4 QUEDA LIVRE NO ESPELHO DO ABSOLUTO
4.3 Espelho, Espelho Negro
Lacie estava presa, trancafiada pelo sistema de curtidas, confinada no calabouço da rede, totalmente capturada pelo espelho negro da tela dos smartphones.
Black Mirror, na tradução para a língua portuguesa, Espelho Negro, foi o nome dado ao seriado que integra Queda Livre e outras vinte e uma produções justamente para aludir à captura a qual os usuários de smartphone estão sujeitos quando se submetem às regras da rede. O espelho negro no título da série é metafórico e literal. Metafórico porque em vários outros episódios o uso do smartphone não é o mote do enredo. Literal pois se refere de fato a um espelho negro: a tela touch screen do smartphone, quando o aparelho está desligado ou em stand by, permanece escura, por isso sua superfície de vidro, lisa e regular, gera um reflexo turvo, indefinido, difuso de quem está diante dela. Vale ressaltar que o argumento da série, quando compreendidos os sentidos literal e metafórico de seu nome, critica a construção de
uma imagem supostamente menos imprecisa de seus usuários no momento em que eles ligam o smartphone e acessam suas redes sociais. Ou seja, os roteiros de Charlie Brooker sugerem que o exercício antropotécnico auto-operativo (SLOTERDIJK, 2018) realizado nessas plataformas encaminha a constituição da imagem desses usuários na rede, o que se torna uma alternativa ao desconsolo de vê-la tão embaçada no touch screen enegrecido.
Foi tentando criar uma imagem de si menos imprecisa do que a que o espelho negro do smartphone refletia que Lacie irrompeu seu percurso trágico. Foi ao se entregar à lógica proposta pelos dados, que estabelecia os contornos ideais de sua imagem, que a protagonista se esvaziou de qualquer provimento ético, provocando sua própria desgraça.
Defendemos aqui a tese de que a imagem que circula na base algorítmica das redes sociais é resultado de um processo que promove alterações na relação de seus usuários com o mundo, e que essas alterações remetem diretamente à detenção desses usuários no encadeamento de dados imposto nas plataformas de relacionamento virtual. Curtir uma foto ou ter uma foto curtida no Instagram pode remeter, numa análise breve, a algum tipo de atividade que conecta as pessoas. Mas o empenho em fazer com que as experiências na rede sejam as mais bem-sucedidas conduzem o usuário à certa contração em si. É sua imagem que está em jogo e, assim como Lacie, é a ela que os que navegam por essa plataforma devem se entregar. Os filtros são um incremento que auxilia os usuários do Instagram nessa redenção: a pele mais lisa, as cores esmaecidas, as correções na paisagem possivelmente “contaminada” forjam a imagem perfeita e um consequente acréscimo de curtidas.
Além dos filtros disponíveis na própria plataforma, o Instagram foi capaz de gerar, na performance corporal de seus usuários, tipos de pose ou de atividades que se legitimam como mais propensas ao recebimento de curtidas. As selfies, fotos que o usuário tira de si próprio, são talvez o que há de mais emblemático nesse conjunto de atividades. Em Queda Livre, essa padronização de ações “propensas a curtidas” é retratada com sarcasmo. Numa cena no início do episódio, Lacie compra um café cujo sabor não lhe agrada, mas, por apresentar correspondências com um modelo estético aprazível na rede – a espuma sobre o café tinha o formato exótico –, a personagem sabe que vale a pena fotografá-lo e compartilhar a imagem em prol do acúmulo de curtidas. Nessa mesma cena, inclusive, a protagonista morde a metade do biscoito que acompanha o café, percebe que o gosto também não lhe agrada, retira o pedaço da boca, mas não perde a oportunidade que agregar à foto do café a imagem do biscoito “comido” pela metade.
Nosso empenho em dissecar a alegoria que sustenta Queda Livre nos leva a compreender o papel essencial que a imagem assume nas dinâmicas que fomentam a síndrome
narcísica contemporânea. A metade cuspida do biscoito e o café desperdiçado são representados por imagens que não refletem exatamente o cenário visto e compreendido na rede. É por isso que a imagem como um conceito e, não apenas como um objeto de investigação, deve ganhar o centro de nossa reflexão.
