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Este depoimento refere-se à gestão anterior.

14 1 Essa luta diária para ver reconhecidos seus direitos é o que

67 Este depoimento refere-se à gestão anterior.

últimos Conselhos , eles têm me ajudado a defender os interesses da educação física , o que antigamente não acontecia com muita

facilidade as pessoas , me parece , estão assim com uma

simpatia ... se preocupam , dão apoio então , eu estou muito

satisfeita com essa relação que eu estou tendo com os meus

colegas , os professores do CCS ... 11 ( ed.fis.dep.n2 11 , p. l l ) .

A percepção da desigualdade das forças em j ogo neste "espaço de interação" , da autoridade conferida pelo grupo a cada qual , das alianças j á acertadas , por vezes promove na professora de enfermagem sentimentos de inferioridade e de medo : "quando comecei a ter que participar de reuniões do Conselho de Centro no ccs [ quando coordenadora do Curso de Graduação] eu me sentia um pouco acuada ... porque os médicos ... falam mais alto , mais grosso ... eles eram em maior número e também tinham a adesão de outros profissionais ... 11 ( enf. dep. n22 , p. 4 - 9 ) . Na verdade , essas estratégias , uti l izadas por alguns professores , "para levarem a melhor na luta simbólica pelo monopólio da imposição do veredicto , são a expressão das relações de forças obj etivas" ( Bourdieu , 1989 , p. 54 ) entre os diversos professores do ccs , e mais especificamente , entre as diferentes profissões que

representam , as quais ocupam posições diferentes de poder e prestígio no campo social.

O efeito especifico de mobilização , decorrente do trabalho de produção e de imposição do sentido , para produzir efeitos ,

deve ser percebido e aceito como verdade natural. Uma professora

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interesses influindo na distribuição de recursos e nem avalia a que interesses atendem os critérios adotados para a divisão desses recursos: "de vez em quando eu relato processos de solicitação de professores a enfermagem atravessa urna fase

muito dificil ... mas, à medida que as concessões são baseadas

em critérios ... talvez até ela [ a Escola Anna Nery ) tenha ficado numa situação de desvantagem, mas porque os outros também estavam em situação de desvantagem ... eu acho que as pessoas têm sido bastante coerentes e bastante criteriosas no momento de definir

- li

açoes . . . . Essas dificuldades são então inteiramente deslocadas para fora da universidade: "infelizmente, a gente acaba ficando à mercê da situação do pais .• . não tem verba, não tem como contratar, não tem corno fazer concurso, e ai a gente tem que dividir as migalhas " (ed.fis.dep.n2 11, p.12) .

Diante das declarações anteriores fica clara a estratégia defensiva da enfermagem nesse órgão colegiado: " sempre existia aquela preocupação da Escola Anna Nery, desejando que seu processo caísse na mão de alguém da farmácia ou da educação física ou da nutrição ... que eram os nossos aliados lá no

ccs

. . . " (enf.dep.n22, p.4) . Professores de outras carreiras, mais

novas que a enfermagem validam esta visão: "eu me dou muito bem com o pessoal da enfermagem, gosto muito do pessoal da enfermagem

11 (ed.fis.dep.n2 11, p.ll) .

A expectativa de não merecer um parecer favorável por parte de um médico deve-se também àquela percepção, que não é somente das professoras de enfermagem, de que os prof�ssores médicos

ainda reconhecem a enfermagem como uma disciplina auxiliar da medicina, e que portanto, não podem almej ar o desenvolvimento cientifico da enfermagem, o que poderia ameaçar seu monopólio de interpretação legítima no campo da saúde: "na minha maneira de ver, eles não gostam de imaginar um diretor de uma faculdade enfermagem em pé de igualdade, no Conselho de Centro , com o diretor da faculdade de medicina ... eles não se conformam que esta Escola não sej a coordenada por eles ... 11 ( enf. dep. n21, p .12) .

Deste ponto de vista, as relações da enfermagem com a medicina seriam então mais complicadas do que com as outras carreiras da área da saúde, em relação às quais não houvesse tal expectativa.

