24-27 Mar 2011
concepção e encenação Adriano Cortese
estreia [8Ago2007]
Arts House (Melbourne, Austrália)
É o regresso ao Porto da companhia australiana Ranters Theatre, dos irmãos Cortese (Adriano, o encenador;
Raimondo, o dramaturgo) e dos talking heads ou tagarelas compulsivos que habitam o seu teatro. Visitaram ‑nos pela primeira vez em plena Capital Europeia da Cultura, num PoNTI que durou todo o ano de 2001; voltaram em 2003, à boleia de Coimbra – Capital Nacional da Cultura; e regressam agora, a bordo do Odisseia, para celebrar o teatro e o seu Dia Mundial. De Holiday pode ‑se dizer que é uma gentil provo‑
cação. Num pacato dia de férias, dois estranhos descansam junto a uma piscina. Nada têm para fazer, e provavelmente nada têm para dizer. Todavia, sob diálogos aparentemente inconsequentes e longos silêncios, circulam fantasias ínti ‑ mas, ansiedades e culpas encapotadas, inquietações que se plasmam em inesperadas canções barrocas, cantadas a cappela pelos actores em calções de banho. Uma incur‑
são nas complexidades do chamado “homem simples”, feita num frugal quadro cénico, uma das imagens de marca da companhia de Melbourne, a par do primado absoluto de uma representação viva. •
qui‑dom 21:30 dur. aprox. [1:20]
M/12 anos
Esta peça sobre nada contém magní‑
ficas camadas de temas estimulantes.
Apesar de não sabermos nada de importante sobre estes dois homens, cada palavra e cada frase ganham muito mais sentido porque quem eles são, a sua identidade e relação um com o outro, é algo que está a ser construído instante a instante. Não há história, no sentido de uma narra‑
tiva em desenvolvimento, apenas uma sequência de momentos crista‑
linos que podem ir de aborrecidos a belos num só salto. O cenário de Anna Tregloan – uma caixa branca inten‑
samente iluminada que contém a piscina, várias cadeiras e um par de bolas de praia – contradiz a comple‑
xidade que palpita sob a simplicidade aparentemente minimalista da peça.
As interpretações de Lum e Moffatt são requintadamente moduladas e
refinadas, produzindo um naturalismo que nunca parece forçado. Os irmãos Raimondo e Adriano Cortese têm vindo a criar uma poderosa obra sob a égide dos Ranters, e esta peça afável, de tonalidades subtis e intelectual‑
mente rigorosa é claramente um dos seus melhores trabalhos. •
John Bailey
The Age (19 Aug. 2007).
Este projecto foi escrito para ir a cena.
Este projecto fala da espera, mas não quer fazer ‑se esperar. Fala também da não ‑inscrição, mas quer com toda a certeza inscrever ‑se no panorama teatral nacional. É a oportunidade de reflectir sobre a possibilidade de podermos desacelerar, num mundo que circula cada vez mais veloz e se consome de forma descartável.
Esperar o tempo certo para que a fruta ou o vinho amadureçam, tornando ‑os especiais de reserva; e de como isto se transfere para as relações humanas.
Em Glória, queremos também reflectir sobre o porquê de cada vez mais não nos inscrevermos na sociedade e de
como isso se espelha no discurso e no corpo de quem vive aqui e agora.
