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5 VIGILÂNCIA ALGORÍTMICA, SINOPTICISMO E DATAÍSMO

5.3 Toda a Sua História

Na reflexão sobre a história recente dos processos de vigilância no Ocidente torna-se indispensável compreender as alterações ocorridas nos suportes de mídia que viabilizam o monitoramento da vida. Como reiteramos desde o início deste capítulo, o uso das câmeras confirma o afã moderno de esquadrinhar, enquadrar e registrar. A função da câmera incrementa o projeto que consolida a fase da história do desenvolvimento das mídias conhecida como “Era da Informação”. Chamamos de “instrumentos informacionais” (instrumentos que caracterizam a “Era da Informação”) os aparatos que, de alguma forma, funcionam sob a prerrogativa de indexar e fazer circular dados das mais variadas fontes. Mattelart (2002) indica a valorização da estatística como principal elemento dentre os que melhor estruturam a sociedade da informação: “O pensamento enumerável e do mensurável torna-se protótipo de todo discurso verdadeiro ao mesmo tempo que instaura o horizonte da busca da perfectibilidade das sociedades humanas” (MATTELART, 2002, p.11). Nesse sentido, a ordem que hoje autoriza o cumprimento do papel exercido pelas câmeras nas decisões cotidianas nada mais faz do que ratificar as cláusulas de um projeto que tem como objetivo garantir a gerência do “discurso verdadeiro”. Como prova disso, o campo jurídico cada vez mais se apropria de registros de sistemas de vigilância como material que atesta a execução de crimes: a mensuração e a enumeração agora são empreendidas pela imagem da máquina.

Essa ordem, todavia, vem sofrendo alterações e aos poucos vemos surgir tecnologias mais desenvolvidas do que as que caracterizam a “Sociedade da Informação”. Presenciamos, nesse primeiro quarto do século XXI, uma redefinição do conceito que orienta as reflexões acerca da vigilância. Os recursos que engendram a circulação de dados pessoais, principalmente na esfera mercadológica, são tão intensos, tão complexos, tão imediatamente detalhistas que podemos afirmar que a indexação e a transação da informação já não se notabilizam pelo perpectivismo das câmeras. O novo regime de vigilância, instalado no seio da Esfera Digital, pressupõe um fluxo de dados bem mais ostensivo do que o que se verificava até a década de 1990.

De forma simplificada, podemos explicar a transição entre “Era da Informação” e “Era Digital” apontando os elementos que fizeram os Estados e as corporações de mercado abandonarem os blocos de informação que remetiam à forma de agir e pensar de grandiosos conglomerados, cujos membros pouco se distinguiam, e admitirem os modelos de captação e codificação de dados diretamente relacionados à particularidade dos indivíduos. Se, no século XX, o rádio e a TV se constituíram como ícones comunicacionais por unificarem o “grande público” num eixo específico de consumo imagético, hoje os smartphones e vários outros recursos têm feito, numa velocidade absurda e com uma precisão jamais assinalada, com que a proliferação e a consolidação de vários eixos de consumo ocorram através do desenvolvimento das técnicas que contornam a linguagem de programação de sistemas operacionais. Técnicas que, a partir do aprimoramento do manejo das redes algorítmicas, identifica, distingue, separa as pessoas, gerando, assim, a possibilidade de vigiá-las com mais eficácia.

Em Black Mirror, quando os recursos comunicacionais são tratados como emblema de cisões éticas ou dissensões morais, eles se inscrevem na lógica do digital. Toda a Sua História, retrata um contexto no qual os processos de vigilância estão totalmente associados à Esfera Digital. Além de coletar dados precisos de cada indivíduo, na sociedade futurística do episódio, esses dados são continuamente utilizados por esses indivíduos num comando de ostensiva vigilância sinóptica (BAUMAN, 2014), conceito sobre o qual discorreremos mais profundamente a seguir. Cabe salientar que, na trama, as câmeras assumem papel relevante, podendo nos levar a inferir uma sintonia mais evidente entre o que se assiste e os aspectos da “Era Informacional”. Veremos, entretanto, que é justamente o sinopticismo19 da vigilância

perpetrada pelos personagens o que faz do contexto planejado no enredo algo incorporado à Esfera Digital. Vamos ao episódio!

