin´omios, na vari´avel x, com

coeficientes em K e que tˆem grau menor ou igual a n, i.e., Rn[x] = {anxn+ . . . + a1x + a0 : a0, a1, . . . , an∈ K}.

Neste caso, as opera¸c˜oes usuais s˜ao definidas por:

(anxn+. . .+a1x+a0)+(bnxn+. . .+b1x+b0) = (an+bn)xn+. . .+(a1+b1)x+(a0+b0)

e

α(anxn+ . . . + a1x + a0) = (αan)xn+ . . . + (αa1)x + (αa0).

3. Mostra-se que (R[x], +, ·) ´e um espa¸co vectorial sobre K, onde R[x] representa o conjunto dos polin´omios de qualquer grau, na vari´avel x, com co- eficientes em K. As opera¸c˜oes usuais neste conjunto s˜ao idˆenticas `as definidas no conjunto Rn[x].

4. Sejam m, n ∈ N. Prova-se que (Mm×n(K), +, ·) ´e um espa¸co vectorial

sobre K, onde Mm×n(K) representa o conjunto constitu´ıdo pelas matrizes

Dadas A = [aij], B = [bij] ∈ Mm×n e α ∈ K, a adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao

escalar s˜ao definidas por

A + B = [aij] + [bij] = [aij + bij]

e

α · A = α[aij] = [αaij],

respectivamente.

4.1 Se m = 2 e n = 1, o conjunto M2×1(K) ´e definido do seguinte

modo: M2×1(K) =  a b  : a, b ∈ K  .

Neste caso, a adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao escalar s˜ao definidas por: A + B = a b  +  c d  = a + c b + d  e α · A = α a b  = αa αb  , respectivamente.

4.2 Se m = 1 e n = 2, o conjunto M1×2(K) ´e definido do seguinte

modo:

M1×2(K) = a b  : a, b ∈ K ,

sendo a adi¸c˜ao e a multiplica¸c˜ao escalar definidas da seguinte forma: A + B = a b  +  c d  =  a + c b + d 

e

α · A = α a b  =  αa αb  , respectivamente.

Teorema 17 Seja V um espa¸co vectorial sobre um corpo K. Ent˜ao, (a) 0 · u = 0V, u ∈ V ;

(b) α · 0V = 0V, α ∈ K;

(d) (α − β) · u = α · u − β · u, α, β ∈ K e u ∈ V ;

Demonstra¸c˜ao. A t´ıtulo exemplificativo, prova-se a al´ınea (a). Note-se que 0 · u + 0 · u + (−(0 · u)) = 0 · u + (−(0 · u)),

onde −(0 · u) ´e o oposto de 0 · u relativamente `a opera¸c˜ao adi¸c˜ao de vectores. Visto que 0 · u + (−(0 · u)) = 0V, obt´em-se 0 · u + 0V = 0V, donde resulta o

pretendido. 

Seja V um espa¸co vectorial sobre um corpo K. Doravante, para simplificar a nota¸c˜ao, escrever-se-´a α u, em vez de α · u, para α ∈ K e u ∈ V .

Defini¸c˜ao 3.1.3 Seja V um espa¸co vectorial sobre um corpo K. Diz-se que V0 ⊆ V ´e um subespa¸co vectorial de V se e s´o se verifica as seguintes condi¸c˜oes:

S1. V0 6= ∅;

S2. u + v ∈ V0, u, v ∈ V0;

S3. αu ∈ V0, α ∈ K e u ∈ V0.

Da defini¸c˜ao anterior, conclui-se facilmente que V0 ⊆ V ´e um subespa¸co vectorial de V se e s´o se verifica as seguintes condi¸c˜oes:

S4. V0 6= ∅;

S5. α u + β v ∈ V0, α, β ∈ K e u, v ∈ V0.

De facto, se V0 satisfaz S2 e S3, ent˜ao tamb´em satisfaz S5. Considere-se,

ent˜ao, u, v ∈ V0. Sabendo que V0 ´e fechado para o produto escalar (S2), vem

que α u, β v ∈ V0, para α, β ∈ K. Por outro lado, uma vez que V0 ´e fechado para a adi¸c˜ao (S1), tem-se que α u + β v ∈ V0, como se queria demonstrar.

´

E curioso referir que se V ´e um espa¸co vectorial sobre um corpo K e V0um subconjunto de V que ´e ainda espa¸co vectorial, considerando as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao escalar que definem V como espa¸co vectorial, ent˜ao V0 ´e um subespa¸co vectorial de V . (Demonstra¸c˜ao deixada a cargo do leitor). Os

subconjuntos de V , {0V} e V designam-se subespa¸cos triviais de V , enquanto

que todos os outros subespa¸cos designam-se subespa¸cos pr´oprios.

