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3. NATUREZA JURÍDICA DO DIREITO ANIMAL

3.1. O animal e o ambiente

3.1.2. O regime jurídico do ambiente e dos animais

157Sobre o biocentrismo e sua relação com a tutela jurídica dos animais, ver: Laerte Fernando LEVAI.

Ética ambiental biocêntrica: pensamento compassivo e respeito à vida. In: Revista Eletrônica de

Ciências Jurídicas e Sociais da Universidade Cruzeiro do Sul. Vol. 1. Nº 1. São Paulo (2011). Págs. 14/16.

158 Não se pode deixar de considerar a interconexão e interdependência da nossa biosfera, de forma que

a proteção da vida humana, dos animais e da natureza sempre estará interligada e os atos atentatórios a cada um destes valores produzirá efeitos reflexos relevantes nos outros. Antônio Herman BENJAMIN.

A natureza no direito brasileiro: coisa, sujeito ou nada disso. In: Revista do Programa de Pós-

Graduação em Direito da UFC. Vol. 31. Nº 1 (2011). Pág. 96, in fine. Disponível em:

http://www.periodicos.ufc.br/nomos/article/view/398/380 (acesso em 28/09/2017).

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Cecílio Arnaldo Rivas AYALA. Novos aportes para a educação ambiental pelo viés dos direitos

socioambientais e do novo constitucionalismo latino-americano. In: Educação Ambiental: premissa

inafastável ao desenvolvimento econômico sustentável. Coordenação de Ana Alice de Carli e Saadia Borba Martins. Editora Lumen Juris, Rio de Janeiro (2014) Págs. 75 e seguintes.

160 Em defesa do ecocentrismo em Portugal, Diogo Freitas DO AMARAL entende o Direito do Ambiente

como “o primeiro ramo do Direito que nasce, não para regular as relações dos homens entre si, mas para tentar disciplinar as relações do Homem com a Natureza – os direitos do Homem sobre a Natureza, os deveres do Homem para com a Natureza e, eventualmente, os direitos da Natureza perante o Homem”. Apresentação. In: Direito do Ambiente. Instituto Nacional de Administração. Lisboa (1994). Pág. 17.

161 A tese da personificação das realidades naturais foi levantada no famoso caso Sierra Club x Morton,

no qual a Suprema Corte Americana discutiu a possível legitimidade processual das árvores e a referida tese foi rechaçada por apenas um voto de diferença. Ver o acórdão em: http://www.harmonywithnatureun.org/content/documents/220Sierra%20Club%20v.%20Morton%20- .pdf (acesso em 25/09/2017).

No âmbito jurídico, a integração da proteção do animal no Direito do Ambiente encontra alguns pontos em comum e a utilização de seus institutos pode representar um importante fator para o avanço da tutela. Embora ainda constitua um ramo jurídico relativamente novo e em constante evolução, o ordenamento do ambiente possui alguns fortes instrumentos que, devidamente adaptados de acordo com as especificidades que demanda a proteção individual dos seres não-humanos, revelam- se de extrema utilidade.

O acesso à informação e a educação ambiental constituem um ponto de especial relevância para o sistema jurídico de proteção dos animais, em razão da necessidade de maior conscientização e sensibilização pública sobre o estatuto ético dos animais, como seres capazes de sentir dor e ter sentimentos, representando um elemento essencial para o progresso das normas, especialmente quando envolver conflito de interesses com outros valores, a exemplo de práticas culturais e o consumo humano.

Uma abordagem de “boa governança” no setor animal deve passar necessariamente pela transparência e a ampla partilha de informações entre os

stakeholders, bem como pelo empoderamento do público para a participação na

tomada de decisões referentes às práticas que afetam os interesses dos animais162. Somente com acesso à informação, educação e participação pública163 é que se poderá pensar em uma efetiva mudança de postura no tratamento dispensado aos animais e a adoção de postulados absolutistas, como um ideal a ser futuramente alcançado.

Por outro lado, assim como a proteção do ambiente, a tutela dos animais não prescinde de instrumentos relacionados com intervenções na economia e na circulação de produtos, especialmente no que se refere aos animais de criação e à experimentação científica. Instrumentos econômicos e fiscais164, a rotulagem165 e

162 Joyce TISCHLER e Bruce MYERS. Animal Protection and Environmentalism...op. cit., pág. 407. 163

Sobre a importância da educação ambiental na proteção dos animais, vide Helen KOPNINA. Are Some Animals More Equal than Others? Animal Rights and Deep Ecology in Environmental Education. In: Canadian Journal of Environmental Education. Nº. 20 (2015). Págs. 117/118. Disponível em:

https://cjee.lakeheadu.ca/article/view/1342/846 (acesso em 18/09/2017).

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No Brasil, como estratégia para a proteção dos animais em situação de rua, vários Municípios instituíram benefícios fiscais, especialmente através de reduções de IPTU, para quem fornece abrigo e guarda aos animais. Veja o exemplo do Município de Araquari/SC, através da Lei nº 2.917/14 (art. 9º).

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No direito europeu, a fim de melhorar a proteção dos animais de criação, há proposta de criação de um rótulo europeu de bem-estar animal. Veja a proposta de resolução em:

outros mecanismos voluntários de promoção da sustentabilidade na produção e no consumo já são uma realidade nos sistemas de proteção dos animais em diversos ordenamentos jurídicos.

