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1.2 A EVOLUÇÃO DA LEGISLAÇÃO NO BRASIL

1.2.4 Estatuto da Criança e do Adolescente (1990)

O advento do Estatuto da Criança e do Adolescente21 marcou o abandono do "Direito do Menor" e a ruptura com a "Doutrina da Situação Irregular", dando início ao chamado "Direito da Infância e da Juventude". Acolheu a "Doutrina da Proteção Integral", baseada no princípio da prioridade absoluta na proteção dos direitos de seus destinatários, não só pela família e pela sociedade, como também pelo Estado. Todas as crianças – pessoas com até doze anos de idade incompletos – e adolescentes – pessoas com idade compreendida entre doze e dezoito anos incompletos – passam a ser consideradas como pessoas em condição peculiar de desenvolvimento. Evitou-se, assim, o estigma do termo jurídico "menor", "[...] rompendo, definitivamente, com a ideia até então vigente de que os Juizados de Menores seriam uma justiça para os pobres" (SARAIVA, 2002, p.16).

Dentre as inúmeras inovações decorrentes da ordem jurídica preconizada pelo Estatuto, ressalta-se a desjudicialização dos casos exclusivamente sociais (DIGIÁCOMO; DIGIÁCOMO, 2010) e o atendimento das necessidades básicas da população empobre- cida não mais encarada como benemerência, mas como direito assegurado em lei. Ainda, ressalta-se a gradativa extinção dos internatos e a alteração total da sistemática de atendimento a ser prestado à criança e ao adolescente.

A política de atendimento aos direitos da população infanto-juvenil passa a ser prestado mediante um sistema articulado de ações governamentais e não gover- namentais, envolvendo dentre os entes políticos, o município. A política pública passa a ser elaborada com a participação da sociedade civil e, inclusive, controlada por meio do Conselho Nacional, Estadual e Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente.

Outra inovação digna de nota consiste na criação de Conselhos Tutelares, relacionados à esfera do Poder Executivo Municipal.

Cumpre ressaltar, também, a fixação de idade cronológica como critério objetivo para a aplicação de medidas à criança ou ao adolescente autor ato infracional22, conforme expressamente disposto no art. 2.º do Estatuto.

21 Doravante será referido neste trabalho como "Estatuto".

22 Conforme estabelecido no artigo 103 do Estatuto da Criança e do Adolescente, ato infracional é a

Para que os direitos fundamentais previstos tanto na Carta Magna quanto convenções internacionais e listados na parte geral do Estatuto, não fossem apenas normas programáticas, o legislador assegurou ferramentas para a sua concretização por meio de políticas públicas23, previstas na parte especial do Estatuto. O ordenamento jurídico conferiu, inclusive à sociedade, o poder de participação voltada a assegurar os direitos estabelecidos à população infanto-juvenil. Em caso de omissão da família, da sociedade ou do Poder Público, prevê o acesso ao Judiciário por meio de proce- dimentos dispostos em sua parte especial.

O Estatuto estabeleceu normas que orientam uma nova proposta de política de atendimento dos direitos de seus destinatários, instituindo o "Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente" (SGD), cujos parâmetros estão dispostos na Resolução n.º 113, de 19 de abril de 200624, do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA). Trata-se de política distributiva, universal – garantida por lei –, financiada pela população como um todo e cujos beneficiários são integrantes de um determinado segmento social (AZEVEDO, 2003), ou seja, crianças e adolescentes.

Ainda, no Estatuto a família figura no rol de devedores da garantia na efetivação dos direitos fundamentais de crianças e adolescentes. É reconhecida pelas mais diversas áreas do saber como local privilegiado de proteção e desenvol- vimento do indivíduo e deve ser tutelada pelo Estado, haja vista a necessidade de sua continuidade e preservação (ROSSATO; LEPORÉ; CUNHA, 2010) Logo, faz-se oportuno apresentar como o Estado vem implementando essa tutela, tanto jurídica quanto politicamente.

23 Sobre o tema, sugere-se a leitura da segunda seção do artigo "Sistema socioeducativo

direcionado à responsabilização e promoção social de adolescente autor de ato infracional". Disponível em: <http://editora.unoesc.edu.br/index.php/espacojuridico/article/view/1769>.

24 Art. 1.º - O Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente constitui-se na

articulação e integração das instâncias públicas governamentais e da sociedade civil, na aplicação de instrumentos normativos e no funcionamento dos mecanismos de promoção, defesa e controle para a efetivação dos direitos humanos da criança e do adolescente, nos níveis Federal, Estadual, Distrital e Municipal.

§1.º Esse Sistema articular-se-á com todos os sistemas nacionais de operacionalização de políticas públicas, especialmente nas áreas da saúde, educação, assistência social, trabalho, segurança pública, planejamento, orçamentária, relações exteriores e promoção da igualdade e valorização da diversidade.

2 A CONSTRUÇÃO JURÍDICA E POLÍTICA DIRECIONADA À FAMÍLIA

Este capítulo apresenta, inicialmente, ainda que de forma breve, alguns aspectos metodológicos relativos ao estudo de políticas públicas (item 2.1). Há diversos modelos adotados para o seu estudo, sem que haja entre eles uma concorrência, "[...] no sentido [de] que algum deles possa ser julgado o 'melhor'. Cada um focaliza um aspecto distinto da vida política e pode nos ajudar a entender coisas diferentes das políticas públicas" (DYE, 2005, trad. HEIDEMANN, 2009). Apresenta-se, aqui, reflexões sobre o modelo da "Policy Arena" (LOWI, 1972, apud FREY, 2000) ou "Arenas Sociais" (SOUZA, 2006). Entretanto, esse modelo não se constitui em objeto do presente estudo.

Em continuação, aborda a importância da família na sociedade (item 2.2) e considerações jurídicas sobre ela, a partir do século XX (item 2.3). Discorre sobre as novas formas de entidade familiar, reconhecidas constitucionalmente (item 2.4) e sobre a assistência social, enquanto parte integrante da seguridade social (2.5). Trata, inclusive, da família na PNAS e no SUAS (item 2.6). Em sua última seção, apresenta a família no Estatuto da Criança e do Adolescente (item 2.7).