3 DO DIREITO À EDUCAÇÃO À EDUCAÇÃO EM DIREITOS HUMANOS
3.3 ANOS 90
3.3.1 Estatuto da Criança e do Adolescente ECA (1990)
3.3.1-a Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança (1989)
A Convenção sobre os Direitos da Criança, adotada em 1989 e vigente desde 1990 é o tratado de direitos humanos que mais se aproxima da ratificação universal. Abrangendo tanto direitos civis e políticos quanto direitos econômicos, sociais e culturais, a Convenção estabelece, como regra geral, que criança é o ser humano com menos de 18 anos de idade. Além de enumerar direitos específicos à criança, a Convenção estabelece um princípio que rege toda a normativa protetiva: o melhor interesse da criança.
Artigo 3
1. Todas as ações relativas às crianças, levadas a efeito por autoridades administrativas ou órgão legislativos, devem considerar, primordialmente, o interesse maior da criança.
Para o monitoramento das obrigações, a Convenção estabeleceu ainda o Comitê sobre os Direitos da Criança, o qual recebe relatórios periódicos dos Estados. Não há previsão da sistemática de comunicações interestatais e de petições individuais. Tendo em vista o zelo por determinadas questões que afligem crianças em todo o mundo, foram aprovados pela Assembléia Geral, em 25 de maio, dois Protocolos: o Protocolo Facultativo sobre a Venda de Crianças, Prostituição e Pornografia Infantis e o Protocolo Facultativo sobre o Envolvimento de Crianças em Conflitos Armados; ambos assinados pelo Brasil em 2000.
No âmbito interno, o constituinte já havia consolidado no Texto Constitucional todo o debate acerca da necessidade de uma proteção especial às crianças e aos adolescentes. Não somente reservou um capítulo à família, à criança, ao adolescente e ao idoso, como estabeleceu a proteção da criança e do adolescente como prioridade absoluta:
Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei n. 8.069, de 13 de julho de 1990, deverá subsidiar e integrar a apresentação do grupo. Considerado um dos documentos que melhor espelha os direitos elencados na Declaração sobre os Direitos da Criança, o ECA constitui um marco na normatização de direitos no Brasil. Cumpre ao professor ressaltar a opção brasileira, clara tanto na Constituição Federal quanto no ECA, de designar a denominação de criança aos seres humanos até 12 anos incompletos e de adolescente para a idade entre 13 e 18 anos incompletos.
Ao entrar em vigor, o ECA revogou o Código de Menores, derrubando tal nomenclatura e adequando o ordenamento jurídico nacional aos imperativos internacionais e constitucionais. Implementou a Doutrina Jurídica da Proteção Integral (art. 1º), designando uma nova condição jurídica à criança e ao adolescente: passa a ser sujeito de direitos, igual em dignidade e respeito a todo adulto, que precisa de proteção especial em virtude de ser uma pessoa em desenvolvimento, não sendo mais considerada como mera extensão da família.
A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança22 da ONU de 1989 é, segundo Luciano Mariz Maia (2007, p. 97), “a mais forte influência para a edição do Estatuto da Criança e do Adolescente”. É dela que advém o conceito de proteção integral e respeito aos melhores interesses da criança. De acordo com a Convenção, entende-se por criança todo ser humano menor de 18 anos de idade, salvo se, em conformidade com a lei aplicável à criança, a maioridade seja alcançada antes. São reconhecidos às crianças todos os direitos humanos, mas, a estes, são acrescentados outros decorrentes das especificidades da criança, em razão de sua maior vulnerabilidade e do fato de ainda estar em processo de formação e desenvolvimento. Nesse sentido, assumem os Estados a obrigação de adoção de medidas legislativas, administrativas, sociais e educacionais para proteger a criança de todas as formas de violência física ou mental, agressões ou abusos, negligência, maus tratos, exploração, incluindo abuso sexual, quer esteja aos cuidados dos pais, responsáveis legais ou outros guardiães.