Exemplo. 1. Mostra-se que A = {(x, y, z) ∈ R3 : x + y + z = 0} ´e um subespa¸co vectorial real de R3. De facto:

1. A 6= ∅, uma vez que (0, 0, 0) ∈ A, (0 + 0 + 0 = 0).

2. sejam u = (x, y, z) e v = (x0, y0, z0) elementos arbitr´arios de A e α, β ∈ R. Ent˜ao, α u + β v ∈ A, visto que

α u + β v = α (x, y, z) + β (x0, y0, z0)

= (α x + β x0, α y + β y0, α z + β z0) ∈ A. Como u, v ∈ A, vem que

x + y + z = 0 e x0+ y0+ z0 = 0. Logo,

α(x + y + z) = 0 e β(x0 + y0 + z0) = 0, para quaisquer α, β ∈ K. Assim,

(α x + β x0) + (α y + β y0) + (α z + β z0) = α(x + y + z) + β(x0+ y0+ z0) = 0.

2. Prova-se, agora, que S = a b c d  : a + d = 0, a, b, c, d ∈ R  ´

e um subespa¸co vectorial real de M3. De facto:

1. S 6= ∅, uma vez que  0 0 0 0  ∈ S, (a + d = 0 + 0 = 0). 2. sejam A = a b c d  e B = a 0 b0 c0 d0 

elementos arbitr´arios de S e α, β ∈ R. Ent˜ao, α A + β B ∈ S, visto que α A + β B = α a b c d  + β a 0 b0 c0 d0  = α a + β a 0 α b + β b0 α c + β c0 α d + β d0  .

Como A, B ∈ S, vem que

a + d = 0 e a0+ d0 = 0.

Logo,

α(a + d) = 0 e β(a0+ b0) = 0, para quaisquer α, β ∈ K. Assim,

(α a + β a0) + (α d + β d0) = α(a + d) + β(a0+ d0) = 0.

Por vezes torna-se f´acil verificar que um dado conjunto, n˜ao vazio, n˜ao ´e um subespa¸co vectorial. Na verdade, se V0 ´e um subespa¸co vectorial de um espa¸co vectorial V sobre um corpo K, ent˜ao 0V ∈ V0. Efectivamente, seja

u ∈ V0. Pela defini¸c˜ao de subespa¸co vectorial (S2 e S3), tem-se

0V = u − u ∈ V0, u ∈ V0.

Deste modo, se 0V ∈ V/ 0, ent˜ao V0 n˜ao ´e um subespa¸co vectorial de V . Note-

se, no entanto, que o rec´ıproco n˜ao ´e verdadeiro, isto ´e, 0V ∈ V0 n˜ao ´e

garantia de que V0 seja um subespa¸co vectorial de V .

Exemplo. 1. Seja A = {(x, y, z) ∈ R3 : x + y + z = 1}. Note-se que

(0, 0, 0) /∈ A. Deste modo, pode-se concluir que A n˜ao ´e um subespa¸co vectorial de R3. De facto, (1, 0, 0) e (0, 1, 0) s˜ao dois elementos de A, mas

(1, 0, 0) + (0, 1, 0) = (1, 1, 0) /∈ A, uma vez que 1 + 1 + 0 = 2 6= 1.

2. Seja B = {(x, y) ∈ R2 : x ≥ 0 ∧ y ≥ 0}. Note-se que, apesar de (0, 0) ∈ B, B n˜ao ´e um subespa¸co vectorial real de R2. Por exemplo, considere-se u = (1, 2) ∈ B e α = −2 ∈ R. Ent˜ao α u /∈ B, dado que α u = −2(1, 2) = (−2, −4) e −2  0 e −4  0.

Relembram-se, agora, os conceitos de intersec¸c˜ao e reuni˜ao de conjuntos e introduz-se o conceito de soma de conjuntos, visto que ser˜ao usados ao longo deste cap´ıtulo.

Defini¸c˜ao 3.1.4 Seja V um espa¸co vectorial sobre um corpo K e sejam F e G dois subespa¸cos vectoriais de V , ent˜ao

F ∩ G = {u ∈ V : u ∈ F ∧ u ∈ G} F ∪ G = {u ∈ V : u ∈ F ∨ u ∈ G}

F + G = {u ∈ V : ∃a ∈ F, ∃b ∈ G : u = a + b}.

