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1 ESTEREÓTIPO: UMA ESTRATÉGIA DISCURSIVA DO PODER COLONIAL?

Em “A outra questão: o estereótipo, a discriminação e o discurso do colonialismo”, Bhabha (2005) explora as formas como o estereótipo dá sustentação ao discurso colonial, criando representações supostamente estáveis e naturais em relação ao colonizado para manter as relações assimétricas de poder. Contudo, essa estabilidade não é tão segura como parece, porque a estereotipia é uma representação simplificada de uma dada realidade. Para debater esse tema, apresento, inicialmente algumas narrativas surdas sobre as estereotipias em relação aos intelectuais surdos.

FRAGMENTOS

Narradora 1: Nós temos a nossa auto-estima, o

fato de sermos intelectuais surdos nos deixa muito alegres [...]. Eu acho isso muito engraçado. Às vezes as pessoas falam: Gente! Olha só, ela conseguiu passar num concurso. Mas, ainda não sou vista como educadora. [...] Parece que eu, como surda, tenho que me superar permanentemente [...]. Isso me parece tão estranho. Será que por ser surda eu sempre tenho que fazer mais, mais, para provar para a sociedade que eu sou capaz? [...] no fundo ainda existe o estereótipo de que nós não somos capazes. Isso é muito estranho.

Narrador 3: Quando eu vou ao supermercado, no

banco, nas lojas, as pessoas olham e eu digo que quero fazer um cadastro. Então, a pessoa pergunta: Qual é a sua atividade profissional? Eu repondo: Sou professor. Ela me diz: Não! Professor não. Como você ensina? Você ensina ouvintes? Então, eu repondo: Eu ensino os surdos. E a outra pessoa fala: Nossa, que estranho, eu não sabia que surdo podia ser professor.

Narradora 4: Na hora do intervalo, no café, uma

professora abriu a porta e eu estava junto com a intérprete conversando, uma conversa informal. Teve uma mulher que perguntou para a intérprete: A [...] sabe ler? E a intérprete interpretou para mim. E aí eu respondi: Se eu não soubesse

português teria passado no mestrado? Os ouvintes ainda estranham em ver os surdos dentro das universidades, é como se não pudéssemos estar nesse ambiente.

Narradora 4: A professora [...] me informou sobre

a possibilidade de ministrar um curso na [...] e eu fiquei muito alegre com essa possibilidade, mas tem uma coisa muito engraçada em relação a esse curso. [...] a professora mandou um e-mail comunicando que eu poderia ministrar o curso e em seguida eles me repassaram os objetivos, a ementa etc., todas as informações sobre o curso. A partir dessas informações organizei a proposta e no final dela eu coloquei que precisava de um intérprete por ser surda e o grupo que eu iria trabalhar era de ouvintes. Imediatamente eles ligaram para a professora [...]. Eles disseram: Você não avisou que a pessoa indicada para ministrar o curso era surda. Então a [...] falou: Sim, ela é surda, mas não há mal nenhum. A [...] é doutoranda na UFSC. Esse exemplo demonstra que, por ser surda, eu não tinha competência para ministrar o curso. As pessoas ainda estão presas à lógica da deficiência. A deficiência é um estereótipo que está preso nas pessoas. Mesmo que o profissional surdo seja mestre ou doutor ele ainda é visto como incapaz. Ele não pode ser todas essas coisas porque ele está marcado pela estereotipia e essa estereotipia é deprimente.

Narradora 4: Esses estereótipos precisam ser

apagados, nós temos que criar muitas estratégias para acabar com isso. Ao fazermos o mestrado e o doutorado já estamos apagando esses estereótipos. Porém, vai levar décadas para que a nossa produção acadêmica seja respeitada. Nós estamos plantando coisas que não trazem uma mudança rápida. Isso demora muito tempo. Narradora 4: Outra estratégia é pegar o próprio discurso daqueles ouvintes que enunciam: “você não pode”; “você é incapaz”. Quando se pega esses enunciados e se intervém no discurso do ouvinte é muito interessante, porque a gente traz

outros enunciados, como, por exemplo, o da diferença surda, que é um enunciado pouco conhecido pelos ouvintes.