Tendo influenciado significativamente a legislação brasileira (tanto a Constituição Federal quanto o Estatuto da Criança e do Adolescente), a Convenção de 1989 dá destaque à necessidade de respeito aos direitos humanos civis, políticos, econômicos, sociais culturais
22 Adotada pela Resolução n. L.44 (XLIV) da Assembléia Geral das Nações Unidas, em 20 de novembro de
1989 e ratificada pelo Brasil em 24 de setembro de 1990. Promulgada pelo Decreto 99.710, de 21 de novembro de 1990.
para as crianças, embora seja evidente a preocupação especial com dois desses direitos: o direito à saúde, constante do art. 24 (inclusive em suas dimensões de redução da mortalidade infantil, universalização dos serviços básicos de saúde, assistência pré e pós-natal às mães, adoção de medidas de saúde preventiva) e o direito à educação, constante do art. 28, mas desdobrados em outras partes da Convenção.
A Convenção afirma que a educação da criança deve ser voltada para o desenvolvimento de sua personalidade, seus talentos e suas habilidades físicas e mentais, até o máximo de seu potencial; ao desenvolvimento pelo respeito aos direitos humanos e liberdades fundamentais; respeito à sua identidade cultural, à sua língua e seus valores; para o preparo da criança para uma vida responsável em uma sociedade livre, com espírito de compreensão, paz, tolerância, igualdade entre os sexos, amizade entre os povos, e entre as diferenças etnias. (MAIA, 2007, p. 97)
O art. 29 reza o seguinte:
§1. Os Estados Membros reconhecem que a educação da criança deverá estar orientada no sentido de:
a) Desenvolver a personalidade, as aptidões e a capacidade mental e física da criança e todo o seu potencial.
b) Imbuir na criança o respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais, bem como aos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas.
c) Imbuir na criança o respeito aos seus pais, à sua própria identidade cultural, ao seu idioma e seus valores, aos valores nacionais do país em que reside, aos do eventual país de origem e aos das civilizações diferentes da sua.
d) Preparar a criança para assumir uma vida responsável em uma sociedade livre, com espírito de compressão, paz, tolerância, igualdade de sexos e amizade entre todos os povos, grupos étnicos, nacionais e religiosos e pessoas de origem indígena.
e) Imbuir na criança o respeito ao meio ambiente.
§2. Nada do disposto no "presente artigo ou no artigo 28" será interpretado de modo a restringir a liberdade dos indivíduos ou das entidades de criar e dirigir instituições de ensino, desde que sejam respeitados os princípios enunciados no "presente artigo,§1", e que a educação ministrada em tais instituições esteja de acordo com os padrões mínimos estabelecidos pelo Estado.
Neste diapasão, cabe lembrar que a Convenção sobre os Direitos da Criança, foi o tratado internacional de proteção de direitos humanos com o mais elevado número de ratificações. Nos termos dessa Convenção, a criança é acolhida a concepção de proteção integral da criança, reconhecendo-a como verdadeiro sujeito de direito, em peculiar condição de desenvolvimento, a exigir absoluta prioridade.
Os anos seguintes à promulgação da Constituição foram de muitas conquistas sociais. Uma bem sucedida articulação entre sociedade civil, parlamentares e organizações internacionais resultou na aprovação de leis históricas, dentre as quais merece destaque a Lei nº 8.069 de 13 de julho de 1990, conhecida como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) que vem ratificar o direito à educação:
Art. 53 A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes:
I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - direito de ser respeitado por seus educadores;
III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores;
IV - direito de organização e participação em entidades estudantis; V - acesso a escola pública e gratuita próxima de sua residência.
O ECA insere-se numa complexa agenda para implementação plena dos direitos civis, políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais. Fazem-se, todavia, imprescindíveis vontade política e competência técnica para tirar a lei do papel.