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Estatuto de ser senciente x personalidade sui generis: pontos de contato

6. TITULARIDADE DO INTERESSE E DIREITO DE REPARAÇÃO

6.1. O estatuto jurídico do animal e a proteção dos seus interesses nas relações

6.1.6. Estatuto de ser senciente x personalidade sui generis: pontos de contato

Como se denota, há um movimento mundial de redefinição do estatuto jurídico dos animais. Todavia, pela adotada referência à aplicação subsidiária do regime das coisas, a efetiva alteração do status do animal no âmbito das relações privadas vai depender da edição de normas especiais que prevejam disposições adequadas à declarada natureza específica do animal. Na prática, o modelo adotado pelos países europeus estabeleceu uma nova figura jurídica, sem, contudo, regulamentá-la e manteve o tratamento de coisa ao animal415. Mas isto não quer dizer que a mudança tenha apenas um efeito simbólico. Assim como tem ocorrido na Alemanha e na França, a expressa declaração da natureza sensível do animal (princípio da senciência) abre a possibilidade para que a jurisprudência exerça um papel de destacada relevância na conformação do sistema, a fim de acompanhar as contínuas mudanças sociais e culturais no âmbito do fortalecimento da proteção jurídica do animal e dos deveres do Homem em relação aos demais seres sencientes.

Manifesta crítica da tese da personificação plena dos animais, por representar um caminho ousado e até mesmo desnecessário, Carla AMADO GOMES416 prefere a via de imposição de maiores deveres ao Homem para com os animais, através da

414 Edna CARDOZO DIAS destaca a necessidade e urgência de alteração do estatuto jurídico do animal no

Código Civil de 2002, por razões de coerência e em respeito ao princípio da proporcionalidade, se não quisermos deixar o Brasil de fora desta grande revolução teórica que já chegou aos países mais avançados. A evolução dos direitos dos animais...op. cit., pág. 73.

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Crítica da inefetividade das normas de alteração do status jurídico dos animais, Helena TELINO NEVES vale-se da máxima de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: “algo deve mudar para que tudo continue como está”. Para a autora, a desqualificação do animal como coisa sem qualifica-lo como pessoa e sem classificar esse novo tertium genus criou uma incógnita jurídica, já que não são os nomes dados às realidades que as transformam juridicamente, mas o regime que lhes é dispensado. E o regime jurídico continuou a ser o das coisas. A controversa definição...op. cit., pág. 88.

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criação de uma nova categoria jurídica de seres, na forma escolhida pelos mencionados países europeus, ou pela atribuição de uma personalidade jurídica limitada – sem deveres e com direitos inerentes apenas à conservação da sua integridade física e promoção do seu bem-estar.

Se partirmos da análise doutrinária já exposta, verifica-se que, do ponto de vista da disciplina civilista, não há uma precisa distinção entre as proposições de uma personalidade sui generis ou a via legal do tertium genus, uma vez que ambas defendem o reconhecimento do valor intrínseco do animal e buscam conferir-lhe um estatuto consentâneo com a sua condição de ser sensível, descoisificando-o, mas sem a pretensão de equiparação à personalidade conferida aos seres humanos. Não há uma delimitação precisa na doutrina sobre quais seriam as diferenças de regime nos dois casos, a não ser do ponto de vista do direito processual, até porque a própria solução do tertium genus pode acabar correspondendo, em algumas hipóteses, ao reconhecimento da condição de sujeito jurídico ao animal, pela lógica do sujeito/interesse. Ainda, ambas as proposições mantêm a condição de propriedade do animal, de forma que, mesmo para os defensores da personalidade sui generis, os animais continuam figurando como objeto de relações jurídicas417. O aclaramento destas questões, ante a falta de definição legal do regime aplicado ao novo estatuto, ainda vai exigir um longo período de debate.

Por agora, pode-se afirmar, que, em ambos os casos, aceita-se que o animal possa figurar, abstratamente e ao mesmo tempo, como sujeito e objeto de direitos. E ambas as teorias exigem a criação de um regime inovador que rompa a histórica dicotomia pessoa/coisa. Independentemente do nome que se dê ao estatuto

descoisificado do animal – sujeito de direitos (personificado ou despersonificado) ou

ser senciente -, ante a falta de definição legal do novo regime, as proposições doutrinárias abordadas, principalmente se compararmos a proposta de Jean-Pierre

417 David FAVRE é um dos que defendem a teoria da personificação limitada dos animais, sem a

correspondente extinção da propriedade. Em razão da inadequação do sistema para conferir uma resposta adequada aos interesses dos animais, frente aos conceitos de pessoa e coisa, postula a adoção de um novo paradigma do direito de propriedade, que ofereça aos animais o status de pessoa jurídica, sem cortar completamente o direito de propriedade, o que corresponderia a uma mistura dos dois estatutos clássicos. Na formulação do jurista, então, esta personalidade limitada corresponderia ao tertium genus. Equitable self-ownership for animals. In: Duke Law Journal. Volume 50 (2000). Pág. 502. Disponível em: https://scholarship.law.duke.edu/dlj/vol50/iss2/2/ (acesso em 28/12/2017).

MARGUÉNAUD com a doutrina animalista do tertium genus, acabam por ter sentido muito próximo.

No que se refere ao escopo deste trabalho, tanto a via da personalidade jurídica

sui generis como a condição de sujeito de direito despersonalizado e mesmo o

estatuto do tertium genus convergem com a nossa proposta de dano animal, já que permitem a consideração dos interesses dos seres dotados de sensibilidade no âmbito da identificação dos interesses jurídicos tuteláveis e, consequentemente, respaldam a obrigação de reparação no caso de violação, quando presentes os demais elementos da responsabilidade civil. Reduz-se, em todos os casos, ainda que minimamente, a esquizofrenia moral e legislativa dantes apontada.