Narradora 5: Num outro dia eu estava em casa

lendo o livro “Estudos surdos II”, que tinha um artigo que eu escrevi. Então mostrei para minha família e minha mãe disse: Nossa minha filha escreveu um artigo num livro! Nesse momento uma outra pessoa fez o seguinte comentário: Que estranho, foi você mesmo que escreveu isso? E eu respondi: Sim, eu escrevi, depois passou por uma revisão de português. E a pessoa me disse: Essas idéias que estão escritas nesse artigo são suas? E aí eu perguntei: O que você está pensando a respeito de mim? Essa pessoa não respondeu, mas também nem precisou. A expressão do rosto disse tudo.

Dentre os fragmentos os enunciados “Gente! Olha só, ela conseguiu passar num concurso”; “Que estranho, foi você mesmo que escreveu isso?”; “A [...] sabe ler?”; “Ela me diz: Não! Professor não. Como você ensina?”; “Você não tinha nos comunicado que a pessoa indicada para ministrar o curso era surda” demonstram a fixidez e o poder de imobilização que o discurso colonial constrói em relação ao intelectual surdo.

O discurso colonial descrito anteriormente fixa o intelectual surdo em uma suposta incapacidade, definindo aquilo que eles podem ser. Esse discurso contribui para manter o controle, nomeando, descrevendo e localizando o intelectual surdo em um espaço fixo, sob a mira do olhar panóptico.27 Segundo Skliar (2003, p.17), o outro “é um outro que nós não queremos ser [...] mas que utilizamos para fazer a nossa identidade algo mais confiável, mais estável, mais seguro”. O discurso colonial, ao posicionar o surdo como um sujeito incapaz, nega-lhe o direito de significar, de produzir outros sentidos, que não sejam aqueles já fixados pelo discurso colonial.

Em seus estudos sobre os mestiços, no exercício de entrelaçar suas vozes, Martins (2006, p. 115) traz o estudo de Dufays (1994) que caracteriza o estereótipo, reafirmando a discussão em foco a partir de

27 O significado de “olhar panóptico” será abordado no terceiro capítulo, quanto discutirei a circulação dos saberes surdos como estratégia de desautorização do discurso colonial.

cinco traços distintos:

a) A freqüência: um estereótipo é uma estrutura que se reitera, difundindo-se amplamente no discurso da sociedade;

b) A fixidez: em virtude do seu caráter iterativo, a associação dos termos do estereótipo sofre um processo de fossilização, formando um pensamento monolítico. A combinação sintagmática que o caracteriza na sua formação de origem torna-se um constituinte do eixo paradigmático;

c) A ausência de origem identificável: a impossibilidade de conferir uma procedência enunciativa distingue o estereótipo da citação e é nesse sentido que Barthes lhe atribui o adjetivo de clandestino;

d) A imposição na memória coletiva: ao inscrever-se por várias gerações ou até durante séculos na memória cultural, o estereótipo ganha caráter imutável e duradouro;

e) A condensação redutora: o estereótipo constitui a síntese simplificada de uma realidade complexa.

Bhabha (2005, p. 117) exemplifica essa situação: “nós sempre sabemos de antemão que os negros são licenciosos e os asiáticos dissimulados...”. Mas um mesmo estereótipo pode produzir tanto reconhecimento quanto estranhamento. Por exemplo, dependendo do locus de enunciação, o enunciado: “Gente! Olha só, ela conseguiu passar num concurso” pode significar uma conquista como resultado de uma árdua luta de acesso ao conhecimento em um determinado campo profissional, mas também pode significar um estranhamento sobre a sua competência profissional, por exemplo, no seio familiar. Nas palavras da