Al´em disso, deixa-se a cargo do leitor a demonstra¸c˜ao do resultado seguinte: Teorema 18 Seja V um espa¸co vectorial sobre um corpo K e sejam F e G dois subespa¸cos vectoriais de V , ent˜ao

1. F ∩ G ´e um subespa¸co vectorial de V , designado subespa¸co intersec¸c˜ao. 2. F + G ´e um subespa¸co vectorial de V , designado subespa¸co soma. 3. F ∪ G ´e um subespa¸co vectorial se e s´o se F ⊆ G ou G ⊆ F .

Exemplo.Considere-se

F = {(x, y, z) ∈ R3 : x = 0} e G = {(x, y, z) ∈ R3 : z = 0}.

Prova-se que F e G s˜ao subespa¸cos vectoriais de R3. No entanto, F ∪ G n˜ao

´

e um subespa¸co vectorial de R3. Efectivamente, F * G e G * F , porque,

por exemplo, (0, 1, 2) ∈ F , mas (0, 1, 2) /∈ G e (1, 2, 0) ∈ G, no entanto (1, 2, 0) /∈ F.

O conjunto

F ∪ G = {(x, y, z) ∈ R3 : x = 0 ∨ z = 0},

n˜ao ´e subespa¸co vectorial de R3, porque, por exemplo (0, 1, 2), (1, 2, 0) ∈

F ∪ G, contudo, (0, 1, 2) + (1, 2, 0) = (1, 3, 2) /∈ F ∪ G.

3.2

Dependˆencia/ independˆencia linear

Defini¸c˜ao 3.2.1 Seja V um espa¸co vectorial sobre um corpo K e considere- se os elementos u1, u2, . . . , un ∈ V . Um elemento v ∈ V diz-se uma com-

bina¸c˜ao linear de u1, u2. . . , un se existirem escalares α1, α2, . . . , αn ∈ K, tal

que

Exemplo.O vector (1, 2) de R2 ´e combina¸c˜ao linear dos vectores (1, −1) e

(0, 1), dado que

(1, 2) = 1(1, −1) + 3(0, 1).

Defini¸c˜ao 3.2.2 Os elementos u1, u2, . . . , un ∈ V dizem-se linearmente in-

dependentes se a ´unica combina¸c˜ao linear nula de u1, u2. . . , un ´e a trivial-

mente nula, ou seja,

α1u1+ α2u2+ . . . + αnun= 0V ⇒ α1 = α2 = · · · = αn= 0.

Caso contr´ario, u1, u2. . . , un dizem-se linearmente dependentes, isto ´e, se

existem escalares αi, i = 1, 2, . . . , n, n˜ao todos nulos, tais que

α1u1+ α2u2+ . . . + αnun= 0V.

Exemplo. 1. Os vectores (1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0) de R3 ao linearmente

independentes. Note-se que

α1(1, 1, 1) + α2(1, 1, 0) + α3(1, 0, 0) = (0, 0, 0)

se e s´o se

(α1+ α2+ α3, α1+ α2, α1) = (0, 0, 0).

Obt´em-se, assim, o seguinte sistema    α1+ α2+ α3 = 0 α1+ α2 = 0 α1 = 0

cuja solu¸c˜ao ´e α1 = α2 = α3 = 0. Deste modo, conclui-se que os vectores s˜ao

linearmente independentes.

2. Os vectores (1, 1, 1), (1, 0, 2), (0, −1, 1) de R3 ao linearmente depen-

dentes, uma vez que

α1(1, 1, 1) + α2(1, 0, 2) + α3(0, −1, 1) = (0, 0, 0)

se e s´o se

de onde se obt´em o seguinte sistema    α1+ α2 = 0 α1− α3 = 0 α1+ 2α2 + α3 = 0 .

A matriz ampliada deste sistema ´e

[A|B] =   1 1 0 | 0 1 0 −1 | 0 1 2 1 | 0  −→L2←L2−L1 L3←L3−L1   1 1 0 | 0 0 −1 −1 | 0 0 1 1 | 0   −−−−−−−−−−→ L3← L3+ L2   1 1 0 | 0 0 −1 −1 | 0 0 0 0 | 0  .

Como car(A) = car(A|B) = 2 < 3 = n´umero de inc´ognitas, o sistema ´e poss´ıvel e indeterminado. Deste modo, conclui-se que os vectores s˜ao linear- mente dependentes, dado que o vector nulo n˜ao ´e o ´unico vector que se pode escrever como uma combina¸c˜ao linear de (1, 1, 1), (1, 0, 2), (0, −1, 1).