Liam é um jovem advogado que recebe uma proposta peculiar dos chefes de um grande escritório localizado em outra cidade. Trata-se da atuação numa área nova do direito, uma área sem jurisdição bem delimitada. Ele trabalharia com pessoas que se sentiram emocionalmente lesadas por seus parentes por causa de situações traumáticas vividas na infância e hoje teriam o direito de requerer o ressarcimento dos prejuízos que tais situações produziram.

Através de um sistema de vigilância que filma e registra tudo o que passa à frente do olho de um usuário, é possível que se comprove, perante um juiz, a ocorrência de abusos na infância e que esses abusos foram graves ao ponto de refletirem em sua vida adulta como insucesso profissional ou como inaptidão para a sociabilidade.

Na realidade vivida na trama de Toda a Sua História, praticamente todas as pessoas da Grã-Bretanha possuem esse sistema de monitoramento e registro de toda a vida. O equipamento é bem pequeno, tratando-se de uma lente de contato, capaz de filmar e projetar imagens, e um microchip, inserido na região atrás da orelha do usuário. É nesse microchip que se armazenam todas as filmagens realizadas durante o dia. Para que essas imagens possam ser selecionadas e reproduzidas em superfícies ou aparelhos televisores, o usuário utiliza um pequeno controle manual.

Aparentemente, o nível de abrangência e aceitação alcançado por esse mecanismo é o que faz com que as ações judiciais acima mencionadas ganhem substância. Os registros da história armazenados criam um suporte comprobatório quanto a possíveis danos gerados à vida dos sujeitos. É possível interpretar imagens do passado avaliando cada gesto, cada reação, cada expressão fisionômica.

No caminho entre o escritório onde foi entrevistado e o aeroporto, onde embarcaria rumo à cidade onde mora, Liam, dentro de um táxi, reproduz as imagens que registrou na reunião e passa a analisar o comportamento dos entrevistadores a fim de verificar o grau de confiabilidade de suas palavras. Essa cena, que durou poucos minutos, retrata a obsessão desse advogado na busca por indícios de mentira e de verdade, e resume o trajeto traçado por ele em toda a narrativa.

Quando chega em sua cidade, Liam se encaminha para a casa onde sua esposa, Fion, participa de uma confraternização com antigos amigos. Ao chegar no local da festa, Liam surpreende a todos, já que a previsão de seu retorno era para o dia seguinte.

No momento em que o marido entra na sala, Fion conversa com Jonas, um namorado do passado, que Liam até então não conhecia. Também surpresa com a chegada de seu companheiro, ela apresenta certo desconforto durante todo o jantar: aparentemente não gostaria que Liam estivesse ali.

Durante a volta para casa, o casal conversa sobre o comportamento de Jonas. Liam insinua certo ciúme e mostra-se instável diante da possibilidade de passar mais algumas horas com o amigo da esposa. É que, ao término da confraternização, o próprio Liam convidou Jonas para “estender a noite”, bebendo com ele e Fion na casa do casal. Após a conversa que denuncia seu ciúme e desconfiança, o protagonista da trama cancela o convite: Jonas se despede e volta para a casa sozinho.

Ao entrar em casa, Liam e Fion continuam conversando sobre Jonas. O marido questiona o grau de proximidade entre ele e Fion durante o período em que estudaram juntos e descobre, nesse momento, que os dois haviam mantido uma relação amorosa no passado. Ao perceber contradições no relato de Fion acerca de seu contato com Jonas, Liam escancara seu ciúme ofendendo a esposa, que caminha, indignada, para o quarto.

