2. ELEMENTOS TEÓRICOS SOBRE MOVIMENTOS SOCIAIS
2.3. INTERFACES E DIVERGÊNCIAS ENTRE CONCEPÇÕES E SUAS
Neste Capítulo, buscou-se identificar as principais abordagens teóricas e concepções sobre os movimentos sociais. Segundo o modelo clássico, os movimentos sociais foram vistos como mobilização de massas humanas ávidas por mudança social e pelo estabelecimento da Revolução. Estas massas mobilizavam- se nos momentos em que as condições objetivas (materiais) fossem propícias, ou seja, em períodos de crises do capitalismo ou de grandes setores da economia. No entanto, considerava-se que estas mobilizações por si sós não poderiam alcançar um nível organizacional e de consciência de classe que as pudesse libertar, pois seria necessário trabalhar as condições subjetivas para que fosse possível construir a Revolução. Neste aspecto, entrava o papel das vanguardas esclarecidas da classe proletária, que atuavam profissionalmente no partido da classe (comunista, social- democrata, trabalhista ou socialista). As vanguardas e os partidos criariam as condições subjetivas da mobilização. Ou seja, estes “eram a consciência do movimento” e lhes estava incumbida a tarefa de conduzir as massas à realização da Revolução e de, posteriormente, trabalhar os aspectos relativos ao desenvolvimento humano (cultura, educação, consciência, etc.).
Esta forma de conceber os movimentos sociais, conhecida como modelo
clássico, perdeu, nos tempos atuais, em grande medida, sua aplicabilidade teórica e
prática. A partir dos anos 70, começaram a se fazer fortes questionamentos a este modelo e novas interpretações aos fenômenos sociais surgiram. Segundo Gohn (2000) principalmente na Europa, passaram a ser produzidas novas abordagens que remetiam, fundamentalmente, a novas dimensões da mobilização dos atores sociais e a novas formas de luta que surgiam no período. Assim, passavam a ser observados os elementos culturais, a solidariedade, as lutas sociais cotidianas, os processos de identidades gerados, etc. Diversos autores identificam que este processo resulta na emergência de um “novo paradigma”, que passa a ser denominado como: “Novos Movimentos Sociais”.
Dentre os principais autores, que têm sido considerados fundadores das abordagens contemporâneas dos movimentos sociais, são destacados, neste trabalho, Touraine, Castells e Melucci. Embora estes se refiram aos movimentos sociais a partir de critérios semelhantes, há divergências substantivas entre Touraine e Castells e destes com relação a Melucci.
Quanto à formação do movimento, segundo o entendimento de Touraine, o que motiva o surgimento de um movimento social “são os interesses opostos” entre diferentes atores sociais que lutam pelo controle das orientações gerais da sociedade (rumos do desenvolvimento e a organização da cultura). Para Melucci, são “atores opostos que lutam pelos mesmos recursos” e que com o estabelecimento desta disputa, rompem os limites do sistema existente. Já segundo a concepção de Castells, a formação de movimentos sociais se dá no rompimento de sujeitos locais ou específicos com as redes gerais de dominação e poder, sendo que esse rompimento se dá através da afirmação de identidades primárias (religiosas, étnicas, territoriais, nacionais, etc.), que resultam na construção de comunidades de resistência.
Os diferentes autores entendem que para a constituição de um movimento devem se estabelecer relações fortes entre os atores. Touraine e Castells remetem à noção de formação de identidade coletiva, enquanto Melucci, adotando uma posição mais branda, refere-se à necessidade de relações de solidariedade. O fenômeno de construção de identidades coletivas para Melucci, processa-se através do fortalecimento das relações de solidariedade entre os membros do grupo. Castells apresenta uma noção mais ampla do processo de formação de identidades nas
sociedades contemporâneas. Para este último, as identidades sociais têm funcionalidades específicas e são criadas com base em materiais culturais, produzindo novos significados ou resgatando antigos, visando ações ou reações na sociedade em rede. Já Touraine, em seus trabalhos iniciais, tendia a enfatizar questões de semelhanças nas condições objetivas dos atores que iriam se incorporar em movimentos (identidade de classe), enquanto, em seus trabalhos recentes, procura tratar com mais cautela a questão. Tem enfocado, principalmente, a questão da identificação para a formação dos sujeitos (coletivos), mas também manifesta certo desacordo com a negação dos “diferentes” para afirmação dos “iguais”. Assim, nos trabalhos mais recentes, Touraine adverte que a mobilização de identidades coletivas pode recair em uma grande cilada, tendo em vista as possibilidades de formação do comunitarismo (comunidades fechadas em si mesmas). Neste ponto, fica evidente uma diferença significativa entre a concepção de Touraine e a de Castells. Enquanto Castells visualiza na construção de
comunidades de resistência a formação de sujeitos potenciais para produção de
novos códigos culturais e novas estruturas sociais, Touraine identifica uma grande “armadilha” na constituição destas comunidades, pois estas dificultariam as possibilidades de manifestação dos sujeitos livres e democráticos.