Teorema 19 Sejam u1, . . . , un, n ≥ 2, elementos de um espa¸co vectorial V

sobre um corpo K. Ent˜ao os n elementos s˜ao linearmente dependentes se e s´o se for poss´ıvel escrever um dos elementos como combina¸c˜ao linear dos restantes.

Demonstra¸c˜ao. (⇒) Se u1, . . . , un s˜ao linearmente dependentes, existem

escalares αi, i = 1, . . . , n, n˜ao todos nulos, tais que

α1u1+ . . . + αiui+ . . . + αnun = 0V.

Sem perda de generalidade, suponha-se que αi 6= 0. Assim,

αiui = −α1u1− . . . − αi−1ui−1− αi+1ui+1. . . − αnun⇔

⇔ ui = − α1 αi u1− . . . − αi−1 αi ui−1− αi+1 αi ui+1− . . . − αn αi un

e, como tal, ui escreve-se como combina¸c˜ao linear dos restantes elementos.

(⇐) Suponha-se, sem perda de generalidade, que o elemento ui se escreve

como combina¸c˜ao linear dos restantes, ent˜ao, existem escalares, n˜ao todos nulos α1, . . . , αi−1, αi+1, . . . , αn, tais que

isto ´e,

α1u1+ . . . + αi−1ui−1+ ui+ αi+1ui+1. . . + αnun= 0V,

e, por conseguinte, os elementos u1, . . . , un s˜ao linearmente dependentes. 

Exemplo. (⇐) Considerem-se os vectores (1, 1, 1), (1, 0, 2), (0, −1, 1) de R3.

Como (0, −1, 1) se escreve como combina¸c˜ao linear de (1, 1, 1) e (1, 0, 2), dado que

(0, −1, 1) = (1, 0, 2) − (1, 1, 1),

conclui-se, pelo Teorema 19, que os trˆes vectores s˜ao linearmente dependentes (como tamb´em se pode comprovar pelo exemplo anterior).

(⇒) Considerem-se, agora, os vectores (1, 1, 1), (−1, −1, −1) e (0, 0, 1). Apesar dos vectores serem linearmente dependentes (demonstra¸c˜ao a cargo do leitor), o vector (0, 0, 1) n˜ao se pode escrever como combina¸c˜ao linear de (1, 1, 1) e de (−1, −1, −1). Na verdade, se (0, 0, 1) = α1(1, 1, 1) + α2(−1, −1, −1), α1, α2 ∈ R, ent˜ao o sistema    α1− α2 = 0 α1− α2 = 0 α1− α2 = 1

seria imposs´ıvel, dado que a primeira e a terceira condi¸c˜ao n˜ao se podem verificar simultaneamente. Note-se, no entanto, que os vectores (1, 1, 1) e (−1, −1, −1) podem-se escrever como combina¸c˜ao linear dos restantes, dado que

(1, 1, 1) = −1(−1, −1, −1) + 0(0, 0, 1) e

(−1, −1, −1) = −1(1, 1, 1) + 0(0, 0, 1).

Teorema 20 Sejam u1, . . . , un, n ≥ 2, elementos de um espa¸co vectorial V

sobre um corpo K. Ent˜ao se uj = k ui, i 6= j, i, j ∈ {1, . . . , n} e k ∈ K, ent˜ao

os elementos u1, . . . , un s˜ao linearmente dependentes.

Demonstra¸c˜ao. Considere-se, em primeiro lugar, k = 0. Neste caso, uj =

0V, e, portanto, existe αj 6= 0, tal que

concluindo-se, assim, que os elementos u1, . . . , un s˜ao linearmente dependen-

tes.

Suponha-se, agora, que k 6= 0. Ent˜ao existe um escalar αj ∈ K, n˜ao nulo,

tal que

0u1+ . . . − k αjui+ k αjui+ . . . + 0un= 0V,

e, por conseguinte, os elementos s˜ao u1, . . . , uns˜ao linearmente dependentes.

Exemplo. 1. Os vectores (1, 1, 1), (1, 0, 2), (0, 0, 0) de R3 ao linearmente

dependentes, uma vez que

0(1, 1, 1) + 0(1, 0, 2) + 5(0, 0, 0) = (0, 0, 0),

e, por isso, existe uma combina¸c˜ao linear nula de (1, 1, 1), (1, 0, 2), (0, 0, 0) que n˜ao ´e a trivialmente nula.

2. Os vectores (1, 1, 1), (2, 2, 2), (0, 2, 1) de R3 ao linearmente dependen-

tes, uma vez que

−2(1, 1, 1) + (2, 2, 2) + 0(0, 2, 1) = (0, 0, 0).

