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3. TRAJETÓRIA, IDENTIDADE E PROJETO DOS MOVIMENTOS SOCIAIS

3.5. ESPECIFICIDADES DA TRAJETÓRIA, IDENTIDADE E PROJETO DOS

Inicialmente cabe reconhecer a consistência de algumas mobilizações de agricultores no encaminhamento de suas lutas, o que permite considerá-los como “movimentos sociais”. Tal percepção leva a reconhecer deficiências em algumas interpretações teóricas dos movimentos sociais rurais na América Latina e mais especificamente no Brasil. Uma destas interpretações é a de Alain Touraine (1989), que em livro sobre a América Latina (“Palavra e Sangue: política e sociedade na

América Latina”), colocou os camponeses em lugar não muito distante dos “rebeldes

primitivos” de Eric Hobsbawm147. Para a análise de Touraine as lutas camponesas raramente conjugam os três princípios (identidade, opositor e projeto) fundamentais à constituição de verdadeiros movimentos sociais. Dessa forma, segundo sua análise, na AL existem três principais tipos de lutas camponesas que só chegam a alcançar dois destes princípios fundamentais. São elas:

a) lutas camponesas que definem seus interesses, porém em forma de defesa comunitária, que se mobilizam contra inimigos de difícil determinação;

b) lutas contra processos de mudança ou de desenvolvimento que são dominados pelo seu adversário;

c) “lutas camponesas que se aproximam daquelas do sindicalismo operário, quando trabalhadores agrícolas organizam-se para defender seus salários ou suas condições de trabalho” (Touraine, 1989, p. 233). Diante da constatação da fraca intervenção dos camponeses no cenário político Touraine conclui que a grande maioria148 das lutas camponesas da AL subordina-se à intervenção política dos partidos políticos ou do Estado. Em suas palavras referindo-se às lutas camponesas: “Às vezes, um partido político as utiliza para sua estratégia. Muito mais amiúde, é o partido dominante que organiza a mobilização social. E são numerosos os casos em que é o próprio Estado que toma

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Conforme a análise de Hobsbawm (1970), os movimentos camponeses caracterizavam-se como movimentos pré-políticos, pois não alcançavam a organização em classe.

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Para Touraine (1989) os dois únicos movimentos camponeses latino-americanos que reúnem todos os princípios de movimento social são o zapatismo no México (movimento camponês liderado por Emiliano Zapata que é um dos três grupos que dá origem a Revolução Mexicana de 1914) e o movimento camponês boliviano que na década de 40 expulsou os grandes proprietários do vale de Cochabamba e desencadeia a posterior reforma agrária de 1952.

esta iniciativa” (TOURAINE, 1989, p. 267). Com esta subordinação dos movimentos camponeses ou aos partidos dominantes ou ao Estado, o autor reforça sua tese de que na AL o social subordina-se ao político149.

Na análise de Touraine (1989) os movimentos camponeses brasileiros como as Ligas Camponesas brasileiras, a ULTAB, o MASTER, entre outros, que se desenvolveram entre as décadas de 50 e 60, não constituem verdadeiros

movimentos sociais150. Tomando-se o caso das Ligas Camponesas, segundo a

análise de Touraine, a constituição deste movimento se dá a partir de pequenos proprietários e minifundiários e não por assalariados agrícolas que poderiam ser sindicalizados e desenvolverem consciência de classe. Em função de sua situação social, estes “pequenos camponeses não chegam a se constituir como ator social autônomo” (1989, p. 238), com capacidade de interferir no sistema de ação histórica e disputar com um adversário as orientações gerais da sociedade. Ou seja, não chegam a formar um verdadeiro movimento social.

