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ESPERA E SERVIÇO

No documento carolinablasiodasilva (páginas 31-34)

A partir da relação de Paulo com a comunidade através da proclamação, Heidegger destaca, na primeira carta aos tessalonicenses, o modo em que este tem a comunidade em Tessalônica e como ele a acolhe incluindo-se no status desta. Para isso, volta a um momento determinado do relato histórico-objetivo, como em At 17, 4, que trata da relação de Paulo com os “poucos” que “uniram-se a ele”110. “Paulo vê os tessalonicenses como aqueles que, na noite, urge eles próprios através da faticidade do fim da vida”111.

Quando o apóstolo diz em I Ts 2, 20: “Sois vós minha alegria e minha glória [δόξα]”, ele quer obter sua própria segurança por seu sucesso com os tessalonicenses. A vida de Paulo

106 Cf. EPR, p. 119.

107 Sobre crítica de Heidegger à compreensão ética desta passagem por Nietzsche enquanto ressentimento paulino cf. EPR, p. 120.

108 Cf. EPR, p. 122.

109 Cf. EPR, p. 121. Nesta edição é citado equivocadamente I Cor 4, 11, no lugar de I Cor 4, 16. 110 Cf. EPR, p. 93.

depende dos tessalonicenses manterem-se firmes na fé (I Ts 3, 8). Observa-se que os conceitos ‘esperança’, ‘glória’ e ‘alegria’ [ἐλπίς, δόξα, χαρά] têm um sentido especial, diferente da experiencia onto-teo-lógica grega de esplendor e beleza que Lutero duramente critica. “Deus só pode ser encontrado em sofrimento e na cruz”112, do contrário viriam contradições. Obter esse sentido obriga-nos a entrar no contexto fundamental da vida do próprio Paulo113.

Paulo necessariamente co-experiencia ele mesmo com os tessalonicenses, ou seja, o ter-se tornado destes é também o ter-se tornado de Paulo. Isso se dá em duas determinações114: (1) ele experiencia seu ter-se tornado [γενηθῆναι] cristão, ligado a sua entrada nas vidas dos tessalonicenses; e (2) ele experiencia que tem uma sabedoria pela fé [οἴδατε] de seu ter-se tornado, inteiramente diferente de qualquer outro saber e memória, uma vez que surge apenas do contexto situacional da experiência da vida cristã. O saber de seu próprio ter-se tornado é o ponto de partida e origem da teologia. O ser atual [Gegenwärtigsein] de Deus tem uma relação fundamental com a transformação [περιπατεῖη] da vida. A aceitação [δέχεσθαι] é em si uma transformação diante de Deus, que, em seu como, caracteriza-se pelas tribulações [ἐν θλίψει]115.

Ter-se tornado não é, em vida, algum incidente qualquer, mas co-experienciado incessantemente. Seu ser [Sein] agora é seu ter-se tornado [Gewordensein]. A vida de Paulo depende dos tessalonicenses manterem-se firmes na fé. O ter-se tornado [γενηθῆναι] é uma recepção da Palavra aceita com grande sofrimento e recebida como nossa própria condição (ITs 1, 6)116. O γενέσθαι é uma “aceitação da proclamação” [δέχεσθαι τὸν λόγον], “em grande preocupação” [ἐν θλίφει πολλῇ µετὰ χαρᾶς]. A aceitação acarreta a preocupação, que permanece ao mesmo tempo com uma ‘alegria’ [µετὰ χαρᾶς] que se aviva da graça do espírito santo [µνεύµατος ἁγίου]117.

Quem não aceitou é incapaz de suportar a faticidade ou apropriar-se do saber118. Pois, “a vida fática, por seus próprios recursos, não pode prover os motivos para atingir o γενέσται”119. Mas, ao passo que a vida tenta ganhar sustento, ela não o encontra em Deus,

112 LUTERO, M. Dr. Martin Luthers Werke. Weimar: Hermann Böhlaus, 1883, v. 1, p. 613; v. 31, p. 225 apud VAN BUREN, J. Martin Heidegger, Martin Luther, p. 161.

113 Cf. EPR, p. 97. 114 Cf. EPR, p. 93s. 115 Cf. EPR, p. 95.

116 “Vós vos tornastes imitadores nossos e do Senhor, acolhendo a palavra com alegria do espírito santo, apesar das numerosas tribulações”.

117 Cf. EPR, p. 94.

118 Cf. I Cor 3, 21s e Fl 2, 12s. 119 EPR, [tradução nossa], p. 122.

pois Deus nunca é um sustento. Na experiência da vida cristã isto surge do sentido do mundo circundante, que o mundo não está aí apenas a decair.

