3 DO SISTEMA DE REGISTRO DE PREÇOS
3.1 NOÇÕES GERAIS – CONCEITO E CARACTERÍSTICAS FUNDAMENTAIS,
3.1.3 Especificidades do SRP – Vantagens e Desvantagens
Como todo processo de aquisição ou contratação no campo da Administração Pública, na qual é obrigatória a obediência às normas legais e aos princípios constitucionais e do ramo do direito administrativo, o SRP apresenta especificidades que se materializam nas vantagens e desvantagens de sua operacionalização, pois tal sistema implica, ao poder público, em significativa mudança da cultura organizacional, uma vez que seus gestores há muito estavam acostumados a processos de trabalho incorporados à sistemática das licitações tradicionais.
Primeiramente tratar-se-á das vantagens e, em seguida, das desvantagens dispostas na doutrina, a fim de aperfeiçoar o presente estudo e, consequentemente, melhorar a compreensão do referido sistema.
3.1.3.1 Vantagens do SRP
125 NASCIMENTO, Elyesley Silva do. Curso de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Impetus, 2013, p.
505-508.
126 O pregão presencial é regido pela Lei nº 10.250/2002 e pelo Decreto nº 3.555/2000, enquanto o pregão eletrônico é disciplinado pelo Decreto nº 5.450/2005.
A doutrina administrativista elenca as vantagens na utilização do SRP pelos órgãos e entidades da Administração Pública em número bastante superior às desvantagens. Diante disso, percebe-se que o procedimento ganhou aceitação na esfera pública, em especial dos gestores envolvidos na área de licitações, que passaram a utilizar o sistema com maior frequência, afinal “[...] ao absorver paulatinamente o esforço normativo e jurisprudencial, bem como o total apoiamento doutrinário, o sistema de registro de preços aos poucos transpõe as eventuais dificuldades e atinge certo grau de consolidação [...]”127
As vantagens mais significativas elencadas pela doutrina e por estudiosos da área128estão fundamentadas nos princípios da economicidade, da eficiência e da padronização. Para melhor compreensão, optar-se-á por elencá-las separadamente, subdivididas em vantagens para a Administração e vantagens para os fornecedores:
3.1.3.1.1 Vantagens para a Administração
A justificativa para adoção do SRP, em linhas gerais, está intimamente ligada à caracterização da vantagem econômica centrada nas características do objeto, o que reflete em outras vantagens para a Administração.129
Entre as inúmeras vantagens apontadas pela doutrina, válido elencar: a) supressão da multiplicidade de licitações contínuas e seguidas que versem sobre objetos semelhantes e homogêneos, ou seja, com uma única licitação é possível realizar compras e contratações para um ano inteiro; b) rapidez na contratação, redução da burocracia e otimização dos gastos, tendo em vista que os itens já estão registrados, bastando contratá-los, caso necessário; c) viabilidade de manutenção da validade das propostas por até um ano (prazo máximo de vigência da ata, conforme art. 15, § 3º, da Lei 8.666/93) enquanto nas licitações comuns o proponente tem que manter as propostas por apenas dois meses (art. 64, § 3º, da Lei 8.666/93); d) possibilidade de se proceder à estimativa de quantidades mínimas e máximas, sem obrigação de contratar, pois não há obrigatoriedade na compra; e) possibilidade de se
127 MOTTA, Carlos Pinto Coelho. Eficácia nas Licitações e Contratos. 12. ed. rev. e atual. Belo Horizonte: Del
Rey, 2011, p. 232.
128 NASCIMENTO, Elyesley Silva do. Curso de Direito Administrativo. Rio de Janeiro: Impetus, 2013, p.
570.
JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos. 15. ed. São Paulo: Dialética, 2012, p. 219-221.
FERNANDES, Jorge Ulisses Jacoby. Sistema de Registro de Preços e Pregão Presencial e Eletrônico. 3. ed. rev. atual. e ampl. Belo Horizonte: Fórum, 2009, p. 87-96.
MEIRELLES, Hely Lopes. Licitação e Contrato Administrativo. 15. ed. atual. São Paulo: Malheiros, 2010, p. 85.
MORAES, Norton A. F. Do sistema de registro de preços. Disponível em: <http://www.norton.adv.br/livro.htm>. Acesso em 29 set. 2013.
