CENA I Dona Magnólia, Aninha
T: Ali se o ator esquece o texto ou erra qualquer coisa tem que improvisar, não tem como voltar a
cena.
Achamos a experiência de termos assistido à peça bastante positiva pela possibilidade dos sujeitos observarem alguns elementos envolvidos nesta arte e estudados nas sessões terapêuticas. Eles ocuparam o lugar de espectadores, gostaram do que viram e já ficaram fazendo planos para a próxima experiência. Este procedimento de assistir a uma peça foi de encontro ao que diz Rodrigues53 quando sugere que, para um trabalho centrado na perspectiva dos gêneros, é necessário aproximar os sujeitos o máximo possível das situações concretas de interação nas quais os textos desse gênero circulam. Assim, se o trabalho for focado na notícia, por exemplo, é importante que o sujeito entre em contato com o jornal e com outros suportes do gênero. Assistir a uma peça, então, foi importante para que os participantes do grupo conhecessem um dos lugares de circulação desse gênero. Da mesma forma, ao trabalharmos com a leitura de peças em outros suportes (livro e internet), objetivamos também essa aproximação. Visando, ainda, à articulação entre as práticas de leitura, análise linguística e produção textual (GERALDI 1997), explicitamos, a seguir, os procedimentos relacionados às práticas de produção textual da peça de teatro.
4.7 A PRODUÇÃO DA PEÇA DE TEATRO
Conforme delineamos no capítulo da metodologia, os vinte e nove capítulos do romance Goosebumps: Ele saiu debaixo da pia foram divididos entre os sujeitos para que eles realizassem a reenunciação para o gênero peça de teatro. O processo de reenunciação (romance para peça) teve de ser dividido em duas partes devido à complexidade do processo. Como os sujeitos estariam lidando com uma série de conceitos novos, achamos prudente facilitar a produção escrita. A primeira parte da escrita esteve centrada nos seguintes aspectos: indicações dos personagens no canto esquerdo da página e nas microrubricas, que estão relacionadas à indicação da movimentação dos atores em cena e também ao estado de ânimo dos personagens. A segunda parte da escrita da peça foi pautada na divisão em cenas da peça completa produzida pelo grupo. Essa divisão se sustentou na entrada e saída de personagens em cena, ou seja, a cada vez que entrava ou saía um personagem do palco, deu-se início à nova cena. Também, nesta segunda parte, trabalhamos com as chamadas macrorubricas, que correspondem às vistas que são colocadas no topo de cada cena e indicam, por exemplo, se é dia ou noite, cena externa ou interna, e trazem as indicações de cenário.
Desse modo, apresentaremos o processo de produção da peça envolvendo os dois momentos de escrita. Serão apresentados episódios dialógicos que envolveram todo o procedimento de escrita e também os textos produzidos. Não será possível, nesta dissertação, apresentar a análise completa de toda a peça produzida pelo grupo, em vista da sua extensão, assim, limitar-nos-emos a apresentar trechos de produções realizadas em conjunto e dois textos completos54 representativos das reenunciações de capítulos do romance. Dos textos completos, o primeiro é relativo à primeira produção mediada e o segundo traz a produção dos sujeitos sem qualquer tipo de interferência, seja da terapeuta ou dos colegas, expressando a possibilidade de os participantes do grupo operarem seus enunciados com autonomia.
Importante comentar que a primeira sessão de produção da peça foi realizada individualmente (sujeito/paciente e terapeuta). Esta sessão individual aconteceu no dia 12/03/2009 para todos os sujeitos, com
54 A concepção que adotamos nesta pesquisa é aquele dado por Bakhtin, isto é, na qualidade de enunciado, que se manifesta na interação social. Assim, o texto só pode ser concebido na sua realidade concreta e viva, constituído por elementos verbais e extraverbais e, portanto, estabelecendo relações dialógicas com outros textos, anteriores e posteriores a ele.
exceção de L, que foi atendido no dia 19/03/2009. Neste dia 19, L chegou bem mais cedo ao atendimento, realizou uma sessão individual e, em seguida, participou com os colegas do atendimento em grupo. A seguir analisaremos os processos das produções de âmbito individual e no grupo, em seções separadas.
4.7.1 A interlocução em terapia fonoaudiológica: atendimento individual
A interlocução aqui é entendida da forma como propõe Geraldi (1997), como espaço de produção de linguagem e de constituição dos sujeitos e é pensando desse modo, ou seja, focalizando a linguagem como processo interlocutivo, que compreendemos nosso fazer fonoaudiológico como um processo instaurado na e sobre a singularidade de nossos sujeitos/pacientes, que deste lugar se constituem. Entender que o indivíduo se constitui na e pela linguagem, diz Geraldi , significa aceitar que o sujeito não está dado, não é posto, não é acabado, e sim que se (trans)forma no processo de interação verbal.
A seguir, apresentamos episódios das sessões individuais que resultaram na produção individual55 dos sujeitos.
4.7.1.1 A produção inicial de J
Primeiramente a produção de J (referente à reenunciação do capítulo três do livro em questão – Goosebumps) seguida de uma análise:
(1)DANIEL – ahn? O que foi, Kat?
(2)KAT (olha asustada para esponja). Talves os meus olhos estejam pregando (3)peças em mim. Isto é muito esquisito!
(4)DANIEL – Puxa, Kat, fale logo.
(5)KAT – Nossa (grita). Os meus olhos estão enchergando muito bem. A (6)esponja se mexe na minha mão como estivece respirando. mais esponjas não (7)respirão não é mesmo? Daniel, acho que ela está viva!
(8)DANIEL- esta bicadeira é muito boba (rindo). Você não vai me pegar não, (9)Kat. isto é uma esponja velha que esta que está ai ha milhois de anos. (10)KAT – tá certo não presisa acreditar em mim (grita). Quando eu ficar (11)famosa por discobrir esta coisa, não diser pra nimgei que você é meu irmão. (12)(a mãe entra em cena co o braso cheio de casaco)
(13)KAT- mãe (gritou) a esponja, ela está viva!
(14)MÃE (age como se não tivecessi dando atenção). legal! aonde estão os (15)talheres?
(16)KAT – puxa ninguém liga para minha descoberta, só valente. (17)VALENTE – Grrrrr....(segura a esponja nos dentes)
(18)KAT – Ei, isto não é para comer! (tirou o cachoro a de baixo da pia) (19)KAT – (se vira para Daniel) – está vendo? Valente. Saese [parece] que ela (20)está viva. Não é um truque, olhe de perto.
(21)DANIEL (faz careta e enfia a cabesa no armário) – Talvez você tenha razão (22)acho que ela está viva! Vou pegá-la
(23)KAT (faz um movimento para agarar Daniel) (24)DANIEL (grita de dor) aiii!
(10) [12/03/2009] Produção textual de J. referente à reenunciação do capítulo 3 do romance.
No início do processo de escrita, percebemos que J fica meio em dúvida, diz não saber como começar.
(23) [12/03/2009]
T: É para transformar a história do livro em uma