Segundo José Gil (filósofo português residente em Paris), os portugueses não fazem o luto e com isto prolongam ad nauseam a espera, como se as coisas não estivessem realmente inscritas no presente, mas se inscre‑
vessem em alguma coisa que ainda está para vir. Subscrevendo total‑
mente esta ideia, escrevi Glória. • Cláudia Lucas Chéu
Em Glória, ou Como Penélope Morreu de Tédio ressoam temas e personagens da epopeia grega, mas este projecto olha de frente para a psicopátria lusa. Chega ‑nos com aquele sentido de urgência que caracteriza grande parte da novíssima dramaturgia portuguesa, território em expansão de onde emerge o nome de Cláudia Lucas Chéu, actriz que se tem aventurado na pele de autora e encenadora. Neste solo a várias vozes interpretado por Albano Jerónimo, colocam ‑se em tensão aspectos do modo atávico de ser português – a transmissão do medo, a paralisia da espera, a recusa do luto –, espécie de variação crítica do mito de D. Sebastião feita a partir de personagens inspiradas na Odisseia de Homero. Há uma figura, Pathos, que compõe um hino dedicado à espera da mãe, e esse filho e essa mãe poderiam chamar ‑se Telémaco e Penélope, condenados a desesperar pelo regresso de Ulisses a Ítaca, de onde partiu para combater na guerra de Tróia. Em Glória, a espera é um bem precioso que convida ao silêncio e à reflexão, mas é também um prejuízo, porque é o compasso vazio entre o passado (as memórias vividas) e o futuro por vir que ideali‑
zamos nas nossas cabeças. •
Teatro
espaço cénico e figurinos Ana Limpinho espaço sonoro Vítor Rua desenho de luz Nuno Meira realização vídeo Sérgio Graciano direcção de fotografia Miguel Manso assistência de encenação Solange Freitas————————————
interpretação Albano Jerónimo participação especial Grupo de Teatro Comunitário As Avozinhas de Palmela (direcção Dolores Matos)
estreia [6Jan2011]
Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa)
qua‑sáb 21:30 dom 16:00 dur. aprox. [1:30]
M/16 anos
A fEBre
33 assistência de encenação Emílio Gomes
Centro Cultural Vila Flor (Guimarães)
dom 21:30 dur. aprox. [1:30]
M/12 anos
A Febre é um texto político, com certeza, mas não como esses outros, aqueles outros, esses tais que sabiam a verdade toda, e a verdade logo com V grande, ó caneco, e não admitiam qualquer “senão”, nenhum
“porém”, nem sequer um tremeli‑
cante “quê?”. Não, este A Febre não é nenhuma cassete desbobinada a partir do púlpito ou do palanque, aqui não há nada dessa pose de
“dono da verdade” de tanto texto dito “político”. Aqui “político” não precisa de aspas, aqui “político” não é a tradução nacional ‑porreirista de
“fraquito”, ou “ali entre o medíocre e o mediano”, ou chato ‑como ‑a‑
‑potassa ‑mas ‑aguentem ‑lá ‑em ‑nome‑
‑da ‑crença ‑ideológica ‑ou ‑clubística‑
‑cá ‑da ‑malta. Nesta magnífica peça – monólogo? conto? ensaio? discurso?
– de Wallace Shawn, o político vem do
próprio texto, não aparece imposto de fora, caído de pára ‑quedas, descido dos céus para nos vender uma qualquer metáfora ‑lição em palavras de pedra. Aqui o político surge das entrelinhas da vida; de uma vida na primeira pessoa que nos é mostrada mais do que explicada. Aqui o político implica ‑nos de imediato porque parte de um viver concreto, de uma história bem feita, isto é, feita verdade. • Jacinto Lucas Pires
Excerto de “Punho fechado”. In Solos: [Programa].
Porto: Teatro Nacional São João, 2010.
O teatro e a música trocam de casa para se celebrarem:
a Casa da Música comemorou, no dia 1 de Outubro, o Dia Mundial da Música no TNSJ, que no dia 27 de Março retribui o gesto, assinalando o Dia Mundial do Teatro no edifício de Rem Koolhaas. Na ocasião, João Reis interpreta A Febre, monólogo incómodo de Wallace Shawn, actor que reconhe‑
cemos de filmes de comédia norte ‑americanos, mas que é também autor de peças politicamente controversas. Neste texto de 1990, o dramaturgo explora sem piedade a ambigui‑
dade moral da América liberal na relação com os países do
“terceiro mundo”. Num cenário de guerra, um homem adoece num miserável quarto de hotel. Olhar pela janela implica testemunhar execuções e outras atrocidades. Mergulho em profundidade na consciência da culpa, este A Febre ence‑
nado por Marcos Barbosa tem em João Reis um intérprete inteiro, que nos devolve um teatro para ver o mundo no dia em que o mundo olha para o teatro. •