129 BITTENCOURT, Sidney. Licitação de Registro de Preços: comentários ao Decreto nº 7.392, de 23 de
realizar compras autônomas por órgãos ou entidades diferentes, todas vinculadas a um mesmo registro de preços, obtido por uma única licitação – o que proporciona, inclusive, economia de recursos com publicações; f) redução do volume de estoques e dos custos operacionais decorrentes da estocagem, pois somente se adquire à medida da necessidade, ou seja, se evita desperdício de material deteriorado e não se ocupa espaço útil; g) eliminação do fracionamento de despesas, pois através do SRP se torna possível fazer ampla concorrência ou pregão de tudo o que se deseja adquirir no exercício; h) desnecessidade de dotação orçamentária prévia, pois, ao contrário da licitação convencional, o SRP não obriga a Administração – o que propicia que os recursos disponíveis podem ser direcionados a outras necessidades imediatas; i) atendimento célere de demandas imprevisíveis e; j) monitoramento constante dos preços praticados conforme média de mercado.130
Do rol acima, percebe-se que inúmeras são as vantagens para a Administração em se utilizar o SRP para aquisição de bens e contratação de serviços, pois o sistema por preços registrados viabiliza ao gestor, além de economicidade e de eficiência, a condução do processo licitatório com bastante antecedência, o que evita, ou pelo menos minimiza, as dificuldades operacionais e os problemas decorrentes de demandas urgentes de atendimento. “Não é, portanto, por acaso que vem ocupando cada vez mais espaço como procedimento de trabalho”.131
3.1.3.1.2 Vantagens para o Fornecedor
Não só a Administração Pública obtém vantagens com a adoção do SRP. O fornecedor também desfruta de algumas benesses quando declarado vencedor de um certame licitatório com tal característica, especialmente porque ao proceder ao registro dos itens em ata, mesmo diante da prerrogativa de que a Administração não está obrigada a comprar, o fornecedor adquire a preferência de fornecimento dos produtos e dos serviços pelo período registrado (que, na maioria das vezes, é de um ano), sem que haja necessidade de participar de outra licitação.
Sidney Bittencourt, utilizando-se do raciocínio de Norton Moraes132, amadurece a questão:
No SRP, não existe uma quantia fixa para um consumo periódico, mas, sim, aproximada, sendo que, na maioria dos casos, essa quantia ultrapassa a estimada. Ademais, de acordo com o produto a ser fornecido, haverá um prazo de entrega
130 BRASIL. Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993. Regulamenta o art. 37, inciso XXI, da Constituição Federal,
institui normas para licitações e contratos da Administração Pública e dá outras providências. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8666cons.htm>. Acesso em: 17 set. 2013.
131 FERNANDES, Jorge Ulisses Jacoby. Sistema de Registro de Preços e Pregão Presencial e Eletrônico. 3.
ed. rev. atual. e ampl. Belo Horizonte: Fórum, 2009, p. 669.
132 MORAES, Norton A. F. Do sistema de registro de preços. Disponível em:
determinado, isto é, na elaboração de cada edital de registro de preços, estabelecer- se-á um prazo que permitirá ao fornecedor providenciar o produto solicitado pela Administração, caso não o tenha em estoque. 133
Em outras palavras, o autor aponta como primordial vantagem para o fornecedor o fato de que, apesar de não existir quantia fixa contratada, a exemplo das licitações comuns, a experiência mostra que, na maioria das vezes, a Administração contrata além da quantia estimada, o que se reflete em lucro para a empresa – que terá um prazo de entrega para providenciar os produtos e serviços solicitados.
Em síntese, Norton Moraes134 complementa a tese e conclui como vantagens para o fornecedor: a) quantia média periódica de fornecimento; b) não ter que participar de outra licitação; c) a compra, em geral, ultrapassa a quantidade estimada e; d) existência de um prazo de entrega determinado, o que possibilita não ter estoque.
Diante de todo o contexto acima exposto, denota-se que a adoção do SRP oferece vantagens a ambas as partes da relação jurídica materializada pela assinatura da ata de registro de preços, ou seja, tanto para o fornecedor particular, em especial no que se refere aos lucros auferidos pelo fornecimento em grande escala e por período determinado, quanto para a Administração, que passa a desenvolver seus processos de trabalho pautada na otimização de recursos, celeridade nos processos de compra e eficiência no atendimento às demandas.
3.1.3.2 Desvantagens do SRP
As desvantagens em se adotar o SRP para futuras contratações na Administração Pública mostram-se tímidas, conforme apontamentos da doutrina majoritária.135 Até mesmo porque o registro não enseja contratação e, de acordo com a legislação vigente, os preços registrados serão precedidos de ampla pesquisa de mercado e publicados trimestralmente na imprensa oficial para orientação da Administração, bem como devem ser estipulados e atualizados previamente por sistema de controle (art. 15, §§ 1º, 2º e 3º, da Lei nº 8.666/93).
Apesar disso, dois grandes inconvenientes decorrentes do SRP são apontados por Marçal Justen Filho: a obsolescência e a incompletude. Referido doutrinador explica:
A obsolescência [...] caracteriza-se pela defasagem entre os dados do registro e a realidade do mercado. Podem surgir novos produtos, os preços podem variar e assim por diante. Enfim, há o risco de que, decorrido algum tempo desde o término da licitação, os preços e produtos selecionados não sejam os mais adequados para a
133 BITTENCOURT, Sidney. Licitação de Registro de Preços: comentários ao Decreto nº 7.392, de 23 de
janeiro de 2013. 3. Ed. rev. e atual. Belo Horizonte: Fórum, 2013, p. 51.