O partilhar o mundo [χρᾱσθαι κόσµους] e o não ter parte [µὴ συγχρηµατίζειν] requer um modo determinado de autodecisão: discernir [δοκιµάζειν] e saber [εἰδέναι]. A interpretação correta de saber não parte da psicologia ou gnosiologia, tão pouco caracteriza a sabedoria prática. Nenhuma objeção pode ser feita histórico-objetivamente como na exegese, mas esta surge na interpretação histórico-consumativa. A questão, na qual o contexto básico remete, é respondida pelo serviço [δουλεύειν] e espera [ἀναµένειν]. Saber não anda acessoriamente e livremente suspenso, mas está sempre aí. O saber, em sua essência própria, requer ter espírito [πνεῡµα ἔχειν]120. I Cor 2, 10: “A nós, porém, Deus o revelou pelo Espírito. Pois o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus” [ἡµῑν γὰρ ἀπεκάλυψεν ὁ θεὸς διὰ τοῡ πνεὺµατος. τὸ γὰρ πνεῡµα πάντα ἐραυνᾷ καὶ τὰ βάθη τοῡ θεοῡ ]. O emprego da voz reflexiva, na língua grega, como em I Ts 2, 13: λόγον θεοῦ [palavra de Deus, palavra dirigida a Deus] confere esse caráter ao mesmo tempo ativo e passivo da situação cristã121.

O espírito [πνεῡµα] em Paulo é a base da consumação em que a sabedoria mesma surge. Πνεῡµα está conectado com julgar [ἀνακρίνειν] e sondar [ἐραυνᾱν]. Não há um ‘ser espiritual’ [πνεῡµα ειναι], como no corpus hermético das religiões helenistas, mas um ‘ter espírito’, ‘viver no espírito’ [πνεῡµα ἔχειν, ὲν πνευµάτι περιπατῑν] ou ‘ser sujeito a’ [ἐπιτελεῑσθαι]. II Cor 3, 3: “Evidentemente, sois uma carta de Cristo, entre o nosso mistério, escrita não com tinta, mas com o espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de corações de carne”. Aí está uma profunda oposição dos judeus e místicos iniciados com os cristãos. Os primeiros, porque seguidores das leis e trabalhos dos homens, e os segundos, porque, arrancados de seus contextos de vida para uma condição arrebatada, são possuídos por deuses e o universo. A isso Paulo adverte: “deixe-nos despertos e sóbrios”, mostrando a terrível dificuldade da vida cristã122.

Determinamos ter-se tornado [γενέσθαι] pela aceitação [δέχεσθαι], mais adiante por recepção [παραλαµβάνειν]. O que é aceito é o como do autoconduzir-se. Em I Ts 1, 9-10, Paulo trata de uma conversão absoluta [Umwendung; ὲπιστρέφειν], mais precisamente sobre reversão [Hinwendung] à Deus e aversão [Wegwendung] aos ídolos. A absoluta ‘reversão’

120 Cf. EPR, p. 123.

121 Cf. EPR, p. 95. 122 Cf. EPR, p. 124.

com o sentido de consumação da vida fática é explicada em duas direções: serviço [δουλεύειν] e espera [ἀναµένειν], uma transformação diante de Deus.

Heidegger dá um esquema formal do fenômeno de conversão [ὲπιστρέφειν] cristã123:

Ter-se tornado aceitação serviço trabalho de fé diante

conversão esforço de amor de

Saber recepção espera perseverança da esperança Deus Figura 1

É decisiva a espera pela παρουσία, a segunda vinda do senhor no final dos tempos. Os tessalonicenses esperam não em sentido humano, mas no sentido da experiência da παρουσία. Experiência essa de uma aflição absoluta [θλίπις] que pertence à vida de serviço e espera [δουλεύειν e ἀναµένειν] na aceitação [δέχεσθαι] do próprio cristão124. Ser abençoado com inspiração não é o mais importante, Paulo quer ser visto apenas em sua fraqueza e aflição, pois somente assim pode entrar em estrita conexão com Deus. Esta aflição, este “espinho na carne” [σκόλοψ τῇ σαρκί], é uma característica fundamental cristã: a absoluta preocupação no horizonte da παρουσία. Isto é o que introduz o mundo próprio de Paulo, articulando sua autêntica situação, e determinando cada momento de sua vida125. Mas nem todos destinatários compreenderam a primeira carta do apóstolo.

No documento carolinablasiodasilva (páginas 31-34)