Não obstante o espaço social ser previamente demarcado pelo status do grupo representado, pelo cargo ocupado e pelo foro em que ocorre o encontro , ele também se conforma segundo as diferenças individuais. Ao representar a Escola de Enfermagem no Conselho de Centro [ como Diretora da Escola Anna Nery ) a

avaliação pode ser bastante favorável: " algumas vezes a

situação não era tão espontânea como deveria ser, mas eu nunca me senti intimidada propriamente, e sempre me saí bem na conversa

com eles , embora fosse difici l 11 (enf.dep.n21, p.l ) . Tal

depoimento é corroborado por uma professora de outra área: " ( a prof� de enfermagem] passava uma imagem de muita importância da enfermagem ... ela pensava a enfermagem, pensava a universidade, pensava o mundo . .. isso fazia com que as pessoas prestassem um

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Mesmo assim, a necessidade de estar alerta para a possibilidade de ter que defender uma posiçao, está sempre presente. No Conselho Universitário, a mesma professora teve que adotar um comportamento claramente defensivo à uma violência simbólica por parte de um professor de outra carreira : " · · · eu tive que ser incisiva e colocar devidamente a situação da enfermagem, que era entendida por eles como carreira periférica

11 (enf. dep. n27, p . 9). A posição centro/periferia não é

ingênua, pois como observa Bourdieu, equivale a uma distância no espaço social, que é um efeito de dominação simbólica, que está em j ogo no campo analisado, no caso a universidade como um todo

( 1 9 8 9 , p . 1 3 8 ) .

A maioria das professoras de enfermagem relata dificuldades de relacionamento/convivência com os outros professores do

ccs.

Entretanto, parece que essas dificuldades se relacionam mesmo ao convivio com os professores de medicina. Parece existir uma diferença fundamental de percepção no que se refere à convivência entre professoras da Escola Anna Nery e os professores médicos . Enquanto que a maioria das professoras enfermeiras relata seu constrangimento, os professores de medicina se sentem tão à vontade na relação, que o desconforto alheio nem chega a ser percebido : " eu me sinto muito bem na relação com as professoras e as enfermeiras e acho que a reciproca é ·verdadeira . . . 11

(med . dep . n28, p . 2).

Apesar da antiga luta entre médicos e enfermeiras, enquanto grupos que disputam poder e prestigio, ser sabida e conhecida,

esta é confundida com o teor das relações interpessoais : " sempre

falam que existe uma guerra entre enfermeira e médico eu

nunca senti isso, nunca ! sempre tive um relacionamento muito bom

li (med. dep. n 2 10, p.9). De outro modo, um outro professor de medicina descreve cruamente a situação concreta : "nossa vida não é realizada por principias, ela é uma guerra . . . e nessa guerra , a forma de pisar é discriminando, como se a enfermagem fosse uma sub-área, não uma profissão da saúde, tanto quanto a medicina

" (med. dep. n 2 6, p. 17 ) .

Contudo, este mesmo professor parece · considerar ser o conselho de Centro um espaço à parte, no qual não repercutiria o estado de guerra lá de fora, onde poderia haver como que um estado de armisticio permanente, onde o ambiente até poderia ser propicio, tanto ao diálogo, quanto à divergência. Tanto assim que, ao contrário do exposto até aqui, pensa ele haver : "uma relação muito grande entre a Escola Anna Nery e o [ hospital que dirige ] . . . a gente se afina muito . . . se eu posso definir uma relação de bom diálogo . . . se a gente tiver que definir grau de parceria nos colegiados, geralmente no Conselho de Centro, eu diria que é justamente com a enfermagem . . . algumas barreiras há , porque a gente tem visões, formações distintas, momentos distintos 11 (med. dep. n26, p. 8-9).

A análise da enfermagem na universidade, à luz da categoria de totalidade, nos revela uma assimetria, entre o que acontece entre as diversas carreiras que compõem a área da saúde e em especialmente entre a enfermagem e a medicina. Como pudemos

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constatar , os professores de medicina reproduzem , no espaço universitário , os preconceitos sobre a enfermagem em muito maior medida que os outros professores da área da saúde. Isso não pode ser explicado apenas à conta das origens da criação da enfermagem como profissão subordinada à profissão médica , ou da condição de classe das enfermeiras , mas também , e principalmente , pela reprodução da visão de mundo ideológica dos membros da categoria dominante na área.