A iconoclastia característica no Mundo Moderno fez esmorecer, durante muito tempo, as pesquisas acerca da eficácia da imagem nos processos de socialização do Ocidente (DUBORGEL, 1992). Mas o rompimento com uma perspectiva ultrarracional fez surgir no campo das Ciências Humanas um recrudescimento significativo dos estudos sobre mitos, representações imaginárias e símbolos. Na soma dos que se propuseram a renovar esse campo de pesquisa está o teórico italiano Emanuele Coccia. Com a ajuda oferecida pelo aporte teórico de Coccia (2015), podemos olhar para os impasses narrados em Queda Livre e depreender melhor a trama, concebendo a medida de sua complexa correspondência com contextos sociais contemporâneos.
Coccia considera fundamental que percebamos as imagens como proeminentes nas relações que integram os humanos. A imagem é um artefato necessário para que processos cognitivos se materializem e acabem por edificar o mundo à frente dos sujeitos e os sujeitos à frente do mundo. Com o intuito de esquadrinhar melhor esse conceito, o autor sinaliza a existência da imagem como um ente, isto é, como algo que existe em conformidade com a realidade que o circunda. Em suma, Coccia (2015) sustenta a ideia de que a imagem está no mundo e seu grau de representatividade se assemelha ao dos humanos, ao dos objetos do imaginário, ao da natureza etc.
Como ente a imagem precisa ser estudada pelo que Coccia (2015) chama de física do sensível. A imagem reside e se desloca no sensível, não é um ser meramente incrustado nas coisas, ele está entre a alma e o corpo e não dentro deles. Fotos, vídeos ou qualquer informação publicados numa rede social, nessa perspectiva, ocupam, por sua relação com a imagem, um espaço dissociado da materialidade corpórea e da instância subjetiva de seus usuários: a imagem está no meio, entre as dimensões física e espiritual.
É preciso destacar que, embora fotos e vídeos nas plataformas de relacionamento virtual quase sempre estejam ligadas ao que se entende mais imediatamente como imagens, neste trabalho, por intermédio das reflexões de Coccia, a imagem é tratada como tudo o que incorpora o perfil de um usuário nessas plataformas: a descrição de si nos dados pessoais, as curtidas e manifestações de interesses por assuntos específicos, frases, memes e GIF’s compartilhados, além das imagens e vídeos que exibem o próprio usuário. Essa distinção torna-se imprescindível
para que analisemos toda a base do complexo algorítmico que estrutura as redes sociais como arrimo do sensível.
A física do sensível, quando empregada no processo de exame da imagem, não deve cuidar das definições impostas sobre a imagem, mas da maneira como as imagens se engendram: “Trata-se, antes, de perguntar de onde, através de que, a partir de que as imagens podem se engendrar nesse mundo” (COCCIA, 2015, p.79). Quando investimos no exame dos impactos causados pelo trânsito das imagens nas redes sociais, essa definição de física do sensível se transforma num desafio epistêmico. Precisamos incluir as postagens do Facebook e do Instagram no bojo desse desafio e responder a seguinte questão: por intermédio de qual motivação as imagens que compõem o perfil dos usuários dessas redes sociais passam a existir no mundo?
A primeira resposta que encontramos refere-se diretamente à dinâmica dos exercícios antropotécnicos vinculados à Esfera Digital: as aspirações etnotécnicas do Ocidente contemporâneo deliberam o envolvimento contínuo dos sujeitos pelas redes algorítmicas e isso faz com que a produção de uma imagem digital se torne ordinária.
