5. Discussão
5.4 Espiritualidade, Religiosidade e Relação com a morte
Vimos com Pessini (2008) que com espiritualidade podemos entender um movimento humano inato de busca de transcendência e sentido da vida, enquanto as religiões podem ser vistas como as instâncias culturais coletivas que tradicionalmente se ‘encarregaram’ de fornecer respostas às grandes perguntas sobre o sentido da existência, sua origem e seu fim. Partindo desta concepção, é coerente assumir que entre espiritualidade (busca/demanda) e religião (oferta) pode haver encontros e desencontros.
Pedindo perdão pela linguagem algo mercadológica em que estamos colocando a questão, queremos, contudo, salientar que a possibilidade de um encontro de respostas, - que muitas vezes sabemos que se originam nas próprias religiões, ou em outras crenças de natureza transcendente – constitui, muitas vezes, um alívio para o anseio relacionado ao sentido (Py e Doll, 2005, Negreiros, 2003).
Com respeito à religiosidade, em nossa amostra encontramos filiações a diferentes denominações pertencentes à tradição cristã: católica, metodista, presbiteriana e ortodoxa, ou espírita. A ausência de outras denominações pode ser devida ao fato pequeno tamanho
da amostra. Como visto, quatro sujeitos referiram não rezar e não ser muito religiosos, enquanto nenhum indivíduo se declarou ateu.
Constatamos, portanto, nos resultados a forte presença das práticas e também das crenças religiosas, que por si só não apresentou relação com o bem estar. Também a associação entre religiosidade e relação com a morte não parece ser tão visível.
A relação com a morte, em particular, foi uma questão que dividiu a amostra transversalmente: quatorze sujeitos abordaram de forma bastante tranqüila a proximidade do fim da existência e/ou sua possível continuidade em outra dimensão, enfatizando sua naturalidade, enquanto outros seis reagiram com resistência ou evasão ao tema, afirmando até não querer pensar ou falar sobre o assunto.
Podemos afirmar com tranqüilidade que poucos sujeitos mostraram pouco envolvimento em narrar suas vidas. O estímulo ao ato de narrar, e com isso de recordar, em geral encontrou grande ressonância e participação nos sujeitos muito idosos. Sabemos que isto se deve também ao fato que a própria entrevista – evento inédito para a maioria - pode ter desempenhado uma função de valorização subjetiva, função destacada por Frumi e Celich (2006). Mas o que caracterizou os sujeitos com maior bem estar atual foi uma maior facilidade e envolvimento em abordar os temas da entrevista que não da história de vida, expressamente relativos a envelhecimento, espiritualidade, finitude e sentido da vida. Por este motivo seus depoimentos podem ter aparecido com uma freqüência um pouco maior na exposição dos resultados.
Definições da morte como ‘um fato natural, uma passagem, uma viagem’, relatos de episódios milagrosos envolvendo entes queridos e crença na existência da continuação da vida espiritual depois da morte, estão presentes principalmente nos discursos dos sujeitos com BES maior. Estas se apresentaram sempre acompanhadas por uma atitude não só de aceitação, mas também de esperança, sugerindo a associação entre menor medo da morte, aspectos da religiosidade intrínseca e bem estar relativo a este domínio. Esta observação converge com os achados de Wink e Scott (2005), que estudaram religiosidade e medo da morte, e concluíram que a firmeza e a consistência das crenças, mais do que a religiosidade per se, teriam um papel protetor contra a angústia de morte.
Ao realizar as entrevistas, foi interessante perceber que a proposta do tema da morte suscitou reações iniciais bastante diferentes, mas que a maioria depois de poucas frases já
estava menos tenso do que na colocação da primeira pergunta. A mera possibilidade de falar e pensar sobre um tema que é socialmente um tabu, tanto revelou a maior facilidade de alguns, quanto pareceu facilitar, ao menos um pouco, outros.
Os que tiveram, em média, maior dificuldade com o tema da finitude foram os idosos do grupo de BES médio, grupo que tampouco mencionou a religião ou a fé como recursos de enfrentamento para as dificuldades da vida pregressa, no Item sobre Resiliência. Neste agrupamento estão reunidas pessoas que, partindo de situações de pobreza e privação, relatam ter alcançado seu bem estar graças a um grande esforço pessoal, perseverança e força de vontade. Notamos que o único sujeito com maior bem estar que evitou sumariamente responder sobre a finitude, - caso que constitui uma exceção, - na questão relativa ao sonho respondeu “uma morte feliz”. Neste caso, psicologicamente diríamos que a morte pode ser sonhada, mas não pensada; sabe-se que é inevitável, mas não é explicada e nem aceita: aparentemente, apesar do bem estar geral, não foi construído um significado para a dimensão da finitude que, não por acaso, foi definida por Boff (2003): “o complexo mais difícil de ser integrado”.
Os temas investigados foram deliberadamente escolhidos para uma caracterização subjetiva do bem estar na velhice avançada, e temos de reconhecer que falar sobre eles requer um esforço de elaboração pessoal das grandes questões existenciais. Particularmente, consideramos que poder falar sem muito constrangimento e angústia sobre a morte, sabendo de sua proximidade por conta da própria idade, revela, no mínimo, o grande mérito de não ter evitado a questão. Como vimos, a relação com a finitude, sendo ela explicada de forma mais ou menos transcendente ou apoiada nas crenças de uma religião específica, é considerada crucial para o bem estar psicológico de quem chega a esta veneranda idade (Tobin, Fullmer e Smith, 1994).
Este tema revelou maior complexidade que outros tanto para a coleta, como para a análise, quanto para a discussão dos dados, refletindo em parte nossa dificuldade coletiva e cultural diante da finitude (Kübler-Ross, 1989; Py, 2006). Ele somente parece assumir contornos mais aceitáveis quando visto pela lente da “Realidade amorosa” de que fala Boff (2003):
“As religiões [...] articulam [a experiência] em doutrinas, em ritos, celebrações e em caminhos éticos e espirituais. Sua função primordial reside em
criar e oferecer condições para que cada pessoa humana e as comunidades possam fazer um mergulho na realidade divina e fazer a sua experiência pessoal de Deus.
Essa experiência porque é experiência e não doutrina tem como efeito a irradiação de serenidade, de profunda paz e de ausência do medo. A pessoa sente-se amada, acolhida e aconchegada num Utero divino, o que lhe acontecer, acontece no amor desta Realidade amorosa. Até a morte é exorcizada em seu caráter de espantalho da vida. É vivida como parte da vida, como o momento alquímico da grande transformação para poder estar, de fato, no Todo e no coração de Deus”. (Boff, 2003, pág. 4, negrito do autor)
Em conclusão da discussão dos aspectos espirituais e existenciais, consideramos que o que mostrou ter relevância para o bem estar dos indivíduos entrevistados, foi a presença de uma espiritualidade incorporada na vivência diária, que proporcione uma visão esperançosa e mais confiante com relação à finitude humana, seja esta expressa de forma mais ou menos ligada a uma religião ou a uma prática religiosa específica.