3.3 AS MEDIDAS APLICÁVEIS AO AUTOR DE ATO INFRACIONAL
3.3.2 Medidas Socioeducativas Privativas de Liberdade
A liberdade constitui-se em um dos direitos fundamentais da mais alta relevância estendido aos adolescentes infratores como sujeitos de direitos humanos garantidos não somente no artigo 5.º, LXI a Constituição Federal, mas em todo o ordenamento jurídico.
As medidas restritiva e privativa de liberdade devem ser aplicadas pelo menor lapso temporal possível e impostas quando esgotadas as demais medidas ou estas se mostrarem inviáveis. Acrescido a isso, a condição de imaturidade biopsicossocial em que se encontra o adolescente, constitui-se num dos pilares da própria Doutrina da Proteção Integral.
A Semiliberdade (art. 120) e a Internação (art. 121 a 125) são as únicas medidas socioeducativa consistentes em institucionalização (BARATTA, 2006, p.409). Ambas são regidas pelos princípios constitucionais e estatutários da brevidade, excepcionalidade e respeito à condição peculiar de desenvolvimento, em conformidade com as recomendações contidas na normativa internacional voltada à privação da liberdade de adolescente, acima referida.
Segundo Costa (2006, p.416):
O princípio da brevidade enquanto limite cronológico; o princípio da excepcionalidade, enquanto limite lógico no processo decisório acerca de sua aplicação; e o princípio do respeito à condição peculiar de desenvolvimento, enquanto limite ontológico, a ser considerado na decisão e na implementação da medida.
A Semiliberdade consiste na permanência do adolescente em estabe- lecimento administrado pelo Poder Público estadual ou por entidade não gover- namental, destinada para este fim, que possua proposta social, pedagógica e terapêutica (HOPPE, 1992)
Pode ser utilizada como transição para o meio aberto, como substituição de medida, ou determinada desde o início, caracterizada pela privação parcial da liberdade do adolescente, com a obrigatoriedade de sua escolarização e profissionalização (ROSSATO; LEPORÉ; CUNHA, 2010).
Segundo Digiácomo e Digiácomo (2010), a medida de semiliberdade é a mais complexa dentre as demais previstas no Estatuto. Não obstante a expedição da Resolução n.º 47, de 6 dezembro de 1996, do CONANDA, com o intuito de regular a matéria,
[...] vários aspectos sobre a forma como se dará o atendimento de adolescentes permanecem obscuros. [...] pressupõe a elaboração de um
programa socioeducativo de excelência [...] que deverá ser devidamente
registrado no CMDCA local [...] e executado por profissionais altamente
capacitados. (DIGIÁCOMO; DIGIÁCOMO 2010, p.165). (Destaque dos
autores)
O Conselho Municipal está dotado de poder responsabilidade para exigir das entidades não governamentais a "[...] conformação de seus planos à lei e às políticas municipais [...]" (GONÇALVES, 2006, p.301). A entidade tem o dever de apresentar os planos de aplicação e a prestação de contas ao ente federativo – seja estado ou município – responsável pela dotação orçamentária, conforme disposto no artigo 96 do Estatuto.
A Internação é a medida mais rigorosa imposta ao adolescente autor de ato infracional prevista no Estatuto. Caracteriza-se pela privação da liberdade e deve ser cumprida em instituição sob a responsabilidade do Estado, específica e exclusivamente destinada para esse fim, em regime de contenção e segurança (Estatuto, art. 121 a 125).
Não comporta prazo determinado, mas sua aplicação deve ser reavaliada no máximo a cada 6 (seis) meses, não podendo, sob nenhum pretexto, ultrapassar 3 (três) anos. Cabível nas hipóteses do artigo 122 do Estatuto48 pode ser aplicada somente após o transcurso de devido processo legal, em que se assegurem o contraditório e a ampla defesa (LIBERATI, 2003).
48 Art. 122. A medida de internação só poderá ser aplicada quando:
I - tratar-se de ato infracional cometido mediante grave ameaça ou violência à pessoa; II - por reiteração no cometimento de outras infrações graves;
III - por descumprimento reiterado e injustificável da medida anteriormente imposta.
§1.º O prazo de internação na hipótese do inciso III deste artigo não poderá ser superior a três meses. § 2.º Em nenhuma hipótese será aplicada a internação, havendo outra medida adequada.
Liberati (2003, p.116) salienta:
[...] a medida de internação será necessária naqueles casos em que a natureza da infração e o tipo de condições psicológicas do adolescente fazem supor que, sem seu afastamento temporário do convívio social a que está habituado, ele não será atingido por nenhuma medida restauradora ou pedagógica, podendo apresentar, inclusive, riscos para sua comunidade.
Saraiva (2010) traça paralelo entre unidades de internação, no sistema socioeducativo e unidades de terapia intensiva, no sistema de saúde. Afirma que somente devem ser utilizadas em casos graves, que demandem esta alternativa, a ser utilizada pelo menor lapso temporal possível. Acrescenta que o respeito ao princípio da brevidade justifica-se, inclusive, pela inevitável contaminação com outras experiências negativas resultantes do convívio com outros adolescentes autores de condutas infracionais graves e elevado índice de comprometimento com a prática delitiva.