Outra resposta a esse questionamento atinge a zona que compreende um dos temas centrais a serem problematizados nesta dissertação: o narcisismo digital. Para entender como as imagens das redes sociais, enquanto entes, se engendram no mundo, consideramos imprescindível uma análise prolongada que incorpore às práticas dos sujeitos nas redes sociais possíveis desdobramentos que revelem sintomas de narcisismo. Essa análise prontamente nos conduz à noção de que estar na rede, e se submeter ao projeto narcisista sob o qual ela se ampara, confirma a tese de que a vida na Esfera Digital é marcada por traços de distensão ética. Isso quer dizer que a imagem cuja gênese se ancora nas plataformas de relacionamento virtuais se manifesta como um símbolo da rarefação dos códigos de convívio social. Tal postulação se expressa claramente quando Lacie e os outros personagens de Queda Livre suprimem valores e sentimentos pessoais, que remontam às narrativas que os constituem como sujeitos, em benefício da edificação de sua imagem. Constatar a superestimação de sua imagem é suficiente para os personagens da trama de Black Mirror e, confirmando o caráter simbólico do episódio, para muitos adeptos do Instagram e Facebook.
Lowen (1993) trata essa supressão dos valores e sentimentos pessoais como um dos fatores mais relevantes em seus estudos sobre narcisismo. Quando o self, que para ele é a conjugação dos elementos que embasam as narrativas de vida dos sujeitos, tem seu espaço tomado pela imagem nas vivências cotidianas, despontam sintomas de narcisismo. A imagem pode ser comparada a uma máscara, produzida e utilizada pelos sujeitos a fim de serem melhor
aceitos, enquanto o self configura-se como uma instância que remete à autenticidade, à genuinidade desses sujeitos (LOWEN, 1993). No self se inscrevem os enclaves, as rasuras, as distorções, que modelam o sujeito, mas que devem desaparecer nas redes sociais: eis aí a explicação para o sucesso dos filtros do Instagram.
Na Esfera Digital, os exercícios de auto-operação (SLOTERDIJK, 2018) ajustam a conduta narcísica a fim de promover esse mascaramento. Tal processo depende, nessa esfera, da execução de um hasteamento de si através do ascético tratamento da própria imagem, e também está ligado às respostas que o sujeito dá para os estímulos algorítmicos enquanto transita pela rede. É muito importante que se entenda que a afluência dos dados nessa rede inclui o ato de curtir uma publicação no esquema que fixa as bases do narcisismo digital. Quando, em Queda Livre, Lacie navega pela rede ou caminha pela rua, fica claro que avaliar positivamente pessoas maiores que 4,5 aumenta as chances de seu score subir. Por isso os condicionamentos do trabalho de hasteamento da própria imagem no enredo do episódio e na performance de usuários do Facebook e do Instagram estão ligados à necessidade de fazer da imagem de si algo notório ao mesmo tempo em que a imagem de outros é lançada na malha narcísica da internet. Essa é uma característica fundamental do narcisismo digital. A supressão de valores e sentimentos pessoais, embora nesta análise se manifeste como modelo de um meio auto-operativo, desencadeia a formação de um sistema que massifica o narcisismo: os caminhos algorítmicos na rede promovem o encontro de usuários e suscitam uma ampla cooperação narcísica.
Em 2010, conhecemos um dos primeiros grandes exemplos dessa trama cooperativa que articula o narcisismo na Esfera Digital. Tudo começou quando uma publicação no YouTube, plataforma de compartilhamento de vídeos que se assemelha a uma rede social, ganhou destaque em toda a internet. Tratava-se de um vídeo que mostrava um homem encapuzado matando filhotes de gatos no quarto de um hotel. Milhares de pessoas compartilharam o link desse vídeo através do Facebook, o que desencadeou a criação de um grupo nesta plataforma. A ideia era agregar defensores de animais que, diante do que viram, buscavam justiça.
Através desse grupo, uma busca incessante por pistas que levassem ao assassino de gatos foi iniciada. Tudo no referido vídeo do YouTube passa a ser averiguado com minúcia, mas nada conclusivo é encontrado durante o primeiro ano de investigação. Até que um novo vídeo, de mais um assassinato de gato, com o mesmo perfil misterioso, é publicado e reacende o ânimo dos que investiram na caçada pelo autor daqueles atos. Informações são trocadas e, aos poucos, algumas respostas aparecem. Uma dessas respostas, encontrada a partir de uma denúncia anônima, levou a investigação digital ao nome de um suspeito: Luka Magnotta. A
história que se inicia quando Magnotta entra no radar dos “detetives digitais” é uma verdadeira ode ao narcisismo digital. Entendamos porquê.