Teorema 21 Sejam u1, . . . , un, n ≥ 2, elementos de um espa¸co vectorial

V sobre um corpo K. Se u1, . . . , un s˜ao linearmente independentes e se

u1, . . . , un, v s˜ao linearmente dependentes, para um dado v ∈ V , ent˜ao v

escreve-se como combina¸c˜ao linear de u1, . . . , un.

Demonstra¸c˜ao. Considere-se, ent˜ao, que u1, . . . , un s˜ao linearmente in-

dependentes e que u1, . . . , un, v s˜ao linearmente dependentes. Suponha-se,

agora, por redu¸c˜ao ao absurdo, que v n˜ao se escreve como combina¸c˜ao linear de u1, . . . , un. Deste modo, pelo Teorema 19, existe i = 1, . . . , n tal que

ui = α1u1+ . . . + αi−1ui−1+ αi+1ui+1+ . . . + αnun+ αn+1v,

isto ´e,

α1u1+ . . . + αi−1ui−1− ui+ αi+1ui+1+ . . . + αnun+ αn+1v = 0V.

Se αn+1 = 0, ent˜ao

e o i-´esimo escalar ´e αi = −1. Como tal, ´e poss´ıvel escrever 0V como uma

combina¸c˜ao linear n˜ao trivialmente nula de u1, . . . , un, o que contraria a

hip´otese destes elementos serem linearmente independentes. No caso de αn+16= 0, vem v = − α1 αn+1 u1 − . . . − αi−1 αn+1 ui−1+ 1 αn+1 ui− αi+1 αn+1 ui+1− . . . − αn αn+1 un

o que ´e um absurdo, pois est´a-se a supor que v n˜ao se escreve como com- bina¸c˜ao linear de u1, . . . , un. Por conseguinte, v ter´a de ser combina¸c˜ao linear

de u1, . . . , un. 

Exemplo.Considerem-se os vectores (1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0) de R3, que se

sabe serem linearmente independentes e o vector (1, 3, 4) de R3. Verifica-

se, facilmente, que o vector (1, 3, 4) ´e combina¸c˜ao linear dos trˆes vectores restantes. De facto, existem escalares α1, α2, α3 ∈ R, n˜ao todos nulos, tais

que

(1, 3, 4) = α1(1, 1, 1) + α2(1, 1, 0) + α3(1, 0, 0).

Da igualdade anterior, obt´em-se o seguinte sistema    α1+ α2+ α3 = 1 α1+ α2 = 3 α1 = 4 .

A solu¸c˜ao deste sistema ´e α1 = 4, α2 = −1 e α3 = −2. Deste modo,

(1, 3, 4) = 4(1, 1, 1) − 1(1, 1, 0) − 2(1, 0, 0), isto ´e, (1, 3, 4) ´e combina¸c˜ao linear de (1, 1, 1), (1, 1, 0) e (1, 0, 0).

Teorema 22 Sejam u1, . . . , un, n ≥ 2, elementos de um espa¸co vectorial V

sobre um corpo K. Sejam u1, . . . , up elementos linearmente dependentes de

V . Ent˜ao, os elementos que perten¸cam a qualquer subconjunto finito de V que contenha u1, . . . , up tamb´em s˜ao linearmente dependentes.

Demonstra¸c˜ao. Sem perda de generalidade, considere-se o conjunto cons- titu´ıdo por u1, . . . , up, up+1, . . . , un. Como por hip´otese u1, . . . , up s˜ao linear-

mente dependentes, existem escalares n˜ao todos nulos αi, i = 1, . . . , p, tais

que

A igualdade anterior pode escrever-se de forma equivalente do seguinte modo α1u1+ . . . + αpup + 0up+1+ . . . + 0un= 0V.

Assim, existe uma combina¸c˜ao linear nula de u1, . . . , un que n˜ao ´e a trivial-

mente nula e, portanto, os elementos u1, . . . , ups˜ao linearmente dependentes.

Exemplo. Considere-se os vectores (1, 1, 1), (1, 0, 2), (0, −1, 1) de R3, que se sabe serem linearmente dependentes. Mostra-se que os vectores

(1, 1, 1), (1, 0, 2), (0, −1, 1), (1, 2, 3) ainda s˜ao linearmente dependentes. De facto,

(0, −1, 1) = (1, 0, 2) − (1, 1, 1) + 0(1, 2, 3),

e, por isso, o vector (0, −1, 1) ´e combina¸c˜ao linear dos restantes vectores. Ent˜ao, pelo Teorema 19, conclui-se que os vectores (1, 1, 1), (1, 0, 2), (0, −1, 1), (1, 2, 3) s˜ao linearmente dependentes.