Com relação ao projeto46 do movimento social, observam-se algumas diferenças de concepções entre os autores trabalhados. Touraine, em seus trabalhos iniciais, atribuía à disputa com um adversário social pela direção do desenvolvimento da sociedade a grande tarefa do movimento social, mas em seus trabalhos mais recentes vem estabelecendo que, além da disputa pelo desenvolvimento, este deve propiciar as condições necessárias para a manifestação dos sujeitos. Melucci atenta para a capacidade que os movimentos sociais têm de afetar os códigos culturais e os sistemas simbólicos dominantes, além de produzirem influências no sistema político, nas instituições e nos modelos organizacionais. Ou seja, para Melucci, essencialmente os movimentos contribuem para a “renovação” da sociedade. Para Castells, a construção do projeto societal está intimamente relacionada ao processo de formação da identidade do movimento. Se o movimento
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Touraine (1977) construiu uma tipologia de análise dos movimentos sociais (apresentada na parte relativa a este autor) e esta tipologia foi adaptada por Castells (2002). Segundo a adaptação de Castells, para análise dos movimentos sociais contemporâneos deve-se atentar a três elementos fundamentais, a saber: a identidade, o adversário e a meta-societal ou o projeto. Para este trabalho se utilizará o termo projeto para designar a proposição social dos movimentos.
só constrói identidade de resistência – para garantir a existência de um grupo específico – poderá ficar preso somente às garantias de sobrevivência dos indivíduos, mas se este conseguir construir um projeto para um novo sujeito atuar, este projeto poderá ser expandido para toda a sociedade. Assim, o projeto refere-se à visão do movimento sobre ordem ou organização social que almeja construir no horizonte histórico da ação coletiva que promove. É o objetivo que almeja alcançar.
No que se refere às possibilidades de transformação social nos tempos atuais, os autores tratados também se diferenciam em alguns pontos. Para Touraine, os agentes “desejáveis” para a transformação social nos tempos atuais seriam os
movimentos societais. Estes teriam a capacidade de conjugarem a luta pela
afirmação de projeto cultural com a mudança dos rumos do desenvolvimento. No entanto, o próprio Touraine advertiu que estes movimentos são de difícil conformação, tendo em vista que estes devem estabelecer a ligação entre “o mundo dos meios e dos fins”47. Para Melucci, a existência de movimentos sociais constituídos por si só já produz alterações nos sistemas, pois estes para existirem necessitam romper os limites do espectro de variações toleradas pelos sistemas, produzindo, assim mudanças culturais, políticas e estruturais. Já para Castells, a mudança social na sociedade em rede requer, em primeiro lugar, a negação das redes de poder dominantes e o estabelecimento de organizações (redes) alternativas baseadas em identidades de resistência; em segundo lugar, estas organizações alternativas, utilizando-se de material cultural ao seu alcance, constroem um projeto societal capaz de instrumentalizar sujeitos e de redefinir sua posição na sociedade e, ao fazê-lo, buscam a transformação de toda a estrutura social48.
As diferentes concepções teóricas trazem, também, importantes implicações metodológicas. Inicialmente, cabe considerar, com Touraine (1977), que “o objeto
da análise sociológica nunca pode ser o próprio movimento social; deve ser o campo de ação histórica, do qual o movimento social é um dos atores”49 (1977, p. 353). Assim, a análise dos movimentos sociais supõe o encontro entre duas ordens separadas de observações: “De um lado, as que tratam das condutas sociais,
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Construir a ações respeitando as possibilidades de manifestação dos sujeitos e ao mesmo tempo questionar as orientações gerais da sociedade. Ou seja, construir desde sua prática social o projeto que almeja.
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Castells identifica como sujeitos potenciais da atualidade: os Profetas e as redes de mudança
social.
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portanto das orientações dos atores, suas ações e suas reivindicações; de outro lado, as que tratam dos sistemas das relações sociais e econômicas, da natureza da acumulação e da dominação econômica.” (p. 354). Ou seja, torna-se importante “situar” o movimento na conjuntura sócio-econômica em que se realiza.
Quanto à dinâmica de constituição do movimento, para este autor, deve-se
vislumbrar que os movimentos sociais surgem com a ocorrência de conflitos que levam a posições opostas sobre a direção do sistema de ação histórica (desenvolvimento). Deste conflito inicial, o movimento social necessariamente deve gerar: uma identidade, um opositor e intervir no sistema de ação histórica, ou seja, desenvolver uma ação totalizante que vise a um projeto de abrangência e intervenção nos rumos do desenvolvimento da sociedade. Além disso, deve-se verificar se o movimento possui características de um movimento societal (conjuga a intervenção no modelo cultural com a intervenção nos rumos do desenvolvimento).
Estes pressupostos propiciam implicações teóricas e práticas na construção do estudo em questão. De um lado, requerem a montagem completa do campo de
ação histórica (o conjunto das disputas culturais, políticas e econômicas do período
em análise) em que o movimento está intervindo; assim, entende como fundamental desvendar qual é a identidade que mobiliza os membros do movimento, o opositor ao qual se contrapõe na disputa dos rumos do desenvolvimento e o projeto (a proposição social, a ação totalizante) que o movimento é portador. De outro lado, coloca que é necessário desvendar se o movimento possui características potenciais de um verdadeiro movimento social (movimento societal), ou seja, se este é dotado simultaneamente de um questionamento do modelo cultural e do modelo de desenvolvimento e consegue conjugar a prática social ao projeto de transformação (mundo dos meios e dos fins).