Estes mecanismos são relevantes para desincentivar atividades e o consumo de produtos que provocam uma carga excessiva de sofrimento animal e promover produtos “amigos dos animais”. O próprio conceito de sustentabilidade, maleável que é por suas múltiplas concepções, adapta-se ao paradigma ético para considerar o bem- estar dos animais explorados como contraponto ao desenvolvimento econômico166.

A variante econômica também é um aspecto que aproxima a regulação jurídica do ambiente e dos animais. É cediço que a mercantilização de riquezas coletivas enfrenta desafios éticos167 e essa mesma barreira adapta-se à valoração econômica da vida e do bem-estar animal. Contudo, a consideração dos impactos econômicos das normas de proteção do ambiente e dos animais e a imposição de agravos financeiros às atividades que mais impactam sobre esses valores, com fundamento na sua consideração como externalidade negativa, é uma necessidade que decorre dos atuais contornos da sociedade de consumo e da falência dos tradicionais mecanismos de comando e controle, além de representar um importante instrumento de educação ambiental168.

A especial vantagem do aproveitamento de institutos classicamente criados para o Direito do Ambiente para o fortalecimento da tutela jurídica dos animais também

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Juarez FREIRAS fala em sustentabilidade ética, como um novo componente do princípio do desenvolvimento sustentável, que leva em consideração a necessidade de tratamento humanitário dos animais no âmbito da atividade econômica. Sustentabilidade: direito ao futuro. Editora Fórum. Belo Horizonte (2011). Pág. 34. No mesmo sentido, o relatório produzido pelo notável órgão britânico Farm Animal Welfare Committee, destaca que a noção de sustentabilidade envolve não apenas questões ambientais, mas também econômicas e éticas (referidos, do inglês, por 3’Es). E conclui que uma abordagem sustentável para a produção de alimentos deve abordar não só a segurança alimentar e a proteção do ambiente, mas também o bem-estar animal. FAWC. Economics and Farm Animal Welfare. UK (2011). Pág. 21/22. Disponível em: https://www.gov.uk/government/publications/fawc-report-on- economics-and-farm-animal-welfare (acesso em 28/09/2017).

167 Maiores desenvolvimentos sobre as críticas à mercantilização dos bens naturais em Carla AMADO

GOMES. Introdução ao Direito do Ambiente. 2ª Edição. Editora AAFDL. Lisboa (2014). Pág. 222

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Jan LUNDQVIST e Hakan TROPP destacam que bens naturais baratos não são valorizados em uma sociedade de consumo e que a falta de consciência ambiental demanda uma valorização dos bens naturais, o que pode ocorrer através do aumento do preço do produto, já que ele tem potencial para produzir impactos na economia, tanto em relação aos produtores como em referência aos consumidores. Value, price and use of water: governance challenges. In: Educação ambiental: premissa inafastável ao desenvolvimento econômico sustentável. Organização de Ana Alice de Carli e Saadia Borba Martins. Rio de Janeiro. Editora Lumen Juris (2014). Pág. 232.

não tem passado desapercebida na literatura de outros países. De Anna L. HILL169 destaca as deficiências da legislação de bem-estar animal norte-americana e pontua que muitas organizações de defesa dos animais têm se utilizado de provisões das leis ambientais para levar casos de crueldade animal às cortes americanas, especialmente através dos instrumentos “Clean Water Act”, “Migratory Bird Treaty Act”, “National

Environmental Policy Act” (NEPA) e “Clean Air Act”. A utilização destes diplomas, além

de possibilitar ao cidadão a defesa dos animais em juízo, o que lamentavelmente as leis de bem-estar animal não permitem, confere uma abordagem muito mais ampla e fortalecida, acabando por se mostrar favorável à defesa dos animais, ainda que se perca o foco da questão individual. Ao final, a doutrinadora reconhece que a abordagem pela via do ambiente é fundamentalmente inadequada, mas pontua que as precariedades do sistema jurídico de proteção do animal devem ser supridas com táticas legais criativas e que, do ponto de vista da efetividade, enquanto novos instrumentos não forem criados, a utilização de institutos ambientais revela-se como uma poderosa tática.

É importante ressaltar que os fatores acima analisados não se prestam a justificar a inclusão da tutela do animal dentro do ordenamento do ambiente e a unificação do tratamento jurídico. Eles apenas indicam a compatibilidade e a especial importância da utilização de alguns institutos ambientais e da estrutura regulatória madura que apresenta o Direito do Ambiente como modelo para a evolução das normas de proteção dos animais, naquilo que for compatível.

Assim, considerando que o despertar para a necessidade de proteção do animal com fundamento na senciência é recente - ponto que será abordado adiante -, independentemente do caminho que seguirá o sistema de regulação dos animais no

169 De Anna HILL. Combating Animal Cruelty with Environmental Laws Tactics. In: Journal of Animal

Law. Volume IV. Nº 19. (2008). Págs. 38/39. Disponível em: https://www.animallaw.info/ (acesso em 13/09/2017). De forma semelhante, em relação ao sistema australiano, Olivia KHOO pontua que, apesar da distinção quanto à fundamentação ética, há também pontos de conexão e o fortalecimento de um valor influi no outro, de forma que a melhor estratégia para ambientalistas e ativistas dos direitos dos animais é trabalhar de forma conjunta. A new call to arms or a new coat of arms?: The animal rights and environmentalism debate in Australia. In: Journal of Animal Law. Vol. V (2009). Págs. 69/70. Disponível em: https://www.animallaw.info/ (acesso em 13/09/2017).

futuro, no que se refere ao seu enquadramento no ordenamento jurídico, a evolução deste setor tem muito a aprender com o Direito do Ambiente170.