Apoiando-se em autores que trabalharam com a temática dos movimentos sociais rurais no Brasil (MARTINS, 1983; MEDEIROS, 1989; AUED, 2002; entre outros) pode-se identificar nestes movimentos camponeses citados a conjugação de elementos que caracterizam a constituição de movimentos sociais e, inclusive atribuir a eles o mérito de terem conseguido unificar as lutas dos camponeses (classe) em escala regional e nacional, pela primeira vez na história do Brasil. As Ligas Camponesas foram um dos exemplos de maior capacidade de aglutinação camponesa e de disputa de orientações gerais da sociedade com os latifundiários. A envergadura do projeto que as Ligas construíam e a delimitação de atores sociais se debatendo pode ser observada no fragmento do livro “Que são as Ligas

Camponesas” (de Francisco Julião):

A reforma agrária pela qual lutamos tem como objetivo fundamental a completa liquidação do monopólio da terra exercido pelo latifúndio, sustentáculo das relações anti-econômicas e anti-sociais que predominam

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Em sua análise reconhece que há longa data verifica-se a subordinação dos interesses sociais às mazelas dos sistemas políticos, a exemplo do coronelismo, assistencialismo, populismo, entre outras formas de exercer poder (TOURAINE, 1989).

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Ainda, nesse mesmo sentido, Touraine faz uma afirmação categórica ao concluir o capítulo “As Lutas Camponesas” na América Latina: “Os movimentos camponeses não ocupam senão um lugar reduzido na América Latina, mais reduzido, em todo caso, do que aquele que lhes atribui o imaginário dos países industrializados, prontos demais a ver, na América Latina, somente servos miseráveis e os

hacendados ou proprietários da casa grande que os dominam. A América Latina não foi e não será o continente das revoluções camponesas.” (TOURAINE, 1989, p. 268) (Grifos nossos).

no campo e que são o principal entrave ao livre e próspero desenvolvimento agrário do país (JULIÃO, 1962 apud AUED, 2002, p. 79). Através desta passagem de uma obra que foi considerada o manual151 das Ligas Camponesas do Brasil, pode-se perceber que existia uma clara delimitação de adversários sociais que disputavam o espaço agrário e a forma do desenvolvimento da sociedade (ou do sistema de ação histórica, para usar um termo de Touraine). Ou seja, pode-se identificar a identidade do movimento (camponês), o adversário (latifundiários) e uma visão de totalidade, um projeto (“livre e próspero desenvolvimento agrário do país”). Dessa forma, pode-se perceber que as Ligas Camponesas constituíram um movimento social pelo próprio conceito de Touraine.

Os processo de surgimento de “novos” movimentos sociais rurais no Brasil (final dos anos 70 e início dos anos 80) não são analisados por Touraine (1989). Estes movimentos ao retomarem a organização dos “pobres” do campo e a luta pela terra, contrapondo-se aos latifundiários e por lutarem pela redemocratização da sociedade e pela ampliação dos espaços de cidadania, contrapondo-se aos governos autoritários, deram novo impulso às possibilidades de disputa dos rumos do desenvolvimento da sociedade.

Salienta-se que os “novos” movimentos sociais não surgem sob a “batuta” dos partidos políticos, mas como partes integrantes e constituintes de um mesmo projeto de libertação da classe trabalhadora ou do “povo pobre”. Nesta nova conformação dos atores sociais aparece uma relação que se conforma mais no diálogo e na complementaridade, do que no utilitarismo por parte do partido da classe (PT) sobre os movimentos sociais. Ou seja, esta nova conformação distancia- se substancialmente da análise que Touraine (1989) faz dos movimentos sociais latino-americanos. No que concerne à relação com o Estado, estes atores populares procuram manter autonomia, mas sempre buscando interferir nas possibilidades de democratização das esferas públicas. Recentemente alguns destes atores têm mantido relações próximas aos governos chamados de “populares”.