Entretanto , não devemos cair na tentação de atribuirmos os efeitos da dominação dos médicos sobre os outros profissionais da área da saúde à vontade desse grupo (dominante) , pois se assim o fizermos , não poderemos apreender a contribuição que os professores dos grupos dominados dão para o "exercício da dominação , por meio da relação que se estabelece entre as suas atitudes , l igadas às suas condições sociais de produção , e as expectativas e interesses inscritos nas suas posições no seio desse campo de lutas" ( Bourdieu , 1989 , p . 8 6 ) . A luta que opõe esses profissionais se configura como uma luta s imbólica , pela conservação ou pela transformação do modo como suas carreiras se inserem na universidade e na sociedade , por meio da conservação ou da transformação da visão social de mundo das pessoas pertencentes , em particular , à própria UFRJ e de modo geral , às diversas classes sociais .

Ass im é que , tanto as professoras da Escola Anna Nery como os professores de outras unidades menores ( biologia , educação fisica , farmácia e nutrição) têm desenvolvido algumas estratégias

de forma a resistir , de uma maneira ou de outra , às s ituações de discriminação de que são alvo , preocupados que estão em conhecer e fazer reconhecer a sua força . Um exemplo disso é a aliança política que se estabelece entre essas unidades de ensino , no sentido de fazer frente aos entraves que lhes são impostos pelo grupo de médicos e também entre frações dos grupos dominados e dos grupos dominantes.

C A P Í T U L O 5

O B C A M I N H O S P O S S Í V E I S

- introdução

- os indícios e as possibilidades de mudança : • a professora de enfermagem nos hospitais

universitários

• a qualificação docente para a cientifização da enfermagem

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o S C A M I N H O S P O S S Í V E I S

- Introdução

As continuidades e descontinuidades que vem ocorrendo no modo de inserção da enfermeira no setor saúde , e portanto nas suas funções e atribuições no mercado de trabalho , têm influência decisiva para o aparelho formador , no caso , a universidade .

Com a crescente tecnificação do ato médico , o hospital tornou-se o locus privilegiado da assistência médica . Para atender às necessidades do hospital , como instituição voltada essencialmente para a produção do saber médico , até o final da década de 6 0 , a maioria das escolas de enfermagem foi criada como

instituição anexa a esses formação da enfermeira era profissional (técnica e não médico , o que equivalia

estabelecimentos. O processo de perpassado por uma subordinação administrativa) da enfermeira ao a uma "inferioridade" do seu

conhecimento . Isso justificava aquela subordinação e na verdade, parece que ainda hoje, corresponde a uma desqualificação /desvalorização do saber da enfermeira .

O processo global de trabalho que ai se desenvolve é controlado pelo médico , que detém a exclusiva autoridade legal para internar, prescrever exames e tratamentos (clinicos e cirúrgicos), dar alta e atestar o óbito. Essas prerrogativas configuram o que Pierre Bourdieu denominou de "monopólio da

179 assinatura" ( Bourdieu , 1989 , p.156 ) . Por isto , na prática dos serviços de saúde , a clientela reconhece no médico o único profissional capaz de atender integralmente a todos os seus problemas , vendo a enfermeira ( e os demais membros da equipe de saúde ) como o profissional competente para implementar as ações por ele indicadas.

A primaz ia do médico é tanto histórica quanto técnica e

científica. Essas relações de poder ocorrem no interior de um

campo de trabalho , formado por profissionais de saúde de nível superior , no qual por todos deve ser respeitada a autonomia relativa de cada qual , nos termos das respectivas leis de exercício profissional. Deste modo , a posição do médico na

equipe de saúde teoricamente seria a de primus inter pares.

No que se refere à enfermagem , a lei do exercício profissional 68 , regulamentada há cerca de oito anos , em que pesem alguns pontos conquistados na definição do seu campo de atuação , no geral frustrou as expectativas das enfermeiras , de f inalmente ter assegurado um estatuto legal de autonomia. Ao vetar , entre outros69 , o Art . 10 , o presidente da Repúbl ica acatou a j ustificativa do relator de ser "discutível a autonomia [ da enfermeira] na execução dos serviços e da assistência de enfermagem , sem a supervisão médica". Além disso ,

contraditoriamente , a mesma lei que reconheceu a consulta e a 68 Lei n2 7498, de 25/6/1986, regulamentada pelo decreto n2 94 406 , de

8/6/1987 .