Buscas pelo nome de Luka Magnotta na internet trouxeram algumas informações relevantes para os membros do grupo do Facebook mencionado acima. Jovem, branco, canadense, Magnotta trabalhava como modelo e parecia ser uma pessoa famosa. Vários sites traziam informações sobre sua carreira; fotos em diferentes lugares no mundo retratavam, nesses sites, o perfil de um homem relativamente inserido no mundo das celebridades. No próprio Facebook se espalhavam diversos grupos e páginas supostamente criados por fãs do suspeito.
Ver seu nome vinculado aos vídeos de maus-tratos a animais fez com que Magnotta viesse a público através de uma entrevista concedida a um jornal de Londres. Nessa entrevista, ele alega inocência e diz estar muito incomodado com o assédio que vinha sofrendo após a denúncia anônima. Como não havia nada de concreto que o incriminasse, a polícia não o tratou como um suspeito, mas os “detetives digitais” fizeram questão de usar a denúncia como norte para a busca de mais sinais que levassem ao assassino.
Após conceder a entrevista, Magnotta desaparece, mas o assassino dá mais um sinal: um e-mail com ameaças horríveis é enviado para o jornal que entrevistou o modelo. Nesse e- mail, o assassino de gatos prometia publicar imagens do assassinato de humanos. O que acabou deixando todos os que se ocupavam em capturá-lo atônitos. Enquanto as buscas virtuais continuavam, o criminoso cumpre a promessa e publica um vídeo no qual aparece matando um homem no quarto de um apartamento. A polícia, então, passa a dar atenção para o caso e as investigações ocorrem em duas instâncias: as oficiais, da “grande imprensa” e da polícia, e a não oficial, administrada pelos membros do grupo do Facebook que há muito tempo vinha coletando dados sobre as ocorrências.
Nesse período, a figura de Magnotta ainda é utilizada pelos “detetives digitais” como a principal referência das investigações. Eles se debruçam sobre todas as informações que têm do modelo canadense e começam a perceber algumas coisas estranhas, quase todas ligadas ao fato de Magnotta ter forjado, por anos, o perfil de celebridade na rede. As fotos em que ele aparece viajando pelo mundo são falsas, editadas, e tudo indicava que as páginas do Facebook criadas para enaltecer sua imagem haviam sido criadas pelo próprio suspeito: Magnotta correspondia exatamente ao que estamos chamando nessa dissertação de narcisista digital.
Para Lowen (1993), embora haja uma definição comum que atribui ao narcisista traços de uma pessoa capaz de amar apenas a si mesmo, o que se verifica na verdade é que um narcisista prototípico não consegue amar outra coisa senão sua imagem. Nesse sentido, o
narcisista acaba por maltratar a si mesmo, na medida em que faz arrefecer os sentimentos de querer bem aos outros e a si próprio (LOWEN, 1993). As particularidades do perfil digital de Magnotta apontavam para um sujeito assim, incapaz de apreciar seu self e amar outras pessoas, e muito propenso a se deleitar com a exaltação de sua imagem.
Essa consciência levou os “detetives digitais” a reconhecerem, em imagens publicadas pelo modelo em seu perfil no Facebook, evidências suficientes para incriminá-lo. Quando a polícia teve acesso a essas evidências, Magnotta passa a ser um suspeito procurado internacionalmente e, em 2012, de uma forma assustadoramente irônica, ele foi preso enquanto lia matérias sobre si no computador de uma Lan House de Berlim. Sim, Magnotta “morreu” diante do espelho.