Um fator importante a ser observado é se (ao contrário do que pregam as teorias dos novos movimentos sociais, na América Latina e, mais especificamente no Brasil) os movimentos sociais rurais atuam prioritariamente no “conflito central” da

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Clodomir Morais, que foi militante das Ligas Camponesas de Pernambuco, em texto sobre as Ligas afirma que o livro Que são as Ligas Camponesas? era uma espécie de manual das Ligas (MORAIS, 2002).

sociedade: o conflito cultural152. Os movimentos rurais têm procurado conjugar a luta pela garantia das condições objetivas de reprodução social das suas bases, com a luta pela mudança dos valores culturais e das instituições. Em outras palavras, pode- se dizer que, diante da dificuldade de reprodução socioeconômica dos pobres do campo os movimentos têm primado pela luta tanto ao nível do acesso às condições materiais à reprodução social (terra, trabalho, crédito subsidiado, moradia, etc.), quanto pela transformação das instituições e dos significados culturais (participação, cidadania, democracia de base, respeito às diferenças, afirmação dos discriminados, etc.). Assim, acredita-se que se pode afirmar que os movimentos sociais rurais no Brasil não têm as características atribuídas pela teoria aos “novos movimentos sociais”, mas ao contrário, parecem ser originais em suas ações, que combinam a

luta material com a luta cultural.

No entanto, é importante destacar que, recentemente, os movimentos afiliados à Via Campesina têm procurado adequar-se ao padrão de movimentos sociais estabelecido por Castells (2002): mantêm o projeto que requer as transformações materiais (como reforma da estrutura agrária, acesso a crédito, seguro agrícola, entre outros) e incorpora a tática de formação de comunidades de resistência (através da adoção de uma identidade de resistência: camponês; do resgate de materiais culturais camponeses como: a organização comunitária, o conhecimento tradicional camponês nos cultivos e criações, a preservação das sementes, o respeito ao meio ambiente, a harmonia, etc.). Através desta tática, segundo é revelado pelos intelectuais orgânicos desta organização, estaria se gestando um projeto de superação das formas socioeconômicas capitalistas.

Outro elemento que se destaca na análise dos movimentos sociais rurais no Brasil é a permanência das condições objetivas (concentração da terra, opressão, desocupação de força de trabalho, etc.) que se fazem “terreno fértil” para a mobilização de agentes questionadores, propagadores da “contra-ordem”. As ameaças à reprodução social são uma das motivações mais recorrentes na

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Touraine (2003, p. 112) considerou que o conflito central da sociedade atual seria o conflito

cultural, pois identifica que os sujeitos para preservarem-se devem lutar de um lado contra “o triunfo

do mercado e das técnicas” e de outro, “contra os poderes comunitários autoritários”. Já para Castells (2004, p. 169) “[...] os movimentos sociais na era da informação mobilizam-se essencialmente em torno de valores culturais.” A principal luta se dá para mudar os códigos de significados (valores) nas instituições e na ação social.

formação de conflitos153. A manutenção das contradições sociais permite o desenvolvimento de uma situação de permanente “latência” de conflitos e conformação de atores sociais.

Este conjunto de observações aponta para a especificidade dos movimentos analisados e, simultaneamente, para a conveniência da “releitura” da teoria para melhor adequação à diversidade da realidade concreta.

No que se refere aos processos de constituição de identidades, adversários e projetos no setor da “pequena agricultura” brasileira destacam-se algumas fases sínteses: durante as décadas de 50-60 buscou-se a formação de identidades como a de camponês, de “sem-terra” e a de “trabalhador rural” que buscavam dar unidade política à classe. Tinha-se por adversário principal os latifundiários e o projeto almejado era a democratização do acesso a terra e o desenvolvimento autônomo do País. Já com o surgimento dos “novos” movimentos sociais passam a se constituir identidades com funcionalidades específicas, a saber: “sem-terra”, “atingidos por barragens”, mulheres trabalhadoras rurais, pequenos agricultores. Os adversários passam a ser os latifundiários, o sindicalismo “pelego”, o Estado autoritário, as políticas neoliberais, o agronegócio, entre outros. Quanto ao projeto que os movimentos populares têm buscado construir, já se apontou que estes edificam projetos específicos às suas demandas, mas que também estão se esforçado por construir um projeto maior para a transformação de toda a sociedade e que é compartilhado por todos os movimentos. Assim, o mesmo tempo que o projeto geral englobaria as propostas de superação das problemáticas específicas dos movimentos, este também possibilitava uma certa “complementaridade” entre os projetos específicos, na medida que se colocava como o projeto da classe trabalhadora. Esta “complementaridade” dos projetos dos movimentos nos últimos anos tem sido questionada, tendo em vista que as duas grandes organizações de agricultores (originadas dos movimentos populares) tem buscado estabelecer