Diante destas implicações, avalia-se que a adoção do referencial teórico- metodológico de Touraine requer uma “engenharia” demasiado complexificada e, em certo sentido, até idealizadora da investigação social (que se perde na busca de movimentos sociais puros, com práticas dignificantes, ação social modernizante, buscando tanto o desenvolvimento pleno do Sujeito quanto da coletividade). Considera-se que esta busca do ator social ideal está um pouco distante das complexas teias de interesses e contradições inerentes às organizações sociais contemporâneas. Múltiplas faces podem aparecer na construção das identidades sociais que visem à ação política tanto nas reivindicações de apoio estatal à
realização de projetos modernizantes, quanto na construção de resistências em um sistema de ação desfavorável. Em suma, a busca por verdadeiros movimentos
sociais parece reduzir as ações coletivas à busca de realização de projetos
macroestruturais (totalizantes), empobrecendo a originalidade das experiências de organização e ação coletivas ao nível local. Entende-se que as ações locais podem possuir grande capacidade de transformação dos elementos materiais e das orientações culturais, o que é pouco valorizado por Touraine.
Castells dialoga com estas categorias apresentadas anteriormente e parece apontar alguns avanços nestas limitações destacadas. Castells (2002) apresenta seus pressupostos metodológicos à análise de movimentos sociais em três pontos fundamentais, conforme expostos a seguir:
a) o movimento social deverá ser entendido em seus próprios termos, ou seja, ele será o que diz ser;
b) o movimento social pode ser conservador, revolucionário, ambas as coisas, ou nenhuma delas. Pois, “não existe uma direção predeterminada no fenômeno da evolução social, e [...] o único sentido da história é a história que nos faz sentido” (2002, p.95);
c) Castells articula uma definição de movimento social fundamentada nos três princípios clássicos de Touraine: a identidade, que se refere à autodefinição do movimento, sobre o que ele é e em nome de quem se pronuncia. O adversário que se refere ao principal inimigo do movimento, conforme é declarado pelo próprio. E, a
meta societal (também chamada de projeto ou objetivo do movimento) que se refere
à visão do movimento sobre a ordem ou organização social que almeja construir coletivamente.
Observa-se, de imediato, que a interpretação dos três princípios de Touraine sofre algumas adaptações. Uma primeira adaptação ocorre no que diz respeito à adoção da autodefinição do movimento. Enquanto, para Touraine, o movimento deve ser interpretado (desvendado) acerca dos atores, potenciais e limites que carrega, para Castells, ele se autodefine por conta própria e esta autodefinição tem significados próprios (é produção de significados culturais do movimento), que o pesquisador deve considerar para entender suas ações criadoras. O mesmo procedimento deve ocorrer com o adversário, é o movimento que declara quem é seu inimigo, contra quem ou o que luta. Uma terceira diferença, colocada nesta adaptação dos princípios de Touraine, se refere à “dimensão” da meta societal do
movimento, enquanto para Touraine o movimento deve disputar os rumos do desenvolvimento, Castells limita-se a exigir deste um objetivo, um projeto ou uma visão sobre ordem ou organização social que almeja construir. Ou seja, enquanto Touraine exige envolvimento na disputa das orientações gerais da sociedade, a Castells basta simplesmente o envolvimento em disputas locais ou parciais. No entanto, estas disputas, para este último, podem vir a ter significados totalizantes na produção de novos códigos culturais (as ações macros são resultados que podem ou não decorrer da ação local) como resultado da realização de projetos de identidade que são expandidos para toda a sociedade.
Outra diferença significativa entre a abordagem de Touraine e a proposta por Castells, refere-se às ações coletivas que podem ser consideradas “movimentos sociais”. Enquanto na visão do primeiro, para ser originado um movimento social o ator social deve inserir-se em um conflito pela direção das grandes orientações sociais e culturais visando à modernização (desenvolvimento), para o segundo, a forma da ação coletiva pode ser variada, desde que esta transforme os valores e instituições da sociedade, sem uma obrigatoriedade de direção histórica predeterminada. Ou seja, para Castells, diferentemente de Touraine, não existe uma obrigatoriedade do ator social envolver-se em ações de cunho modernizante. Este pode envolver-se em ações até mesmo contrárias à modernização e ainda assim ser considerado movimento social, pois o que é exigido é que ele transforme os valores
e as instituições sociais.
Diante destes limites impostos pelo arcabouço teórico-metodológico de Touraine e as adaptações que Castells fez desta teoria, entende-se que este último pode trazer maiores contribuições para a interpretação do movimento de agricultores em Constantina. Assim, segundo as palavras de Castells (2002, p. 28): “A análise dos processos, condições e resultados da transformação da resistência comunal em sujeitos transformacionais é o terreno ideal para o desenvolvimento de uma teoria da transformação social na era da informação.”