Naquela mesma noite, depois de uma breve conversa seguida de uma relação sexual, o casal parece ter se reconciliado. Mas Liam não cessa em imaginar que, entre a esposa e Jonas, teria havido mais do que uma curta relação, descrita por Fion como “apenas uma paquera”. O protagonista sai do quarto após a esposa pegar no sono e se dirige para a sala, onde passa a madrugada inteira revendo as imagens da noite anterior em busca de sinais que comprovassem a reminiscência de uma paixão entre Fion e Jonas.

Ao amanhecer, Fion encontra Liam na sala totalmente embriagado e disposto a prolongar a conversa sobre seu passado com Jonas. A tensão acentuada por mais uma discussão motivou Liam a dirigir até a casa do ex-colega de turma da esposa. Chegando lá, a hostilidade direcionada à Fion é transferida para Jonas: em luta corporal, o marido ciumento obriga Jonas a apagar todos os registros de imagens de Fion armazenados em sua memória digital.

Na cena subsequente, Liam desperta de um desmaio ocorrido após seu carro colidir contra uma árvore. Alguns passos fora do veículo e o protagonista projeta as últimas imagens que registrou antes do acidente, a fim de saber como chegou até ali. É nesse momento que um detalhe que passou despercebido durante a luta com Jonas deflagra o desfecho desse itinerário de paranóia.

Liam percebe, num pequeno frame projetado na tela que dava acesso às memórias de Jonas, que ele e Fion haviam transado há poucos meses. Fion traiu o esposo durante um período de crise vivido pelo casal e não teve coragem de confessar.

Quando chega em casa, agora com ares de desconsolo e não mais de paranoia, Liam pede explicações para a mulher, que confirma a traição. Agora, toda preocupação de Liam diz respeito ao fato de Jonas ter ou não utilizado preservativo durante a relação com Fion. Ao obrigar a esposa a projetar a cena de sexo com o amigo, Liam constata que tudo ocorreu sem

que o preservativo tenha sido sequer mencionado. Depois de toda psicose gerada pela desconfiança quanto a relação entre Fion e Jonas, o mundo de Liam desaba diante da possibilidade de não ser o pai biológico de sua filha, concebida justamente no período em que ocorreu a fatídica traição.

De forma emblemática, o episódio termina com a cena do protagonista andando pela casa e recuperando imagens do passado com a esposa e a filha, agora distantes. Num lapso de coragem, ou quem sabe de covardia, Liam, utilizando uma lâmina de barbear, extrai o microchip onde estavam armazenadas as memórias de toda a sua história.

A traição de Fion aponta para uma reflexão sobre ética e moral. Ao mesmo tempo, tudo o que ancora as ações de Liam também perfaz a crítica sobre ética, sobre respeito. No final das contas, o episódio se resume a uma tragédia amorosa? Como os mecanismos de vigilância apresentados no enredo se relacionam com esses dilemas éticos representados?

Nas entrelinhas do roteiro de Toda a Sua História, estão presentes sinais de uma correlação entre as tecnologias de vigilância e os problemas éticos que acompanham nossa cultura. Tendo em vista a concepção por nós já apresentada acerca da sintonia medo-vigilância, reforçamos a proposição de que a tensão que guiou o comportamento do protagonista teve como pano de fundo as imposições ligadas ao manejo dos implementos disponíveis para vigiar. Com isso, gostaríamos de destacar peculiaridades que conformam esse manejo e indicam uma sobreposição do medo de não conseguir vigiar ao medo de ser traído. Isto é, nosso questionamento central nessa seção caminha pelo limiar que nos faz acreditar que Liam tinha medo de estar sendo enganado por Fion, mas esse medo não superava o pavor de estar sendo enganado pela máquina.

A neurose do personagem principal do episódio responde à inferência de que a tecnologia digital e suas ferramentas absorvem a subjetividade dos indivíduos imprimindo em seu cotidiano uma necessidade quase vital de rastrear e ser rastreado. Em suma, as angústias de Liam, desde o momento em que revê atenciosamente os momentos em que era entrevistado no início do episódio, até o desfecho de sua briga com Jonas, estavam implicitamente baseadas em desígnios estabelecidos pela lógica de uma vigilância ostensiva: quanto mais a possibilidade de prever o futuro reassistindo ao passado se torna uma regra, mais instáveis estão os sujeitos diante da possibilidade de perceber aspectos de fragilidade no sistema.