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Faz-se fator importante na formação de atores políticos questionadores da ordem estabelecida a situação de falta de condições de reprodução social. Aconteceu isso com os camponeses e sem- terras nas décadas de 50-60 quando estes se mobilizaram principalmente na região Nordeste e no Rio Grande do Sul, tendo em vista as mudanças nas relações de trabalho que expulsavam os camponeses e a falta de novas “terras virgens” que limitavam a reprodução social dos colonos e cablocos no RS. Esta situação, também, foi a motivadora dos conflitos que deram origem aos “novos” movimentos sociais rurais nas décadas de 70-80, principalmente nas regiões Sul, Sudestes e Centro- Oeste. Os novos sem-terra buscaram lutar por terra pois não a possuíam, os “atingidos por barragem” lutavam para conseguirem nova terra, já os “pequenos agricultores” mobilizavam-se para conseguirem alternativas de persistir na atividade agropecuária.

disputas tanto pela legitimidade de representação política do setor, quanto dos projetos societais.

Quanto ao potencial transformador dos movimentos sociais rurais brasileiros, deve-se reconhecer que, principalmente, os “novos” movimentos vêm intervindo na conformação de ambientes institucionais mais democráticos; têm possibilitado o aumento das políticas públicas aos “pobres do campo”; têm formado identidades políticas fortes e estruturam projetos de futuro (tanto de transformação das condições materiais, quanto dos valores). Mas, quando se acura a análise percebe-se que existem diferenças substanciais quanto ao potencial de cada ator social e as articulações entre atores. Estas diferenças são marcadas, notadamente, pelas estratégias de construção dos projetos. Enquanto alguns movimentos (os da Via Campesina) têm priorizado o enfrentamento às instituições e a ordem estabelecida, visando privá-las de legitimidade e construir novas formas socioeconômicas descomprometidas com as atuais, outros atores sociais (como os identificados com a FETRAF) têm buscado contribuir para a alteração das instituições existentes, visando, fundamentalmente, democratizá-las e adequá-las às suas pretensões154.

Os “novos” movimentos rurais brasileiros, inicialmente, buscaram construir coordenadamente ações por fora da institucionalidade, pois buscavam a transformação das instituições existentes. Já, posteriormente, as estratégias de relação com a institucionalidade diferenciam-se segundo as particularidades dos movimentos. Enquanto alguns movimentos mantêm a estratégia da transformação da estrutura social (como a Via Campesina), outros optaram pela conjugação da via da transformação com a inserção nos aparelhos estatais relativamente democratizados (como a FETRAF). Dessa forma, estes últimos movimentos têm buscado agir dentro da institucionalidade estabelecida, ao passo que também atuam por fora (notadamente quando necessário).

Esta opção de alguns atores por agir segundo os preceitos da institucionalidade estabelecida tem provocado contradições nas bases dos movimentos sociais. Citou-se, neste trabalho, a formação do MPA como reflexo destas contradições ocasionadas pela priorização da ação institucional em detrimento de ações “não-institucionais”. Uma parte da base do sindicalismo cutista

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Em função disso, também têm buscado questionar a ordem estabelecida, nos aspectos que lhes interessam.

rompeu com a perspectiva sindical, vindo a formar o MPA, justamente pela forma excessivamente institucional de encaminhar as reivindicações. Optou por privilegiar a “luta direta” dos próprios agricultores, não valorizando a intervenção junto aos canais institucionais.