Teorema 23 Sejam u1, . . . , un, n ≥ 2, elementos de um espa¸co vectorial V

sobre um corpo K linearmente independentes. Ent˜ao quaisquer 1 < p < n ele- mentos distintos escolhidos arbitrariamente entre eles ainda s˜ao linearmente independentes.

Demonstra¸c˜ao. Considere-se, sem perda de generalidade, que u1, u2, . . . , up

s˜ao elementos distintos escolhidos aleatoriamente de u1, u2, . . . , une suponha-

se que s˜ao linearmente dependentes. Ent˜ao, pelo Teorema 19, existe um elemento que se escreve como combina¸c˜ao linear dos restantes. Pode supor-se, sem perda de generalidade, que esse elemento ´e u1. Ent˜ao, existem escalares

β2, . . . , βp ∈ K, n˜ao todos nulos, tais que

u1 = β2u2+ . . . + βpup.

Deste modo, tem-se que

u1− β2u2− . . . − βpup+ 0up+1+ . . . + 0un= 0V.

O que ´e um absurdo pois, por hip´otese, u1, u2, . . . , un s˜ao linearmente inde-

pendentes. Assim, conclui-se que os elementos u1, u2, . . . , up s˜ao linearmente

Exemplo. Considere-se os vectores (1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0) de R3, que se

sabe serem linearmente independentes. Os vectores (1, 1, 1), (1, 1, 0) ainda s˜ao linearmente independentes. De facto, da igualdade

α1(1, 1, 1) + α2(1, 1, 0) = (0, 0, 0),

obt´em-se o sistema

   α1+ α2 = 0 α1+ α2 = 0 α1 = 0 , cuja solu¸c˜ao ´e α1 = α2 = 0.

Teorema 24 Sejam u1, . . . , un, n ≥ 2, elementos de um espa¸co vectorial V

sobre um corpo K. Os elementos u1, . . . , un s˜ao linearmente independentes

se e s´o se qualquer combina¸c˜ao linear de u1, . . . , un tem coeficientes ´unicos,

isto ´e,

α1u1+ . . . + αnun= β1u1+ . . . + βnun ⇒ αi = βi, i = 1, . . . , n

Demonstra¸c˜ao. (⇒) Suponha-se que u1, . . . , un s˜ao linearmente indepen-

dentes e que existe uma combina¸c˜ao linear de u1, . . . , un que n˜ao tem coefi-

cientes ´unicos. Seja u ∈ V , tal que existem escalares αi 6= βi, i = 1, . . . , n,

tais que

α1u1+ . . . + αnun = u

e

β1u1. . . + βnun = u.

Das igualdades anteriores, vem

α1u1+ . . . + αnun= β1u1+ . . . + βnun,

o que ´e equivalente,

(α1− β1)u1+ . . . + (αn− βn)un = 0V.

Uma vez que u1, . . . , un s˜ao linearmente independentes, conclui-se que αi =

βi, i = 1, . . . , n, o que ´e um absurdo, pois partiu-se do pressuposto que estes

(⇐) Demonstra-se, agora, o contra-rec´ıproco. Suponha-se que u1, . . . , un

s˜ao linearmente dependentes. Ent˜ao existem escalares αi, i = 1, . . . , n, n˜ao

todos nulos, tais que

α1u1+ . . . + αnun= 0V.

No entanto, ´e imediato que

0u1+ . . . + 0un= 0V,

logo existem duas formas distintas de escrever 0V como combina¸c˜ao linear

de u1, . . . , un. 

De seguida, mostra-se que o estudo da independˆencia/dependˆencia de vec- tores em Rn se pode efectuar com base na resolu¸c˜ao de sistemas de equa¸c˜oes lineares. Na verdade,

Teorema 25 Sejam u1, . . . , un, n ≥ 2, elementos de um espa¸co vectorial V

sobre um corpo K. Os vectores u1, . . . , up ∈ Rn s˜ao linearmente independen-

tes se e s´o se o sistema de equa¸c˜oes lineares Au = 0, onde A ∈ Mn×p ´e a

matriz cujas colunas s˜ao os vectores u1, . . . , up, ´e poss´ıvel e determinado.

Note-se que Au = 0 ´e equivalente a α1u1 + . . . + αpup = 0, com u =

(α1, . . . , αp), αi ∈ R, i = 1, . . . , p. Logo, os vectores u1, . . . , up ∈ Rn s˜ao

linearmente independentes se e s´o se a ´unica solu¸c˜ao de Au = 0 ´e a solu¸c˜ao nula. Assim, o sistema ´e poss´ıvel e determinado.