Essa “fragilidade no sistema” se associa ao terror diante da possibilidade de exclusão. Ser traído pela esposa gerava a dor da exclusão de uma ordem afetiva, estabelecida e guiada por afetos fraternais; ser traído pela máquina gerava a dor da exclusão de um amplo regime etnotécnico estabelecido e guiado pela racionalidade e pela transparência (HAN, 2017). Quando

trouxemos aqui as ponderações feitas por Bauman acerca dos modos como os participantes do Big Brother reagem às regras do jogo, falávamos sobre esse terror, o terror da exclusão. Podemos falar sobre esse medo de estar fora também quando analisamos os interesses dos consumidores da Amazon Go. Nesse caso, “estar fora” diz respeito a não ter possibilidade de consumir com o conforto que o aplicativo e a loja propiciam.

Numa sociedade hipervigiada e, como subterfúgio para legitimar a vigília, hiperconectada, ordem e controle baseiam a sensação de inclusão. A vida exposta nas redes que compõem o mundo digital se transforma num jogo de visibilidade muito estimulante. Perder nesse jogo é como perder a vida.

Bauman (2008), num desdobramento da análise sobre o medo na contemporaneidade, realiza uma distinção que nos ajuda a analisar o drama de Liam e a conectar esse drama ao problema de não ser atendido integralmente pelas tecnologias de vigilância dispostas no episódio. Quando fala sobre o medo da morte, Bauman identifica três níveis de morte: a de primeiro grau – que é a morte física, resultado da fragilidade absoluta do corpo no processo de manutenção da reprodução celular –, a de segundo grau – essa se refere à morte de um mundo singular, no qual nos inserimos quando nos relacionamos intimamente com pessoas que acabam falecendo – e a morte de terceiro grau – a morte caracterizada pela perda dos vínculos com alguém que amamos sem que esse alguém tenha de fato morrido.

Os últimos dois tipos de morte descritos acima são agregados a uma categoria a qual Bauman (2008) chamou de morte metafórica. A morte metafórica é aquela que marca negativamente a vida dos sujeitos e não está associada à falência de seus corpos, mas à ruptura de laços, à degradação de mundos.

Apesar de Bauman assinalar especificamente o divórcio como um exemplo de morte metafórica – de terceiro grau – em seu texto, recorremos a essa reflexão com a intenção de reiterar que a hegemonia da interferência dos dispositivos de vigilância presentes em Toda sua História sugere uma sobreposição do medo de ver o sistema falhar ao medo de se separar do cônjuge. A instabilidade emocional, gerada a partir da experiência da separação do casal, está condicionada ao medo que Liam tinha de não estar incluído nos propósitos de uma sociedade que, de tão vigiada, captura todos os pecados, todos os deslizes e falhas de quem a integra. A experiência de morte vivida por Liam foi o desfecho de uma súbita e irreparável exclusão de um contexto que lhe garantia a consciência de que tudo estava sob seu controle. Pois

Saturada como é de mortes metafóricas, a vida líquido-moderna é uma vida de suspeita permanente e vigilância incessante. Não há como saber de que lado virá o golpe; quem será o primeiro a desferi-lo, tendo se cansado de compromissos

entediantes e de promessas de lealdade difícil de concretizar, ou tendo identificado em outro lugar ligações mais promissoras e menos incômodas (BAUMAN, 2008, p.66)

Podemos dizer que a suspeita permanente e a vigilância incessante em Toda a sua História, assim como na sociedade líquido-moderna, são os termos que subjazem a morte metafórica de Liam. O medo imbricado na construção de uma sociedade ostensivamente vigiada é, portanto, o medo da possível expulsão no jogo que “instaura o horizonte da busca da perfectibilidade das sociedades humanas” (MATTELART, 2002 p.12).