Ressalta que ao se cotejar as vantagens e desvantagens da privação da liberdade de adolescente, "[...] há que se levar em conta o interesse da sociedade, enquanto mecanismo de defesa social, e o interesse do adolescente, enquanto sujeito de um processo socioeducativo" (SARAIVA, 2010, p.172).
A liberação do adolescente da unidade de internação onde cumpre medida de internação será compulsória ao completar 21 (vinte e um) anos de idade (Estatuto, art. 121, § 5.º).
Dentre suas espécies, pode-se mencionar: a internação provisória; a
internação por descumprimento de medida; e a internação decorrente da sentença.
A internação provisória refere-se à custódia cautelar. "Antecede a sentença visando assegurar a presença do adolescente enquanto se processa o feito." (JESUS, 2006, p.100). Segundo estabelecido no Estatuto (artigos 108 e 183), não pode ultrapassar 45 (quarenta e cinco) dias. Caso a fase de conhecimento não seja concluída nesse prazo, o adolescente terá que ser posto em liberdade.
A internação por descumprimento de medida anteriormente imposta ou
internação-sanção, configura a possibilidade de substituição de medida mais branda
socioeducativa imposta anteriormente e descumprida reiterada e injustificadamente. Sua aplicação não pode exceder a 3 (três) meses.
Já a internação decorrente de sentença, não admite prazo determinado e sua manutenção deve ser reavaliada, no máximo, a cada 6 (seis) meses (Estatuto, art. 121, § 2.º). Jesus (2006), afirma que só faz sentido avaliar "[...] se ela for corretamente aplicada".
Segundo Jesus (2006, p.103), "[...] a privação da liberdade é o meio que possibilita a aplicação de instrumentos pedagógicos hábeis a fazer o adolescente compreender e valorizar os vínculos familiares e comunitários".
Cumpre observar que as significativas mudanças trazidas no bojo do Estatuto, até meados dos anos 2000, não haviam saído do "[...] plano jurídico e político conceitual [...]", tanto no que se refere ao seu conteúdo, quanto ao método e à gestão do atendimento do adolescente autor de ato infracional (BRASIL, 2006b, p.15).
Frassetto et al. ratificam esse entendimento ao afirmar que até meados dos anos 2000
As medidas em meio aberto, [...] salvo poucas exceções, ou seguiam sendo oferecidas de forma errática por entes estaduais, com baixa capilaridade e baixa integração com a rede local, ou estavam entregues à responsabilidade das prefeituras, sem compromisso de cofinanciamento e apoio técnico para implantação, implementação e capacitação de pessoal. Em outros locais, em notório desvio de função, o Judiciário assumia [...] o papel de propositor e gestor de programas de prestação de serviços à comunidade e liberdade assistida (FRASSETO, et al. 2012, p.20).
Os autores acrescentam que a escassez do investimento especificamente nessa área, associada à indefinição legal das atribuições de cada esfera do governo na formulação, manutenção e custeio de programas socioeducativos, permitia ao gestor público manter-se inerte, sob a justificativa de não ser de sua incumbência a oferta do serviço, até que em 2004.
[...] a Política Nacional da Assistência Social chamou para o orçamento da Assistência Social a responsabilidade pelos programas/serviços socioeducativos, instituindo, ao mesmo tempo, uma proposta de partição de responsabilidades entre os entes da federação na oferta da política, tendo como referência o modelo do Sistema único de Saúde (SUS). Era o passo inicial para a constituição do Sistema único de Assistência Social (SUAS). (FRASSETO et al., 2012, p.22).
Houve a necessidade de "[...] normatizar a atuação dos organismos em torno do atendimento socioeducativo [...]" (COSTA, s.d., p.3), a fim de tentar concretizar o que fora previsto nas diretrizes constitucionais e nas disposições estatutárias. Em 2006 foi, então, instituído o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (SINASE) e, seis anos depois, foi aprovada a lei que tem por objetivo a regulamentação da execução das medidas socioeducativas e a institucionalização legal desse sistema (FRASSETO et. al., 2012; JIMENEZ et al., 2012).
O próximo capítulo discorre sobre o SINASE e seus impactos no escopo do presente trabalho.
4 O SISTEMA NACIONAL DE ATENDIMENTO SOCIOEDUCATIVO49
Este capítulo inicia-se com a apresentação de aspectos gerais do Sistema Nacional Socioeducativo (SINASE) política pública destinada a promover a inclusão social de adolescentes autores de atos infracionais (item 4.1). Na sequência discorre, brevemente, sobre a Lei n.º 12.594/2012, que entrou em vigor em abril de 2012 (item 4.2). Essa lei institui e regulamenta a execução de medidas socioeducativas. Posteriormente o aborda a interação do SINASE com o adolescente e sua família (item 4.3) e, finalmente, aborda a interface entre SINASE e SUAS (item 4.4), ambos os subsistemas do Sistema de Garantia dos Direitos da Criança e do Adolescente (SGD).