134 MORAES, Norton A. F. Do sistema de registro de preços. Disponível em:
<http://www.norton.adv.br/livro.htm>. Acesso em 29 set. 2013.
135 Neste sentido, serão utilizados os apontamentos dos doutrinadores Marçal Justen Filho e Jorge Ulisses
Administração [...]. A incompletude é efeito reflexo da padronização imposta pelo registro de preços. Quando a Administração organiza o registro e promove a licitação, acaba estabelecendo categorias gerais de produtos [...] muitas vezes, o registro contempla produtos com especificações e qualidade genéricas, que não atendem a necessidades específicas.136
No que se refere à padronização citada no trecho acima, considerada como princípio relativo às compras objeto de licitação, importante salientar que tal princípio “impõe que as compras de materiais, equipamentos e gêneros de uso comum [...] se realizem mediante especificações uniformes que, dentre outras coisas, busquem compatibilizar a técnica com o desempenho e igualar as condições de manutenção e assistência técnica”.137
Porém, além das desvantagens supramencionadas, Marçal Justen Filho138 aponta ainda como risco na adoção do SRP a perda da economia de escala139, pois os preços registrados são fixados pelo fornecedor por unidade, sem que seja considerada a quantidade pretendida pela Administração.
Em outras palavras, o risco da perda de economia de escala sustenta que, diante da imprevisão da quantidade que será adquirida pela Administração ou até mesmo mediante a probabilidade de nada vir a ser adquirido – o que pode acontecer, inclusive por fato superveniente para a Administração -, o fornecedor acaba cotando os preços dos produtos e dos serviços sem levar em conta o mercado de varejo – que correspondem a vendas em grandes quantidades por valores mais vantajosos. O valor cotado, portanto, pode vir a ser superestimado pelo SRP em relação às contratações tradicionais nas quais o licitante sabe a quantidade exata que irá fornecer ao poder público e, portanto, consegue cotar os preços com base, também, no quantitativo previsto em edital.
A impossibilidade de prever todos os itens a serem adquiridos também é apontada por Jorge Ulisses Jacoby Fernandes140 como desvantagem do SRP, devido principalmente às resistências pela implantação do sistema por alguns órgãos e entidades, que ainda têm oferecido os seguintes argumentos como desvantagens: a) a complexidade da concorrência; b) a necessidade de alocar recursos humanos para atualizar tabelas e; c) facilidade na formação de cartéis.
136 JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos. 15. ed. São
Paulo: Dialética, 2012, p. 221.
137 MEIRELLES, Hely Lopes. Licitação e Contrato Administrativo. 15. ed. atual. São Paulo: Malheiros, 2010,
p. 82.
138 JUSTEN FILHO, Marçal. Comentários à Lei de Licitações e Contratos Administrativos. 15. ed. São
Paulo: Dialética, 2012, p. 221.
139 Neste sentido, Joel de Menezes Niebuhr esclarece: “A economia de escala é realidade inexorável do
capitalismo [...] quem compra mais, paga menos. O preço de uma unidade é bem superior ao preço de mil unidades [...]”. (NIEBUHR, Joel de Menezes. Licitação Pública e Contrato Administrativo. 1. ed. Curitiba: Zênite, 2008, p. 384)
140 FERNANDES, Jorge Ulisses Jacoby. Sistema de Registro de Preços e Pregão Presencial e Eletrônico. 3.
A respeito do assunto, no entanto, Jorge Ulysses Jacoby Fernandes pondera: [...] sem dúvida, o tempo e o pessoal gastos são muito inferiores ao somatório do que é despendido com inúmeras licitações convencionais [...] Quanto à formação de cartéis, mostra-se um argumento fantasioso. Primeiro, porque não há sistema no mundo capaz de evitar sua formação; depois, porque o Sistema de Registro de Preços é muito mais dinâmico do que uma licitação convencional; finalmente porque, honestamente, mesmo que se forme cartel, a Administração Pública tem previamente – na pesquisa de preços promovida – os preços razoáveis e os licitantes, cartelizados ou não, têm que se manter nos limites desse preço; não há lesão aos cofres públicos [...]141
Como demonstrado, percebe-se que, ao contrário das vantagens do SRP, suas poucas desvantagens mencionadas pela doutrina, estão relacionadas à Administração Pública e não diretamente ao fornecedor, ao passo que a adoção do sistema de registro pode acarretar riscos decorrentes da defasagem dos produtos registrados, registro de produtos muito genéricos que podem, no decorrer da vigência da ata, se tornar desnecessários para o poder público, perda da economia de escala, formação de cartéis, entre outros. Todas as desvantagens, contudo, vale salientar, são passíveis de acontecer em quaisquer procedimentos licitatórios, bastando que a Administração crie mecanismos para minimizar ou evitar seus impactos.