Teorema 26 Sejam u1, . . . , un, n ≥ 2, elementos de um espa¸co vectorial V

sobre um corpo K. Ent˜ao qualquer conjunto de p vectores em Rn, com p > n,

´

e linearmente dependente.

Considere-se a matriz A ∈ Mn×p cujas colunas s˜ao os p vectores referidos

no Teorema 25. Esta propriedade garante que estes vectores s˜ao linearmente independentes se e s´o se o sistema de equa¸c˜oes lineares Au = 0 ´e poss´ıvel e determinado. Assim, ter-se-ia car(A) = car(A|B) = n´umero de inc´ognitas. Por outro lado, como o n´umero de inc´ognitas ´e p, car(A) tamb´em teria de ser p, o que significa que a matriz em escada de linhas teria p “pivots”, o que ´

Exemplo. 1. Considere-se os vectores de R3 (1, 1, 1), (1, 1, 0). Ent˜ao, a

matriz A ∈ M3×2 definida no Teorema 25 ´e dada por

A =   1 1 1 1 1 0  .

Do sistema Au = 0, obt´em-se

[A|B] =   1 1 | 0 1 1 | 0 1 0 | 0  −→L2←L2−L1 L3←L3−L1   1 1 | 0 0 0 | 0 0 −1 | 0  .

Como car(A) = car(A|B) = 2 = n´umero de inc´ognitas, o sistema ´e poss´ıvel e determinado. Logo, os vectores s˜ao linearmente independentes.

2. Considere-se, agora, os vectores (1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0), (1, 3, 4) de R3. Ent˜ao, como o n´umero de vectores ´e 4,o Teorema 26 permite concluir que os vectores anteriores s˜ao linearmente dependentes.

Com base nos Teoremas 25 e 26, prova-se que (ver [4]) para matrizes m × n em escada de linhas se tem:

Teorema 27 Sejam u1, . . . , un, n ≥ 2, elementos de um espa¸co vectorial V

sobre um corpo K. Ent˜ao

(a) As colunas que contˆem “pivots” s˜ao linearmente independentes em Rn. (b) As linhas n˜ao nulas s˜ao linearmente independentes em Rn.

(c) O n´umero de linhas independentes e o n´umero de colunas independentes s˜ao ambos iguais `a caracter´ıstica da matriz.

Exemplo. Considere-se os vectores (1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0), (1, 3, 4) de R3. Colocando os vectores anteriores por coluna numa matriz A e efectuando a elimina¸c˜ao de Gauss, verifica-se que (1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0) s˜ao vectores linearmente independentes. Na verdade,

A =   1 1 1 1 1 1 0 3 1 0 0 4  .

Ent˜ao, A =   1 1 1 1 1 1 0 3 1 0 0 4  −→L2←L2−L1 L3←L3−L1   1 1 1 1 0 0 −1 2 0 −1 −1 3  −→L2↔L3   1 1 1 1 0 −1 −1 3 0 0 −1 2  .

Deste modo, car(A) = 3. Logo, existem 3 linhas/colunas independentes (Teorema 27 (c)). Assim, existem 3 vectores linearmente independentes que correspondem `as colunas que cont´em “pivots” (Teorema 27 (a)).

3.3

Sistemas de Geradores e Bases

Teorema 28 Seja G um subconjunto, n˜ao vazio, de um espa¸co vectorial V sobre um corpo K. Diz-se que G ´e um conjunto constitu´ıdo por geradores de V ou que G gera V , e denota-se por V = hGi, se qualquer elemento de V se escreve como combina¸c˜ao linear dos elementos de G.

No caso de G ser um conjunto finito, G = {u1, . . . , uk}, ent˜ao escreve-se

V = hGi = hu1, . . . , uki

e diz-se que V ´e um espa¸co vectorial finitamente gerado. Exemplo. Mostra-se, de seguida, que

h(1, 0, 2), (1, 0, 0)i = {(x, y, z) ∈ R3 : y = 0}.

Efectivamente, seja (x, y, z) um elemento gen´erico de R3. Ent˜ao, existem

escalares α1, α2 ∈ R, tais que

(x, y, z) = α1(1, 0, 2) + α2(1, 0, 0), o que ´e equivalente a    α1+ α2 = x 0 = y 2α1 = z ,

cuja solu¸c˜ao ´e α1 = z/2, α2 = x − z/2, quando y = 0. Provou-se, assim, que

s´o existem escalares α1, α2 ∈ R, tais que (x, y, z) = α1(1, 0, 2) + α2(1, 0, 0),

Teorema 29 Seja V um espa¸co vectorial sobre um corpo K, tal que V = hu1, . . . , uni. Se ui ´e linearmente dependente dos restantes, ent˜ao

u1, . . . , ui−1, ui+1, . . . , un

´e ainda um sistema de geradores de V .