Toda essa história é contada no documentário Don’t F**k with Cats: Hunting an Internet Killer (2019), produzido pela NetFlix, uma plataforma virtual de streaming, que produz e/ou disponibiliza filmes e séries para assinantes. Com ares de cinematografia, a trajetória do assassino de gatinhos que se transforma em assassino de humanos não seria mais distópica se, ao final do documentário, Deanna Thompson, umas das principais articuladoras do grupo do Facebook que farejou os rastros que incriminaram Magnotta, não propusesse os seguintes questionamentos: “alimentamos o narcisismo dele [Magnotta] a ponto de ele avançar ainda mais?”; “será que alimentamos o monstro ou nós o criamos?”; e “será que o estimulamos a fazer o que fez?”. Eis aqui o elemento que outorga a essa caçada digital os contornos de uma ode ao narcisismo fundado na Esfera Digital: sem a colaboração de centenas de milhares de pessoas no mundo, Magnotta não teria diante de si o espelho que refletia a imagem de um perigoso assassino, procurado por todos, conhecido por todos.
A relação entre Naomi e Lacie imita a relação entre o assassino de gatos e seus perseguidores digitais: todos estavam interessados em fazer de sua imagem na rede algo reluzente. A experiência dos que participaram ativamente da caçada a Magnotta e os desencontros digitais que proporcionaram o vexatório desfecho de Lacie em Queda Livre certificam o pensamento do criminoso canadense, exposto numa frase escrita por ele no closet do quarto onde cometeu um dos assassinatos: “se não gosta do reflexo, não olhe no espelho. Eu não ligo”.
Essa frase condensa inúmeros aspectos que configuram o narcisismo digital e aponta também para os sinais que confirmam a instauração de um regime societário em que a ética se liquida. A vasta adesão dos sujeitos às ofertas do espelho negro dos smartphones demonstra que estar diante do reflexo de uma imagem de si aprovada pela lógica das curtidas nas redes sociais torna o sujeito inclinado a condescender ao projeto narcísico da Esfera Digital. É
preciso gostar do que se vê para continuar olhando no espelho. As imagens que circulam nas redes sociais através do embaraço linguístico da programação de sistemas são resultado, portanto, da sina por uma autocontemplação que se confunde com uma contemplação genérica, ambas definidas através do feroz fluxo de mensagens da internet.
O narciso contemporâneo não olha as águas do rio, mas a tela do celular, esse neoespelho. Os momentos de construção do perfil nas redes sociais são momentos em que seus usuários parecem detidos pela imagem que representa a conjugação entre o que ele deseja ser para os outros e o que os outros desejam que ele seja. No empreendimento de nossa pesquisa acerca da relevância que o espelho assume nas metáforas sobre narcisismo, encontramos (mais uma vez!) na literatura uma obra que nos conduz a enxergar esse fenômeno. Estamos nos referindo ao conto O Espelho, de Machado de Assis, escrito em 1882.
O Espelho conta a história de Jacobina, um jovem que tinha acabado de ser nomeado alferes, que no século XIX correspondia ao que hoje chamaríamos de aspirante a soldado do exército ou da polícia. Sua família e os amigos se entusiasmaram com a aprovação do jovem para um posto prestigiado na época e logo lhe encheram de louvores pelo feito. Em casa e na rua, Jacobina se transformou em “o alferes”. Era como se tivesse perdido sua identidade e agora destinava-se a ser reconhecido apenas pelo cargo que ocuparia em breve.
O clímax do conto se dá quando, sozinho e deprimido na casa de uma tia, o personagem principal se olha no espelho e não se reconhece. Na verdade, nem havia o que reconhecer: no espelho o que se via era vulto, uma imagem deformada de alguma coisa que Jacobina não identificaria. Atordoado com o caos que o assolava, o protagonista tem a ideia de se vestir com a farda de alferes, seu novo uniforme, recebido de presente dias antes. Agora, arrumado como um soldado, diante do espelho, Jacobina se depara com um reflexo perfeito de si. Não havia mancha, não havia vulto, lá estava o alferes. Ao retirar o uniforme, o drama dos borrões no espelho era revivido e Jacobina passou então a apropriar-se do consolo oferecido pela roupa. Vestia o fardamento durante algumas horas do dia e, diante do espelho, tendo acesso a sua