Demonstra¸c˜ao. Seja v ∈ V . Como u1, . . . , un geram V , existem escalares

α1, . . . , αn ∈ K, tais que

v = α1u1+ . . . + αiui+ . . . + αnun. (3.3)

Por outro lado, por hip´otese, ui escreve-se como combina¸c˜ao linear dos res-

tantes elementos. Logo, existem escalares β1, . . . , βi−1, βi+1, . . . , βn, tais que

ui = β1u1+ . . . + βi−1ui−1+ βi+1ui+1+ . . . + βnun. (3.4)

Substituindo (3.4) em (3.3), tem-se

v = α1u1+ . . . + αi(β1u1+ . . . + βi−1ui−1+ βi+1ui+1+ . . . + βnun) + . . . + αnun

= (α1+ αiβ1)u1+ . . . + (αi−1+ αiβi−1)ui−1+ (αi+1+ αiβi+1)ui+1+ . . .

+ (αn+ αiβn)un.

Deste modo, v ∈ V ´e combina¸c˜ao linear de u1, . . . , ui−1, ui+1, . . . , un, e, por

conseguinte, u1, . . . , ui−1, ui+1, . . . , un ´e ainda um sistema de geradores de

V . 

Exemplo. Os vectores (1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0), (1, 3, 4) de R3 constituem um conjunto de geradores de R3, uma vez que qualquer elemento de R3 se escreve como combina¸c˜ao linear deste vectores. Seja (x, y, z) ∈ R3, mostra-se

que existem escalares α1, α2, α3, α4 ∈ R, tais que

(x, y, z) = α1(1, 1, 1) + α2(1, 1, 0) + α3(1, 0, 0) + α4(1, 3, 4).

Obt´em-se, assim, o seguinte sistema    α1+ α2+ α3 + α4 = x α1+ α2+ 3α4 = y α1+ 4α4 = z .

A matriz ampliada deste sistema ´e [A|B] =   1 1 1 1 | x 1 1 0 3 | y 1 0 0 4 | z  −→L2←L2−L1 L3←L3−L1   1 1 1 1 | x 0 0 −1 2 | y − x 0 −1 −1 3 | z − x   −−−−−→ L3 ↔ L2   1 1 1 1 | x 0 −1 −1 3 | z − x 0 0 −1 2 | y − x  .

Ent˜ao, car(A) = car(A|B) = 3 < 4 = n´umero de inc´ognitas, logo o sistema ´e poss´ıvel e indeterminado. Por isso, existem escalares α1, α2, α3, α4 ∈ R que

satisfazem

(x, y, z) = α1(1, 1, 1) + α2(1, 1, 0) + α3(1, 0, 0) + α4(1, 3, 4).

Logo, R3 = h(1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0), (1, 3, 4)i.

Sabe-se que o vector (1, 3, 4) ´e combina¸c˜ao linear de (1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0). Ent˜ao, prova-se de seguida que estes vectores ainda formam um conjunto de geradores de R3. Seja (x, y, z) ∈ R3, mostra-se que existem escalares

α1, α2, α3 ∈ R, tais que

(x, y, z) = α1(1, 1, 1) + α2(1, 1, 0) + α3(1, 0, 0).

De modo an´alogo ao anterior, obt´em-se o seguinte sistema    α1+ α2+ α3 = x α1+ α2 = y α1 = z ,

cuja solu¸c˜ao ´e (z, y − z, x − y). Logo, existem escalares α1 = z, α2 = y − z e

α3 = x − y que satisfazem

(x, y, z) = z(1, 1, 1) + (y − z)(1, 1, 0) + (x − y)(1, 0, 0) e, por isso, R3 = h(1, 1, 1), (1, 1, 0), (1, 0, 0)i.

Defini¸c˜ao 3.3.1 Considere-se V um espa¸co vectorial finitamente gerado so- bre um corpo K. Chama-se base de V a qualquer sequˆencia de elementos de V linearmente independentes e que geram V . O n´umero de elementos de uma base de V designa-se dimens˜ao de V e denota-se por dim V .

Note-se que qualquer espa¸co vectorial V sobre um corpo K pode ter um n´umero infinito de bases, no entanto todas as bases tˆem o mesmo n´umero de elementos. Al´em disso, como na defini¸c˜ao de base ´e referida a no¸c˜ao de sequˆencia de elementos de V , a ordem pela qual os elementos aparecem na

No documento Sebenta Alga (páginas 43-69)

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